A+ A A-

Dostoiévski, história e crueldade

Chicago, 07 e 08 de mar;o de 2015

I. Um talento cruel?

Nikolai Konstantínovitch Mikhailóvski (1842-1904) foi durante várias décadas a principal voz crítica no interior do movimento populista (…) – não confundir com o populismo latino-americano, com o qual não guarda nenhuma semelhança –, uma forma especificamente russa de socialismo voltada para o mundo agrário e adversária da perspectiva industrializante do marxismo. Apesar disso, cumpriu um papel importante na difusão de Marx na Rússia, assim como das ideias de pensadores como Comte, Spencer e Proudhon. Teve uma vida de intensa agitação política. Na juventude, foi expulso do instituto de mineração de São Petersburgo por participação em protestos. O governo o exilou quatro vezes, nas províncias. Valeu-se de dez pseudônimos ao longo de sua atividade editorial, durante a qual atuou como editor e principal crítico nos periódicos Anais da Pátria, de 1868 a 1884, e Riqueza Russa, de 1892 a 1904. Seus artigos sobre assuntos literários foram extremamente polêmicos, sendo que este [Um talento cruel], sobre Dostoiévski, certamente se encontra entre os cinco textos mais influentes já escritos sobre o autor de Crime e Castigo (…)[1].

            Nikolai Mikhailóvski publicou o ensaio Um talento cruel em 1882. Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski morrera em 1881. “Note-se que, como Mikhailóvski deixa claro no começo do seu artigo, àquela altura, no ano seguinte à morte de Dostoiévski, seu nome ainda não se fixara como um consenso na cultura russa” (p. 426). Ainda assim, Mikhailóvski é pródigo em elogios ao talento de primeira magnitude do autor. “Dostoiévski é (…) um grande e original escritor que merece um estudo cuidadoso e apresenta enorme interesse para a literatura” (p. 430). Como que a mimetizar o zelo do carrasco que se põe a polir a lâmina do machado antes de untá-la com o sangue da vítima, Mikhailóvski elogia o talento de Dostoiévski para logo em seguida começar a açoitar o autor por conta de sua (suposta) crueldade. Para Mikhailóvski, quanto mais vasto é o artista, quanto mais cordas da alma humana ele dedilha, tanto mais caro ele nos é. Mas não é possível exigir de um poeta que represente com a mesma força e verdade as sensações de um lobo devorando uma ovelha e as de uma ovelha sendo devorada por um lobo. Alguma dessas situações lhe será mais próxima e interessante e, necessariamente, repercutirá no seu trabalho (p. 432).

             Leiamos as sentenças dostoievskianas que Mikhailóvski pinça como epígrafes de Um talento cruel:

(i) De Um jogador (1866):“O homem é um déspota por natureza e gosta de torturar”.

(ii) D’O sonho do titio (1859):“A tirania é um hábito que se transforma em necessidade”.

(iii) Das Memórias do Subsolo (1864): “Cheguei a tal ponto que, agora, me ocorre pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de tiranizá-lo”.

(iv) D’O crocodilo (1865): “Que estranha amizade! Posso seguramente afirmar que nove décimos dela eram puro ódio”.

Bem ao estilo dialógico de Dostoiévski – estilo que pressupõe e projeta as vozes críticas e contrapostas dos interlocutores –, Mikhailóvski prossegue:

Alguém poderá talvez contestar, dizendo que, ao contrário, foram os sentimentos da ovelha sendo devorada pelo lobo que Dostoiévski estudou com particular sutileza: afinal, trata-se do autor das Recordações da Casa dos Mortos, do cantor dos Humilhados e Ofendidos, que soube tão bem encontrar os melhores e mais elevados sentimentos onde ninguém sequer suspeitava que existissem. (...) Mas, se levarmos em consideração a carreira literária de Dostoiévski como um todo, concluiremos que ele simplesmente gostava de atormentar a ovelha com o lobo (p. 433).

            Se submetêssemos Um talento cruel ao crivo irônico de Machado de Assis e do homem do subsolo, é bem provável que a crueldade do autor brasileiro e do protagonista de Memórias do Subsolo fizessem o talento de Mikhailóvski se voltar contra si mesmo, como se o crítico russo se tornasse vítima de suas próprias diatribes.

            “Se levarmos em consideração a carreira literária de Dostoiévski como um todo, concluiremos que ele simplesmente gostava de atormentar a ovelha com o lobo”. Mikháilovski certamente tem em mente o sadomasoquismo do homem do subsolo que só faz flagelar os demais (e a si mesmo); o estudante niilista Raskólnikov e seu duplo homicídio com vistas à (suposta) renovação da humanidade (Crime e Castigo, 1866); o lascivo, pedófilo e extorsionário Svidrigáilov (Crime e Castigo); o bufão Marmieládov que se afoga no álcool às custas da prostituição de sua filha (Crime e Castigo); o homicida Rogójin que, ao fim e ao cabo, esfaqueia sua bem amada Nastácia Filíppovna (O Idiota, 1869); o ultraniilista Kiríllov que compara seu suicídio vindouro com a cruficicação de Jesus Cristo, como se para a fundação da seita nihil também fosse necessário um holocausto primordial, o holocausto do profeta (Os Demônios, 1872); o super-homem nietzscheano Nikolai Stavróguin, para quem tudo é permitido, inclusive o regozigo diante da pedofilia (Os Demônios); o bufão, lascivo e estuprador Fiódor Pávlovitch, o pai dos Irmãos Karamázov (1880), e os filhos parricidas Ivan e Dmitri – ah, não nos esqueçamos de Smiediákov, o filho bastardo de Fiódor Pávlovitch, o filho do estupro, o parricida efetivo.

            Se tais personagens representassem “a carreira literária de Dostoiévski como um todo”, Um talento cruel seria, de fato, o epitáfio e a lápide da obra de Dostoiévski. Ocorre que o crítico russo, munido de profundas afinidades eletivas em relação à (suposta) crueldade dostoievskiana, se esquece das prostitutas Liza e Sônia Marmieládova, que demonstram enorme nobreza moral por seus algozes – respectivamente, o homem do subsolo e Raskólnikov; Mikhailóvski não se lembra de que Sônia sustenta a família da madrasta tuberculosa com o fruto de sua prostituição e, ao fim do romance, se dispõe a acompanhar a expiação do assassino Raskólnikov rumo ao presídio siberiano; Mikháilovski não menciona o Príncipe Míchkin, fusão dostoievskiana de Jesus Cristo e Dom Quixote, cuja bondade procura perdoar ao assassino de Nastácia Filíppovna, a mulher que Míchkin amara; Mikhailóvski deixa de lado o clérigo Tíkhon, aquele que, após ouvir a confissão pedófila de Stavróguin, sugere ao niilista uma estada no monastério como a possibilidade de retorno do filho pródigo; Mikhailóvski põe à parte o stáriets Zósima e Aliócha Karamázov, personagens que, munidas de grande espiritualidade, procuram lançar a máxima de Ivan Karamázov contra si mesma: “Se Deus não existe e tudo é permitido”, que Deus, o perdão e a eternidade retornem do exílio a que a modernidade os relegou.

            Se Mikhailóvski dissesse que a obra de Dostoiévski, apreendida como um todo, mais se parece com um vasto campo de batalha em meio a cujas ruínas facções antípodas se engalfinham sem que haja qualquer prenúncio de trégua entre os mortos e feridos, teríamos que concordar com o crítico. A obra de Dostoiévski, a meu ver, se configura como um turbilhão dialético em que teses e antíteses se entrechocam contínua e tresloucadamente sem que, das colisões, desponte uma síntese como um novo panorama histórico. Ainda assim, não me parece possível falar sobre a crueldade dostoievskiana sem nos referirmos ao ímpeto por perdão. Em Dostoiévski, o tapa contumaz pressupõe o oferecimento da outra face.

