A+ A A-

A (des)informação na educação política brasileira: por que se informar errado é pior do que não se informar?

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

“E o gigante acordou... foi pra sala, ligou a televisão e colocou na Globo pra se informar”

            Começamos 2013 pedindo serviços públicos “padrão fifa” e em 2016 acabamos (até agora) recebendo a PEC 241, limitando os gastos com saúde e educação. O que aconteceu nesse meio tempo para que cobranças por serviços públicos de qualidade se transmutassem na condenação dos mesmos?

            No já citado ano de 2013 observamos manifestações incomuns e imprevisíveis que contrastaram com o tradicional desinteresse e resignação de grande parte da população frente a assuntos políticos. Estas manifestações escancaravam a ciência da população sobre a falta de qualidade de serviços públicos básicos e a inconformidade com a corrupção sistêmica. Ou seja, o gigante tinha acordado e reclamado para si o dinheiro que sempre fora usurpado. A partir destas manifestações, e vale apena relembrar que eram de caráter apartidário, o interesse do brasileiro pela política aumentou em larga escala. Mas o interesse em política significou melhor conhecimento sobre o assunto? Certamente não! O que assistimos de camarote foi o crescente processo de “educação” política tecida por uma mídia tendenciosa e pseudo-intelectuais, tendo por objetivo forjar cidadãos bem (mal) informados.

            Três anos se passaram, as tramontinas ressoaram e Dilma foi jogada para escanteio juntamente com pautas populares. O que nos resta? Um Estado formado por velhos chacais que negociam a partir dos interesses de grandes empresários, os conhecidos “donos da porra toda”. E o povo que saiu para as ruas está seccionado em duas pontas políticas incomunicáveis, destilando todo ódio em seus perfis de facebook ao passo que seus representantes fazem política de verdade. No olho deste furacão encontra-se a educação política, um dos principais meios de libertação, capaz de conscientizar o povo a fim de fazer da política um instrumento de realização de seus anseios, seja por via eleitoral, seja por manifestações pacíficas ou belicosas. Indo mais além, retomo os argumentos de Jennifer Hochschild e Katherine Einstein no que tange à necessidade de informação numa democracia. Para as autoras, a conquista de uma democracia só se dá a partir de uma população bem informada, sendo esta uma condição sine qua non. Porém, uma população bem informada demanda gastos e esforços advindos da classe política que nem sempre possui incentivos para tal. De certa forma, o argumento de Hochschild e Einstein enfatiza que a falta de informação talvez seja um problema menos grave do que a informação errada, posicionamento este exacerbado no título de um artigo de 2015, escrito para o “British Journal of Political Science”: “It isn’t what we don’t know that gives us trouble, it’s what we know that ain’t so:” Misinformation and Democratic Politics.

            Em 2013, tínhamos um gigante acordado clamando por informações políticas, e estes anseios foram atendidos, mas isto não significa dizer que a informação por si só era de qualidade. No ano seguinte, 2014, tivemos uma eleição para presidente acirrada, onde Dilma manteve-se no cargo e Aécio Neves deixou claro seu posicionamento de embargo de pautas, a fim de aprofundar a crise e tornar o país um mar de desgoverno. O resto todos nós já sabemos e não há necessidade de se estender... Neste tempo, grande parte dos brasileiros foi bombardeado com informações políticas a fim de aplacar sua histórica ignorância, e como resultado temos hoje uma “direita” e uma “esquerda” que podem ser entendidas apenas a partir do nosso processo político em particular. Fomos informados, tomamos posicionamentos dicotomizantes e agora, ao invés de não conhecer nada sobre o assunto, conhecemos “errado” e nos informamos apenas por uma via, aquela escolhida por nossa preferência. Temos de um lado uma direita que apoia as maiores atrocidades contra a população brasileira e que busca argumentos pífios para justificar seus posicionamentos; e de outro lado uma esquerda extremamente fragmentada, que perdeu sua capacidade de mobilização popular, que não sai da internet e que se recusa a admitir os erros do PT. Cabe aqui destacar que não é possível pensar esquerda e direita simplesmente como posicionamentos homogêneos. Há uma diversidade de possibilidades sobre o que é ser de direita e o que é ser de esquerda. Meu objetivo não é destacar as diversas nuances destes posicionamentos, mas apontar perspectivas gerais que caracterizam os pontos em comum entre as diversas esquerdas e principalmente as diversas direitas e que se fundamentam na falta de informação política.

