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A lanterna de Kierkegaard

Chicago, 28 de abril de 2015

Ao meio-dia de um domingo de verão, Diógenes caminha com sua lanterna em punho. (A fama de louco do filósofo se alastra como uma epidemia.)

Súbito, uma criança curiosa, contrariando as ordens do pai, corre até Diógenes e o interpela:

- Tio, tio!

O pensador andarilho afaga o cocuruto da menina e lhe dá uma bala.

- Tio, tio! O dia tá muito bonito, não tem uma nuvem no céu, o sol tá bem forte. Por que que cê tá andando com essa lanterna, tio?!

Assim falou Diógenes de Sínope:

- À procura de um amigo, minha pequena – ando com essa lanterna à procura de um amigo.

            Assim reza um velho dito (despido de qualquer fé):

            - Verdadeiros amigos se contam nos dedos de uma única mão.

            Sobram dedos (e anéis), faltam amigos.        

            No café onde estou escrevendo, há um senhor como que debruçado sobre a taça de vinho. Ele olha fixamente para uma mesa ao redor da qual três amigos só fazem brindar.

O velho estanca o trago – que ao menos o vinho lhe faça companhia.

            A caminho do metrô, vejo a vizinha a passear com suas melhores amigas: três poodles.

            Sempre que me deparo com o facebook a arrolar o inventário de nossas amizades, me lembro de uma máxima do bom e velho Pitágoras:

             - O amigo é um segundo eu.

            Afinidades eletivas, similitudes. 

            Mas, se o amigo é um segundo eu, por que eu não me contento com o meu próprio eco?

            Não é difícil entrever que a competição encarniçada sitia cada vez mais a amizade. Difícil é não se resignar.

            Dizem que a admiração é uma das pilastras da amizade.

Pois muito bem: seus amigos lhe estendem a mão e ficam efusivos quando você finca a bandeira de uma conquista?

            A solidariedade parece mais franca no velório. (A compaixão condescendente não traz no bolso a comichão da inveja.)

            Na sociedade dos recursos abundantes e da partilha escassa, a conquista do amigo inocula através do nosso sorriso de soslaio a sensação de que ficamos para trás.

            A admiração pressupõe o amigo que nos mira de perto ad-mirar. (Não é preciso ter muita mira para dar tiros à queima-roupa.) 

            Na verdade, estamos bem mais próximos da telemiração.

Admiramos o amigo talentoso, esforçado e perseverante – um verdadeiro peregrino no deserto de nossa falta de sentido –, admiramo-lo sempre à distância, falamos sobre ele para nossos próprios amigos. (Assim, os elogios para o outro que não está presente se tornam elogios para mim mesmo. Afinal, Fulano é meu amigo, e o amigo é um segundo eu.)

Johann Wolfgang von Goethe era tido como o homem sem inveja. Afinal, o que é que o autor de Os sofrimentos do jovem Werther e Fausto poderia invejar?

Mas eis que o bisturi de Friedrich Nietzsche disseca a abnegação.

Certa vez, Goethe assim falara sobre Shakespeare:

- Ah, as estrelas... As estrelas, nós não as desejamos!

As estrelas são tão inefáveis e intangíveis, elas estão tão longe e acima de nós, que só as desejamos em vão. Shakespeare é tão incomparável, mas tão incomparável que, como as estrelas, ele se torna longínquo – e diminuto.

Para admirar Shakespeare, precisamos de um telescópio.

Assim, munido da humildade de Narciso, Goethe exila Shakespeare no Panteão para apaziguar a inveja de Mefistófeles.

A telemiração pressupõe o amigo que nos mira de longe tele-mirar. (É preciso ser bom de mira para se tornar um sniper.) 

Mas, diante da lucidez que nos empareda – a lucidez do penhasco –, a vizinha e os poodles fraternos nos interpelam:

- Que fazer?

Poodles como melhores amigos apontam para a completa atrofia da amizade, mas a Sra. Poodlófila não consegue se ilhar na própria solidão – ela não quer asfixiar o ímpeto por carinho e afeto.

É como se a Sra. Poodlófila, ao ouvir a máxima de Pitágoras, se lembrasse de um filósofo andarilho, o dinamarquês Søren Kierkegaard, para quem “o amigo é o primeiro tu”.

Moscou, dezembro de 2008.

Brito e eu conversávamos sobre a aridez, a resignação – e a rebeldia em relação ao atual estado de coisas. (Brito é um grande amigo angolano que reparte o pão antes mesmo de oferecê-lo.) Em dado momento, a olhar para o fundo da garrafa de vodca pelo túnel do gargalo, Brito sentencia:

- Tudo isso nos fere muito, a frieza e a indiferença parecem uma carapaça – uma fortaleza. Quando mal percebemos, nós mesmos nos tornamos sentinelas. Mas parece que há alguma coisa latente nesse exílio, parece que há algo que não nos torna apenas cúmplices de tudo isso. Há algo aí que não se resigna, há um querer mais – um querer além.

- E como é possível viver isso, Brito?

- Não sei, gajo, não sei. Mas há uma coisa curiosa nisso tudo. Às vezes, há algumas surpresas, preocupações inusitadas despontam, surgem frágeis demonstrações de afeto que tentam driblar a vigilância das sentinelas. Hoje em dia, ser generoso com uma pessoa e elogiá-la parecem cláusulas para a supressão da própria independência, como se o outro passasse a nos ver de cima, por sobre os ombros, como se nos tornássemos colônias do amigo imperial. Mas, quando a amizade consegue se esgueirar pelo corredor polonês, ela irrompe, aqui e ali, como o trigo entre o joio. [O esquecimento, para além do deixar pra lá, não me parece algo menor nisso tudo, não. O ressentido transforma o esquecimento em seu mais encarniçado inimigo. (Mal sabe ele que o esquecimento seria seu melhor amigo.)] Talvez a resignação, ao se chocar contra o fundo dessa garrafa e ao ouvir o niilismo do próprio eco, nos traga mais lucidez. A serpente troca de pele muitas vezes até se conhecer. O andarilho não peregrina apenas para descobrir a geografia do mundo. O andarilho, antes de mais nada, peregrina para descobrir a sua própria geografia. O andarilho se desgasta, ele fica exausto, cai, se desilude e duvida – a dúvida me parece uma corda para resgatá-lo do poço do próprio eco. Quem povoa as memórias do andarilho? Que vozes ele ouve? Os escombros não prenunciam o ímpeto por uma nova morada? Não é por isso que você escreve, Ricardo?

- Eu não sabia disso até você me dizer, Brito.

- Ora, gajo, o amigo é o primeiro tu. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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