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Quando os Deuses nos convidam para dançar

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É estranho, pra dizer o mínimo, perder a noção de tempo.

Quando se é forçado a viver num quarto sem janelas, apenas com a degradante companhia de sua própria consciência e sanidade, se é que ainda resta-me algo de são, o relógio biológico entra em colapso. Já não sei mais quando as trevas sobrepujam à luz sob minha cabeça. Sempre tive apreço pela noite; quando o obscuro sai de seu esconderijo, quando o caos silencioso irrompe no êxtase do coração humano; quando a hierofania do profano toma forma. Perder a tão doce vitória diária da noite sobre a luz dia, que retorna de suas cinzas tal como uma fênix, apenas para provar, mais uma vez, o beijo gélido da noite, é inquietante.
Atualmente, minha casa se resume a um quarto pequeno de paredes acolchoadas, envolvido por um perturbador tom de branco; uma assepsia aparente que mal disfarça a putrefação de minha alma e o medo que nela habita e a consome. De fato, impressionou-me a persistente existência de hospícios nestes moldes, tal como alguns séculos atrás. Não vejo ou ouço ninguém, mas diariamente uma pequena abertura na parte inferior da porta liga o interior de minha morada à parte externa, deixando um pouco de comida sem sal e água, para que, algumas horas depois, a mesma abertura sirva para pegarem e limparem meu penico. Estou aqui apenas a alguns dias, duas semanas talvez, mas posso estar enganado. Tenho certeza que os acontecimentos de poucos dias atrás e que, com o mais inebriante temor pretendo narrar, abalaram de maneira cabal minha sanidade. Talvez eu esteja aqui a mais tempo do que imagino agora: um mês, um ano, dez anos? É possível. Ainda que meus olhos pesem sobre o papel, preciso evitar a visita de Morfeu a qualquer custo, pois “aquilo” ainda me espera em meus sonhos.
Talvez você, caro leitor que encontrou estes papeis amassados e rascunhados em alguma lata de lixo acompanhados de seringas e remédios, seja o único a ouvir ressoar meu desespero em forma de palavras que atormentam-me. Resta-me pouco tempo de vida, mas tenho esperança que este sofrimento não morra comigo. Isso talvez só tenha sido possível após intermináveis horas de gritos desesperados em diversas línguas pedindo somente folhas de papel e alguma caneta, o que para minha surpresa foi atendido.
Bem, creio ter começado minha narrativa de forma errada. Sei que para ter algum objetivo ao escrever este texto, preciso tentar expressar, ainda que seja impossível, o horror que me assola. Vamos ao começo de toda história. Mas antes, devo alertá-lo que, caso a leitura desta carta cause qualquer tipo de desconforto, pare a leitura, queime-a e deixe minha desolação apenas cair no esquecimento.
Meu nome não importa e tal como qualquer dado bibliográfico, relego os direitos autorais ao desconhecido. Portanto, limitar-me-ei ao que realmente importa. Alguns anos atrás fui diagnosticado erroneamente como alexitimico. Isto significa, clinicamente, que possuo dificuldade de expressar sentimentos e emoções. E num nível mais patológico, como em meu caso, possuo dificuldade de identificar as emoções, não apenas expressá-las. Ledo engano destes profissionais. Minha incapacidade não está na identificação ou expressão emotiva, mas no próprio sentir.
Imagine, caro leitor, estar num mundo colorido de sentimentos bons e ruins, mas viver na inércia acinzentada da indiferença. Busquei durante toda a vida lapsos de qualquer fagulha que me afetassem de alguma forma. Tudo em vão. Relacionamentos amorosos moldados pelo tédio, o grande artesão de minha vida. Sexo que apenas resume-se no ato final do teatro da ejaculação. Uma vida sem sabor...
Cogitei por um tempo o suicídio enquanto uma porta emergencial, mas por fim dei algumas chances finais à vida. Como nada apetecia nenhum tipo de sentimento, decidi dedicar meu tempo à cometer alguns pequenos crimes, pois talvez me despertassem algo em meu âmago. Alguns furtos não mudaram absolutamente nada. Talvez algo mais impactante, um assassinato, possivelmente, poderia mudar algumas coisas.