            Mas, para que não sejamos tão partidários e parciais quanto Mikhailóvski – ainda que eu já esteja me posicionado, dialeticamente, em relação à obra de Dostoiévski –, dialoguemos com um exemplo analítico do crítico russo extraído de Memórias do Subsolo.

O homem do subsolo não acredita em mais nada. (Logo veremos que ele também não acredita em quem deixa de acreditar.) O homem do subsolo, intelectual niilista, é o porta-voz do ressentimento de nossa época. Para o dostoievskiano em questão, o homem é o animal que se lembra, ou pior, o homem é o animal que não se esquece. Ele já não consegue ter contatos efetivamente humanos com as pessoas, o subsolo é mais do que o seu refúgio – o subsolo é sua cripta, o subsolo é o prenúncio de seu túmulo. Então, o homem do subsolo se vangloria em face dos leitores pressupostos – diz ser mais inteligente e espirituoso do que todos nós, afirma ser mais vivaz, sentencia que compreende as filigranas do que nem de longe podemos entender. Mas, ainda assim, ele não consegue romper a membrana de sua solidão. Ele quer voltar a brindar com os demais, ele quer ter amigos, quer (re)encontrar a amada, mas o homem do subsolo, consciente contra si mesmo, bem sabe que o ceticismo começa a converter o prazer em dor – eis o prazer do cão que se regozija em morder a própria cauda, o prazer do cão que arranha as próprias feridas, o prazer pela dor que se alimenta de si mesma, o prazer pela descrença que passa a doer, o prazer pela dor que já não quer crer em nada mais a não ser em si mesma. [Afinal, se algo despontar em meio à e para além da dor, o cético deixará de ranger os dentes e terá que abandonar o ressentimento do subsolo. (Eis que o homem do subsolo passa a sentir pena das grades que o acometem – talvez ele queira grades ainda mais espessas para que não haja quaisquer riscos de a dúvida se infiltrar pelas frestas de sua couraça.)]

Mas então deveríamos perguntar por que o homem do subsolo sofre, por vezes, como se ainda houvesse um sentido. O homem do subsolo alardeia aos quatro cantos que é mau e desagradável, que lhe apetece assistir ao sofrimento alheio, que seu amor próprio doentio – aliado à autoflagelação não menos patológica – deformaas relações com os demais como sucessivas e inequívocas quedas de braço. Porém, se assim fosse indefinidamente, por que ele tentaria se redimir diante de Liza, a prostituta? Retomemos brevemente o contexto da narrativa: o protagonista sai de seu subsolo para encontrar antigos “colegas” dos tempos de escola. Todos o desprezam por sua atual condição – o baixíssimo salário, a moradia indevida, as vestes decrépitas. Mas o homem do subsolo ainda pode se escorar em sua condição intelectual mais elevada. O jantar que marca a despedida de um dos convivas para uma província longínqua da Rússia – um pedágio necessário para que Zvierkóv alcance novos patamares na carreira pública – logo se transforma em um verdadeiro duelo entre o achincalhado homem do subsolo e os demais que não sabem por que o paradoxalista teria sido convidado. Pois bem: a narrativa progride vertiginosamente, de modo que a personagem se mutile cada vez mais na medida em que percebe que os outros a desprezam. Quando um “colega” sugere que o ordenado do protagonista é baixo, o homem do subsolo vai e revela o quanto ganha; quando tudo já está se desfazendo, quando todos o abandonam para ir a um bordel, nosso paradoxalista, no ápice da desolação e da humilhação, se ajoelha diante do anfitrião do jantar – para pedir dinheiro emprestado. Dostoiévski apresenta sua maestria em fundir pontos de virada narrativa a cicatrizes da alma. Ocorre que o homem do subsolo, demasiado humano, vai ao bordel ao qual teriam se dirigido seus “colegas” para tirar a limpo toda aquela situação humilhante. Lá chegando, não encontra os convivas, mas a jovem prostituta Liza, oriunda da belíssima cidade medieval de Riga.

Para Nikolai Mikhailóvski, o homem do subsolo “entabula com sua namorada casual e momentânea uma conversa que se mostra longa e torturante para ela, com o fito de admoestá-la. Ele a vê pela primeira vez na vida e, portanto, não tem e não pode ter nada contra ela. Mas nele fala o instinto do lobo” (p. 434). Aqui, Mikhailóvski mostra os limites de sua análise partidária e parcial, os limites de seu talento cruel: se as flagelações que o homem do subsolo impõe ao dorso de Liza forem retiradas do contexto relacional de que fazem parte, isto é, se o crítico se propuser a analisar determinado momento narrativo sem estabelecer as mediações dos sentidos e ressentimentos que se relacionam à trajetória do homem do subsolo como um todo, fará sentido dizer que Dostoiévski é um lobo em pele de lobo, já que Mikhailóvski é o primeiro a amordaçar as súplicas do cordeiro.

Ocorre que Dostoiévski sabe utilizar como ninguém a simbologia da dominação. Se a Rússia de fato nutre um complexo de inferioridade e um ressentimento historicamente geridos em relação à Europa Ocidental, os Países Bálticos – Letônia, cuja capital é Riga, Estônia e Lituânia – sempre sofreram as invectivas do imperialismo russo. Assim, os civilizados “colegas” do homem do subsolo que há pouco o haviam humilhado agora fornecem o furor para que o ressentimento subterrâneo seduza e humilhe a prostituta letã. E assim teríamos a transferência inequívoca da dor para o outro, mas, em um primeiro momento, o homem do subsolo lança mão de uma conquista livresca para ganhar a confiança de Liza e doutriná-la a deixar, de uma vez por todas, a vida no meretrício. A jovem se vê cativada e revela ao protagonista que chegara a receber, há poucos dias, uma carta de um estudante que, insciente em relação à sua vida desgraçada, a queria cortejar. Liza poderia se casar!

Para Mikhailóvski, “o homem do subsolo não esperava por isso e desorientou-se; uma vez desorientado, deu a Liza (...), sem saber por quê [grifo meu], seu endereço e convidou-a a visitá-lo” (p. 436). Mais uma vez, o crítico russo, sem relacionaros eventos narrativos, sem apreendê-los em meio à teia de que fazem parte, não consegue (e/ou não quer) entender que o homem do subsolo tenta sufocar a compaixão que sente e, num rompante, dá seu endereço para Liza a fim de que os dois continuem a conversar em um local mais humano.

