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A misantropia de Lovecraft: pintura e tragédia como impulso criativo

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"Não está morto aquele que pode eternamente jazer, embora, em estranhas eras, até a morte virá a morrer" (H.P. Lovecraft, 1928)"

Certamente a vida de um escritor é uma de suas principais fontes de inspiração, seja nas boas ou, como no caso, nas más experiências. Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), escritor estadunidense responsável por revolucionar e dar novas facetas ao gênero literário de terror, foi um grande exemplo do que pretendo abordar: de origem abastada, desenvolveu interesse pela literatura e poesia desde a mais tenra idade.

 Porém, sua biografia é tomada mais por tragédias que por vitórias: após perder seu avô, grande fonte de renda da família, Lovecraft viu-se em constante derrocada econômica, forçando-o a se adaptar a um padrão de vida imensamente inferior. Em 1908 sofreu um colapso nervoso, sendo impedido de receber o diploma de conclusão do Ensino Médio, o que dificultou seu acesso à Universidade, fato este que marcou de forma importante a vida do autor. Seu casamento foi infeliz, com constantes reclamações sobre sua falta de virilidade e desinteresse. Sua produção literária jamais foi devidamente reconhecida em vida, tendo enorme dificuldade em vender suas obras, pelo excesso de complexidade e grande número de páginas (para contos). Sua sempre frágil saúde piorou a partir de 1936 com o desenvolvimento de um câncer intestinal, que em seu lento porém vigoroso avançar, banqueteou-se da pouca saúde que lhe restava, deixando à Lovecraft apenas o gosto amargo das dores constantes que, consequentemente, drenaram sua vida em 1937 em meio ao sangue e sofrimento.

Apesar de seu pífio reconhecimento em vida, H. P. Lovecraft é hoje considerado um dos principais expoentes do gênero de terror na literatura. Com exceção de Edgar Allan Poe e mais alguns outros poucos autores, o terror sempre foi relegado à marginalidade literária, muito por conta dos pequenos contos sensacionalistas e simplistas vendidos a preços irrisórios na Inglaterra Vitoriana, os “penny dreadful”. Porém, tal como a obra de Lovecraft nos mostra, é preciso atentar-se ao que normalmente se ignora.

Torna-se deveras complicado desvencilhar, como dito no início do texto, vida e obra. Se para os familiarizados com o autor aqui prestigiado é claro o tom pessimista, cético, misantrópico e obscuro em seus contos, muito se deve às suas próprias perspectivas de vida. Uma vida recheada de desgraças incólumes que apenas relegavam à Lovecraft a resignação frente a impossibilidade de ação, moldaram de certa forma, a constituição da cosmologia que criou.

O universo criado por Lovecraft aponta para a impossibilidade de conhecimento real sobre o cosmos, seus criadores e destruidores. Suas próprias descrições sobre os seres que habitam o universo é vaga, metafórica e imprecisa, não por falta de interesse ou capacidade, mas o próprio autor reconhecia as limitações da imaginação e das palavras para descrever o ilimitado, o indescritível.

De fato, tal como a cosmologia “lovecraftiana” é acessível em seus contos apenas de forma onírica, o que nos resta agora além de devanear livremente, sem compromissos acadêmicos, sobre sua fantasia utópica, quimérica, cruel e odiosa e trazer as influências artísticas de pintores que influenciaram este tão notável autor? De antemão, desculpo-me pela minha vã tentativa metódica de organização de aspectos cosmológicos lovecraftianos, pois seu universo é ininteligível e caótico por excelência.

O universo de Lovecraft não é proposital e conscientemente criado. Não é fruto de uma bondade divina, pois não há Deus concebido como forma consciente e bondosa. Assim sendo, qualquer forma religiosa concebida pelo Homem é apenas um cego consolo que mascara uma realidade ultrajante e inconcebível. Até mesmo a tentativa de tornar inteligível os seres da mitologia de Lovecraft é uma vã tentativa de contar o infinito. Porém, tal como descrito em seus diversos contos, universo é apenas uma ínfima criação acidental de Azathoth, o sultão demoníaco retardado que adormece aquém da própria criação, a amorfia caótica por excelência. Carece de qualquer raciocínio, é a criação e destruição em essência. Justifica-se assim o princípio caótico do próprio universo, sem sentido, sem amor, sem bondade, sem esperança, apenas aguardando resignado sua inevitável destruição por aquele que o criou. Aqui, a vida imita a arte: da mesma forma que a humanidade lovecraftiana espera resignada (porém inconsciente) seu próprio fim, o final da vida de Lovecraft é exatamente a poetização real desta impossibilidade de atuação frente ao inevitável fim. A humanidade, então, não passa de uma existência acidental e sem objetivo, uma molécula pueril. Nossa infame falta de consciência sobre nosso (não) lugar no mundo, mascarada pela busca de sentidos na vida é ridícula na cosmologia lovecraftiana. Somos apenas loucos divagando em uma ilha de gelo em constante derretimento, desconhecendo nosso irrefutável destino, desconhecendo os predadores que consumirão nossa carne e nossas entranhas, que apenas esperam adormecidos: “Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn [Em sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando]” (H.P. Lovecraft, O Chamado de Cthulhu, publicado originalmente em 1928). Assim, qualquer noção de progresso, qualquer conquista, qualquer memória, sentimento, ato e pensamento são inúteis, pois somos apenas prisioneiros no corredor da morte, indo em direção ao nosso fatal destino, inconscientes do que nos espera, sorrindo em direção a nossa própria desgraça. Somos apenas uma célula invisível de um grande aborto indesejado, somos a escória daquilo que não devia ter sido.