            Nossas fontes de informação nos deixaram em uma guerra de trincheiras, mas que apesar das limitações discursivas de ambos os lados, ainda vejo em nossa esquerda uma porta de saída mais satisfatória, principalmente comparado à direita. Apesar de meus posicionamentos de cunho pessoal, as análises tecidas a partir daqui podem ser pensadas para ambos os lados, principalmente porque minha tendência é pensar as coisas em relação, numa perspectiva deleuziana e latouriana. Isso quer dizer que o acirramento de posições e o fanatismo cego na defesa de ambos os lados que termina por mascarar inúmeros problemas é fruto, entre outras coisas, da relação entre essa direita e esquerda. A negação de qualquer pauta tida como “social”, “inclusiva”, “igualitária” e etc pela direita se dá, entre outros motivos, porque esse interesse é tido como essencialmente da esquerda. Ou seja, é nessa relação conflituosa que a direita aprofunda sua abominação a qualquer posicionamento minimamente próximo à esquerda, independentemente do quão bem (ou mal) possa gerar. Se a relação entre estes posicionamentos fosse mais “amigável”, certamente os polos não seriam tão opostos. Aprofundar-me-ei a partir de então no exemplo específico da questão de crimes para trazer minha perspectiva sobre a desinformação política e as consequências que se geram a partir de então.

            No que tange à questão da criminalidade temos diversos posicionamentos (tal como uma diversidade de esquerdas e direitas), mas que fundamentam-se em duas narrativas principais, uma mais posicionada à esquerda e outra à direita. A da esquerda tende a considerar a criminalidade um subproduto “social”, ou seja, uma confluência de fatores econômicos, familiares, educacionais, de saneamento básico, oportunidades e etc. A criminalidade, nesta perspectiva surge na “articulação” (termo esse pensado a partir do filósofo francês Bruno Latour) de diferentes instâncias da vida. No sentido oposto, a narrativa da direita enfatiza uma explicação da criminalidade pelo viés do caráter individual, ou seja, o ato criminoso se justifica pelo desvio “moral” do indivíduo, sendo essa explicação reforçada por exemplos pululantes de sujeitos pobres que, contra tudo e todos, “venceram na vida” de forma honesta, dentro das regras do jogo. De um lado, o crime é uma consequência extrínseca ao indivíduo, tendo como principal culpada as desigualdades sociais. De outro lado, o crime é um produto intrínseco ao sujeito, um desvio de caráter, sendo a sociedade uma causa menor ou nula, em narrativas mais extremas. Esta narrativa mais extremada costuma-se replicar na forma de diversos bordões de cunho pejorativo que circulam na internet: “Tá com pena? Leva pra casa”; “Vagabundo não é vítima da sociedade”; “Bandido bom é bandido morto” e etc.

            Dissequemos então esta narrativa: ao reconhecer o aprofundamento de acirramentos dicotômicos de direita e esquerda, torna-se claro certas opiniões, já que aceitar alguma influência “social” sobre o crime, ainda que de forma tímida, é se render aos posicionamentos da esquerda, e “ISSO É INACEITÁVEL!!!”. Portanto, deixemos de lado momentaneamente qualquer argumento “esquerdopata” para pensar o crime. Antes de prosseguir, é importante resumir, de antemão, a questão: “o crime é um desvio de caráter e deve ser fortemente punido, sendo que ao se pensar crimes graves, como assassinato, estupro e tráfico, a pena de morte é a punição mais cabível. Somente a punição justa e rigorosa combate o crime.”