No momento desta decisão, encontrava-se na Romênia, mas especificadamente na Transilvânia. Cidade essa com grande arcabouço histórico, rodeada por mitos levados aos confins da Terra, e principalmente, recheada de ruelas e becos estreitos, quase inabitados. Era noite de inverno, o frio cortava as maçãs do rosto, apesar de não nevar. Estava na praça Sibiu, no coração da Romênia medieval. Sibiu é um amplo espaço rodeado de casarões antigos, onde diversas pessoas transitam a todo dia. Eu aguardava num canto, encostado em um destes casarões, espreitando possíveis vítimas. Entre um apressado e outro, um sujeito em particular chamou minha atenção. Aparentando ter sessenta anos ou pouco mais, era um homem já debilitado, mancava da perna esquerda. Escondia-se sobre um grande sobretudo marrom escuro, bem grosso, afim de aplacar o vento gelado, que provavelmente corroía seus frágeis ossos e o abatia com rigidez. Seu chapéu escondia a forma de seu rosto, mas apesar de sua debilidade, aparentava estar atrasado, por conta da pressa com que andava. Decidi que o débil velho seria minha salvação, ou talvez a eterna perdição. Segui-o pela praça, com cuidado para não ser notado. O velho entrou por um dos becos e seguiu serpenteando pelas pequenas e vazias ruas. Fui forçado a apertar o passo, pois poderia perde-lo de vista. Em uma das curvas o velho percebeu a perseguição, mas ao invés de gritar por ajuda ou correr, ainda que tudo isso fosse inútil, virou-se para mim. Antes que pudesse lançar mão de qualquer justificativa, atirei entre suas têmporas. Não havia argumentação possível que me fizesse recuar, portanto seria inútil perder meu tempo ouvindo suas súplicas covardes. O sangue cobriu toda sua face, mas nada mudou em meu interior. Notei que, ao me olhar nos olhos, o velho levou a mão para dentro do sobretudo, diretamente ao bolso. Decidi ver o que tinha neste bolso. Não devia ter feito isso...
Eram alguns papéis dobrados, que peguei e levei direto ao quarto de hotel que me hospedava. Deixei o corpo sem vida do velho sem sorte no lugar que padeceu. Sempre soube que era questão de tempo para que fosse levado a alguma delegacia. Mas neste pouco tempo que me restava, leria os papeis amassados tão preciosos para minha vítima.
Estes papeis eram, possivelmente, cópias de algum documento extremamente antigo. Como dominava diversas línguas, julguei que talvez poderia ao menos perceber alguns padrões gramaticais que poderiam servir como chaves para leituras. Porém, o alfabeto estranho não pareceu seguir nenhuma lógica racional, e estranhamente, o texto estranho dividia espaço com alguns desenhos desconexos. No começo, pensei serem apenas rabiscos ao acaso do velho perturbado. Porém, havia um imenso cuidado e uma clara intensão de tornar inteligível algo que eu não poderia entender.
Algumas horas passadas e a polícia finalmente chegou ao meu quarto e me levou. Depois de algumas horas de interrogatório e exames psicológicos, não fui levado diretamente para o presídio, mas sedado. Acordei já em minha presente e derradeira morada. Os dias se passaram sem que ninguém entrasse na cela, seja para perguntar algo, seja para exames. Fui reduzido ao marasmo da solidão. Não me julgaram, não me condenaram, apenas e somente me abandonaram à cuidados mínimos. Jamais mitiguei alguma coisa, até pela minha incapacidade de ao menos fingir emoções. Desta forma, imaginei que meu fim seria confinado num hospício qualquer. Talvez discordassem de mim...
Alguns dias após minha internação, entreguei-me ao sono, tal como sempre fiz normalmente. Estranhei o imenso cansaço de meu corpo, algo anormal para quem possui uma rotinha desgastantemente tediosa. Sempre dormi poucas horas por dia, mas senti uma extrema necessidade de me deitar e me entregar ao mundo dos sonhos. Porém, algo a mais me esperava naquele fatídico dia... Ao fechar meus olhos, fui transportado para algo que, até o presente momento, não faço ideia se era sonho ou realidade. Tentarei narrar com o máximo de fidelidade a experiência que me propiciou, pela primeira vez, sentir algo em meu ser: algo que estuprou meus limites de sanidade, algo que enforcou minha racionalidade.
