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O vermelho radioativo e o negro

Chicago, 19 e 20 de março de 2015

Moscou, 15 de agosto de 2008

 

I. A Terra é azul

            Assim analisaram Karl Heinrich Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista:  

            “A burguesia, em seu reinado de apenas um século, gerou um poder de produção mais massivo e colossal do que todas as gerações anteriores reunidas. Submissão das forças da natureza ao homem, maquinário, aplicação da química à agricultura e à indústria, navegação a vapor, ferrovias, telegrafia elétrica, esvaziamento de continentes inteiros para o cultivo, canalização de rios, populações inteiras expulsas de seu habitat – que século, antes, pôde sequer sonhar que esse poder produtivo dormia no seio do trabalho social?”

“Todas as classes que anteriormente conquistaram o poder procuraram fortalecer o seu status subordinando toda a sociedade às suas condições de apropriação”.

“Na sociedade burguesa, o passado domina o presente”.

Com a revolução, tudo o que é sólido desmancha no ar.

Aquele dia estava estranhamente calmo.

Céu azul sem nuvens.

Eu estava rigorosamente no horário.

Se estava nervoso?

Não, estava bastante calmo.

Eu havia estudado a rota com cuidado e precisão, nada podia dar errado.

A Central estava sempre em contato.

Eu estava ciente sobre a responsabilidade que tinha em mãos, ah, se estava! Sim, senhor.

Milhões de camaradas torciam pelo sucesso da minha missão. Milhões!

Realizada a missão, uma guinada de 180º seria dada.

Se tinha medo?

Eu cumpria o meu dever.

Um cosmonauta deve desbravar.

Pronto, fui.

(Testa empapada.)

Eu tinha que rasgar o céu antes de atingir o espaço.

Mission accomplished.

Assim falou Iuri Aliekseievitch Gagárin, o primeiro cosmonauta a cruzar a fronteira da Terra para atingir o espaço sideral:

-A Terra é azul!

No dia 12 de abril de 1961, do cosmos negro através do qual o som não se propaga, Gagárin e a revolução reescrevem o Gênesis:

“A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar”.

II. A Terra é azul fosforescente

            Assim sonharam Karl Heinrich Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista:  

“Quando, no curso do desenvolvimento, desaparecem todas as distinções de classe e toda a produção concentrar-se nas mãos de toda a nação, o poder público perderá seu caráter político. O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para oprimir a outra. Se o proletariado em sua luta contra a burguesia é forçado pelas circunstâncias a organizar-se em classe; se se torna, mediante uma revolução, classe dominante, destruindo violentamente [grifo de Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin] as antigas relações de produção, destrói com essas relações as condições dos antagonismos de classe em geral e, com isso, extingue sua própria dominação como classe”.

“Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas sem abolir a forma de apropriação que lhes era própria e, portanto, toda e qualquer forma de apropriação”.

“Na sociedade comunista o presente domina o passado”.

Após a revolução, tudo o que é sólido desmancha no ar.

Aquele dia estava estranhamente calmo.

Céu azul sem nuvens.

Eu estava rigorosamente no horário.

Se estava nervoso?

Não, estava bastante calmo.

Eu havia estudado a rota com cuidado e precisão, nada podia dar errado.

A Central estava sempre em contato.

Eu estava ciente sobre a responsabilidade que tinha em mãos, ah, se estava! Sim, senhor.

Milhões de vidas dependiam do sucesso da minha missão. Milhões!

Realizada a missão, eu devia dar uma guinada de 180º.

Se tinha medo?

Eu cumpria o meu dever.

Um soldado deve lutar.

Pronto, foi.

(Testa empapada.)

O Little Boy tinha que incinerar a terra antes de atingir o chão.

Mission accomplished.

Assim falou Paul Warfield Tibbets, Jr., comandante do Enola Gay, o bombardeiro quadrimotor B-29 que pulverizou Hiroshima com o Little Boy:

-A Terra é azul fosforescente!

