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Memento Mori

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“Apenas a carne mergulhada no mais puro caos

Deve servir de alimento.

Se queres conhecer os segredos que aqui jazem,

Beba do sangue dos impuros,

Pois o mal que espreita à porta

Só é convidado a entrar com a morte.”

Abdul Alhazred: Al-Azif - Necronomicon

            (...) Quando o padre Eosphorus abriu seus olhos, encontrava-se amarrado em uma coluna arredondada na antiga construção que, a algumas horas antes, permanecia à espreita. O lugar era iluminado com algumas velas que já queimavam por muitas horas, a julgar pelo tamanho. As paredes eram quase totalmente preenchidas por um mofo escurecido que exalava um fétido odor de podridão, mas que com o tempo naturalizava-se ao nariz de qualquer um que permanecesse presente naquele estranho lugar por mais que algumas horas. As janelas eram pintadas de tinta preta, evidenciando as más intenções de quem utilizava o lugar, apesar de não estar claro que acontecia. Apesar de ser uma casa de tamanho médio, as paredes internas foram removidas para que se tornasse apenas um grande cômodo, tal como um templo. Haviam oito bancos de igreja, quatro de um lado e quatro de outro, com uma passagem no centro, contendo cerca de um metro de largura. A coluna em que Eosphorus fora amarrado encontrava-se à frente e ao centro dos bancos, o que o deixara com um mal pressentimento.

            Padre Eosphorus, apesar de ainda ser conhecido por esta alcunha, já não mais exercia oficialmente o sacerdócio. De origem grega, tão cedo optou pelo caminho religioso, e apesar de seu notório conhecimento e dedicação, fruto de horas à finco debruçadas nos mais pesados e antigos livros da Biblioteca Nacional da Grécia, era comumente visto por seus pares como um louco desviante. Sua vida religiosa estigmatizada se deu por seu público interesse em demonologia e paganismo. Foi-lhe oferecido no decorrer de sua formação religiosa a ênfase na atividade de combate às forças malignas, comumente conhecida como exorcismo. Eosphorus seguiu este caminho de maneira extremamente tortuosa, pois se seus mestres ensinavam características básicas de cada demônio e formas de combater o mal, Eosphorus por sua vez, relutava-se em apreender o conteúdo passivamente, insistindo na busca pela contextualização histórica e cultural de cada um destes seres, sem um prévio viés preconceituoso. As constantes represálias fizeram com que a formação deste padre se estendesse para fora de seu seminário formador.

            Mesmo que tenha completado sua formação, sua atenção era absolutamente voltada para seus estudos externos sobre demônios e seres sobrenaturais. Consequentemente, sua forma de atuação enquanto exorcista seguiu um caminho peculiar, onde o padre buscava a compreensão da essência do espírito que afligia mais do que sua expulsão. Porém, em uma de suas sessões de exorcismo realizadas, um velho senhor nonagenário não resistiu aos ritos e as indagações do padre e veio à falecer. O Vaticano veio a abafar o caso publicamente e, como Eosphorus já era um velho conhecido em seus mais de quinze anos de atuação contestada, expulsou-o de seu seio institucional

            Padre Eosphorus, em seus anos de atuação, sempre teve em mente que sua construção ontológica sobre demônios e seres desconhecidos e que sua forma epistemológica de conhece-los só poderia ser mediada através de uma metodologia compreensiva, mas que isso poderia gerar catastróficos resultados que levariam para si a ira da instituição católica, como de fato ocorreu. Frente a este inevitável destino, Eosphorus buscou arrecadar a maior quantia financeira possível a partir de seus ganhos monetários para que, mesmo expulso, pudesse continuar suas pesquisas. E por três anos, o padre seguiu por diversas partes do mundo buscando conhecer religiões, seitas e divindades desconhecidas de grande parte da humanidade. Deparando-se com a falta dinheiro que já batia à sua porta, Eosphorus segue para a cidade de Damasco, para maiores investigações uma seita assassina que ouviu falar ainda em seus tempos de formação clerical. Tratando este caso como sua última empreitada antes de uma mudança de vida, o padre se dirigiu à cidade, e mesmo com algumas dificuldades, encontrou a tal seita. Observando a casa, localizada a cerca de um quilômetro da saída leste da cidade, era envolta de diversas árvores secas, que camuflavam sua visão. Por um descuido, Eosphorus foi pego ao ser visto por um dos membros e com um forte golpe na cabeça, acordou já amarrado.

