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O derradeiro testamento: a parusia no Império Brasileiro da Palavra de Deus

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A PARUSIA

(1) Era tarde, a lua cintilava no ponto mais alto de um céu estrelado. Jesus encontrava-se no morro da Providência.

(2) Rogou ao Pai por uma intervenção ao lhe esperava. A Providência respondeu-lhe com silêncio. E Jesus disse: Pai, afasta de mim este cálice, rogo-lhe que não me esqueças como já o fez antes.

(3) Estando Ele ainda à orar, desta vez só, surgiu chegando ao morro, em um camburão de polícia acompanhado do próprio imperador Ya'ir Bolsonarius, aquele a que chamavam de Judas Iscariotes da Silva, um dos companheiros de manifestação de Jesus, e beijou-lhe.

(4) Jesus lhe disse: Judas, com um beijo traiu-me antes, com outro beijo trai-me agora. Tal como antes, condenas a ti mesmo.

(5) Os policiais iniciaram longos minutos de agressão com seus cassetetes. Jesus, em sofrimento, apenas lamentou-se pelo discípulo traidor.

(6) Os onze discípulos restantes, apenas de longe observaram, e apesar de se encontrarem armados, evitaram a troca de tiros.

(7) E Bolsonarius, após cessar as torturas, disse: Teu amigo entrega-te com um beijo, pois não basta ser comunista, desordeiro e bandido, tem que ter atração por homens. Mereces a mais vil e dolorosa sentença, Jesus da Rocinha, filho de mãe solteira. Que Deus, mesmo com sua infinita misericórdia e seu filho Jesus, condenem-te ao castigo do inferno. A morte de teu corpo jamais será o suficiente.

(8) Jesus respondeu: Em verdade te digo: este que aqui condenas é o Filho verdadeiro do Pai a quem tu rogas. Sou o mesmo Jesus crucificado que habitas pendurado em teu cordão dourado. Sou a salvação. Sou aquele que retornou ao convívio dos que tanto clamaram.

(9) Bolsonarius replicou: És ainda um herege?! Condeno-te em minha infinita sabedoria guiada por Deus à morte. Como o filho de Deus habitaria tão imunda terra e se aliaria com pobres, devassas, afeminados, macumbeiros, ateus e descrentes? O filho de MEU Deus escolheria o lado dos justos, da família tradicional, dos bons costumes. Em mim e em meus iguais crescem os doces frutos dos ensinamentos de Deus. Porco profano!

(10) Jesus respondeu: Em verdade te digo: meus pés caminham ao lado dos oprimidos. Caminhei assim antes, caminho assim agora. Estou onde há liberdade, onde não se apontam dedos. Luto pelo meu povo, luto por toda a humanidade massacrada por poucos sujeitos cruéis. Jamais estive no templo de mentiras a quem tu e vossos semelhantes chamam de casa de meu Pai. Rogo à Ele que ouça meus pedidos, que liberte todos os filhos oprimidos pelo ódio teu, Imperador.

(11) Antes de se retirar, Bolsonarius aproximou-se de Jesus e disse: Deus não escuta aqueles como tu.

(12) Antes de ser levado ao camburão, os outros onze discípulos saíram em protesto a fim de defender Jesus.

(13) Um dos policiais disse: Condeno todos à prisão, junto ao outro condenado.

(14) E sob ameaças e armas, os discípulos se sujeitaram à autoridade.

A CONDENAÇÃO

(1) Alguns dias após amargar dolorosas torturas em sua cela escura, Jesus recebeu a visita de um dos guardas torturadores.

(2) O guarda disse: Sabes tu que teus amigos fizeram um acordo com a justiça?

(3) Jesus respondeu-lhe: De que acordo falas?

(4) O guarda responde: teus amigos acordaram com o próprio imperador acordos de liberdade. Concordaram em testemunhar contra tu, Jesus da Rocinha, em troca da libertação imediata. Nosso digníssimo imperador deseja apenas a tua morte. Todos em uníssono acusaram-lhe. Todos os onze negaram-te como mestre por três vezes. Eu estava lá e vi suas expressões de alívio. Você está sozinho!