No dia 06 de agosto de 1945, do céu atômico através do qual a temperatura se eleva a 5,5 milhões de graus centígrados, Paul Tibbets, Jr., e a revolução transformam o Apocalipse em um capítulo do Gênesis:

“A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar”.

Consta que Paul Tibbets, Jr., teria batizado o bombardeiro B-29 com o nome de Enola Gay em homenagem à sua mãe, Enola Gay Tibbets.

“Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacó. Jacó gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Farés gerou Esron. Erson gerou Arão. Arão gerou Aminadab. Aminadab gerou Naasson. Naasson gerou Salmon. Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi.

“O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias. Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa. Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão. Jorão gerou Ozias. Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias. Ezequias gerou Manassés. Manassés gerou Amon. Amon gerou Josias. Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no cativeiro da Babilônia.

“E, depois do cativeiro da Babilônia, Jeconias gerou Salatiel. Salatiel gerou Zorobabel. Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliacim. Eliacim gerou Azor. Azor gerou Sadoc. Sadoc gerou Aquim. Aquim gerou Eliud. Eliud gerou Eleazar. Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo”. (Evangelho segundo Mateus, 1-16)

Enola Gay Tibbets gerou Paul Tibbets, Jr.. Paul Tibbets, Jr., de Enola Gay, gerou o Little Boy.

III. O aterro é negro

            Hoje, a violência parece pertencer apenas às fraturas do cotidiano.

            Em comparação com a barbaridade e a crueldade de outras épocas históricas, parece que conseguimos blindar o cotidiano com a paz burguesa.

            Ainda assim, aqui e ali – e que não seja perto de nós e que não tenhamos que sujar as mãos –, a guerra civil se insinua pelas frestas mal vedadas da civilização.

            Uma mãe de família sentencia:

– Que rapaz aguerrido!

Um pai de família reconhece:

– Aquela mulher é uma batalhadora!

Eis o time reunido no vestiário momentos antes da partida final do campeonato:

– Vamos arrebentar, rapaziada, a gente vai trucidar eles, não vai sobrar pedra sobre pedra!

A professora do maternal perfila os aluninhos e lhes ensina os primeiros rudimentos da democracia à brasileira:

“Marcha, soldado, cabeça de papel.

Quem não marchar direito vai preso pro quartel.

O quartel pegou fogo, a polícia deu o sinal,

Acode, acode, acode a bandeira nacional!”

A professora do pré-primário perfila as aluninhas e lhes ensina os primeiros rudimentos de Educação Moral e Cívica:

“Atirei o pau no gato-to,

Mas o gato-to não morreu-reu-reu.

Dona Chica-cá admirou-se-se

Do berro, do berro que o gato deu:

– Miaaauuu!”

Um trabalhador (eventual) entoa seu mantra:

– É preciso matar um leão por dia!

Eis o cântico dos soldados do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro:

“Homens de preto, o que que você faz?

Eu faço coisas que assustam o Satanás!

Homens de preto, qual é sua missão?

Entrar pela favela e deixar corpo no chão!”

Será que o leitor e a leitora – por um mero acaso, é claro – já se ouviram entoando o cântico dos cânticos do Capitão Nascimento?

Capitão Nascimento, protagonista de Tropa de Elite I (2007), filme dirigido por José Padilha.

Sandro Nascimento, antagonista de Ônibus 174 (2002), documentário dirigido por José Padilha.

Roberto Nascimento, a ordem, e Sandro Nascimento, a margem, não poderiam, a princípio, representar espectros mais distantes da luta de classes à brasileira.

            O Capitão Roberto Nascimento veste farda negra.

            O morador de rua Sandro Nascimento é negro.

            O Capitão Roberto Nascimento poderia ter comandado o Massacre da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993, ao qual Sandro Nascimento, um dos mendigos que dormiam na escadaria da igreja, conseguiu sobreviver.

            O Capitão Nascimento enforca Sandro com o cordão umbilical do Brasil.

