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Fernando Abujamra, Antônio Pessoa e André Riobaldo

Chicago, 28 de abril de 2015

            Faleceram, nesta manhã de terça-feira, o bom e velho camarada Antônio Abujamra e suas Provocações, entre as quais venho caminhando desde 2001.

 

À época, as Provocações despontavam em horário nobre – às 20h do domingo. Com a audiência galopante do programa – audiência galopante e esquerdizante –, a TV Cultura, sob o punho do Grão-Vizir do Califado Paulista do Tucanistão, precisou exilar o comunista Antônio Abujamra nas madrugadas das segundas e terças-feiras. Ainda assim, não foi possível calar de todo a voz tonitruante de Abujamra, a voz que pulsava pelos aforismos e poemas de Wilde, Maiakóvski, Brecht, Kafka, Rosa, Tolstói, Strindberg, Machado, Lispector, Camus, Sartre, Woolf, Shakespeare – e Dostoiévski.

Ao entrevistar o professor Boris Schnaiderman, tradutor e estudioso da obra de Dostoiévski, Abujamra narra o início de uma aula magna sobre literatura russa ministrada pelo escritor Vladimir Nabokov em uma universidade aqui nos EUA.

Os alunos e alunas rosados e bem nutridos esperavam um exilado da União Soviética, um burocrata, um apparatchik do Partido. Súbito, Nabokov surge no amplo auditório com uma elegância incomparável. (Quando o russo atinge a elegância, um lorde inglês parece um mendigo.)

Há três grandes janelas no auditório – e três grandes cortinas.

Nabokov sobe os degraus rentes às janelas e vai fechando as cortinas.

(Os estudantes se entreolham sem nada entender.)

Súbito, Nabokov abre a primeira cortina até quase a metade da janela – o sol se esgueira algo tímido – e sentencia:

- Isto é Púchkin!

O escritor não se dá por satisfeito e, junto à segunda janela, abre a cortina a pouco mais de meio-mastro:

- Isto é Gógol!

Os alunos mal podem esperar pelo sol ainda mais amplo da terceira cortina. Quando Nabokov desnuda a última janela como um todo e o sol se projeta sobre a pele negra da lousa, os estudantes leem o nome do grande Liev Tolstói.

- Ladies and gentlemen, let's talk about Russian literature!

Abujamra mal consegue conter o frêmito de suas mãos russófilas que regem a narrativa como a batuta do maestro. Ainda assim, o professor Boris Schnaiderman se mostra contrafeito:

- Mas onde está Dostoiévski?

(Seria Dostoiévski o próprio sol a se irradiar pelos demais escritores?)

Em 2005, foram ao ar Provocações especiais.

Abujamra cruzou o Atlântico, a Europa e o Cáucaso para chegar à antiga capital soviética: Moscou.

Era como se eu me embrenhasse pelas imagens que percorriam o Kremlin, o cemitério onde está Maiakóvski, a Praça Vermelha, o Mausoléu de Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin, a catedral policromática de São Basílio, o Museu Dostoiévski, a estação Parque da Vitória, em homenagem aos 27 milhões de russos mortos durante a Segunda Guerra Mundial – para os russos sob o punho de Stálin, trata-se da Grande Guerra Patriótica (1941-45) –, a Rua Arbat, onde estão os teatros, os artistas e a casa de Púchkin.

Três anos depois, eu procederia à imitação das Provocações de Abujamra e zarparia para Moscou. Sempre que descia as looongas escadas rolantes do metrô moscovita – longas como os pescoços das torres de Maiakóvski, longas como os garrotes e tentáculos da polícia política –, entreouvia a trilha sonora de Provocações para caminhar pelo bunker da utopia, o subsolo das memórias.

Aos 82 anos – verdadeira idade bíblica –, o camarada Antônio Matusalém foi encontrado sem vida em seu apartamento. (O homem ridículo, personagem fundamental de Dostoiévski, também teve que se perder de si mesmo para conseguir se recompor.) Ocorre que o ímpeto vital de Abujamra exala a reconciliação – a verve de sua voz transborda a paixão daquele que sempre se embebeu das fontes vivas da vida para além de quaisquer niilismos resignados.

Eis que, entre os muitos provocados pelas Provocações, há um programa em que Antônio decide provocar Abujamra.

Abujamra conta para Antônio que, certa vez, fora convidado pelo príncipe de Mônaco para ser um dos jurados do 38º Festival Internacional de Televisão, sediado no enclave suntuoso de Monte Carlo.

Minha esposa e eu fomos, de primeira classe, em um voo que nos levou de São Paulo a Frankfurt. De lá, fomos a Nice, onde um helicóptero, em 7 minutos, nos fez pousar em Monte Carlo. Sabem lá vocês o que é Monte Carlo, meus amigos? Aquelas mulheres loiras e longilíneas, aquela sucessão vertiginosa de iates, ruas limpíssimas, não havia mendigos pelas ruas – e eu cheguei a sentir saudade dos nossos mendigos.

Abujamra, “um Jonathan Swift subdesenvolvido” – assim Antônio define seu duplo com os caracteres de Provocações –, se sente um franco atirador em meio aos colegas jurados do Primeiro Mundo. Eu, intelectual latino-americano, tenho direito à mediocridade. Eles logo ficaram sabendo que eu era um leitor contumaz de Thomas Bernhard, que eu descobrira um diálogo subliminar entre as vigas do Minhocão e o subsolo de Dostoiévski, que a Enfermaria n. 6, de Tchékhov, tem os contornos da Cracolândia – e dos Jardins. Súbito, eu lhes pergunto:

– Mas onde estão as minisséries brasileiras?