O desfecho do imbróglio de fato leva Liza, alguns dias depois, à casa de nosso protagonista, e o momento da chegada da jovem não poderia ser mais dostoievskiano – o homem do subsolo acabara de ser humilhado por seu criado, o altivo Apolón que, munido de efetiva consciência de classe, se recusava a fazer os serviços até que seu salário atrasado lhe fosse pago. Assim, ainda uma vez, a humilhação deve ser paga com mais humilhação. (Mas, para Mikhailóvski, a humilhação em Dostoiévski ocorre em meio ao éter, ela não tem sentidos e ressentimentos concretos – e históricos.) Então, o homem do subsolo começa a injuriar Liza e passa a lhe dizer que tudo aquilo que havia recomendado a ela no bordel não passava de um engodo para seduzi-la e torná-lo altivo perante seus olhos. O homem do subsolo se faz trêmulo, diz e se desdiz e, no ápice da fúria que se mescla ao torpor, começa a chorar. Ora, mais um motivo para despertar sua suscetibilidade doentia, porque ele chora diante de uma prostituta, ele se rebaixa diante da mais vil das criaturas socialmente proscritas. Mas eis que a maestria de Dostoiévski – maestria que Mikhailóvski, dogmaticamente, só entende como crueldade – atua ainda uma vez para que a dúvida irrompa do seio da crise: Liza não se mostra uma desalmada que simplesmente relega o homem do subsolo. Ela se condói pelo outro e começa a chorar junto com o protagonista como que a tomar para si sua dor. Então, o homem do subsolo, o ressentido por excelência, o ardiloso, o maquiavélico, o sádico, o masoquista, expele a dúvida e revela que Pandora também o visita no subsolo:

– Não me deixam... Eu não posso ser... bondoso! – mal proferi; em seguida fui até o divã, caí nele de bruços e passei um quarto de hora soluçando, presa de um verdadeiro acesso de histeria. Ela deixou-se cair junto a mim, abraçou-me e pareceu petrificar-se naquele abraço.

De onde vem esse ímpeto de bondade?

De onde vem esse ímpeto por bondade?

(Como a bondade consegue subsistir em nossa época subterrânea?)

Eis algumas perguntas que a obra Dostoiévski, se fosse unilateralmente cruel, jamais poderia trazer à tona.

Mikhailóvski insiste em dizer que, em Dostoiévski, “é como se toda (...) torpeza se explicasse por uma autogênese, ou até mesmo não exigisse explicação alguma” (pp. 437-438). Como o pior cego é aquele que só quer ver, o crítico russo dá extrema-unção à obra do escritor – e à pujança de seu próprio ensaio literário-filosófico – ao fazer a seguinte conjetura:

Mas nos perguntamos o que dizer de um escritor que, sem levar em conta nenhum dano social [grifo meu], toma uma pessoa em particular e instala nela, na alma humana em geral, duas bandeiras, quais sejam: 1) “o homem gosta de torturar”; 2) “o homem ama o sofrimento até a paixão”...? Não será isso uma forma de minar por baixo tudo o que existe no mundo de rosa claro e azul-celeste? Não será isso uma forma de solapar todas as melhores recordações e todas as esperanças em um futuro melhor? (p. 475)

            Como Mikhailóvski apenas considera dignos de menção os trechos dostoievskianos que corroboram sua tese de que o escritor é um talento cruel, é possível dizer que Dostoiévski não leva em conta “nenhum dano social” para narrar a tortura e o sofrimento humanos sem citar a nota que o autor antepõe às Memórias do Subsolo:

Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem até existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros[2].

     Como Mikhailóvski faleceu em 1904, ele não sentiu o júbilo de participar da formidável Revolução Russa, em 1917.

     Como Mikhailóvski faleceu em 1904, ele não sentiu a crueldade de Stálin, Mikhailóvski não teve que assistir à regressão da União Soviética a um Estado policial, o crítico não foi obrigado a usar sua verve de escritor contra si mesmo, Mikhailóvski não foi coagido a escrever autoconfissões e a delatar velhos camaradas, o crítico não foi encarcerado e torturado nas masmorras e nos porões da Praça Lubianka, no coração de Moscou, onde ficava a sede do NKVD, a política política de Stálin.

     Talvez o progressista Mikhailóvski se suicidasse – se é que o crítico já não teria sido suicidado – ao se deparar com a utopia que, dostoievskianamente, regredia à mais encarniçada distopia. Talvez Mikhailóvski enlouquecesse, talvez o crítico quisesse resguardar Utópolis e Pandora no cárcere de sua imaginação. Talvez Mikhailóvski se tornasse um delator contumaz dos golpes de Estado, das arbitrariedades, das torturas e dos assassinatos perpetrados na América Latina com o beneplácito (e o patrocínio) da Central Intelligence Agency. Será que Mikhailóvski teria o ímpeto humanista e livre-pensante de um Albert Camus para condenar as invasões dos tanques soviéticos aos países encalacrados pela Cortina de Ferro? Mikhailóvski se sentiria cindido pelo Muro de Berlim? Se reacionários dos mais diversos matizes dissessem a Mikhailóvski que, para dar vazão à sua verve ensaística, o crítico precisaria viver em meio à democracia burguesa do Ocidente, o que é que o dogmatismo, a parcialidade e a ausência de dialética do autor de Um talento cruel responderiam?

            Talvez fosse necessário fazer com que Mikhailóvski assistisse aos suplícios sofridos pelo grande teatrólogo soviético Vsiévolod Meyerhold (1874-1940). A dialética histórica de Dostoiévski, nesse sentido, talvez lhe revelasse que o ressentimento dos outrora oprimidos – aqueles que pretendem saltar, com seus planos quinquenais, sobre as contradições humanas historicamente (re)produzidas, aqueles que pretendem instaurar o Éden aqui e agora, custe quem custar, aqueles que só veem as relações éticas como entraves anacrônicos para a construção do Novo Mundo, aqueles para quem tudo é permitido –, que o ressentimento dos outrora oprimidos tende a se refinar quando a solidariedade da revolução começa a se arrefecer e a dar lugar ao cotidiano repleto de desconfiança sobre os antigos inimigos e mesmo sobre os camaradas que, na verdade, “são potenciais sabotadores, contrarrevolucinários e já se tornaram espiões estrangeiros em todas e cada uma de nossas instituições” [fragmento de um memorando de Stálin a todos e cada um de seus órgãos e tentáculos].

            O leitor e a leitora deste texto talvez me acusem de crueldade se eu transcrever uma carta de Vsiévolod Meyerhold, de 16 de maio de 1939, a Viatcheslav Mólotov, então presidente do Conselho de Comissários do Povo, com a certeza utópica (e tragicamente partidária) de que, se a missiva chegasse às mãos do burocrata bolchevique, o teatrólogo seria liberado e, ademais, terminariam os procedimentos criminais que vinham sendo empregados nas masmorras da Praça Lubianka.

            Assim denunciou (e suplicou e balbuciou) Vsiévolod Emilievitch Meyerhold:

Os oficiais de instrução me aplicaram métodos físicos e fui golpeado apesar de ser um ancião enfermo de sessenta e cinco anos. Eles me obrigavam a ficar de boca contra o chão e me batiam nos calcanhares e nas costas com um porrete de borracha. Eles também me faziam sentar em uma cadeira para golpear minhas pernas fortemente com o mesmo instrumento. Nos dias que se seguiram, quando meus músculos e minhas panturrilhas envergavam grandes hematomas por causa das hemorragias internas, eles voltaram a golpear minhas equimoses vermelhas, azuis e amarelas. A dor era tamanha que eu sentia como se estivessem jogando água fervente contra os pontos mais sensíveis de minhas pernas. Eu urrava e chorava de dor. Seguiram golpeando minhas costas com o porrete e me dando socos brutais, acompanhados de “ataques psíquicos”, que me produziam um medo tão terrível que minha personalidade se viu afetada até o mais profundo de sua constituição.

Meus tecidos nervosos chegaram a roçar meu tegumento, minha pele ficou tão frágil e sensível quanto a de um bebê e meus olhos vertiam torrentes de lágrimas devido à insuportável dor física e moral. Arremessado à terra, com a cara contra o chão, foi possível ver que eu era capaz de me retorcer e de lançar uivos agudos como um cão golpeado pelo dono com um látego [grifo que o lobo e a ovelha coagem Mikhailóvski a subscrever]. Eu tinha tamanhos tremores nervosos que um dos guardiães, ao me levar de volta à cela depois de um desses tratamentos, me perguntou: “Será que você está com malária?” Quando despenquei sobre minha cama de tábuas e dormi, depois de dezoito horas de interrogatório e ante o temor de uma nova sessão, foi o meu próprio gemido que me despertou: meu corpo estava sendo sacudido por estremecimentos similares aos dos enfermos que morrem de febre tifóide.

