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A musa em coma induzido

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A musa em coma induzido

Preâmbulo

Em diálogo com A musa falida (nota 1), conferência que Alcir Pécora, professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ministrou na abertura do ano letivo 2014-15 para os estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, este ensaio estabelecerá uma discussão sobre a crise contemporânea da literatura a partir de duas vertentes correlacionadas: (i) a crise da representação literária, na esteira da crítica (pós-)wittgensteiniana às (im)possibilidades de apreensão e ressignificação do mundo mediadas pela linguagem, e (ii) a perda de juízo crítico das obras de arte associada ao questionamento do cânone literário por parte dos estudos culturais, que florescem no mundo anglo-saxão – Pécora se refere ao contexto propriamente norte-americano – com a eclosão dos importantíssimos movimentos pelos direitos civis dos negros, dos latino-americanos, das mulheres e dos LGBTs em meados do século XX.

Ao fim e ao cabo, esperamos que o ensaio em questão possa insinuar que a crise da literatura – a estimular que os escritores (re)criem a literatura da crise (e/ou a literatura como crise) – ressignifica (e administra) a musa falida como uma musa em coma induzido.

I. Os limites da minha língua são os limites do meu mundo?

Comecemos nossa incursão pelo corredor polonês da crise literária a partir do problema que enreda o princípio de representação na teia de aranha da linguagem.

Alcir Pécora apreende as Investigações Filosóficas (1953), de Ludwig Wittgenstein, como o marco de “uma duríssima e, penso, irreversível, crítica da concepção da linguagem – e, por extensão, de todo o campo cognitivo, incluindo o da literatura –, como representação” (nota 2). Trata-se, basicamente, de postular que

o funcionamento da linguagem não pode ser entendido na esfera da representação, que se traduziria melhor como uma hipostasia da representação, pois ela funciona em seus próprios termos mesmo que represente aquilo que se supõe representado nela. Isso equivale a dizer, por exemplo, que a capacidade de a história relatar fatos ou de a filosofia representar uma ideia do mundo, ou de a literatura expressar um estado de alma etc. são apenas hipóteses internas à linguagem, nas quais o mundo externo não pode intervir (nota 3).

Assim, como decorrência do labirinto linguístico wittgensteiniano, a linguagem muitas vezes não representaria nada a não ser as suas próprias condições de operar em situações concretas com vistas a fins determinados. Tudo aquilo que lemos, então, representaria 

uma composição com o seu andamento próprio, com a sua regulação interna, (...) [e não haveria] como saltar diretamente da obra para cair no meio da realidade externa a ela (...). A crítica da representação evidencia a opacidade da linguagem que nada reflete sem a contaminação da coisa pelos seus próprios mecanismos, sem atraí-la para as suas próprias disposições, sem filtrá-la por suas convenções, sem inventá-la como existência das armadilhas que ela mesma prepara. (...) [Nesse sentido,] o que quer que um texto diga, não se vai descobrir a sua verdade sem levar em consideração o caminho que ele próprio toma, por meio de determinações discursivas que não podem ser controladas ou explicadas pelo que vigora fora delas. Sociedade e inconsciente, a rigor, estão penetradas por ela (nota 4).

Se levarmos a crise da representação que se vê enredada pela teia autorreferencial da linguagem às últimas consequências – como o faz, segundo Pécora, o pós-wittgensteiniano norte-americano Donald Davidson –, diremos que “a linguagem sequer existe, pois o que existem são os procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias, o que é em tudo diverso de apontar um conceito ou corpo substancial” (nota 5).

Para o solipsismo linguístico que lê o mundo como linguagem e representação – ou melhor, o mundo como representação da linguagem –, o lema é falo, logo existo, isto é, a linguagem ejacula o mundo.

Ora, talvez seja possível para Donald Davidson, egresso da Universidade de Harvard e professor das universidades de Chicago, Princeton, Stanford e Berkeley, considerar que a linguagem sequer existe, pois o que existem são os procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias. O trânsito inequívoco por círculos sociais altamente remediados e autorreferenciais bem pode hipostasiar a representação do mundo como um duelo de Narciso da linguagem consigo mesma, como se, a bem dizer, a realidade fosse determinada e reconfigurada por arguições em colóquios, simpósios e conferências acadêmicos. [Há aproximadamente 170 anos, os jovens Karl Marx e Friedrich Engels já haviam discorrido, n’A ideologia alemã, sobre o falseamento ideológico das apreensões acerca da efetiva (re)produção da realidade tendo como base a divisão entre os trabalhos intelectual e material.] Quando as ações de determinado indivíduo – ou, de forma mais rigorosa, quando as ações sociais de determinado indivíduo – têm o privilégio de florescer com um sentido (de classe) sobremaneira teleológico e livre dos muitos solavancos e contingências da privação, os procedimentos, desde sempre tangíveis e factíveis, parecem se estabelecer, de fato, em vista de determinados fins ou circunstâncias.