            Esta afirmação representa uma parcela significativa da população brasileira que deposita suas esperanças em figuras políticas autoritárias, cujo maior expoente é o deputado e pré-candidato à presidência, Jair Bolsonaro. Dentro desta lógica, é possível tirar dois pontos: 1º- a aversão à criminalidade significa um clamor a favor de cidades mais seguras. 2º- de fato, um criminoso morto é um criminoso a menos no mundo. Estes dois pontos traçados não tem por objetivo defender o argumento destes sujeitos, mas evidenciar também uma mobilização teórica sobre o combate ao problema da criminalidade, ainda que de forma errante. O segundo argumento em particular não é nada mais que lógico, afinal se temos dez traficantes e matamos dois, serão dois traficantes a menos. Dentro de uma trajetória de pensamento única e linear, estes sujeitos acreditam que a força da coerção e punição combate o crime por si só, pois o risco de severas punições afastaria grande parte das pessoas da vida errante e, os criminosos restantes deveriam ser condenados, já que sua falha de caráter é óbvia e os mantém no crime, sendo assim, suas “soluções” são condizentes com as premissas. Trocando em miúdos, o indivíduo criminoso deve ser punido, pois se seu conhecimento prévio e racional da gravidade da punição não foi suficiente para afastá-lo do erro, isso só pode ser explicado pela falha de caráter. Este seria um pensamento correto se o mundo pudesse ser explicado apenas por uma via, o que não é o caso. Em meu posicionamento pessoal, as coisas se constituem muito mais em rizoma, nos termos de Deleuze e Guattari, ou seja, as coisas constituem-se na relação com outras. Mas antes de aprofundar minha proposta, esgotemos o argumento acima esboçado.

            Ainda nesta linha de raciocínio, ao isolar qualquer explicação de cunho “social”, abstém-se de qualquer medida que possa ser caracterizada como “assistencialista”. Mas, ainda que possa argumentar em favor do desvio de caráter como essencial causa da criminalidade, será que esta explicação sobrevive para além do campo discursivo? Bem, proponho que se pense na população carcerária brasileira. Tomando o desvio de caráter como causa essencial do crime e excluindo causas “sociais” que possam contrariar o princípio da punição severa, deve-se argumentar que as desigualdades sociais não são fatores que influenciam na criminalidade, já que boa parte dos pobres são honestos. Assim sendo, deve-se aceitar que desvio de caráter é inerente ao indivíduo e que todas as classes sociais, etnias e etc estão igualmente sujeitas ao crime. Mas, é isso que se vê ao visitar um presídio? Certamente não, pois a população carcerária é composta por uma maioria negra, pobre e moradora de áreas periféricas. Ignorando ainda as causas sociais, o que essa lógica nos permite afirmar é que negros, moradores de zonas periféricas e pobres cometem mais crimes, e se a criminalidade associa-se à problemas de caráter, então estes sujeitos são mais suscetíveis aos desvios de caráter. Acredito que, salvo algumas minorias racistas, boa parte desses direitistas (ou coxinhas) não sejam a favor de explicações de cunho racial. O que pretendo dizer com isso é que os argumentos acima apontados não se sustentam (sem a recorrência de explicações sociais) quando defrontados com a realidade, ou seja, o gigante tem pés de barro.   

            Tenho consciência de que o exemplo acima caracteriza uma significativa parcela da população que permanece mal informada, exatamente por recorrer apenas aos argumentos do posicionamento que faz parte. Há também partidários da direita que reconhecem as causas sociais como elemento essencial para o crime, ainda que não excluam maiores punições por conta da própria constituição psicológica do criminoso que representa um perigo para a sociedade. Ora, seria deveras limitado excluir a psicologia da questão do crime, mas da mesma forma que certas condições educacionais, culturais, familiares e etc forjam a psicologia dos sujeitos, esta pode ser transformada com a mudança condicional, já que o sistema psicológico dos indivíduos é uma eterna construção jamais terminada.

            E onde se situa a questão da educação política? Tendo em vista todo o argumento acima, é possível perceber que a insistente (des)informação sobre assuntos políticos que salta a nossa vista todos os dias em conjunto com o já citado acirramento de posições, faz com que os indivíduos optem por se informar e encontrar lógica em posicionamentos que não se sustentam nem quando jogados contra si mesmos. Retomando o argumento de Hochschild e Einstein, é possível perceber que informar os sujeitos de forma errada é ainda pior do que a falta de informação.

