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Devaneios de um encarcerado

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Não, meu odiado carcereiro, não são as grades de ferro de minha cela que me aterrorizam. Elas sofrem com o tempo, sofrem comigo, compartilham de minha finitude, são complacentes de minha condição, de nossa condição.

A ferrugem as corrói, mas antes disso estou livre. Livre? Livre pra quê? Ora, livre para estar preso novamente! Não são as velhas grades de ferro de minha cela que me aterrorizam... são as grades da nossa cela existencial. Que ironia meu desgraçado carcereiro: desejar a liberdade de se acorrentar! Que ironia é viver em uma sociedade que a séculos reclama pra si a liberdade e pluralidade, mas que é formada por prisioneiros que se regozijam com o tilintar das correntes, que são inundados pelo sentimento de certeza, presenteados pelo olhar incerto através de suas grades não físicas, porém não menos reais. Sim, meu maldito carcereiro, afirmamos conhecer os verdes campos para além de nossas grades, mesmo que só os tenhamos visto de soslaio através das grades, pelo olho único de um ciclope míope. Amaldiçoamos toda a grama verde e seu doce cheiro à alvorada apenas por ela ter camuflado o inseto que nos pica. Culpamos a grama por ela crescer e o inseto por seus próprios instintos. Temos a necessidade de criar nossos inimigos; temos a necessidade de separar o nós dos outros; temos a necessidade de criar o outro, independente de como este outro é. “Estamos salvos porque não caímos no mundo. Estamos salvo porque evitamos as tentações do mundo”. Que mundo é esse? Ora, o mundo é tudo fora da nossa prisão. No mundo há o pecado. Não, não, o mundo é o pecado!!! O mundo é o lugar do outro, da escória, dos sem-jesus, daqueles que não conhecem a VERDADE única e clara. O mundo é o lugar daqueles que rezam pra outro deus; daqueles que votam em outro candidato, daqueles que não tem a mesma cor que eu... o mundo é o lugar da pluralidade, o mundo é Sodoma e Gomorra, o mundo é onde habitam o seres desprezíveis que merecem morrer enforcados pelas tripas uns dos outros e terem seus corpos queimados na grama verde, à alvorada.

Sim, meu demoníaco carcereiro, são essas grades que me aterrorizam. São as grades que criam um mundo dentro do mundo. São as grades que nos prendem na liberdade e criam os verdadeiros demônios. Mas onde estão estas prisões? em todos os lugares, oras! Nossa condição incompleta precisa se completar em uma prisão. Nossa condição de existência é aprender a ver o mundo pelo ponto de vista das nossas grades. Nosso destino é aprender a ver pelo feixe de luz de nossas pequenas lanternas. Se a grama verde é para mim traiçoeira por camuflar o inseto venenoso, pra você é terna por amaciar uma queda. Mas não queremos saber sobre o outro, não queremos ver pelo feixe de luz do outro, jamais! Por quê? Porque o feixe de luz do outro pode emitir calor suficiente para queimar nossas grades e correntes! E isso não é bom? Obviamente não, pois se rompemos com o que nos prende, se nos libertamos de nossos carcereiros, rompemos com nossa prisão, rompemos com o nosso mundo, perdemos o chão que pisamos, perdemos as paredes que nos apoiam e nossos companheiros de cela. É doloroso estar sozinho fora da prisão, é doloroso estar numa posição limiar. Mas como perfeitos seres incompletos, ao sair de nossa prisão precisamos dar novo sentido ao mundo. Como? Ora nos acorrentando em outra prisão. Não, não podemos reduzir nossa condição à síndrome de Estocolmo, pois não se trata de amar o cárcere e o carcereiro. Trata-se de necessitar de uma prisão, tal como necessitamos de água. Nossas prisões constroem nossas certezas, e são essas certezas que nos alimentam. Somos prisioneiros independente de nossas prisões. E mesmo o desbravador aventureiro, que busca conhecer ao menos um pouco de cada prisão pode, na melhor das situações, encontrar uma prisão confortável, situada em uma bela e arejada colina, que possibilita ver do alto as outras prisões e ter uma visão menos limitada do mundo. O que me aterroriza, meu carcereiro, é o que eu e você somos, é a nossa condição de existência, nossa incurável metástase, que não permite soluções, apenas a conformidade: Ecce homo!