A apreensão provoca medo, e o medo, reações de autodefesa.

“A morte (ah, que venha logo!), a morte é muito melhor do que isso!”, disse o detento [grifo do talento cruel (e historicamente crítico) de Dostoiévski]. Eu também disse isso de mim para mim. E passei a acusar a mim mesmo com a esperança de que essas calúnias me conduzissem ao cadafalso…[3]

            Quando sabemos que a carta-testamento de Meyerhold também poderia ter sido escrita nas masmorras da prisão terrorista de Guantánamo; que a carta de Meyerhold também poderia ter sido escrita nas cavernas dos talebans; que a carta poderia ter sido copiada aos milhares e aspergida junto com o napalm incendiário sobre as florestas e as crianças do Vietnã; que a carta seria motivo de chacota por parte dos decapitadores do Estado Islâmico; que a carta se tornaria um estudo de caso do DOPS e do DOI-CODI, com diretrizes da CIA para que as torturas não mais legassem marcas (e cadáveres) discerníveis; que a carta de Meyerhold seria enviada para a família dos condenados ao paredón junto com a fatura pelos gastos estatais com munição; que a carta incitaria os esquadrões de extermínio infiltrados na PM a serem mais criativos (e ainda mais eficientes) em suas limpezas étnico-sociais nas periferias das grandes cidades brasileiras, quando sabemos de tudo isso – e o talento cruel de Dostoiévski nos faz sustar a lista interminável de atrocidades com um etc. cúmplice –, é preciso arremessar Nikolai Mikhailóvski, ainda uma vez, contra as premissas de sua própria análise.

No fragmento de Mikhailóvski citado a seguir, peço que a leitora e o leitor, em decorrência de nossas discussões, substituam o nome de Dostoiévski pelo nome de Mikhailóvski – assim faremos justiça à antevisão dostoievskiana de que a erradicação da miséria e do sofrimento humanos envolveria duelos muito mais encarniçados e contraditórios do que os revolucionários poderiam prever (e/ou conter):

Nas condições atuais da nossa vida, é necessário abater uma galinha ou matar um boi para o almoço, mas é desnecessário torturar o boi e a galinha, prolongar a sua agonia, cortar primeiro as suas pernas, supliciá-las na roda [grifo da crueldade histórica que transformou a direita e a esquerda políticas em duas mãos de um mesmo corpo]. Esse espetáculo certamente não embeleza o seu almoço, e talvez até o estrague. (...) Dostoiévski prolongaria deliberadamente o suplício da galinha para retardar o almoço, para irritar-se o tempo todo e para acompanhar com dupla crueldade o estremecimento convulsivo da vítima (p. 450).

            Ora, o dogmatismo, à direita e à esquerda, não aceita que a arte deixe de tomar partido – o dogmatismo não entende (e não pode aceitar) que a literatura narre histórias e estórias que tanto critiquem quanto desdobrem nossas contradições para que o humano se (re)conheça, para que entendamos e sintamos com mais ímpeto o que queremos e o que (ainda) não alcançamos, para que nossas ideias e desejos se tornem efetivamente inteligíveis em nossos diálogos com as personagens. O partidarismo antipartidário – eis o dinamismo dialético que o dogmatismo só faz proscrever, à direita, como subversivo, e, à esquerda, como revisionista. Já que, como diria o bom e velho Mikhailóvski,

uma atitude partidária em relação a Dostoiévski é impossível. Ele não pertencia a nenhum partido, e muito menos deixou uma escola atrás de si. (...) Diga-se que, dos vários partidos políticos que surgiram no nosso país, Dostoiévski esteve ora mais próximo, ora mais distante de uns e de outros, simplesmente por não possuir aquilo que se pode chamar de temperamento político. (...) Ele era antes de tudo um artista que se deliciava com o processo de criação e um pregador que se ocupava exclusivamente com o homem e seu destino (p. 460).

            Ocupar-se exclusivamente com o homem e seu destino implica entrever as contiguidades entre as facções antípodas, implica levar às últimas consequências as convenções do cotidiano para que o humano, diante do ápice de suas capacidades construtivas e cruéis, possa discernir os rumos e os descaminhos de sua história. Os escombros não nos legam apenas torpor e angústia. Os escombros também nos instigam à reconstrução de nossas casas. Dostoiévski não se deliciaria ao narrar que, até o presente momento, as pessoas tendemos a ser solidárias apenas em meio a tragédias. É apenas a dor terrível a clamar por ajuda que tende a fazer com que vejamos a existência do outro para além da ilha do ego. Como Mikhailóvski quer hastear a tese do talento cruel sem olhar para as antíteses de solidariedade e perdão, a obra de Dostoiévski se transforma em um punhal que fica escarafunchando a ferida sem que Mikhailóvski compreenda os mecanismos da dialética do sofrimento que, instado contra si mesmo, luta pelo momento escatológico – o literal e literário fundo do poço – para que a compreensão que advém da dor possa levar os homens a um princípio de cicatrização.

            Ora, pergunta Mikhailóvski ainda uma vez, “não será isso uma forma de minar por baixo tudo o que existe no mundo de rosa claro e azul-celeste? Não será isso uma forma de solapar todas as melhores recordações e todas as esperanças em um futuro melhor?” (p. 475)

            Não, Mikhailóvski. Pandora não é uma cativa à toa. Dialeticamente, a esperança encalacrada ainda recebe alimentos e consegue sobreviver, mesmo sob a tutela de aparelhos, ao passo que uma série de pragmáticos, à direita e à esquerda, se renderam ao princípio coercitivo de realidade: “O que é é e não pode deixar de ser assim”. E mais, Mikhailóvski: quem arregimenta e neutraliza nossas melhores recordações e esperanças por um futuro melhor são as telenovelas e os mantras da indústria cultural. Os conflitos encarniçados da vida são reduzidos a fórmulas facilmente reiteráveis – e consumíveis. Um escrevinhador patrocinado por uma empresa de cartões de crédito sentencia que “a realidade cabe em um grão de areia” – “porque a vida é agora”. O ímpeto de contestação em relação ao existente é drenado pelas tramas sempre idênticas das telenovelas que vaticinam, com entranhado grau de resignação, que o happy end só acontece ficcionalmente. {Aceitamos que amanhã seja sempre segunda-feira, mas, se não houver reconciliações e casamentos ao fim de cada trama, é possível que haja uma revolução – na audiência. [São os próprios telespectadores que, já devidamente adestrados, municiam as pesquisas de mercado/audiência com as diretrizes que as tramas ficcionais – “felizmente melhores do que nossas vidas tão amargas…” – devem (re)produzir.]} A dialética dostoievskiana bem poderia sentenciar: “Isso é uma obra de ficção; qualquer semelhança com a realidade é mera reincidência”.

            A esperança, Mikhailóvski, não é uma deusa que nos guia a priori com a certeza da vitória. Infelizmente, o fuzilamento de Che Guevara na Bolívia fez com que a CIA comprasse os direitos autorais de “hasta la victoria siempre”. A esperança é uma cativa que devemos e queremos libertar. Dostoiévski nos legou em profusão as descrições e análises da fortaleza e dos algozes que acometem Pandora. Em um mundo que ainda não conseguiu humanizar a humanidade, em um mundo em que a crueldade é parte cotidiana do que é humano, a voz frágil de Pandora se vê entrecortada pelos urros dos prisioneiros e dos algozes a se regozijarem com a masmorra em que (sobre)vivemos como se o cárcere fosse a única existência possível. As aquarelas de Claude Monet e o perdão do Príncipe Míchkin ao assassino de sua amada nos parecem muito rosas e azuis para o lodo do nosso subsolo.