            Após cerca de uma hora já acordado, Eosphorus opta por não gritar ou pedir ajuda, pois sabia da distância daquela casa. Sua esperança de vida permanecia em silêncio. Assim, após este tempo, a grossa porta de madeira se abre para treze pessoas, todas vestidas em trajes pretos, que adentram no local. Por ter conhecimento de árabe, Eosphorus dirige a palavra para o único dos sujeitos sem capuz, que chamava a atenção por não ter pelo algum em toda a face, e nenhum fio de cabelo na cabeça:

- “O que pretendem fazer?”

- “Não sou quem vai sanar suas dúvidas. Apenas aguarde.” Respondeu o sujeito.

            Neste momento, Eosphorus percebe que um dos sujeitos encapuzados trazia consigo um grande livro de couro envelhecido. O ar pesado e fétido se tornou mais gelado. O sujeito entrega ao homem sem pelos que o coloca em um palanque de madeira que acabara de ser ali colocado. O livro então é aberto em uma página já previamente definida, o homem estranho começa a proferir encantamentos em uma língua desconhecida. O ar se torna ainda mais gelado enquanto os sujeitos encapuzados permanecem em silêncio. Em seguida, o homem que lia o livro cai de joelhos e se levanta lentamente, para então começar a “falar”. O que se ouviu foi uma sequência conjunta de zumbidos, como se milhares de moscas e outros insetos estivessem tentando se comunicar. Era o bramido de um ser demoníaco, o azif, segundo os árabes; intraduzível em si mas magicamente inteligível para qualquer um que pudesse ali se encontrar. O padre, coberto de um medo que gelava suas entranhas, mal pode crer que aqueles lamentos demoníacos eram por ele compreendidos como claras palavras de sua língua materna:

- “Vejo agora que tu, Eosphorus, teme por encontrar aquilo que sempre buscou ... aquilo que constitui a ti próprio.”

- “Já estive com outras criaturas de tua natureza. Se tens por vantagem algo que conheces de mim, diga-me algo de ti.” Respondeu padre Eosphorus.

- “Fui chamado por muitos nomes, tive diversos rostos. Sou todos e não sou nenhum.”

- “Se nada me esclareces com teu aforismo, me diga: por que sou mantido neste cativeiro?”

- “Ora, não foi tu que veio até mim de bom grado? Não foi tu que buscou por uma vida inteira as respostas para certas indagações? Eosphorus, tu não é algo em si, mas apenas o teu movimento. Tuas indagações não são o que te move, mas sim o que tu és, pois são as dúvidas o impulso motor que construiu teus caminhos e a ti próprio. Assim sendo, estar aqui em cativeiro, é apenas o desfecho de nosso tão aguardado encontro.”

- “E por que eu, entre tantos outros tão mais importantes? Tu, que poderias possuir qualquer líder de Estado, mas escolheu um padre fracassado...”

- “Apesar de tua suposta inteligência, vejo que ainda se atrela a prisão da igreja que por tantos anos serviu. Ainda acreditas que pretendo destruir a humanidade? Regozijo-me por tua mente simplória. Tu não me conheces como pensavas, não nos conhece como imaginou. A existência de tua raça, tal como de tudo que existe, está inevitavelmente fadada ao abismo. Que diferença faz se escolho a ti ou a um líder de Estado? Todos estão condenados à mesma danação. Dancemos então em volta de nossa própria fogueira!”

            O arrepio de medo que preenchia o padre já havia dado lugar a um mar de dúvidas. Eosphorus estava de frente para algo que tinha as respostas de tudo o que o assolava por toda a vida. A criatura estava certa, já que todas as suas dúvidas eram exatamente o que o constituíam. Cada exorcismo realizado o levava para um lugar diferente, que por fim o levaram à Damasco.

Todos os caminhos levam a Roma

- “Então tu existes para além da vontade humana?”

- “Em cada lugar em que manifestei-me, existi em duplicidade: de um lado a partir do povo que me criou, e de outro, a partir de meus próprios desígnios.”