Não, meu odiado carcereiro, não são as grades de ferro de minha cela que me aterrorizam. Elas sofrem com o tempo, sofrem comigo, compartilham de minha finitude, são complacentes de minha condição, de nossa condição. A ferrugem as corrói, mas antes disso estou livre. Livre? Livre pra quê? Ora, livre para estar preso novamente! Não são as velhas grades de ferro de minha cela que me aterrorizam... são as grades da nossa cela existencial. Que ironia meu desgraçado carcereiro: desejar a liberdade de se acorrentar! Que ironia é viver em uma sociedade que a séculos reclama pra si a liberdade e pluralidade, mas que é formada por prisioneiros que se regozijam com o tilintar das correntes, que são inundados pelo sentimento de certeza, presenteados pelo olhar incerto através de suas grades não físicas, porém não menos reais. Sim, meu maldito carcereiro, afirmamos conhecer os verdes campos para além de nossas grades, mesmo que só os tenhamos visto de soslaio através das grades, pelo olho único de um ciclope míope. Amaldiçoamos toda a grama verde e seu doce cheiro à alvorada apenas por ela ter camuflado o inseto que nos pica. Culpamos a grama por ela crescer e o inseto por seus próprios instintos. Temos a necessidade de criar nossos inimigos; temos a necessidade de separar o nós dos outros; temos a necessidade de criar o outro, independente de como este outro é. “Estamos salvos porque não caímos no mundo. Estamos salvo porque evitamos as tentações do mundo”. Que mundo é esse? Ora, o mundo é tudo fora da nossa prisão. No mundo há o pecado. Não, não, o mundo é o pecado!!! O mundo é o lugar do outro, da escória, dos sem-jesus, daqueles que não conhecem a VERDADE única e clara. O mundo é o lugar daqueles que rezam pra outro deus; daqueles que votam em outro candidato, daqueles que não tem a mesma cor que eu... o mundo é o lugar da pluralidade, o mundo é Sodoma e Gomorra, o mundo é onde habitam o seres desprezíveis que merecem morrer enforcados pelas tripas uns dos outros e terem seus corpos queimados na grama verde, à alvorada.

Sim, meu demoníaco carcereiro, são essas grades que me aterrorizam. São as grades que criam um mundo dentro do mundo. São as grades que nos prendem na liberdade e criam os verdadeiros demônios. Mas onde estão estas prisões? em todos os lugares, oras! Nossa condição incompleta precisa se completar em uma prisão. Nossa condição de existência é aprender a ver o mundo pelo ponto de vista das nossas grades. Nosso destino é aprender a ver pelo feixe de luz de nossas pequenas lanternas. Se a grama verde é para mim traiçoeira por camuflar o inseto venenoso, pra você é terna por amaciar uma queda. Mas não queremos saber sobre o outro, não queremos ver pelo feixe de luz do outro, jamais! Por quê? Porque o feixe de luz do outro pode emitir calor suficiente para queimar nossas grades e correntes! E isso não é bom? Obviamente não, pois se rompemos com o que nos prende, se nos libertamos de nossos carcereiros, rompemos com nossa prisão, rompemos com o nosso mundo, perdemos o chão que pisamos, perdemos as paredes que nos apoiam e nossos companheiros de cela. É doloroso estar sozinho fora da prisão, é doloroso estar numa posição limiar. Mas como perfeitos seres incompletos, ao sair de nossa prisão precisamos dar novo sentido ao mundo. Como? Ora nos acorrentando em outra prisão. Não, não podemos reduzir nossa condição à síndrome de Estocolmo, pois não se trata de amar o cárcere e o carcereiro. Trata-se de necessitar de uma prisão, tal como necessitamos de água. Nossas prisões constroem nossas certezas, e são essas certezas que nos alimentam. Somos prisioneiros independente de nossas prisões. E mesmo o desbravador aventureiro, que busca conhecer ao menos um pouco de cada prisão pode, na melhor das situações, encontrar uma prisão confortável, situada em uma bela e arejada colina, que possibilita ver do alto as outras prisões e ter uma visão menos limitada do mundo. O que me aterroriza, meu carcereiro, é o que eu e você somos, é a nossa condição de existência, nossa incurável metástase, que não permite soluções, apenas a conformidade: Ecce homo!

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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