            Dostoiévski nos revela o que é quintessencial e historicamente humano levando a tese da crueldade e a antítese da esperança cativa às últimas consequências. É por isso que Mikhailóvski, com um otimismo que procura colocar compressas sobre as hemorragias da história, não consegue entender que a escatologia do homem do subsolo projeta o devir do cotidiano sob a normalidade da guerra civil: “E, no que se refere a mim, apenas levei ao extremo, em minha vida, aquilo que não ousastes levar até a metade sequer, e ainda tomastes a vossa covardia por sensatez e assim vos consolastes, enganando-vos a vós mesmos” (p. 439).

            Como a guerra civil já se tornou a segunda natureza de nosso cotidiano encalacrado por condôminios-bunkeres, arame farpado, sentinelas, inanição, gangues, esgoto a céu aberto, cartéis e epidemias, transformemos Nikolai Mikhailóvski em múltiplas personagens e façamos com que Nikolai e Mikhailóvski vivenciem as afinidades eletivas entre os lobos e os cordeiros.

II. Crítica da razão pura

            Consta que os habitantes de Königsberg, a capital da antiga Prússia, costumavam acertar seus relógios com as caminhadas diárias (e inescapáveis) do filósofo Immanuel Kant (1724-1804).

            Quando Kant passa diante da confeitaria, são 18:03.

            Às 18:17, o relojoeiro pode testar a precisão de seus cucos.

            Munido da austeridade prussiana, Kant saúda os vizinhos e compadres como que a aplicar,  pontual e praticamente, o princípio fundamental de seu imperativo categórico ético, segundo o qual o indivíduo, em todas e cada uma de suas ações, deve agir de tal maneira que seus atos possam ser universalizados, isto é, de forma que os demais possam agir do mesmo modo. A universalidade ética pressupõe que o indivíduo considere os demais como fins em si mesmos. Consequentemente, o indivíduo não está autorizado, em termos eticamente racionais, a lançar mão dos demais como instrumentos para suas ações, a não ser que queira arriscar toda a estabilidade das relações sociais, já que, se ações hedonistas e egoístas forem universalizadas, se todos agirem exclusivamente em busca da maximização de suas satisfações pessoais, a cordialidade de Königsberg dará lugar à selva da guerra de todos contra todos.

            É como se Kant, ao conferir status filosófico à antiquíssima regra de ouro, assim estivesse pregando:

Não faças aos outros o que não farias a ti mesmo. (...) Se, por exemplo, toda vez que nos sentíssemos tentados a tecer um comentário hostil sobre um colega, um irmão ou um país inimigo, pensássemos em como nos sentiríamos se o mesmo comentário se referisse a nós – e desistíssemos de tecê-lo –, superaríamos a nós mesmos. Esse seria um momento de transcendência. Se tal atitude se tornasse habitual, poderíamos viver num ekstasis permanente, não porque entramos num transe exótico, mas porque ultrapassamos as fronteiras do egocentrismo. (...) O teste é simples: se nossas convicções – seculares ou religiosas – nos tornam hostis, intolerantes e maldosos em relação à fé alheia, não são “profícuas”. Se, porém, nos impelem a agir compassivamente e a honrar o estranho, são boas, úteis e válidas[4].

            No dia 14 de julho de 1789, os habitantes de Königsberg se põem em polvorosa: pela primeira vez em décadas, o quitandeiro não encontra Kant às 18:23 e o açougueiro não lhe diz boa noite às 19:00. Um coro de vizinhos e compadres só faz alardear pelas pontes de Königsberg:

            - Meu Deus, algo estarrecedor deve ter acontecido! Onde está o Sr. Kant, onde está o nosso guia?!

            Kant, o ícone-mor do Iluminismo, bem sabe que sua época repleta de monarquias absolutas, arbitrárias e beligerantes contradiz, racional e cotidianamente, os princípios do imperativo categórico ético. Ocorre que, com a tomada de assalto da Bastilha, a prisão política da monarquia, a masmorra do absolutismo, os revolucionários franceses lançam as bases para a fundação de uma nova era.

            Kant já imagina que, se os princípios do imperativo categórico ético forem levados às últimas consequências, a humanidade suplantará de vez a selva da guerra de todos contra todos e assentará a nova era sobre a racionalidade da paz perpétua.

            Ocorre que, em 21 de janeiro de 1793, Kant volta a se atrasar.

            - Deus do céu, o que terá acontecido agora ao nosso guia?! – perguntam o padre e o pastor ao mesmo tempo.

            A multidão ensandecida lota a Praça da Revolução, em Paris.

            O rei Luís XVI, até então considerado a emanação de Deus na terra, sobe os 5 degraus do cadafalso e se posta diante da guilhotina.

            Para a massa, trata-se da reedição da crucificação de Cristo, a morte rediviva de Deus.

            Os revolucionários franceses conhecem as lições legadas pela história – o espectro de Maquiavel ronda a Praça da Revolução:

            - O parto da nova era pressupõe a morte da genitora.

            (Alunos diletos, os bolcheviques bem conheciam a cartilha maquiavélica e, pouco mais de um século depois, a família Romanov seria totalmente erradicada da história.)

            A massa que antes fazia o Pelo Sinal da Santa Cruz à passagem do séquito real agora clama pela cabeça do rei.

            Quando a guilhotina decepa a cabeça da monarquia, a República nasce com o batismo do sangue que se asperge sobre os súditos convertidos a cidadãos.

            A insônia toma Kant de assalto, o iluminista de Königsberg não pode aceitar que a razão universal seja parida pela barbárie.

            Súbito, o espectro de Joaquim Maria, também conhecido como Machado de Assis, se apieda de Kant Mikhailóvski. O escritor encontra Nikolai Kant prostrado em seu quarto, à iminência de rasgar seus manuscritos. Para evitar que tal tesouro da humanidade se perca pela fúria que não poupa nem mesmo Kant, Machado de Assis procura acalmar o filósofo e lhe ensina, com o devido tato brasileiro, o sermão que a razão prática prega à razão pura:

            - Saiba, meu caríssimo Immanuel, que a guilhotina é deveras grotesca, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel.

III. Crítica da razão prática

            Consta que, após o regicídio revolucionário e após a pedagogia de Machado de Assis, Nikolai Kant Mikhailóvski se põe a pensar sobre situações excepcionais em que a razão pura já não poderia ser posta em prática. Tais situações, segundo Kant, deveriam ser evitadas completamente, sob pena de a guerra de todos contra todos voltar a se insinuar pelas fissuras da paz perpétua.

            Imaginemos, primeiramente, uma caverna no seio da qual quatro intrépidos arqueólogos acabam ficando presos: Nikolai, Mikhailóvski, Immanuel e Kant.

            Como a entrada da caverna está obstruída por uma pedra pesadíssima, os quatro estão condenados à companhia de si mesmos.

            Não há água, não há alimentos.

            Não é difícil prever que, em pouco tempo, a razão pura se tornará impura.

            (Eis a velha hegemonia da razão prática.)

            O frágil Immanuel é o primeiro a morrer.

            Nikolai, Mikhailóvski e Kant ainda têm forças para celebrar os devidos ritos fúnebres.