(5) Jesus, em prantos disse: Negado três vezes por todos, não apenas um. Jaz aqui minha última esperança nos humanos que tanto amei.

(6) O guarda, sob gargalhadas, fechando a porta, deixa Jesus sob a companhia da escuridão.

(7) Por mais alguns dias, as torturas foram sucedidas, mas, Jesus sofreu calado, sem tristeza.

(8) Depois do tempo passado, o grande líder do senado Marcus Felicius encontra-se com Jesus e disse: És tu o rei dos cristãos?

(9) Jesus disse: Assim me chamaram alguns. Por agora não sou rei.

(10) Então Felicius, dizendo aos companheiros senadores à porta: Acho culpa neste homem, ainda que negue ser chamado de rei.

(11) Assim, o renomado líder dos deputados, Educunha, que acompanhava Felicius, disse: não nos demoremos a levar tão vil acusado ao julgamento popular. Sabes que convocamos juntos o sumo do povo de nossos templos. São cristãos exemplares, seguidores da palavra, adoradores do verdadeiro Jesus e tementes à Deus. Devemos nos apressar para que o povo derrame sobre este porco sua sentença. Não podemos nos demorar, o caminho para a capital é longo.

(12) Jesus foi levado à Brasília, capital do Império Brasileiro da Palavra de Deus e, em um suntuoso palanque montado às pressas nos jardins do Palácio da Alvorada, alguns milhares se encontravam presentes.

(13) O imperador Bolsonarius disse: trago a vós, povo de Deus, dois criminosos: Jesus e Barbosa. O primeiro é acusado de incitar manifestações comunistas contra nossa nação abençoada e assumir pra si o título de rei dos cristãos. O segundo é acusado sob provas factíveis de homicídio doloso. Qual destes porcos vocês querem ver condenado à sentença final?

(14) O povo responde: matem os dois! E sob confusão, um dos representantes da Igreja de Deus sobe ao palco como representante do povo: exigimos que deem cabo da vida destes dois marginais. Seria um crime ainda maior salvar qualquer um. Desejamos expurgar nossa santa terra de monstros assim. Preparemo-nos para a Parusia em uma terra limpa de escárnios.

(15) Jesus e Barbosa, foram ambos levados para a prisão construída recentemente ao lado da morada imperial.

(16) A noite que precedeu a sentença contou com a visita do grande Imperador Bolsonarus à cela de Jesus. Bolsonarus disse: Aguardo ansiosamente por tua sentença. Estarei eu mesmo no pelotão de fuzilamento. Uma das seis armas apenas estará carregada. Será a minha. Regozije-se por ser morto pelo próprio imperador.

(17) Jesus, em mais profunda tristeza, responde: não diferencio títulos, pois tu, tal como qualquer outro, é um homem. Não sinto medo, não me recolho em oração pedindo que meu Pai intervenha, pois não tenho mais esperanças no homem e nem quem o criou.

(18) Bolsonarius responde: tu realmente pensas que é nosso Cristo? É dito e verdadeiro que nosso Deus retornará como rei, e salvará os escolhidos e justos.

(19) Jesus responde: Voltei para esta Terra sofrida na esperança sim de governar como rei. Voltei para andar, como disse, ao lado dos escolhidos e justos. Mas estes justos são aqueles oprimidos por vós. Ando e luto pelos homossexuais, negros, mulheres, pobres. Em minha outra vinda, andei ao lado dos oprimidos e preguei em favor do amor. Tu, imperador, apenas replica o que me foi feito antes.

(20) Bolsonaro disse: O Jesus em que acredito morreu por meus pecados. Este Jesus jamais defenderia puta e viado. Faço apenas a vontade de meu Deus, que se manifesta no sucesso de meus atos.

(21) Jesus responde: no fim, talvez estejas certo. Meu pai apenas silencia-se frente ao sofrimento de teu povo. Morreria feliz se isto trouxesse paz aqueles afligidos por ti. Onze discípulos me negaram, jamais se arrependeram. Um me entregou e anda livre. Minha palavra morrerá comigo. A pomba do espírito-santo, minha presença viva, já fora abatida pelas pedras dos condenadores. Meu pai apenas se cala. O silencio Dele sentencia-me. O silencio Dele sentencia seu povo.