            Capitão Nascimento, aquele que executa a lei.

            Sandro Nascimento, aquele que a lei executa.

Ônibus 174 procura traçar a genealogia de Sandro Nascimento.

Sandro assistira ao assassinato de sua mãe no barraco em que ambos moravam quando o menino tinha apenas 10 anos – se tanto.

Tropa de Elite I procura traçar a genealogia do Capitão Nascimento?

Não.

Trata-se de narrar a trajetória de André Matias, o policial que irá substituir o Capitão Nascimento no BOPE.

André Matias é negro como Sandro Nascimento.

André Matias fora pobre como Sandro Nascimento.

O ressentimento profundo fez de Sandro um marginal – e, de André, um policial.

[A moeda de 1 (um) real tem duas faces distintas – e contíguas. (A cara de Sandro se opõe à coroa que André só faz resguardar.)]

Em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, o escritor Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus (1997), chegou a chocar os jornalistas:

– Como você vê a escalada de violência nas metrópoles brasileiras, Paulo?

– Violência? Que violência?

– Como que violência, Paulo?!

– No Brasil, não há de fato violência. Se a violência brasileira se espraiasse na mesma medida da pobreza, o Brasil já seria outro – para melhor ou para pior. Há muito mais pobreza do que violência no Brasil, muito mais.

Pergunto ao leitor e à leitora: o que é o crime?

Visto de maneira abstrata – desde que não sejamos nós as vítimas, é claro –, o crime contumaz representa um deslocamento de mercadorias de X para Y: seja diretamente dinheiro, sejam quaisquer outros objetos (animados e/ou inanimados) passíveis de solvência. Para além do âmbito jurídico-moral, o crime nada mais é do que uma ação excepcional de troca, tendo em vista sua ocorrência marginal em comparação com o número ordinário de trocas cotidianas. Nesse sentido, os excluídos são aqueles que fazem trocas de modo marginal.

O Capitão Nascimento só faz sentido em face da lei. O fato de as trocas serem majoritárias ou minoritárias não implicaria, por si só, uma diferença qualitativa, mas meramente quantitativa. Mais ou menos, de modo algum melhor ou pior. Afinal, trata-se do livre trânsito de mercadorias a ser regido pela batuta da Mão Invisível.

Mas no momento em que damos corà análise, encontramos o crânio de Sandro Nascimento sob o coturno direito de André Matias. As trocas marginais passam a ser criminalizadas. O policial é aquele que impede a ocorrência das trocas marginais; o policial visa coibir a inserção marginal dos marginais na rede de trocas.

Ocorre que Sandro e André são negros e têm origens sociais parelhas.

Sandro e seu ódio sobrevivem aquém.

O ódio de André veste a farda preta sobre a pele negra e diz amém.

Como o Fausto de Johann Wolfgang von Goethe, Sandro Nascimento parece dizer eu sou aquele que tudo nega – mas foi André Matias quem fez o pacto com Mefistófeles.

Um jovem como André, que consegue entrar na melhor faculdade de Direito do Rio de Janeiro, pode ser oriundo de uma família tão desagregada quanto a de Sandro Nascimento. No entanto, à falta de um seio familiar acolhedor, à falta de uma mão que afaga, à falta de um sentido, pode-se abrir uma ferida que separe o joio de Sandro do trigo de André.

André tem aptidões diferenciadas. Quando é incitado e desafiado, André responde satisfatória e competitivamente, Matias apresenta resultados, o aspirante a oficial do BOPE destoa dos demais. Sandro é a regra cabisbaixa; André é a exceção altiva. Sandro e André são filhos da ausência. No entanto, a ferida purulenta do ressentimento atinge Sandro e André de maneiras radicalmente distintas.