            (Não é possível enterrar Immanuel, mas a caverna é suficientemente grande para relegar o cadáver ao longe e evitar a asfixia dos três sobreviventes com os gases tóxicos da putrefação.)

            O desespero de Nikolai faz com que o arqueólogo cometa suicídio ao se jogar sobre uma estalagmite afiada e longilínea.

            {O ventre de Nikolai é rasgado pela estalagmite que acaba lhe saindo pelas costas. O sangue jorra aos borbotões. Tanto Mikhailóvski quanto Kant são unânimes em condenar a crueldade de Nikolai. [Secretamente, no entanto, tanto Mikhailóvski quanto Kant invejam a coragem de Nikolai. (Eis um sentimento cruel a ser amordaçado no mais recôndito subsolo da razão pura.)]}

            Mikhailóvski e Kant passam a se entreolhar.

            Que fazer?

            Mikhailóvski: Se continuarmos assim como estamos, vamos morrer de fome.

            Kant: Se continuarmos assim como estamos, logo vamos descobrir o que é a paz perpétua.

            Mikhailóvski: Ora, ora, caro Kant, e não é que Machado de Assis de fato lhe ensinou alguma coisa sobre a ironia?

            Kant: A ocasião faz o ladrão, caro Mikhailóvski...

            Mikhailóvski: ... e o ladrão, por vezes, precisa ser cruel.

            Mikhailóvski e Kant se entreolham – os dois estão a ponto de pegarem pedras para decidir, com base no imperativo categórico de Darwin, quem irá sobreviver.

            Mas, antes que ambos se aniquilem, Kant chama Mikhailóvski à prática da razão:

            - Meu caro, não nos assassinemos. Ainda que a possibilidade de sermos resgatados seja remota, ela existe. Resta saber se queremos sobreviver.

            Mikhailóvski responde com o punho direito ainda cerrado:

            - Eu quero – e muito!

            - Pois muito bem – prossegue Kant –, façamos o seguinte: Immanuel já está podre, mas a carne de Nikolai ainda nos tem alguma valia.

            - O quê?! Você sugere que regridamos à condição de canibais!?

            - Será mesmo que isso já não lhe havia ocorrido? Ora, a crueldade nos fará sobreviver.

            A digestão de Nikolai dá a Mikhailóvski e a Kant alguns dias de sobrevida. Mas, logo, a fome volta a acossá-los.

            Como ambos estão muito fracos, nossos heróis evitam conversar para que o derradeiro resquício de energia seja poupado.

            Súbito, com a voz frágil como se estivesse sussurrando, Kant pergunta a Mikhailóvski:

            - Você ainda quer sobreviver?

            Mikhailóvski tenta acenar com a mão direita inerte:

            - Não sei, eu não lembro...

            Kant insiste em chamar o sobrevivente à razão:

            - Vamos, me diga, você ainda quer sobreviver?!

            - Sim, eu quero – eu quero ainda mais!

            - Pois eu não aguento mais. Vamos, Mikhailóvski, me mate – e me devore.

            O humanismo de Mikhailóvski não acredita em seus ouvidos. Mas a palidez kantiana não lhe deixa dúvidas.

            A razão pura diz a Mikhailóvski que é preciso respeitar o último desejo de um moribundo.

            (A razão prática lhe sussurra que é preciso sobreviver.)

            Suponhamos, agora, que Mikhailóvski, ao fim e ao cabo, seja resgatado.

            O fantasma de Kant nos pergunta:

            - O assassino Mikhailóvski deve ser levado a julgamento?

*  *  *

            Imaginemos, agora, uma variação ainda mais radical do mito da caverna.

            Imaginemos que Mikhailóvski e Kant são os dois únicos sobreviventes de um naufrágio.

            Os náufragos dividem o espaço exíguo de um bote que, conforme os dias passam, vai se desfazendo.

            A ironia sentencia que, em meio ao oceano, Mikhailóvski e Kant logo morrerão de sede.

            Que fazer?

            Logo, só haverá espaço para um dos náufragos no bote que vai se transformando em tábuas de madeira à deriva.

            Se Mikhailóvski matar Kant para sobreviver, deveremos levar o assassino a julgamento?

*  *  *

            Quintana, interiorrr de São Paulo, dezembro de 2010.

            Imaginem este escritor estudando Direito Penal para vindouros concursos públicos.

            Eis que me deparo com a seguinte questão que, segundo o livro de exercícios, já fizera parte de renomados exames:

            Quatro alpinistas – Nikolai, Mikhailóvski, Immanuel e Kant – estão escalando uma montanha.

            Os alpinistas em questão estão atados uns aos outros por uma corda que lhes transpassa a cintura.

            A ordem da escalada é a seguinte: Nikolai, Mikhailóvski, Immanuel e Kant.

            Súbito, Kant se desequilibra e desvencilha as mãos e os pés da montanha. O alpinista já estaria morto se seu corpo não estivesse atado à cintura de Immanuel, que, com o desequilíbrio de Kant, também acaba se desequilibrando, fato que se transmite a Mikhailóvski e, por fim, a Nikolai.

            As vidas de Kant, Immanuel e Mikhailóvski dependem do equilíbrio – ou pior, do malabarismo – de Nikolai.

            Eis, então, que os examinadores de meu exercício de Direito Penal fazem a seguinte pergunta:

            Se, à iminência de desabar junto com Kant, Immanuel e Mikhailóvski, Nikolai cortar a corda da solidariedade que o ata a Mikhailóvski, de modo que seus três melhores amigos despenquem e apenas Nikolai permaneça vivo, deveremos levar o alpinista sobrevivente a julgamento?

            O Direito Penal sentencia que não.

            O Direito Penal sentencia que a sobrevivência de outrem jamais se deve dar às custas da minha própria morte.

            O Direito Penal se assenta sobre o princípio inalienável da sobrevivência.

            Quando nem todos podem sobreviver, o Direito Penal decreta que é Charles Darwin quem deve separar o joio do trigo.

IV. A banalidade do mal

           

            São Bernardo do Campo, julho de 1993.

            Nicolau é um menino de 11 anos que vive em meio às exíguas frestas abertas pelo capitalismo brasileiro.

            O pai biológico de Nicolau é engenheiro.

            O pai de criação de Nicolau, segundo marido de sua mãe, é metalúrgico.

            A mãe de Nicolau é costureira.

            O leitor e a leitora que conhecem em demasia as fronteiras de classe bem poderiam dizer:

            - Que o pai de criação de Nicolau, um metalúrgico, tenha se casado com a mãe de Nicolau, uma costureira, ora, nada de novo no front. Mas como é que o pai biológico de Nicolau, um engenheiro, se envolveu com uma costureira?

            A bela mãe de Nicolau, de ascendência italiana, trabalhava na linha de produção da fábrica em que o pai de Nicolau era diretor.

            O pai de Nicolau, com fama de conquistador, logo notou os cabelos loiros ondulados e os olhos azuis da mãe de Nicolau.

            O leitor e a leitora que conhecem em demasia as fronteiras de classe já podem deduzir como Nicolau veio ao mundo.

            Agora, se o leitor e a leitora forem ainda mais perspicazes, será fundamental fazer as seguintes perguntas:

            - Se a mãe de Nicolau fosse igualmente bela e de boa índole, mas tivesse a pele negra, o pai biológico de Nicolau teria se envolvido com ela? Se o pai biológico de Nicolau tivesse se envolvido com a hipotética mãe negra de Nicolau e a tivesse engravidado, o pai biológico de Nicolau, um engenheiro, a teria coagido ao aborto? Se o pai biológico de Nicolau tivesse se envolvido com a hipotética mãe negra de Nicolau, se ele a tivesse engravidado e não a tivesse coagido ao aborto, o bastardo Nicolau, filho de mãe solteira (e desempregada), algum dia chegaria a conhecer seu pai engenheiro?