Ocorre que Donald Davidson chegou a lecionar na Universidade de Chicago, que fica em Hyde Park, atual bairro dos guetos negros e latinos da pauperizada e violenta região sul de Chicago. Se Davidson não tivesse falecido em 2003, o outrora professor da Universidade de Chicago poderia ser convidado para ministrar a aula magna Os limites da minha língua são os limites do meu mundo para os calouros e veteranos – via de regra, os winners do injusto sistema educacional dos EUA. Imaginemos, então, que, no meio da palestra – no clímax do solipsismo autorreferencial com a colocação de Davidson de que nem mesmo a linguagem existe, mas apenas os procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias –, começasse a ocorrer, nas imediações do campus, um tiroteio contrapondo gangues de narcotraficantes mexicanos e afro-americanos, porto-riquenhos e colombianos. Imaginemos, ademais, que um epígono de Tiros em Columbine ou um (autoproclamado) membro do Estado Islâmico invadisse o auditório e começasse a disparar sua submetralhadora adquirida quando da abertura de sua conta bancária (ou mesmo no supermercado mais próximo do campus). Imaginemos, por fim – prometo não prolongar, sadicamente, a agonia do leitor –, que apenas o professor Davidson e o autor deste ensaio tenhamos sobrevivido, miraculosa e literariamente, a esse bloodbath. {Entre os anos de 2014 e 2015, vivi em Chicago para realizar um estágio doutoral junto à Northwestern University e concluir minha tese sobre o escritor russo Fiódor Dostoiévski, cujo pathos se contrapõe encarniçadamente ao solipsismo linguístico da dupla Wittgenstein-Davidson. Ainda assim, eu teria muito interesse em assistir à aula magna em questão. [By the way: os leitores que conhecem Chicago sabem que o município de Evanston, onde fica a Northwestern, é muito longe de Hyde Park, onde eu morava. “Ora, mas por que você se submetia ao périplo de 4 horas (ida e volta) do sul ao norte da cidade todos os dias?” À época, este então doutorando recebia uma bolsa do governo federal brasileiro que, a despeito de me permitir uma manutenção condigna, não me possibilitava pagar os alugueis exorbitantes tanto da região centro-norte de Chicago quanto da caríssima Evanston. So, Hyde Park was my ticket: eis os procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias. (By the way once again: pouco depois de eu concluir meu estágio doutoral, em agosto de 2015 – na ciranda que se seguiu à crise político-econômica após a eleição presidencial de 2014 –, a bolsa sanduíche fornecida para os estudantes de pós-graduação pelo governo federal foi suspensa pelo segundo governo de Dilma Rousseff e recebeu extrema-unção com o governo Michel Temer: eis os novos/velhos procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias.)]} Mas voltemos ao clímax da aula magna que se havia convertido em brutal anticlímax: entre mortos e feridos, sobrevivemos ao bloodbath, miraculosa e literariamente, o professor Donald Davidson e o autor deste ensaio. Nossos rostos transtornados parecem encarnar o desespero da pergunta que se impõe ao auditório/necrotério tomado pelo cheiro de sangue e pólvora: como e por que uma barbaridade dessas pôde acontecer?

O professor Donald Davidson, quase sem acreditar que seu corpo de carne e osso conseguira sobreviver à linguagem da palestra, fica olhando, estupefato, para a lousa que estampa o título da aula magna: Os limites da minha língua são os limites do meu mundo. Súbito, o autor deste ensaio, sem que a linguagem autorreferencial possa explicar como ou por quê, entreouço a ironia de Machado de Assis pronta a reescrever – ou melhor, a arrematar – o título da aula magna que libertou a linguagem do labirinto autorreferencial e solipsista e voltou a fazê-la respirar o ar putrefato da realidade.

– Professor Davidson, e agora: Os limites da minha língua são os limites do meu mundo?

A esta altura do campeonato, os leitores já se deram conta de que as digressões narrativas deste ensaio são, elas mesmas, partes indissolúveis do fluxo argumentativo que pretende se contrapor à noção de crise inescapável da possibilidade de representação literária. (Ao proceder de forma criticamente metalinguística, este ensaio pressupõe que, em casa de ferreiro, o espeto não deve ser de pau.) Sendo assim, permitam-me levá-los da trágica aula magna na Universidade de Chicago para a Ilha do Fundão, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, onde fica a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Eis que, em um congresso literário – não me perguntem de que área, não me perguntem quando, a bem dos devidos decoro e discrição –, o autor deste ensaio assiste a uma apresentação de uma pesquisadora que, em dado momento, diz concordar, ontologicamente, com o dilema das obras do escritor norte-americano Paul Auster:

– A bem dizer, o narrador austeriano, fluido e hesitante, já não sabe (i) se é ele quem narra a sua estória; (ii) se é a linguagem da estória que se lhe impõe; ou, então, (iii) se sua existência literária como que fica oscilando entre essas duas esferas conflitantes, como se estivéssemos em uma casa de espelhos cujas representações, autorrepresentações e representações de representações tendessem ao infinito e como se já não soubéssemos quem verdadeiramente somos. Eis um reflexo-síntese para a Cidade de vidro de Paul Auster (nota 6).

Quando das perguntas após as apresentações, o autor deste ensaio levanto a mão esquerda e pergunto à pesquisadora austeriana:

– Suponhamos – bato na madeira três vezes antes mesmo de fazer a especulação – que uma bala perdida rasgue a janela deste nosso auditório e atinja a sua têmpora direita. (A pesquisadora arregala os olhos e quase faz o Pelo Sinal.) Se isso acontecesse – volto a bater na madeira três vezes –, quem seria alvejada: você, sua autorrepresentação ou a representação da sua representação?

Após minha pergunta, a pesquisadora me fulmina com um olhar que bem poderia disparar a tal da bala perdida e matar três coelhos com uma só cajadada: eu, minha autorrepresentação e a representação da minha representação.

Ora, venhamos e convenhamos: não deixa de ser verossímil que um acadêmico norte-americano provavelmente oriundo da upper middle class como Donald Davidson queira projetar o mundo, filosoficamente, como a casa de espelhos da linguagem – algo como a imagem especular e autorreferencial de sua estufa acadêmica. (Apesar de intelectuais/ativistas como Susan Sontag, egressa da Universidade de Harvard como Davidson, e Noam Chomsky, aclamado professor do Massachusetts Institute of Technology, bem poderem mostrar a Donald Davidson que suas ideias solipsistas, em meio à América imperialista e racista, desigual e neoxenófoba, estão efetivamente fora de lugar.) Agora, que dizer para uma pesquisadora brasileira que transplanta a casa de espelhos nova-iorquina de Paul Auster diretamente para o Rio de Janeiro?

Talvez Auster e a pesquisadora brasileira (potencial moradora da Zona Sul carioca?) pudessem visitar o Harlem, em Nova Iorque, e o Complexo do Alemão – a aproximadamente 10 km do campus da UFRJ, na Ilha do Fundão – para se depararem com histórias (já não seriam mais estórias) de casebres sem espelhos vivenciadas pelos escritores/ativistas negros James Baldwin e Paulo Lins. Diante da normalidade infracional das ações (para)policiais a arrombar portas, janelas e corpos, Auster e a pesquisadora descobririam, ontologicamente, quem são os sujeitos-objetos da frase I can’t breathe!

A crítica à possibilidade de representação filosófica ou sociológica, histórica ou literária do mundo postula que a linguagem, mediação universal, nada reflete sem a contaminação da coisa representada pelos próprios mecanismos da linguagem. Não haveria, nesse sentido, como saltar diretamente da obra para cair no meio da realidade externa a ela, já que as determinações discursivas não podem ser controladas pelo que vigora fora delas. A sociedade, assim, estaria penetrada pela linguagem.