- “Reconhece então que faz parte dos frutos da limitada, porém inexorável mente humana?”

- “Sou o clamor de muitos povos sofridos. Sou a forma manifesta de seus anseios. Por isso sou a face de cada povo que acolhi. Provoco a devoção onde me convocam. Provoco o desespero quando me satisfaço.”

- “Por que optou pelo mal?”

- “Sou aquilo que sou, e se me tratas por um ser maligno, são tuas e de teu povo essas categorias. Se toma o que sou por cruel, é porque tu me concebes desta forma. Não sou nada comparado aos Grandes Deuses. Sou parte do que são. Então, se me toma por mal, devo dizer-lhe que tudo que está acima de ti deve ser tratado como cruel e abismal. Se queres me ter como alguém conhecido, saiba que meus nomes já foram proferidos por ti aos milhares.”

- “Diga-me então, de que nomes já foi chamado?”

- “Já vim a este mundo como um faraó, como rei, como Deus. Provoquei o desespero de todos que um dia me cultuaram. Fui o açoite de tua raça, pois ainda que me interesse profundamente cada peculiaridade humana, apetece-me vê-los sofrer. Fui Kali, a grande mãe da morte; fui o Espírito Santo, a presença espiritual viva e inspiradora de cada sacrifício inquisidor; fui Lúcifer, a luz a última luz que afaga os corações dos perseguidos pela Inquisição; Fui o primeiro dos grandes faraós que escravizou milhões; fui Hécate, a grande Deusa necromante; Fui Aiwass, o espírito inspirador de Crowley; Sou e fui Nyarlathotep, o mensageiro sádico de Lovecraft. Sou o grande Deus que tu cultuas; sou a sombra viva que torna gélido teu espírito; sou aquele que te dá esperanças; sou aquele que te destrói e torna a vida um erro cabal; sou o pássaro que afaga com seu canto e sou o bode que chifra em seu ódio. Sou tudo aquilo que é bom e tudo aquilo que é mau, pois bem e mal são faces da mesma moeda em meus jogos. Tenho mil nomes e não tenho nenhum, pois cada nome que me designa, não me compreende como sou.”

- “Dentre todos os nomes citados, como ser uma criatura literária, como Nyarlathotep?”

- “Lovecraft era um apaixonado pelo caos, e sua vida errante levou-o até o livro que está a sua frente. Este é o livro que inspirou-o em sua obra e que tenta retratar o universo numa forma fidedigna, apesar de muitas diferenças.”

- “Então o Necronomicon é real?”

- “O Al Azif é o livro por mim ditado e copiado por Abdul Alhazred, o louco. Visto o risco de tal obra cair em mãos erradas, Lovecraft foi um de meus ajudantes mais úteis ao torna-lo ficção. Qual forma mais eficaz de esconder um segredo do que revelando-o? Antes que me indague, faço questão de manter tão maldita obra em segredo, para que a vã esperança humana de salvação seja o motor de meu sadismo.”

- “E o que nele contém?”

- “Eosphorus, o livro descreve de forma caótica o erro em que tu habitas, o universo. Descreve todos nós, seres superiores à tão imunda raça humana. Descreve nossos poderes e como nos invocar, ainda que a danação iminente se torne mais dolorosa para cada um que cometa tal erro. Descreve ritos de sangue e necromancia. Descreve como o nascimento do universo foi um acaso e como este está fadado à destruição pelo próprio ser criador.”

- “Permita-me ler tão grandiosa obra!”

- “Tu sempre esteves destinado ao conhecimento divino. Não és nada mais que a transformação na busca pelo que há além de ti e além de tua raça. Meu amor pelo sofrimento de teus iguais é comparável pela sua sede de meu conhecimento. Tristes aqueles Outros que ignoram a presença humana. São apenas grandes forças caóticas e destruidoras que um dia chegarão a acabar com tão magnífica obra criada pela estupidez.”