            O leitor e a leitora, quiçá algo constrangidos pela crueldade das perguntas, redarguem a este escritor que não se pode chorar sobre o leite que não foi derramado.

            Pois muito bem, prossigamos.

            Nicolau, como sua mãe, é loiro e tem olhos azuis.

            Nicolau vive em dois mundos antípodas.

            Sua casa está situada em um bairro de classe média baixa próximo à metalúrgica onde o pai verdadeiro trabalha.

            A família de Nicolau vive em uma rua sem saída. Os vizinhos de Nicolau são, em sua maioria, nordestinos.

            Nicolau se dá muito bem com todos, o menino não liga que ninguém o chame pelo nome. Na rua sem saída, Nicolau é o Alemão.

            Ocorre que Nicolau, diferentemente de seus vizinhos, não estuda na escola estadual do bairro. O pai biológico de Nicolau, o diretor engenheiro, lhe paga um ótimo colégio particular.

            No colégio particular, Nicolau não tem colegas de classe pardos e/ou nordestinos. Há apenas um negro, o menino Miguel, que fora adotado por uma família da classe média são-bernardense.

            No colégio particular, todos são brancos – mas não tão brancos quanto Nicolau, que também é chamado de Alemão por lá.

            No bairro e na rua onde mora, Nicolau é diferente: ele não é rico, longe disso, mas não é tão pobre quanto os demais. Ele é o branco entre os pardos.

            No colégio onde estuda, Nicolau é diferente: ele não é pobre, quase isso, mas está bem longe de ter o dinheiro dos demais. Ainda assim, ele é mais branco do que os brancos.

            No bairro e no colégio, Nicolau se impõe: ele joga muita bola e, além de tudo, as meninas têm uma queda por Nicolau.

            A primeira namoradinha de Nicolau, a Kátia, era uma moreninha linda lá do bairro. (A mãe de Kátia, a Maria, morrera de Doença de Chagas, a mesma enfermidade que poderia ter acometido a vó, a mãe e o pai biológico de Nicolau, já que todos haviam trabalhado na roça e todos haviam morado em casas de pau a pique, em cujas frestas se aloja o bicho barbeiro, o inseto transmissor da doença.)

            Na casa de Kátia, o pai de sua namoradinha tratava Nicolau como um rei.

            A segunda namoradinha de Nicolau, a Marcela, era uma ruivinha linda lá do colégio particular. Os pais de Marcela eram médicos.

            Na casa de Marcela, os pais de sua namoradinha olhavam Nicolau de soslaio.

            Ocorre que Nicolau, que era um menino de bom coração, não conseguia discernir muito bem a separação entre o joio e o trigo. Não quero dizer com isso que Nicolau não notava, minimamente, a luta de classes em cuja trincheira ele se situava. O que quero dizer é que, até então, os dois mundos de Nicolau não haviam sido apresentados ao menino, efetivamente, como duas galáxias distantes e contrapostas. Talvez Nicolau pensasse que, se quisesse, ele poderia unir os dois mundos, ele poderia fazer com que os meninos da vila e os colegas do colégio formassem um único time de futebol. Ele talvez pensasse que Kátia e Marcela um dia se tornariam amigas.

            Este escritor não sabe ao certo o grau de consciência que Nicolau tinha sobre tudo isso. O fato é que, em julho de 1993, a banalidade do mal retirou o capuz branco da Klu Klux Klan e lhe ensinou, de forma irrefutável, como é que a banda toca.

            Nicolau gostava muito de jogar bola em um clube no centro de São Bernardo do Campo. Sua mãe, a duríssimas penas, conseguira adquirir o título do clube depois de muito regatear com o pai metalúrgico de Nicolau. (Como o pai verdadeiro de Nicolau era uma excelente pessoa e o queria muito bem, o sentimento pelo filho conseguiu vencer a pão-durice – ou pior, a prudência com os recursos escassos – do operário que chegara a passar fome na roça.)

            O clube em que Nicolau jogava bola reunia os dois planetas pelos quais o menino transitava.

            Os sócios do clube eram parecidos com os colegas de colégio de Nicolau.

            Os filhos dos funcionários do clube eram parecidos com os vizinhos de Nicolau.

            Nas quadras de futebol de salão, não era incomum que os sócios do clube e os filhos dos funcionários jogassem bola juntos – muitas vezes, no mesmo time.

            Nicolau fora a revelação do campenato de futsal disputado no primeiro semestre de 1993.

            Havia três meninas que sempre assistiam entusiasmadas ao jogos de Nicolau: as irmãs Fernanda e Juliana, sócias do clube, e Jussara, filha do bom e velho Sebastião, que trabalhava no almoxarifado do clube.

            Fernanda tinha 15 anos; Jussara, 14; Juliana, 13.

            Vale lembrar que Nicolau, o precoce, tinha 11 anos.

            A molecada só fazia apostar pra ver com quem Nicolau ia ficar.

            (Uma vez Nicolau estranhou: por que é que ninguém aposta na Jussara?)

            É verdade que Fernanda e Juliana eram muito bonitas, mas Jussara, linda que só ela, parecia com a Kátia, a primeira namoradinha do Nicolau.

            Num domingo à tarde, Fernanda e Juliana, impacientes, decidem dar um ultimato a Nicolau:

            - Ou ela ou eu!

            Quando Fernanda e Juliana encontram Nicolau atrás das arquibancadas da quadra principal – a quadra de taco onde nosso herói gostava muito de jogar –, o menino estava aos beijos com Jussara.

            Fernanda e Juliana não podiam acreditar no que estavam vendo:

            - Como é que é?! Você nos trocou por ela!?

            As irmãs preteridas saem correndo e começam a espalhar pelos quatro cantos do clube:

            - Nicolau ficou com a neguinha, Nicolau ficou a neguinha, Nicolau ficou com a neguinha!

            Em pouco tempo, toda a molecada do clube se amontoou junto ao local em que estavam Nicolau e Jussara. (Os dois mal sabiam o que dizer, eles mal conseguiam se olhar.)

            Fernanda e Juliana fizeram com que os vários amigos de futebol que sempre escolhiam Nicolau para jogar em seu time formassem um corredor polonês junto à arquibancada, de modo que, quando o namorico de Nicolau e Jussara saísse do esconderijo, eles tivessem que caminhar através da facção são-bernardense da Klu Klux Klan:

            - Nicolau ficou com a neguinha, Nicolau ficou a neguinha, Nicolau ficou com a neguinha!

            Neste momento, convido o leitor e a leitora deste texto para refletirmos sobre possíveis desdobramentos para a narrativa da banalidade do mal.

            Imaginemos que Nicolau se torne um herói e, sempre a proteger Jussara, saia de trás das arquibancadas e comece a insultar a tudo e a todos e a dar porrada em quem quer que esteja à sua frente.

            Se Nicolau assim o fizesse, poderíamos formular as seguintes perguntas:

(i) Ao descobrir o caráter irreconciliável da realidade, Nicolau não estaria golpeando seus amigos como se estivesse batendo em si mesmo para punir sua própria ingenuidade?

(ii) Ao descobrir o caráter irreconciliável da realidade, Nicolau não estaria golpeando seus amigos para vingar a injustiça contra Jussara e para vingar a humilhação que ele mesmo sofrera?