Assim que meus olhos entregaram-se ao cansaço, fui diretamente levado além da consciência humana. Era eu, de fato, e isso me impressionou. Em meus raros sonhos, de certa forma, sempre soube que estava longe da realidade, e os acontecimentos jamais me desesperavam. Neste caso era diferente. Senti todas as limitações de meu corpo, todos meus pensamentos e vontades. Era real, estava no lugar onde alguns poucos hereges condenados estiveram.
Era noite. O céu negro e limpo de nuvens não continha nenhuma estrela, e a lua era tingida de um tom avermelhado e jazia imponente no céu, observando passivamente a minha derrocada. Eu estava só, em um solo um tanto quanto pantanoso, onde a água e a lama não ultrapassavam mais que alguns milímetros. Havia um fétido cheiro podre no ar, algo que se assemelhava a podridão de mil corpos deixados para o banquete dos vermes, porém não havia sequer algum cadáver à vista... Era o próprio lugar que exalava o cheiro, a própria terra estava morta e em decomposição. Algumas poucas árvores mortas, de longos galhos retorcidos aumentavam o ar de solidão do local. O imponente astro lunar permitia que minha limitada visão contemplasse a obra irascível e poética do que a bestialidade intangível do mal desconhecido me presenteara.
Não entendi o motivo de estar ali, mas apenas associei ao maldito velho que assassinei e seus enfadonhos rabiscos. Por que mata-lo me levaria àquele local? Será que aqueles rabiscos sem sentindo queriam dizer algo? E aqueles desenhos desconexos, o que pretendiam dizer? Para minha infelicidade, algumas poucas respostas foram mais tarde a mim reveladas.
Caminhei durante horas à fio pela mórbida paisagem, tendo minha mente tomada por infinitos pontos de interrogação. Sabia que o velho e seus papeis explicavam de alguma forma o acontecido, mas não sabia como. O cheiro fétido persistia, mas agora estava acompanhado de uma doentia sinfonia de sons. Não sei dizer se havia alguma ordem naquela sequência de sons estranhos. Jamais poderei descrever se havia características técnicas, mas denunciavam algo gigantesco, algo que apenas demônios dementes e irracionais seriam capazes de dançar. Esta macabra e grandiosa melodia ecoava não apenas em meus ouvidos, mas estremeceu minha alma, fazendo que contestasse minha sanidade. Percebi-me então tomado pelo primeiro e poderoso sentimento que tanto ansiava, o medo. Desde minha chegada a este mundo onírico estava tomado por algo diferente, e era de fato o medo, mas apenas ao ouvir o canto demoníaco do desconhecido, fui capaz de percebê-lo. Não havia volta, senti-me refém do infinito, pois não me restava nada além de caminhar rumo às respostas, rumo à origem dos sons.
Após mais algumas horas de caminhada, minhas pernas cansadas não faziam frente à minha consciência seriamente comprometida. Apenas os loucos dançariam tal melodia, e eu já calçara meus sapatos de dança. Encontrei então uma pequena ladeira, pouco íngreme, mas que dava para um gigantesco e infinito oceano de água turva e sulfurosa. Era esta a origem dos sons. Pensei em deixar-me levar pela melodia satânica e envolver-me em uma dança com as águas venenosas que me convidavam. Mal tive tempo para cogitar qualquer possibilidade, pois neste mesmo instante, emergiu algo gigantesco destas águas, algo que jamais pensaria que pudesse existir.