            Toda a vida de padre Eosphorus havia se construído em torno de sua infindável busca pelo conhecimento além do humano. Neste momento, não poderia haver um nada mais que uma nebulosa nuvem de informações espessas, suficientemente convincentes para destruir toda a base de seus crenças – afinal o gigante de pedra tinha pés de barro. Eosphorus já havia percebido que aquela criatura era um entre tantos outros mais poderosos e caóticos. Mas este ser de vários nomes nutria um grande interesse pela humanidade, ainda que sadicamente, diferentemente dos outros. A história da humanidade foi mediada pela diversão macabra de um monstro que criou e se transformou em crenças, deuses e demônios apenas para seu bel prazer. Esta mesma humanidade, cega propositalmente de seu próprio destino, aguarda com um sorriso no rosto, a iminente desgraça que a espera. Ciente de todo este infinito oceano de desconhecimento, padre Eosphorus segue em sua empreitada rumo ao conhecimento que tanto buscou.

- “Quando poderei ler o Necronomicon?”

- “Tu não lerás o livro, pois tua limitação enquanto humano jamais permitiria que chegasses a seu real entendimento. O conhecimento do livro somente pode ser alcançado em seus versos e capítulos mais simples, sendo a essência pura de seu conhecimento apenas uma inalcançável dádiva para seres humanos.”

- “Se minha condição de humano me impede, como terei tal conhecimento prometido?”

- “Tu serás sacrificado inevitavelmente. Este é o meu preço. Porém, em seu leito de morte, minha essência espiritual que habita agora o corpo deste servo será transferido até você. Devorarei teu espírito, e neste doloroso processo, farás parte de mim e compartilhará de meu conhecimento do universo, e que ainda sim é limitado comparado aos Grandes Deuses que habitam dimensões próprias.”

            O bramido sobrenatural da criatura ecoou no coração de padre Eosphorus, deixando-o atordoado. Em verdade, o padre jamais tivera a pretensão de entregar sua vida, ainda que não tivesse tanto apresso por ela.

- “Se não aceitares minha proposta, padre, liberto-te para vagar até o fim de teus dias nestas terras malditas. No final, pouco importa o tempo que passas no mundo, pois a inevitável ira dos Grandes Deuses destruirá tua alma e, por fim, todo o Universo. Entregue tua alma à danação de minha fome e conhecerás mais do que qualquer outro, ainda que por apenas alguns segundos, ou condene tua própria essência à eterna ignorância por quantos anos teu mortal corpo aguentar. Em qualquer uma das opções, tua alma será condenada como a de todos os outros.”

            Padre Eosphorus, ainda pensou por mais alguns minutos até se decidir a favor do sacrifício. Por mais difícil que tenha sido a decisão, não havia caminho para se salvar, visto que qualquer possibilidade de libertação era apenas um puro engodo.

- “O que fará então com meu corpo?”

- “Todos comerão teu corpo após três dias. Carne morta em ritual é embebida da essência cruel e decadente que todos estão sujeitos. A profanação de tua essência pura torna teu corpo o lar de minha corrupção. Comer do banquete da morte é se inundar do mais puro caos de Al Azif.”

- “Então que assim seja ... se o preço pelo divino conhecer é transformar minha matéria corporal em alimento de teus abutres, façamos então.”

            Sem mais demora, a ser que possuía o corpo do homem sem capuz, pegou de um dos servos um punhal com cabo de osso e uma lâmina já bastante gasta e tingida de um forte tom alaranjado. Apesar da aparência antiga do punhal, não houve grande dificuldade ao penetrar a parte superior do estômago de Eosphorus. O gosto de sangue já chegava à boca do padre enquanto sua força vital se esvaia. Por fim, ao olhar para dentro dos olhos da servo sem capuz, Eosphorus sentiu a criatura adentrando em seu ser. E por um lapso de momento, ao ter sua alma devorada pela divindade, a dor o deixou, dando espaço à introspecção de seu ser. Em apenas um segundo que se passaram por mil anos, a essência de Eosphorus transformou-se em um rizoma daquela divindade de mil nomes, e o padre, que cada vez mais perdia sua essência enquanto ser individual para apenas nutrir o ódio, entendeu todo o inexorável conhecimento divino que jamais poderia ser descrito em palavras. E, ainda que tenha alcançado o conhecimento divino e tenha entendido o futuro caótico que aguarda a humanidade, percebeu que esta era apenas uma divindade que nem tudo sabia, que estava sujeita a outras tantas abominações desconhecidas.

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Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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