            O que proponho aqui, por fim, é pensar na educação política como um confronto de diversas posições, um confronto de ideias e práticas, capazes de mobilizar diversas instâncias para se pensar a política brasileira. Para se pensar a questão da criminalidade, é necessário enxergar este fenômeno como uma construção de diversas instâncias (educação, estrutura familiar, cultura, oportunidades, exploração, racismo e etc) para que soluções de combate sejam mais efetivas. Nos termos de Bruno Latour, é importante que os sujeitos se “articulem” mais, ou seja, é necessário que os sujeitos se deixem afetar por diferentes posicionamentos, questões, realidades e etc (não apenas ouvir, mas se deixar afetar) para que sua informação política seja mais rica e fidedigna à realidade que construímos, pois se a vida nos mostra a construção das coisas através de redes interconectadas, por que reduzir as percepções e soluções de problema a apenas uma única via explicativa? No fim, não estamos confrontando meras opiniões, mas soluções para problemas de fato. Se localizarmos uma erva daninha que drena a vida de uma árvore em nosso jardim, o que podemos fazer? Cortamos seus ramos e esperamos aparecer, inevitavelmente, outros ramos para cortar; ou arrancamos tal erva pela raiz? Se esta lógica for transporta para a questão do crime, percebemos o profundo abismo nas argumentações. Matamos o criminoso já formado ou evitamos que ele surja? A resposta para esta questão ainda parece fácil, mas como evitar o aparecimento? Se entendermos o crime como uma confluência de diversos fatores, basta que combatamos estes fatores para, ao menos, diminuir a criminalidade. Exatamente por essa série de fatores que destacam, em comum, o que sempre chamamos de “desigualdades sociais” que a defesa de programas políticos que combatam esta desigualdade sejam demasiadamente importantes. Neste sentido, bordões como “defensor de bandido” e “vitimista”, apenas mostram uma interpretação equivocada, simplista e ignorante de argumentos que reconhecem a diversidade de fatores constituem o crime. Não se trata de pensar o criminoso como “vítima da sociedade”, mas apenas reconhecer que motivos ligados à sociedade na constituição do sujeito criminoso, propondo então formas de intervenção na base social para que se evite o aparecimento de tal figura. Mas por que ainda há a insistente negação destes fatores se é interesse em comum, independente de posicionamentos políticos, combater a criminalidade? Por que não podemos ser, ao menos nestes momentos, mais pragmáticos e focalizarmos em formas eficazes de entendimento da construção da realidade para que se possa intervir? Uma resposta única seria contraditório a meus próprios argumentos, mas o acirramento político, provavelmente, é um motivo importante e essencial. Quanto mais se acirra as diferenças entre direita e esquerda, mais argumentos de uma única via e uma única lógica formam a base de informação destes sujeitos, e no sentido oposto, quanto mais argumentos de uma única via servem como base de informação, mas se acirra a diferença entre direita e esquerda.

            Como conclusão, é possível notar que a demanda por politização e informações a partir de 2013 gerou uma oferta de informações limitadas, pouco fundamentadas, tendenciosas e que não se propõem a perceber a multiplicidade que compõe a construção da realidade. Neste sentido é possível entender, além do caso dos “crimes”, o motivo de certos sujeitos apoiarem a PEC 241 justificando a necessidade de cortes na saúde e educação por conta de uma crise, mas que não cobram cortes no lucro de bancos nas amortizações e juros da dívida do Brasil, não se pronunciam sobre os mais de 40% de aumento no salário do judiciário, não cobram redução de salários e regalias da classe política, não reclamam da pensão vitalícia para filhas de militares, entre outras coisas. Quanto mais se acirra, menos estes posicionamentos se aproximam da realidade. Quanto mais argumentos da direita são mobilizados, mais se justifica medidas impopulares através de argumentos pífios, fundamentados em uma crença quase religiosa, mascarando e não respondendo questionamentos da esquerda, sendo que esta última termina por ser taxada de comunista, ainda que o termo seja extremamente mal usado e mal compreendido.

Avalie este item
(1 Voto)
Rafael Siqueira Machado

Rafael Siqueira Machado é graduado em Ciências Humanas e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF) e mestrando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFJF. Pesquisa atualmente os processos de construção das percepções entre tatuadores de Juiz de Fora, Minas Gerais.

voltar ao topo