Ora, esta doce visão pessimista, que beira à pura misantropia, muito foi inspirada pela obsessiva admiração de Lovecraft à algumas obras de arte e pintores em particular. Entre os artistas admirados podemos destacar, inicialmente, o inglês John Martin (1789-1854). Este pintor em particular foi reconhecido por suas inúmeras obras, mas em destaque por retratar passagens do Antigo e Novo Testamento em formas titânicas, influenciado pela estética kantiana. Dediquemos particular atenção à obra “The Great Day of His Wrath” (1851-1953)

 

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A obra em questão, é caracterizada por sua essência apocalíptica. Expressa a destruição do mundo pelas forças da natureza, tornando toda a passagem humana na Terra uma fugaz lembrança. A imagem é entrecortada verticalmente, onde no plano inferior podemos observar o sofrimento e a impotência humana frente as apocalípticas forças da natureza. Tanto de um lado quanto do outro, podemos observar, em meio a orgia de corpos condenados à iminente danação, a frequência da nudez, clamando pela atenção de uma natureza humana despida de qualquer amarra social. Todos estes condenados ao abismo do esquecimento, expresso na forma de uma cratera que suga toda a vida em volta. O sofrimento destes corpos nus denota o desespero expresso em gestos frente a toda destruição. No plano superior do quadro podemos perceber, em ambos os lados, a grandeza da natureza que se impõe sobre o avanço da humanidade. Ao pintar este quadro, Martin inspirou-se em seu repúdio à veloz industrialização inglesa que devora tanto a humanidade quanto a natureza. A ação humana se pôs à frente da natureza, não apenas exteriorizando-a, mas a dominando. A resposta do pintor foi expressar toda a essência poética do poder de destruição da natureza. Esta se impõe em sua forma titânica, atravessando o leste e o oeste, trazendo sua mão vingativa sob aqueles que a tentaram superar. E, exatamente no centro da pintura, nossa atenção volta-se para o círculo em vermelho, o sol que sangra e apenas pode observar, no horizonte, o crepúsculo eminente da humanidade.

            Lovecraft inspirou-se não apenas no quadro acima, mas em todo o conjunto de obras de John Martin. Sua perspectiva titânica e destruidora foi inspiração para imaginar a grandeza assassina de seres amorais como Azathoth e Yog-Sothoth. A megalomania cosmológica de Lovecraft encontra afinidade em Martin. Desta forma, pode-se reconhecer a forte influência deste pintor no presente autor.

            Outro pintor que exerceu notável influência sobre o trabalho de Lovecraft foi o espanhol Francisco José de Goya y Lucientes, conhecido por Francisco de Goya (1746-1828). Este pintor se caracteriza por sua notável versatilidade e fases. Pintou paisagens, homens, guerras, deuses, demônios e etc. Sempre com destaque para as cores, criou obras que transmitiam a mais pura e inocente felicidade com a mesma genialidade que pintou as mais profanas e loucas imagens. No conto “O Modelo de Pickman” (1927), Lovecraft narra os mistérios que envolvem o personagem Richard Pickman, pintor reconhecidamente macabro, responsável por pintar diversos quadros repulsivos que, apesar de destacarem sua genialidade, causam terror em seus iguais. Neste conto, Lovecraft deixa claro a base de inspiração para imaginar as pinturas de Pickman, destacando diversos pintores. Porém o conjunto de obras de Goya, intitulados “Pinturas Negras” serviram de inspiração para se imaginar o estilo de pintura do personagem.