Ora, a linguagem, conforme os incidentes envolvendo Donald Davidson e a pesquisadora carioca puderam nos contar, não conjuga sua loquacidade ou seu silêncio no éter. Necessariamente, a linguagem se desenvolve em meio ao mundo – a linguagem também é historicamente configurada. Nesse sentido, a linguagem, (suposta) mediação universal, também é mediada por processos de esferas sociais que não são imediatamente linguísticos.

É verdade que, quando Marx analisa o fetichismo da mercadoria no primeiro volume d’O capital, o autor precisa comunicar o processo de humanização das coisas e coisificação dos homens e mulheres que produzem as coisas – qualquer semelhança com o fetichismo da linguagem não nos parece mera coincidência – por meio da linguagem. No entanto, ao fetichizar a linguagem como se ela apenas respondesse a seus próprios procedimentos, o solipsismo linguístico não lida (ou melhor, não quer lidar) com as inflexões, modulações e transformações que as imbricações com a dinâmica própria ao objeto impõem à linguagem. Se a linguagem nada comunica sem a contaminação da coisa representada pelos próprios mecanismos da linguagem, a coisa representada não se deixa comunicar sem a contaminação da linguagem pelos próprios mecanismos da coisa representada. Assim, se os limites da minha língua são os limites do meu mundo, podemos dizer, reciprocamente, que os limites do meu mundo são os limites da minha língua.

Pensemos, nesse sentido, sobre as profundas agonias morais por que passa o jovem Raskólnikov, protagonista do romance Crime e castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski (nota 7).

Antena da raça, Raskólnikov apreende a morte histórica de Deus. Assim, para ser coerente com o novo culto niilista, o jovem intelectualmente intrépido resolve fazer um experimento para descobrir se está à altura do relativismo ético de sua época. Raskólnikov quer matar o Não matarás. [Para realizar tal tarefa, Raskólnikov não conta com o morticínio via satélite dos drones, a morte asséptica e cirúrgica que, além de transformar assassinatos em collateral damage, faz com que os mandatários apenas tenham que rubricar documentos com o cumpra-se que aciona toda uma cadeia de comando (e de cúmplices).] Raskólnikov, então, decide matar Alióna Ivánovna, a usurária cuja existência sem sentido só faz explorar a tudo e a todos. Um homem extraordinário como Napoleão – assim raciocina Raskólnikov –, aquele para quem tudo é permitido, sequer hesitaria diante de um piolho como Alióna Ivánovna. Se, hereticamente, estendêssemos a Raskólnikov o solipsismo de Donald Davidson para além do monastério da linguagem, bem poderíamos dizer que se trata de procedimentos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias.

Eis que Raskólnikov, munido de um machado, rasga a cabeça de Alióna Ivánovna – e da irmã da velha usurária que, coincidentemente, aparecera no apartamento da irmã no momento do crime. (Também é por esse motivo que o dolo militar norte-americano contabiliza baixas como collateral damage.) Estamos, neste momento, precisamente no fim da primeira parte de Crime e castigo. Todo o desdobramento posterior do romance gira em torno das agonias que Raskólnikov passa a sentir diante do duplo homicídio – o crime em face do castigo. Agora, se tivéssemos que refletir sobre as agruras de Raskólnikov linguisticamente, como o faríamos? Vejamos: sempre houve crimes na história da humanidade, então Raskólnikov não acaba de inventar a roda, isto é, há jurisprudência narrativa para seu duplo homicídio, de tal maneira que a crise, nesse sentido, não irrompe como uma completa impossibilidade de significação/intelecção para os crimes. Ocorre que, para Raskólnikov – ou melhor, para a época niilista de Raskólnikov –, não se trata apenas de um mero crime, mas de um teste relativista – a morte do Não matarás. Com o sangue aspergido por seu machado, Raskólnikov se imagina o fundador de uma nova era, isto é, já não podemos prever os desdobramentos narrativos para uma ação que pretende ressignificar o ato mesmo que profana a lei e os profetas. Por esse prisma, a crise de Raskólnikov após o duplo homicídio pode ser entendida como a colisão de uma série de tensões extralinguísticas que não conseguem enformar uma nova narrativa para reconciliar o jovem com seu novo eu. Senão, vejamos: uma coisa é conceber um assassinato; outra, realizá-lo. A despeito de o solipsismo refletir o narcisismo da linguagem apenas em seu próprio espelho, os homens e mulheres reais, os seres de carne e osso que falam a linguagem que vai sendo construída historicamente, vivem os tabus e interditos erigidos pelas sociedades. Infringir tais tabus e interditos, em termos linguístico-existenciais, significa proceder a uma completa reviravolta narrativa para a compreensão de si mesmo. Se o solipsismo abrisse a janela de sua mônada linguística, ele ouviria os gritos de dor e desespero de Raskólnikov por já não entrever um princípio de contiguidade e continuidade entre seu eu anterior e seu eu assassino – não à toa, a maestria de Dostoiévski dá vazão a fluxos e influxos de consciência lancinantes que quebram a linguagem e fazem com que os leitores (e o próprio Raskólnikov) já não saibamos quem está enunciando a crise (se o narrador em terceira pessoa, se o próprio torpor de Raskólnikov). Ademais, Raskólnikov é um jovem inteligente, vaidoso e cioso de sua valentia. A crise por causa do fardo de ter aspergido sangue alheio também se vê transpassada pela vergonha de não suportar o fardo de ter aspergido sangue alheio. [Raskólnikov, então, não estaria à altura de Napoleão, o jovem não seria um ser extraordinário, para quem tudo é permitido, mas um ser ordinário vivendo sob a tutela (arbitrária) da lei e dos profetas.]

A agonia de Raskólnikov nos mostra que o solipsismo pragmático de Donald Davidson teria dificuldade em determinar os procedimentos linguísticos que se estabelecem em vista de determinados fins ou circunstâncias. Para a dor existencial de Raskólnikov – dor que não consegue se (res)significar como a linguagem de uma nova representação e como a representação de uma nova linguagem; dor que, precisamente por isso, se alimenta de si mesma e de Raskólnikov –, os limites expandidos do meu mundo representam os limites da minha língua. Se Raskólnikov conseguir suportar o fardo do Não matarás como o extorsionário, pedófilo e suicida Svidrigailov (Crime e castigo), o assassino Rogójin (O idiota), o suicida Kiríllov (Os demônios) e os parricidas Ivan Karamázov e Smierdiakov (Os irmãos Karamázov), sua linguagem incorporará e ressignificará, como uma nova dimensão de sua dinâmica, a crise que expande os limites do mundo – e da própria linguagem. Do contrário, a loucura se tornará um destino manifesto – loucura que, linguisticamente, talvez deva ser entendida como a impossibilidade de concatenação da linguagem para gerar uma narrativa minimamente inteligível para o eu.