(22) Bolsonarius replica: nem sob a sentença máxima, tu herege, abre mão da hipocrisia. Reconheças que o Deus vivo anda ao meu lado e de meu povo. Reconheças que meu Deus tem força e apoia seu povo escolhido. Perdeste a fé em ti, filho falso de um Deus falso?

(23) Jesus responde: O ensurdecedor silêncio de meu Pai me convence do lado que está. Pois assim seja. Minha misericórdia e o amor que dei ao mundo moldou séculos e séculos de matança, mentiras e destruição. O silêncio de meu Pai deu o livre-arbítrio para matar inocentes. Amei toda Sua criação. Deixei minha presença viva. Plantei o amor. Colheram ódio. Espalharam o mal. E por fim, tu e teu povo condena e assassina justamente aquele que cultuas.

(24) Bolsonarius então aplica um forte soco em Jesus, esbravejando: Tu espalhas a desordem em nome do amor, maldito. Deus está comigo, Deus fala através de mim. Ele jamais permitirá que comunistas como tu e teus discípulos falsos espalhem desgraça ao povo abençoado. Saiba que mesmo teus delatores ainda serão perseguidos e mortos. Jamais confiaria a liberdade a tão degradantes seres, que pela própria liberdade condenam à morte seu mestre. Tua palavra de desordem, de fato, morrerá contigo, favelado.

(25) Jesus disse: Sim, minha palavra morrerá comigo. Saibas porém que sentencias o mesmo Jesus que cultua. Tu banqueteia-se da carne e o sangue do deicídio. Se então tu estás certo, e meu Pai habita em ti enquanto silencia-se ao me ouvir chamando, abomino-o. Nego e cuspo Tua palavra oh Deus dos falsos. Se legitimas milênios de massacre em Teu nome, saibas que o tenho por inimigo. Se silencia-se frente ao sofrimento de filhos Teus filhos, então não pode jamais ser amor. Se este Deus condena Teu povo às migalhas renuncio-o. Enfim, com a condenação da humanidade pelo próprio povo de Deus, não me resta nada mais que a resignação frente ao esquecimento eterno. Cuspo e me enojo por todo este mundo. Não prometo o reino do céus e a glória na vida eterna, pois se neste reino habita teu Deus, prefiro o beijo da morte, do sono sem sonhos.

(26) Bolsonarius por fim disse: Eu, meu povo e meu Deus felicitaremos tua morte e nos banquetearemos sob teu corpo, herege. Saibas que tu estás errado: não condeno os teus por serem quem são. Acredito na redenção humana. Basta apenas negarem estas vantagens travestidas de direitos sociais, basta abdicarem do pecado homossexual, basta largarem a devassidão, basta que as mulheres submetam-se à vontade dos homens, basta que aceitem que criminosos devem ser mortos e não terem segunda chance, basta que sejam pessoas normais.

(27) Jesus responde, encerrando o diálogo: só teu ódio pela diferença será capaz de apagar a diversidade do mundo. Que esta humanidade caia em sua própria desgraça. Amém.

O FIM

(1) Passada sua última noite, Jesus da Rocinha, segue no corredor da morte acompanhado apenas de um guarda.

(2) Sem opção de escolha, é colocado de joelhos, sem venda e com as mãos amarradas.

(3) Ao ver as armas apontadas para si, olha direto para Bolsonarius, que com um sorriso no rosto, sentencia sua vitória. Jesus sabe então que não há mais esperanças, nem para si e nem para humanidade.

(4) Então Jesus olha ao céu e diz: Pai, tu abandonaste todos os teus filhos!

(5) Com um tiro certeiro no coração, Jesus, mais uma vez, abandona o convívio dos eleitos.

(6) E o Império Brasileiro da Palavra de Deus, sem esperança, mergulhado no fanatismo desenfreado, felicita o banquete antropofágico de seu próprio Deus em mais um dia feliz. Amem!

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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