Para André, a sociedade tende a abrir possibilidades, ainda que exíguas e incertas. Nem precisaríamos dizer que André não terá as mesmas oportunidades de um jovem bem nascido, ainda que Matias se mostre mais capaz. Sendo assim, passa a se desenvolver no substituto do Capitão Nascimento uma lógica tautológica de contínua superação de si mesmo, uma lógica obsessiva de meios e fins, meios e fins, meios até o fim: ser bem-sucedido, enterrar a si mesmo e a seu passado pobre e sem farda, custe quem custar. André bem sabe que não será um igual – os olhares perfurocortantes dos demais rasgam-lhe o amor próprio que nem mesmo a farda e a patente conseguem resguardar –, mas a vitória representa, enfim!, o afago que a família não lhe pôde dar. [A frieza que André introjeta para vencer os demais (e a si mesmo) sentencia que, na verdade, sua família lhe negou afeto. Apenas a corporação e o batalhão podem acolhê-lo.]

A sociedade (outrora) opressora passa a cobrir André de medalhas – quase já não é possível entrever sua pele negra. (Quase.) Para o Capitão do Batalhão de Operações Especiais, tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, críticas à sociedade representam um verdadeiro parricídio – afrontas contra tudo aquilo que a corporação defende, escarros contra o batalhão que fardou André e lhe deu existência (e reconhecimento).

Sandro Nascimento é o antípoda – o pivete malabarista sobre a faixa de pedestres, o saco de ossos junto à pilastra úmida do viaduto, o intruso no vagão de trem lotado e fedido. Sua ferida é purulenta, ele grita e vocifera – mas Sandro não consegue se adaptar. O ódio de Sandro é difuso, ele não encontra sentido algum, ele só entrevê temor e fuga nos soslaios que o evitam, ele só sente que tem medo e que provoca medo. A vítima sente que só existe para os demais quando faz outras vítimas.

Mas, ora, quem disse que Sandro só quer destruir a tudo e a todos que o cercam?

O leitor e a leitora talvez digam que Sandro só faz roubar – não é improvável que ele já tenha cometido homicídios. Sendo assim, o que mais Sandro teria em vista senão fazer terra arrasada do mundo que o defecou?

Ao que seria possível redarguir:

– E se a vingança de Sandro tiver como alvo não aquilo que ela tenta eliminar – a finalidade da ação por si só –, mas, antes, a própria reação, o espectro da punição?

Para Sandro, o ressentimento talvez trabalhe a galope da pulsão de morte: a punição, o (re)encontro com os coturnos da lei, pode apresentar ao infrator uma mão que o golpeie e ensine, um pai carrasco que o surre e lhe imponha limites – limites que, contraditória e autoritariamente, dão um norte para Sandro, devolvem-no ao acalento do útero, o único abrigo que chegou a proteger Sandro da vida. Sandro delinquirá, contínua e ininterruptamente, até que o (re)encontro com os coturnos da lei não mais precise separá-lo dos pais – até que Sandro já não precise sobreviver para se lembrar da degola de sua mãe, degola que ele não pôde evitar, degola de que a criança se sente cúmplice, degola que a criança passa a desejar para os demais, para todos os demais – e, sobretudo, para si mesma.

Sandro Nascimento e André Matias não são meramente ressentidos.

Sandro e André estão sempre ressentindo.

Seus alvos são difusos e trêmulos, seus meios se confundem com os fins.

Sandro Nascimento vence ao morrer.

André Matias vence ao matar.

O bom e velho Friedrich Nietzsche já dissera que todo aquele que vive para derrotar o inimigo precisa do inimigo sempre vivo.

Sandro Nascimento, inimigo de si mesmo, e o Capitão André Matias, amigo (e inimigo) de si mesmo, vivem para sepultar a memória.

            Enquanto André se reconhecer nos cadáveres de Sandro Nascimento, o Capitão Matias continuará a empilhar corpos para soterrar sua infância à flor da pele sem farda.

            Enquanto Sandro não for um dos corpos empilhados pelo Capitão Matias, o Nascimento não abortado continuará a esperar pelo tiro de misericórdia de André. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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