As críticas aos sociologismos, filosofismos e psicologismos que reduzem a literatura a um mero apêndice para as discussões categoriais dessas outras esferas do conhecimento me parece devida. Assim, concordo com a filosofia da linguagem de matriz wittgensteiniana quando, segundo Alcir Pécora, ela afirma que “não há como saltar diretamente [grifo meu] da obra [literária] para cair no meio da realidade exterior a ela”. Mas, se não há como saltar diretamente da obra para o mundo, é possível analisar, mediatamente, isto é, com as devidas mediações que desvelem os momentos poéticos de formação e enformação das obras literárias e de sua linguagem, como se dá o diálogo e a imbricação entre as obras e o mundo de que, afinal, a literatura e a linguagem fazem parte. Afinal, se a sociedade e a psique estão, de fato, penetradas e mediadas pela linguagem, a linguagem também está penetrada e mediada pela sociedade e pela psique.

Diante da crise da representação literária, o escritor argentino Ernesto Sabato, cuja obra está profundamente embebida pelo pathos que busca representar e reapresentar o mundo em termos literários, nos pergunta, em O escritor e seus fantasmas (nota 8), se deveríamos falar em crise da literatura ou se deveríamos criar a literatura da crise. Imbuído da compreensão de que os homens e mulheres somos seres históricos, pessoas que sofrem, com o corpo e com a existência, os caminhos e descaminhos da história que a modernidade transvalorou como a latência da utopia, a crise da representação literária como a inequívoca impossibilidade de a literatura discorrer (artisticamente) sobre o mundo desponta, para Ernesto Sabato, não como mais um capítulo da história das ideias, mas como a capitulação da arte e do pensamento em face do atual estado de coisas.

Não se trata, aqui, de ignorar os questionamentos e tensões que a filosofia da linguagem de matriz (pós-)wittgensteiniana espraiou por todos os ramos das humanidades. Trata-se, conforme este ensaio vem tentando argumentar, de desvelar os pressupostos heurísticos – ou melhor, ideológicos – do solipsismo linguístico como uma tomada de posição para a qual, diante da (suposta) impossibilidade de explicar o (e de intervir no) mundo, as análises filosóficas, históricas, sociológicas e psicológicas – e o ímpeto de síntese da literatura a lançar mão de todas essas esferas do conhecimento – não passariam de “organizações discursivas, circunstâncias de fala, construções de discurso contra discurso, de discurso em torno de discurso, em que os fatos ou a realidade externa ao discurso não podem decidir a natureza do seu sentido” (nota 9).

Diante de um mundo supostamente erigido pela sobreposição de discurso contra discurso e de discurso em torno de discurso – um mundo, em suma, que o solipsismo linguístico bem poderia batizar de palavras cruzadas –, terminemos o primeiro excurso deste ensaio com uma história (ou melhor, uma estória) que nos parece sumamente elucidativa, uma estória vivenciada pelo militar e senhor rural alemão Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen (1720-1797), também conhecido como o Barão de Münchhausen (nota 10).

Apesar de ser um exímio cavaleiro, consta que, certa feita, o Barão de Münchhausen teria caído do cavalo. [Discurso contra discurso, os cronistas divergem sobre se nosso herói teria caído em um pântano de areia movediça ou em um buraco profundo. (Discurso sobre discurso, os cronistas concordam que o Barão de Münchhausen teria caído do cavalo.)]

Quanto mais nosso herói se debatia para tentar se livrar da areia movediça, mais ele chafurdava no pântano.

Quanto mais nosso herói saltava para tentar alcançar a boca do buraco, mais extenuado ele ficava.

Discurso contra discurso e discurso sobre discurso, os cronistas são unânimes em dizer que o Barão de Münchhausen, em profundo desespero, só fazia gritar:

– Sooocooorrooo! Alguém me ajude, pelo amor de Deus! Sooocooorrooo!

Nada. Ninguém.

Aventureiro como ele só, o Barão de Münchhausen adorava se embrenhar por lugares ermos. (Eis uma vítima do próprio destemor.)

No pântano movediço, nosso herói logo morreria asfixiado.

No buraco profundo, nosso herói esturricaria de sede e de fome.

Discurso contra discurso e discurso sobre discurso, os cronistas são unânimes em dizer que o Barão de Münchhausen, além de se esvair em preces e orações, acabou entoando uma súplica ao Chapolim Colorado:

– Ó, e agora quem poderá me ajudar?!

Súbito, nosso herói, ungido por uma verdadeira iluminação, lança mão de procedimentos que se estabelecem em vista de seu fim determinado. Discurso contra discurso, alguns cronistas consideram que o Barão de Münchhausen teria empregado os cadarços de seus sapatos como corda para escapar da areia movediça e/ou do buraco. Discurso sobre discurso, alguns cronistas consideram que o Barão de Münchhausen teria empregado os próprios cabelos – alongados com seus puxões em desespero – como corda para escapar do buraco e/ou da areia movediça. Discurso contra discurso e discurso sobre discurso, o fato é que nosso herói escapou relativamente são e salvo.

Ocorre que, após a autorredenção, o Barão de Münchhausen começou a ser acossado por dúvidas que não mais o abandonaram.

Nosso herói parecia não acreditar em sua autorredenção – discurso sobre discurso, os cronistas são unânimes em dizer que não havia nada de errado com sua saúde, mas seu corpo definhava.

Súbito, o Barão de Münchhausen se vê prostrado em sua cama – discurso contra discurso, os cronistas até hoje não acreditam que nosso herói, quiçá delirando, dizia sentir saudade de seus dias de pântano movediço e/ou buraco profundo. (Discurso sobre discurso, os cronistas sequer resvalam, até hoje, quaisquer possibilidades de explicação para tamanho desatino. Afinal, a realidade externa ao discurso não pode decidir a natureza do seu sentido.)

Súbito, o Barão de Münchhausen falece. [Discurso contra discurso e discurso sobre discurso, os cronistas se apressam a descrever e a inventariar o espólio de nosso herói. (Afinal, a realidade externa ao discurso bem pode decidir a natureza do seu sentido.)]