Como descrever? Mesmo que sugerisse qualquer exercício reflexivo seria em vão. Todos os monstros conhecidos pelos humanos, sejam reais ou não, mais ou menos assustadores, todos estão atrelados as nossas capacidades cognitivas de entendimento. Todos possuem, em diversos graus, membros; olhos; bocas; etc. Por mais que nossa imensa criatividade seja capaz de conceber diversas possibilidades, há sempre um princípio de ordem. Nosso caos é sempre limitado, nunca é em si, nunca é caos. O ser ou não-ser que me deparei é inconcebível de se imaginar, é inconcebível de se entender. Sua contemplação talvez seja a mais pura experiência mística que estupra qualquer sanidade. A criatura levantou-se, mostrando toda a grandeza do infinito: ela era tudo, desde o ar fétido que matava meus pulmões, até a melodia dos loucos. Aquilo moldou o ambiente à sua volta, e fez do externo, o não-eu, uma parte ínfima de seu caos. Contemplar sua grandeza era o que me restava. Como descrever? Em um momento era uma besta com infinitas crateras dentadas e olhos rasgados que pululavam e sangravam. Num curto piscar de olhos, era uma doce e bela mulher de cabelos acinzentados e olhos azuis que me convidavam ao deleite. Depois aquilo se tornou algo próximo de uma quimera, para depois transformar-se em poeira e lama. Milhares e milhares de transformações se desdobravam sob meus olhos, fazendo que a forma anterior parecesse uma ilusão. Aquilo não era algo concebível, era o que era. Foi, é e será sempre o caos que se expande. O caos (in)consciente que segue apenas seu princípio de destruição. Havia, de certa forma, alguma consciência? Por que não poderia ter?  Senti a todo momento de medo constante, a impressão de que aquilo que se desdobrava diante de mim, teve intencionalidade ao revelar-se e me via meu sofrimento com escárnio. Não, talvez eu esteja errado, talvez seja minha sanidade deixando-me. Como o caos poderia irromper-se em consciência, e ainda pior, numa consciência sádica? Mas quem sou eu frente a tal abominação querendo imputar princípios lógicos naquilo que faz qualquer limitação algo infame? Os princípios de dualidade que povoam minha mente talvez sejam de fato culturais, e aquilo supera todas as dicotomias possíveis. Aquela aberração talvez seja, ao mesmo tempo, consciente e inconsciente.  Agora entendo... estou certo em minha loucura!
Creio que no fim, todas a divindades de todos os panteões sejam simplesmente máscaras debochadas e aprisionadas do caos a que sucumbi em deleite. Toda a esperança humana depositada em qualquer deus é apenas uma forma de escárnio daquilo que presenciei. Aquele princípio caótico deleita-se sadicamente sobre o sofrimento humano. Pobre de mim, pobre de todos nós... jamais saberemos quão ínfimos somos. Somos a tripulação de um barco à deriva rumo à destruição iminente. Quantos mais existirão? Mais alguns seres demoníacos? Uma legião? Milhares? Milhões? Ou mais nenhum?
Será que foi tudo um sonho? Não, jamais seria! Minha mente limitada jamais conceberia algo como aquilo. Sinto meus pulmões destruídos, a tosse sangrenta que me abate agora e suja estes papeis, é uma prova de que o irreal foi real. A música jamais abandonou meus ouvidos, e ainda dança com minha sanidade, esfaqueando-a pelas costas. Tento ainda evitar que meus olhos entreguem-se ao sono, mas a cada momento, sinto a escuridão daquela criatura tomando meu corpo. Sinto medo, pois hei de saber que não há nenhum paraíso me esperando. Não há tão menos um sono sem sonhos... há apenas a inevitável entrega a escuridão, dor e sofrimento eterno. Se não estiver errado, creio que esta criatura tenha criado todas as coisas, para que apenas vivam finitamente e entreguem-se novamente ao caos de sua essência. Nossa fé, nossa esperança, nossos amores não são nada além de ilusões, piadas para divertir sadicamente nossa criadora e destruidora, nosso criador e destruidor. Aquilo habita as profundezas deste falso cosmos, falsamente adormecida. Mostrou-me o que sempre quis, deu-me o presente que sempre sonhei: o poder de sentir. Ai de mim, tão desprezível ser que mal conhecia seus próprios desejos. A concessão do que pedi veio daquilo que mais me desprezava. Estamos sós, estamos entregues ao caos ativo que é a essência de tal criatura. Quantas mais existirão? Quantas mais existirão?
Quanto tempo mais aguentarei os sons que ressoam em minha cabeça? O querem dizer? Talvez seja apenas o sussurro de tal profano nome daquilo que jamais deve ser nomeado: nosso criador... nosso destruidor. Todos os Deuses são um, todos os Deuses querem nos destruir enquanto beijamos seus pés. Resta-me pouco tempo e o medo toma conta de mim. Não quero presenciar novamente, Mas não tenho escolha. Sucumbirei e me afogarei no mar de desespero, para o deleite de nosso senhor. Que assim seja, ainda contra nossa vontade, e assim será, independente do que fizermos.

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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