(iii) Ao descobrir o caráter irreconciliável da realidade, Nicolau estaria golpeando seus amigos para vingar a injustiça contra Jussara ou para vingar a humilhação que ele mesmo sofrera?

O leitor e a leitora que conhecem em demasia as fronteiras de classe talvez já saibam a(s) resposta(s).

Também poderíamos imaginar um desfecho menos altivo – mas não menos real.

A raiva, a dor e a vergonha de Nicolau saem correndo e deixam Jussara à mercê dos apoiadores mirins do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecido como Partido Nazista.

O leitor e a leitora, com toda a justiça, querem saber o que teria feito a ultrajada Jussara.

Se imaginássemos um desfecho nobre e devido, Jussara não precisaria da ajuda de Nicolau para sair do local do namorico e começar a xingar os e a bater nos covardes racistas que a estavam humilhando.

Se assim fosse, Nicolau talvez se mostrasse corajoso à sombra de Jussara para apoiar a contraposição aos membros mirins da Klu Klux Klan.

Ocorre que, a despeito de nossa sede totalmente legítima por justiça, seria bem possível que Jussara, desde sempre achincalhada, tomasse mais essa violência como algo tão natural quanto o esgoto a céu aberto e as muitas grades e portões ao redor das casas e condomínios.

Jussara já havia descoberto o mundo há muito tempo. O negro no Brasil nasce com culpa quando sobrevive ao parto e renasce culpado quando se descobre negro.

Nicolau, por sua vez, nasceu para o chicote do mundo apenas em julho de 1993.

Nicolau nunca mais ouviria alguém chamá-lo de Alemão da mesma forma.

Nicolau descobriu que não se cruza impunemente a fronteira da Alemanha radicada no Brasil.

V. Genealogia da moral

            O menino Brás Cubas, filho da restritíssima elite brasileira do século XIX, tem um escravo que lhe serve de cavalinho – ou melhor, de mula.

            Folgazão, Brás mete a espora no lombo de sua mula humana e chega até mesmo a usar um pano/mordaça como arreio. (A ideia vem do pai de Brás Cubas, um dramaturgo renegado que, é claro, estudou Direito e que preza pela verossimilhança de suas cenas.)

            Na flor da idade, Brás Cubas se encanta com Eugênia, a flor da moita.

            O leitor e a leitora de Memórias Póstumas de Brás Cubas vão se lembrar de que Eugênia é a filha de um caso adúltero de, se bem me lembro, um parente ou amigo da família de Brás.

            Em uma festa na casa dos Cubas, o pai e a mãe de Eugênia dão uma fugidela e vão até uma moita que, nove meses depois, faz as vezes de manjedoura.

            A bastarda Eugênia é a flor da moita.

            Assim como o pai de Eugênia se encantou com a mãe de Eugênia, o garanhão Brás Cubas se encanta com a flor da moita.

            Não fosse por sua origem bastarda e pelo fato de ser coxa, a beleza de Eugênia até poderia recepcioná-la na Casa Grande. É por isso que Brás, mordendo os lábios de desejo e despeito, só faz conjeturar:

            - Ora, ora, por que Eugênia é bonita, se é coxa? E por que Eugênia é coxa, se a danada é deveras bonita?

            Eugênia corresponde aos gracejos de Brás e, na casa de campo de Catumbi – propriedade providencialmente distante dos salões e do burburinho da high society –, o herdeiro da família Cubas pode amar a bastarda.

            Anos depois, Brás Cubas, já bacharel em Direito – tal pai, tal filho –, reencontra sua antiga mula humana. Inocêncio – rebatizemo-lo assim – é agora um homem livre, estamos diante de um escravo alforriado.

            Brás Cubas teria levado o ex-escravo a uma viela deserta e, longe de qualquer burburinho, o nhonhô teria ficado contente em dar um abraço em Inocêncio, seu velho espólio de infância.

Ocorre que, no momento em que Brás reconhece sua antiga propriedade e faz menção de chamar Inocêncio, o mais novo alforriado está cavalgando sua mais nova aquisição, o escravo/mula Sebastião.

Anos depois, Brás Cubas, já político renomado – tal avô, tal neto –, reencontra sua amante bastarda. (Eugênia, que amara Brás de todo o coração, só descobre o sentido da eugenia quando o herdeiro da família Cubas deixa de levá-la à alcova de Catumbi.)

Nicolau Brás leva um buquê de rosas bem vermelhas à flor da moita, mas Eugênia Jussara, com a dignidade daqueles que sofrem, declina da gentileza do Dr. Cubas, deseja-lhe felicidade e, sem olhar para trás, se afasta das memórias póstumas que jamais deixarão de açoitá-la.

             

VI. Ame-o ou deixe-o

            Brasília, há, aproximadamente, 20 anos.

            Os adolescentes bem nascidos Nicolau e Emanuel voltam de uma noitada algo ébrios.

            O carro vai zigue-zagueando pelas amplas avenidas da capital até que a dupla identifica um corpo deitado sob um cobertor roto e rasgado junto a um ponto de ônibus.

            Nicolau é o autor da ideia:

            - Vamos arrepiar esse vagabundo, vambora!

            O fiel escudeiro Emanuel sai em apoio a seu amigo intrépido.

            Logo, Nicolau e Emanuel estão diante do corpo que dorme profundamente à iminência da manhã.

            Emanuel volta ao carro e pega a garrafa de uísque.

            Nicolau apruma o isqueiro.

            Nicolau e Emanuel dão uns totós no corpo para que ele acorde.

            Quando o corpo começa a grunhir, Emanuel o borrifa com uísque e Nicolau completa o serviço com o isqueiro.

            Nicolau e Emanuel se sentam sobre o capô do carro enquanto contemplam o corpo a urrar e a se debater em chamas.

            Quando o corpo volta a ficar em silêncio, Nicolau e Emanuel se entreolham e sentenciam:

            - Pô, que fome, bicho, vamos pruma padoca tomar café-da-manhã!

            - Demorou, vambora!

            O assassinato do índio Sebastião Eugênio dos Santos – rebatizemo-lo assim – chocou o Brasil.

            Durante o julgamento, os réus Nicolau e Emanuel, sumamente arrependidos, assim chegaram a lamuriar:

            - Se a gente soubesse que era um índio, e não um mendigo, a gente não teria queimado o corpo.

            Consta que a juíza do caso, a Dra. Nicolete Mikhailóvski, sentiu tamanha comiseração pelos trânsfugas da classe média – réus que bem poderiam ser seus filhos –, que, à iminência de proferir a sentença que condenaria brandamente Nicolau e Emanuel, a merítissima começa a chorar.

            Consta também que, quando Eugênia Jussara, funcionária da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), autuou a Dra. Nicolete Mikhailóvski em flagrante por dirigir conversando ao celular em uma avenida próxima ao tribunal, a meritíssima providenciou para que Eugênia Jussara, índia como Sebastião, fosse exonerada de seu cargo na CET.


[1]Introdução ao ensaio Um talento cruel. In: Antologia do pensamento crítico russo. Organização de Bruno Barretto Gomide. São Paulo: Editora 34, 2013, pp. 425-507; a citação em questão foi extraída da página 425. Nas próximas citações do ensaio de Mikhailóvski, farei menção apenas aos números das páginas.

[2]Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, p. 14.

[3]A carta de Meyerhold, que traduzi livremente a partir do espanhol, encontra-se no livro El Viaje, de autoria do escritor mexicano Sergio Pitol. México: Ediciones Era, 2000, pp. 49-50.

[4]In: Karen Armstrong, A grande transformação. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 14; pp. 413-414. 

Avalie este item
(7 votos)
Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

voltar ao topo