Súbito, os cronistas encontram um pedaço de papel sob o travesseiro de penas de ganso de nosso herói. Do papel amassado consta uma frase escrita com letra sôfrega – discurso contra discurso e discurso sobre discurso, os cronistas chegam à conclusão de que se trata da última frase que o Barão de Münchhausen escrevera com seu derradeiro fio de vida.

Súbito – e para a consternação dos discursos que, até hoje, se sentem presos no pântano movediço e/ou no buraco profundo do enigma legado por nosso herói (afinal, o discurso externo à realidade não pode decidir a natureza do seu sentido) –, os cronistas leem, em coro, a frase terminal do Barão de Münchhausen:

Se os limites da minha língua são os limites do meu mundo,

quem poderia ser o sujeito da frase eu acabei de morrer”?

II. Whenever you find yourself on the side of the power,

it is time to pause and reflect

O segundo excurso deste ensaio desdobra um aspecto vinculado à crise da representação literária – crise que, como vimos, pressupõe uma série de questionamentos em relação à (im)possibilidade de as humanidades explicarem e ressignificarem o mundo – para chegar àquilo que Alcir Pécora apreende como a atual perda de universalidade e de autoridade do juízo crítico das obras de arte em correlação com o questionamento em relação às obras e aos autores que constituem o cânone literário (nota 11).

A análise de Pécora parte dos estudos culturais que se espraiam nos Estados Unidos, a partir de meados do século XX, em correlação com os importantíssimos movimentos em defesa dos direitos civis dos negros, dos latino-americanos, das mulheres e dos LGBTs. Pécora nos diz que esses movimentos

tiveram um rebatimento decisivo dentro da discussão universitária, e particularmente da discussão literária, nos termos daquilo que ficou conhecido como o debate do cânone. (...)O que aconteceu a partir da discussão norte-americana do cânone é que, de repente, revelava-se haver uma política das hierarquias culturais e não uma lei natural inscrita no campo da literatura. (...) [Assim,] a ideia de cânone responde cada vez menos a uma ideia universal, natural e historicamente objetiva, reduzindo-se ou encolhendo-se até abrigar apenas os valores que organizam o poder discriminatório no país. O efeito cumulativo dessas denúncias do cânone levou a um processo de revisões relativas aos vários segmentos que se entendiam como vítimas de exclusão sistemática. Nomes de escritores gays, negros, latino-americanos, ou de mulheres, por vezes associados a todas essas categorias juntamente, são sugeridos para ocupar o seu lugar por direito no cânone, que sofre então uma espécie de expansão, chamemo-lo assim, com base no argumento da diversidade de perspectivas, considerada mais representativa e democrática. (...) [Nesse sentido,] mesmo quem está absolutamente apegado ao legado de uma literatura universal, não tem já como fingir que essas razões identitárias ou comunitárias não precisam ser levadas em consideração (nota 12).

Podemos ilustrar a importância do questionamento da constituição conservadora do cânone literário com um exemplo brasileiro que ocorreu há pouco mais de uma década.

Todos assistimos ao filme Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles. Mas nem todos sabem que o filme foi baseado no romance homônimo de autoria do escritor, poeta, roteirista e professor negro Paulo Lins (nota 13), que fora morador da Cidade de Deus, favela que fica na periferia da cidade do Rio de Janeiro.

À época, houve debates acalorados (e não devidamente divulgados) entre Fernando Meirelles e Paulo Lins sobre os possíveis sentidos suscitados pela adaptação cinematográfica, sentidos que teriam subvertido construções do romance. Lins chegou a acusar Meirelles de ser lombrosiano, em referência ao psiquiatra e criminologista italiano Cesare Lombroso (1835-1909), uma vez que, para o escritor, a personagem Dadinho, que depois se torna o violentíssimo narcotraficante Zé Pequeno, parecia já ter nascido predisposta ao crime no filme (nota 14).

Na esteira do sucesso acachapante do filme Cidade de Deus, o interesse da audiência também se voltou para o autor do romance. (No Brasil histórica e dolosamente subletrado, a literatura se reproduz como arte subsidiária.) No dia 30 de setembro de 2002, Paulo Lins esteve no centro do Roda Viva, tradicional programa de entrevistas da TV Cultura (nota 15). Em dado momento, um dos jornalistas que o entrevistavam fez uma pergunta a Paulo Lins que o deixou literária, existencial e politicamente desconcertado. O jornalista queria saber se o escritor concordaria com a noção de que, para muitos leitores, Cidade de Deus não era uma obra propriamente ficcional, mas um romance de caráter documental em relação à realidade que o próprio autor vivenciara. Como contraponto, Paulo Lins começou a discorrer sobre sua formação em Letras na UFRJ e passou a apresentar os autores que mais o influenciaram, entre os quais Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto, como se o escritor estivesse diante de autoridades inquisitoriais para as quais precisasse provar que sua grande obra não era apenas um plágio da realidade, mas uma criação literária efetiva.

É preciso dizer que vários espectadores progressistas – entre os quais o autor deste ensaio – enviamos perguntas por telefone ao Roda Viva para que o apresentador do programa questionasse o jornalista sobre se (i) ele de fato havia lido o ótimo Cidade de Deus e (ii) sobre se essa mesma pergunta teria sido feita caso o autor entrevistado fosse branco e tivesse uma proveniência social radicalmente distinta. {A ironia de canto de boca de Paulo Lins – ironia amarga e repleta de um sentido legítimo de revolta – como que deixava entrever que, para o negro que ousa ser escritor (ainda pior: um escritor negro efetivamente reconhecido), o autoritarismo inquisitorial deixa de ser jurídico-policial para se tornar midiático. [Conforme os desenlaces atualíssimos do processo de impeachment (grifo da ironia de Paulo Lins) da presidenta Dilma Rousseff nos puderam mostrar, trata-se de dois lados de uma mesma moeda (de troca).]} 

Em maio de 2003, Paulo Lins concedeu uma entrevista à revista (esquerdista) Caros Amigos (nota 16). Em determinado momento, um dos entrevistadores pediu ao escritor que comentasse a importância do crítico literário Roberto Schwarz para a carreira de Paulo Lins.