 

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As “Pinturas Negras” (1819-1923) de Goya são compostas por um conjunto de 14 quadros pintados no fim da vida de Goya, quando a decadência física já havia se

embebedado de sua saúde. A debilidade e a morte cercaram Goya nos últimos anos de vida, sendo percebida em suas últimas pinturas. As 14 pinturas são cercadas, além desta aura mórbida, de uma forte crítica política sobre a instabilidade espanhola da época. O quadro em questão acima destacado, é conhecido por “El Aquelarre” e faz parte deste conjunto de pinturas. Em uma análise do quadro, nota-se a forte tonalidade escuro, com grande uso da tinta preta, denotando uma aura obscura. O quadro possui fortes pinceladas, grossas e rápidas e, apesar de possuir algumas linhas finas, predispõe a distância para contemplação, incitando um olhar geral sobre a obra. A mulher de branco ao centro aparenta ser uma bruxa ou sacerdotisa à serviço do bode, que representa na pintura o próprio diabo. O bode, por sua vez, encontra-se falando algo, fazendo com que todos os presentes dediquem exclusiva atenção. Ele é pintando predominantemente de preto, o que destaca sua aura misteriosa. Todas as pessoas na imagem possuem feição grotesca e um tanto animalesca, denotando o tom sombrio da pintura. No conto “O Modelo de Pickman”, Lovecraft inspirou-se na morbidez obscura e satânica de Goya para delimitar seu protagonista e suas obras de arte. Porém, é errôneo limitar a inspiração de Goya em Lovecraft apenas ao presente conto, mas devemos perceber este pintor como uma influência que permeia toda sua obra.

            Tomemos agora parte do último quadro: “The Nightmare” (1781) de Johann Heinrich Füssli, conhecido também como Henry Fuseli.

 

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Este quadro era, de fato, a pintura favorita de Lovecraft. Não é para menos, pois em um autor que bebe do que há de mais cruel para criar seus contos e novelas, nada mais comum que ter como pintura favorita, um quadro de tal magnitude.

            Nesta obra, Fuseli aponta para quatro elementos centrais: a mulher adormecida, a égua, a criatura misteriosa e a mesinha do lado esquerdo. O quadro segue em uma perspectiva demasiadamente horizontal, combinando perfeitamente com a ideia de sono. O quadro, que envolve-se numa aura misteriosa nos levando em um caminho particular: do cavalo que olha fixamente para mulher e que, ao direcionar nosso olhar para a moça adormecida, se irrompe na figura verticalizada no centro da pintura, a misteriosa criatura. Entre as inúmeras possíveis interpretações sobre este quadro, talvez a mais aceita seja a de conotação mais sexualizada. A égua (ou cavalo) é a figura mais misteriosa da imagem, que, simbolicamente representa a passagem entre o mundo dos vivos e dos mortos, tendo ligação com humanos, demônios e divindades. É ele o responsável por trazer ao mundo a criatura da imagem, que tendo a imaginar como um incubo, um tipo de demônio que visita mulheres em seu momento de sono, arrancando prazeres sexuais e alimentando-se de suas energias. O incubo retém seu olhar fixo no espectador, um olhar agressivo, odioso, e que pretende permear os mais obscuros pesadelos noturnos de quem apreciar a obra. A mulher em questão, apesar de entregue ao sono, encontra-se em uma posição que também aponta para um intenso prazer sexual, também percebido por suas expressões faciais, incitando a possibilidade de um orgasmo. Aprofundando-se nesta (possível) interpretação, a mulher entrega-se à exaustão após o estupro em seu sono de uma criatura demoníaca, primitiva e maligna. Este caráter sexual da obra também pode ser percebido pelas linhas de fuga, onde, por exemplo, a caixa em cima da mesinha aponta exatamente para a vagina da mulher, o centro exato da pintura. O incubo é a verticalidade, a ereção em si, que permeia os mais sórdidos prazeres da mulher, apesar de povoar seus mais obscuros pesadelos.

            Esta obra não teve influência direta em nenhuma produção de Lovecraft, mas sua aura e fascínio que causa, permeou as perspectivas do autor. Se no quadro, o sono é destacado como a condição por excelência do indefeso, é onde as energias mais obscuras atuarão. É no mundo dos sonhos e pesadelos que nosso espírito alça voos em direção ao desconhecido, e, muitas vezes, o indesejado. Esta perspectiva permeia boa parte dos contos de Lovecraft: o mundo dos sonhos é o lugar de encontro de terras malignas, criaturas cruéis. Esta perspectiva dos riscos dos sonhos é ponto de encontro entre estes dois artistas. Em “O Chamado de Cthulhu” (1928), opus magnum de Lovecraft, os sonhos são uma das formas de comunicar-se, mesmo que contra a vontade, com a odiosa criatura conhecida como Cthulhu. Numa perspectiva ainda mais ampla, muitos dos contos deste autor são criados a partir de seus próprios sonhos. Assim sendo, torna-se compreensível que tão enigmática obra exerça tanto fascínio em um autor que tem o sonho como ferramenta de trabalho e criação do horror, em sua forma mais pura e bela.

            Os pintores e obras aqui apontados não esgotam a influência artística na obra de Lovecraft. Outros pintores como Gustave Doré, Sidney Sime, Nicholas Roerich e etc tiveram também notável influência no autor. Desta forma, tanto as tragédias em vida como a obscuridade de alguns pintores, foram fatores influentes que explicam muito do mórbido e cruel universo de Lovecraft, apesar de não esgotá-lo, obviamente.

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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