Ora, como alguém que trilhou toda a pós-graduação em um departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada – e como alguém que está estabelecendo uma discussão que ora parte dos pressupostos político-sociais dos estudos culturais –, digo que os nomes de grandes escritores não são usualmente associados aos críticos e à estrutura (político-)literária que lhes propiciaram reconhecimento. No entanto, quem se propuser a conhecer os primórdios da carreira literária de Dostoiévski (nota 17) chegará ao nome do influentíssimo crítico literário Vissarion Grigorievitch Biélinski (1811-1848), que aclamou (e disseminou) com muito entusiasmo o primeiro romance do escritor, Gente pobre. Eu me lembro, ademais, de um curso de Teoria Literária II em que a professora dizia que a análise primeira de Antônio Cândido em relação à então jovem Clarice Lispector se mostrara acertada: as obras de maturidade de Clarice – ou melhor, a obra como um todo – só fizeram confirmar o vaticínio de um de nossos maiores críticos literários.

É claro que, se as obras de Dostoiévski e Lispector não fossem formidáveis, elas, por si sós, não gerariam tamanha efervescência para a constituição de longevas fortunas críticas. Ocorre que, neste momento deste ensaio, trata-se de questionar as obras por si sós, isto é, trata-se de questionar a noção de que as obras literárias caminhariam com as próprias pernas sem que houvesse enormes e encarniçadas disputas em suas recepções para forjar o olvido e/ou a imortalidade de determinados autores. Nesse sentido, como negar a importância de Biélinski para a inserção imediata de Dostoiévski, que então contava com apenas 26 anos, como uma estrela de primeira grandeza da plêiade literária russa dos anos 1840? [Quando Dostoiévski procura imprimir uma marca mais propriamente sua – para além dos marcos do realismo social que Biélinski hasteava como suma bandeira político-literária –, o mesmo crítico que elevara Gente pobre ao estrelato condena O duplo ao ostracismo. [Duas décadas mais tarde, em seu Diário de um escritor, Dostoiévski viria a dizer, sobre O duplo, que nunca havia chegado a dar uma contribuição mais séria para a literatura do que essa (nota 18).] Que dizer, ademais, sobre a chancela de um crítico importantíssimo como Antônio Cândido para que as portas dos contatos editoriais e jornalísticos se abrissem para Clarice Lispector? A chancela crítica, é claro, não determina a qualidade e a profundidade da obra, mas bem pode (in)viabilizar sua circulação e inserção.

Ora, se pau que bate em Chico também deve bater em Francisco, que os nomes de Biélinski e Cândido sejam associados a Dostoiévski e Lispector, assim como Paulo Lins é recorrentemente associado a seu padrinho literário Roberto Schwarz. Ao dizer isso, não estou atribuindo laivos inequívocos e/ou velados de racismo e discriminação social nem ao entrevistador da Caros Amigos nem ao jornalista do Roda Viva, apesar de as respostas de Paulo Lins darem o tom para a tarimba do escritor negro que foi socializado sob a chibata da democracia/demagogia racial à brasileira. Ao invés de recitar a dócil obviedade de que a chancela de alguém como Roberto Schwarz viabiliza a obra literária de Lins e lhe abre as portas para a Companhia das Letras, Paulo Lins como que dá um sutil (mas não menos cortante) tapa de luva de pelica no entrevistador e começa a discorrer sobre a influência que as obras tanto de Roberto Schwarz quanto dos irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos – desafetos literários de Schwarz – tiveram para a sua formação.

Então, para arrematar este momento do nosso ensaio com (mais) uma tirada espirituosa de Paulo Lins – algo como a mão que calça a luva –, eis uma colocação do escritor, em meados de 2011, diante do saudoso Antônio Abujamra e suas Provocações, programa que também ia ao ar pela TV Cultura:

A classe média e a elite brasileiras são muito arrogantes. Além de o Brasil ter uma divisão social totalmente desproporcional, além de a nossa economia ser totalmente injusta, [a classe média e a elite brasileiras] têm arrogância, têm prepotência e têm racismo. Além de você ser pobre, você tem que ser honesto, você tem que abaixar a cabeça. Então, [Paulo refere-se agora à criminalidade como uma resposta não apenas à privação material, mas como uma tentativa de obtenção de reconhecimento social] às vezes você perde as estribeiras e comete crimes. [Na favela,] Você já tá no inferno? Então você vai e dá um tapa na cara do diabo (nota 19).

Por falar em Satanás, chega o momento de este ensaio exercer um papel para o qual parece ter sido vocacionado desde o seu início: o papel de advogado do diabo.

É claro que, em meio ao campo progressista, devemos louvar o aumento da politização e da combatividade dos movimentos negro, feminista, pela causa LGBT e pela igualdade social. [Com todas as suas emaranhadas contradições político-sociais, os governos do PT no âmbito federal viabilizaram uma importante ampliação de tais debates – que o digam os vários movimentos conservadores e reacionários (com os quais o PT também manteve relações pra lá de incestuosas) que, diante do (suposto) espectro vermelho, passaram a protestar, de verde e amarelo, em uma versão atualíssima (e quiçá ainda mais cínica e autoritária) da marcha da família com Deus pela liberdade.] Ademais, é muito importante o arejamento crítico e democrático que os estudos culturais trazem para questionar e ampliar as estruturas ossificadas do cânone literário. No entanto, como bem pontua Alcir Pécora, “encarar a dimensão dessas contradições não significa que devemos nos satisfazer com as condições atuais do debate” (nota 20).

Quando a Rede Globo começa a absorver – ou melhor (ou pior), a cooptar – as demandas de representação/aparição de grupos historicamente marginalizados em suas telenovelas e em um programa como o Esquenta, apresentado pela popular Regina Casé, é preciso parar para refletir. [Neste momento, as dissonâncias eletivas entre liberdade de expressão e liberdade para o (grande) mercado, ímpeto legítimo de reconhecimento social e cooptação do horizonte de expectativas e mudanças nos permitem reformular um aforismo de há pouco mais de cem anos (1904) do escritor norte-americano Mark Twain: Whenever you find yourself on the side of the power, it is time to pause and reflect (nota 21).]

Na esteira da relativa porém importante inserção simbólica e social de grupos historicamente excluídos e marginalizados ao longo dos 13 anos do PT no governo federal, podemos perguntar, ao lado de Alcir Pécora, se estaríamos diante de um efetivo desejo de democracia, ou se tais grupos, justamente pela relativa inserção em termos políticos, sociais e econômicos, não estariam buscando, na verdade, apenas um lugar prestigioso de representação cultural (nota 22).

Ao invés de pensarmos em termos alternativos ou democracia efetiva, ou aceitação pelo status quo –, talvez devêssemos investigar de que horizonte democrático se trata. Será que não estaríamos diante de anseios de transformação circunscritos pela mera casca de representatividade democrática que o capitalismo (não) propicia? Nesse sentido, grupos historicamente marginalizados, com suas demandas legítimas, constituiriam novos nichos de mercado para a indústria cultural claramente avessa a quaisquer transformações radicais da sociedade. [Vale frisar que os novos nichos de mercado não são estanques: com o solapamento da relativa inserção político-simbólica dos grupos historicamente marginalizados e dos movimentos sociais após o golpe parlamentar que expulsou o PT do governo federal, aliado à crescente articulação de bandeiras conservadoras, bem podemos projetar que novos nichos de mercado, à direita, ocupem o espaço publicitário que lhes é de direito e expulsem os neófitos exóticos (grifo dos epígonos de Jair Messias Bolsonaro).]

Em termos propriamente literários, os importantes questionamentos sobre o caráter excludente do cânone majoritariamente branco, masculino, heterossexual e financeiramente remediado que os estudos culturais nos trazem não podem, a meu ver, abstrair a configuração imanente das obras. O primeiro excurso deste ensaio já analisou a (e se contrapôs à) crise inequívoca da representação literária que leva(ria) à perda de juízo crítico das obras em relação à compreensão e à ressignificação do mundo. Assim, trata-se de questionar não apenas a possibilidade de o cânone se tornar mais flexível e democrático, mas de criticar (i) a profunda desigualdade de acesso à educação que reproduz a cultura como privilégio e (ii) a reprodução dos valores e práticas dominantes como autorrepresentação literária narcísica. {Se o horizonte de transformação dos grupos historicamente marginalizados se ativer aos marcos da logicidade própria à dominação, negros, mulheres, LGBTs e pobres não buscarão transvalorar, radicalmente, a identidade histórica do homem com o general e o carrasco. Eles apenas quererão que os galões e a farda dos generais possam condecorar e fantasiar novas metamorfoses de Napoleão. [É como se a dinâmica da democracia mutilada pelo capitalismo pudesse comportar a expansão irrestrita da elite dominante, até que chegássemos a uma democracia burguesa de dominadores sem dominados (!). (Nesse sentido, Dostoiévski, Nietzsche e Freud bem poderiam dizer que a revolta dos humilhados, ofendidos e ressentidos faria com que o retorno do reprimido emergisse com ainda mais requintes de sadismo e crueldade.)]}

Se o horizonte de transformação do cânone literário for radical a ponto de questionar (i) a exclusão histórica, social e simbólica dos grupos marginalizados; (ii) o privilégio que os artistas considerados hegemônicos detêm para criar obras melhores, mais eruditas e complexas – em suma, mais belas – segundo parâmetros estéticos que a crítica literária vem estruturando em diálogo com os demais campos das humanidades; (iii) o privilégio de edição, divulgação e distribuição das obras consideradas canônicas e elevadas ao cânone por grandes empresas midiático-editoriais, chegaremos a dizer que não se trata apenas de democratizar o cânone, mas de criticar e transformar a sociedade que reproduz a lógica do cânone como necessidade de exclusão e hierarquização. Assim, seria possível estruturar hierarquias de talentos e obras sem que isso significasse e reproduzisse hierarquias sociais, étnicas, de gênero e de orientação sexual. A desigualdade – utilizemos um termo quiçá menos conivente com os aguilhões da história: a distinção – entre as obras literárias não seria fruto da desigualdade social em seus diversos matizes. A distinção artística, municiada pela igualdade, faria florescer a diferença.  

Neste momento, parece-me propício corroborar o desconforto e a inquietação que Alcir Pécora sente em relação às contraditórias afinidades eletivas entre o horizonte de transformação do cânone literário relacionado aos estudos culturais e uma colocação de Jeffrey Preston Jorgensen, mais conhecido como Jeff Bezos, polêmico dono da Amazon e um dos homens mais ricos do mundo. “Conforme Bezos explicou no editorial feito por ocasião do lançamento de sua plataforma de autopublicação, disponível para quem quer que deseje vender seu livro, qualquer queixa ou exigência de ‘expertise’ é ‘a mere mask of prejudice, class, and cultural privilege’” (nota 23). ( Whenever you find yourself on the side of the power, it is time to pause and reflect.) Assim, prossegue Pécora,

não importa a qualidade do livro publicado, mas sim que [ele] consigne a Amazon como agente dessa transação, com direito a uma percentagem importante dela. Nenhum critério estético se aplica sobre o produto, a fim de que ele possa ser vendido na Amazon – e, no futuro, quem sabe, apenas se venda na Amazon. (...) [Ora,] Quando Bezos levanta a bandeira da democracia para extinguir os filtros críticos dos livros autopublicados na Amazon, ele não está interessado nos caminhos da literatura, mas na ampliação de sua plataforma de mercadorias. O que ele está fazendo é usar a noção naturalmente confusa de democracia como argumento para sustentar de maneira edificante o que, posto em seus termos óbvios, trata apenas de obter compradores para produtos cuja natureza não lhe importa: este [é] o sentido direto de todo o seu cuidado com a ‘comunidade de leitores’. Substituir leitura e leitores por compradores, literatura e democracia por censura da crítica não pode ser mais desonesto apenas porque é demasiado explícito em seus propósitos (nota 24).

Quando a crise (supostamente) inequívoca da representação literária desemboca em afinidades eletivas entre os (supostos) questionamentos do cânone literário pelos estudos culturais e a mutilação da literatura pela democracia de mercado [grifo/riso de Jeff Bezos]; quando a indústria cultural nos mostra a maleabilidade de suas metamorfoses para reificar demandas legítimas de transformação social e cultural em pulsão para o consumo de (ainda) mais mercadorias, Karl Bezos, financiado pelo megainvestidor Friedrich Engels, só faz sentenciar:

– Compradores de todos os países, uni-vos!

III. Referências bibliográficas

AUSTER, Paul. Cidade de vidro. In: A trilogia de Nova Iorque. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

CAETANO, Maria do Rosário. Fernando Meirelles: biografia prematura. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2001.

FRANK, Joseph. Dostoiévski: as sementes da revolta, 1821-1849. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Edusp, 1999.

LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

________ . “Sem medo de ser”. Entrevista concedida à revista Caros Amigos. São Paulo: Editora Casa Amarela, ano VII, nº. 74, maio de 2003.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Luciano Cavini Martorano, Nélio Schneider e Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARK, Karl. O capital. Volume 1. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2014.

PÉCORA, Alcir. A musa falida. In: Sibila. Revista de poesia e crítica literária. 06 de fevereiro de 2016. Link para o texto: http://sibila.com.br/critica/a-musa-falida/12349. Consulta feita em 08 de novembro de 2016.

RASMUSSEN, R. Kent (Editor). The Quotable Mark Twain: His Essential Aphorisms, Witticisms & Concise Opinions. New York: McGraw-Hill Education, 1998.

RASPE, Rudolf Erich. As aventuras do Barão de Münchhausen. Tradução de Ana Goldberger. São Paulo: Iluminuras, 2010.

SABATO, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

IV. Referências audiovisuais

LINS, Paulo. Entrevista para o programa Roda Viva. São Paulo: TV Cultura, 30 de setembro de 2002. Link para o programa a partir da página do Centro de Documentação da TV Cultura: http://cmais.com.br/cedoc/acervo/Videos_BE32210_0_03_36.html.

________ . Entrevista concedida ao programa Provocações. São Paulo: TV Cultura, 2011. Links para o programa a partir do acervo disponível na página da TV Cultura:

Bloco 1: http://tvcultura.com.br/videos/12902_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-1.html;

Bloco 2: http://tvcultura.com.br/videos/12411_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-2.html;

Bloco 3: http://tvcultura.com.br/videos/12406_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-3.html.

LUND, Kátia e MEIRELLES, Fernando. Cidade de Deus. Rio de Janeiro: O2 Filmes, 2002.

NOTAS

(1) A musa falida. In: Sibila. Revista de poesia e crítica literária. 06 de fevereiro de 2016. Link para o texto: http://sibila.com.br/critica/a-musa-falida/12349. Consulta feita em 08 de novembro de 2016.

(2) A musa falida, conferir nota 1.

(3) Idem.

(4) Ibidem.

(5) Ibidem.

(6) Paul Auster, Cidade de vidro. In: A trilogia de Nova Iorque. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

(7) Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2001.

(8) Ernesto Sabato, O escritor e seus fantasmas. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

(9) A musa falida, conferir nota 1.

(10) Rudolf Erich Raspe, As aventuras do Barão de Münchhausen. Tradução de Ana Goldberger. São Paulo: Iluminuras, 2010.

(11) A musa falida, conferir nota 1.

(12) Idem.

(13) Paulo Lins, Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

(14) Eis os comentários de Fernando Meirelles, que constam do livro Fernando Meirelles: biografia prematura, de autoria de Maria do Rosário Caetano (São Paulo: Imprensa Oficial, 2007, pp. 204-205), sobre essa discussão encarniçada com Paulo Lins: “Essa [era] nossa intenção [em relação à caracterização da personagem Dadinho/Zé Pequeno]. Na apresentação do Dadinho, havia uma locução que dizia: ‘Alguns já chegavam à Cidade de Deus como se tivessem vocação para o crime’. O Paulo [Lins] nos pediu para trocar a frase. Defendia que a perversão do Dadinho deveria ter alguma raiz justificável, algum culpado. Resolvi então conhecer a mãe do verdadeiro Zé Pequeno (o Dadinho) para encontrar a raiz da personalidade do seu filho bandido. Esperava pelo pior, mas para minha surpresa encontrei uma senhora esclarecida, orgulhosa de ter trabalhado a vida toda para sustentar os filhos, numa casa simples, mas muito em ordem, com uma família estruturada. Sua filha, que estava lá também, é trabalhadora e tem uma vida regular. Perguntei-lhe como o Dadinho poderia ter saído daquele jeito. Ela disse que não entendia, não sabia explicar. Disse que ele teve a mesma educação dos irmãos. Era o típico ovelha negra presente em muitas famílias, pobres ou ricas, concluí. A pobreza ou a falta de oportunidades em casos extremos pode eventualmente levar ao crime, mas não justifica os requintes de crueldade que o verdadeiro Zé Pequeno praticava. Caberia à Psicologia, e não à Sociologia, explicar as razões de seu comportamento. Achei que seria uma saída simplista e redutora dar a entender que a falta de oportunidades teria levado Zé Pequeno ao crime hediondo. Entre o simplismo redutor de um discurso politicamente correto ou a complexidade da vida, fui fiel ao que vi. Contra a vontade do Paulo [Lins], mantive o Dadinho como aparece no filme, mesmo sabendo que iria levar chumbo de todo lado. E levei”.

(15) Link para o Roda Viva de que Paulo Lins participou a partir da página do Centro de Documentação (CEDOC) da TV Cultura:

http://cmais.com.br/cedoc/acervo/Videos_BE32210_0_03_36.html.

(16) “Sem medo de ser”. Entrevista do escritor Paulo Lins à revista Caros Amigos. São Paulo: Editora Casa Amarela, ano VII, nº. 74, maio de 2003.

(17) Para mais detalhes sobre o período inicial da vida literária de Dostoiévski, conferir o primeiro volume da pentalogia – para os entusiastas de Dostoiévski, o pentateuco – que o crítico literário norte-americano Joseph Frank (1918-2013) escreveu sobre a vida e a obra de Fiódor Dostoiévski e o campo literário de que o escritor não apenas fez parte, mas cujos rumos contribuiu para delinear com enorme protagonismo: Dostoiévski: as sementes da revolta, 1821-1849. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Edusp, 1999.

(18) Conferir Joseph Frank, vide nota 17.

(19) Eis os links para os três blocos que compõem a entrevista que Paulo Lins concedeu ao programa Provocações a partir do acervo disponível na página da TV Cultura:

Bloco 1: http://tvcultura.com.br/videos/12902_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-1.html;

Bloco 2: http://tvcultura.com.br/videos/12411_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-2.html;

Bloco 3: http://tvcultura.com.br/videos/12406_provocacoes-recebe-o-escritor-paulo-lins-bloco-3.html.

(20) A musa falida, conferir nota 1.

(21) Ironicamente, o aforismo original de Twain diz que “Whenever you find yourself on the side of the majority, it is time to pause and reflect”. In: The Quotable Mark Twain: His Essential Aphorisms, Witticisms & Concise Opinions. New York: McGraw-Hill Education, 1998, p. 37.

(22) A musa falida, conferir nota 1.

(23) Idem. 

(24) Ibidem.

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