Ao que a empáfia primeiro-mundista me responde:

– Não foram aceitas.

– Mas nós fazemos minisséries bem melhores do que todo esse conteúdo que os jurados temos que avaliar, as minisséries brasileiras são mundiais. Sendo assim, onde elas estão?

– Não foram aceitas.

            Abujamra conta a Antônio que, como eu ficara famoso entre os jurados como o erudito exótico do Brasil, fiz uma proposição aos colegas do 38º Festival Internacional de Televisão, em Monte Carlo, que não sabiam o que fazer com a pasmaceira das minisséries que precisavam premiar:

            – Em verdade, em verdade lhes digo: o prêmio tem que ser dado ao corpo de jurados que teve que aguentar essas minisséries todas!

            Ocorre que a odisseia abujâmrica em Monte Carlo também se irradiou pelos bastidores do festival.

            Antônio conta a Abujamra que houve um jantar de encerramento. Sabem lá vocês, meus amigos, o que foi aquele jantar de encerramento no Principado de Monte Carlo? 4 mil pessoas, uns sessenta garçons paramentados com um branco alvíssimo, sessenta garçons perfilados – estávamos diante de um balé da Pina Bausch. (E ainda dizem que se morre de tédio em Monte Carlo... Em verdade, em verdade lhes digo: eu quero morrer de tédio em Monte Carlo.) Estávamos degustando as iguarias – eu, que nasci em Ourinhos e me tornei paraquedista em Monte Carlo, e minha esposa –, eu lhes falava sobre o teatro brasileiro, os olhos esbugalhados e os sorrisos de soslaio denunciavam o desdém pelo que eles talvez pensassem ser o teatro das ocas, o teatro das tribos, então minha eloquência aumentava, eu calava a pecha de ser brasileiro com a erudição que aqueles europeus não tinham, até que, num dado momento – quiçá o ápice da minha atuação –, após um trago de Consommé para tomar fôlego, o meu pivô (este aqui, sob o meu molar esquerdo) cai dentro da taça. Meu Deus do céu! Todos esperavam que eu continuasse, todos esperavam pelo arremate, mas eu só conseguia sussurrar para a minha esposa:

            – O meu pivô caiu, o meu pivô caiu...

            Quando ela se deu conta da tragédia odontológica, minha esposa se apoderou do guardanapo alvíssimo do Principado de Monte Carlo para resguardar o meu pivô em uma mortalha digna de mim. (Vocês lá sabem quanto custa um pivô, meus amigos?)

            Súbito, um amigo de tantos tragos de vinho e uísque, o inglês William – “for your, dear Abujamra, I’m Bill, you can always call me Bill!” –, se oferece para ajudar.

            – Tomorrow, at 9:00 a.m., I’ll pick you up at your hotel to take you to the best dentist in Monte Carlo.

            Abujamra conta a Antônio que este jurado erudito e exótico, desfalcado do pivô sob o molar esquerdo, estava hospedado no hotel Hermitage. Sabem lá vocês o que é o hotel Hermitage de Monte Carlo, meus amigos? Perto do hotel Hermitage de Monte Carlo, meus amigos, o Caesar Park não passa de um cortiço! E às 9 horas da madrugada – esses ingleses têm um relógio na cabeça –, lá estava o Bill beberrão (nele não havia nenhum sinal da ressaca que me fazia rodopiar). Bill me leva até a sua Mercedes-Benz. Eu bem sei que vocês vão imaginar que se trata de uma Mercedes dourada. Mas não, não! Bill era dono de uma Mercedes-Benz de ouro!

            Antônio pergunta a Abujamra:

– Mas quem era esse Bill, afinal?

William Bill era ninguém mais, ninguém menos que o presidente da Fox Internacional. (E eu, que nasci em Ourinhos, era seu passageiro, na Mercedes de ouro, rumo ao mais caro e mais conceituado dentista de Monte Carlo.) Súbito, eu, leitor de Joyce e Kafka, intérprete de Stanislávski e Meyerhold, quis interpelar Bill sobre os feitos da Fox Internacional.

– O que vocês têm feito ultimamente?

            Assim falou William Bill com a precisão do contador inglês:

            – Nosso último sucesso foi Titanic.

            Pronto, pronto!, mas o que é que eu estava fazendo ali? Deus meu! Vamos logo ao dentista, voltemos logo do dentista, Titanic, Titanic! (Bendito naufrágio!) E eu não disse mais nada, nenhuma palavra – também pudera: o pivô ausente não me ajudava.

            Quando chegamos ao dentista mais conceituado (e mais caro) de Monte Carlo, tudo foi feito em questão de minutos. Bill logo sacou o talão de cheques como um voluntário da Cruz Vermelha disposto à caridade, mas eu quis humilhá-lo, eu quis afundar o Titanic ainda uma vez: todo o meu cachê como jurado do 38º Festival Internacional de Televisão, no Principado de Monte Carlo, escoou pelo pivô e foi parar no bolso do dentista.

            Quiçá por consideração – ou talvez por comiseração –, o dentista mais caro e mais conceituado de Monte Carlo assim me aconselhou:

            – Esse pivô é provisório – e não mais do que provisório. Chegando ao Brasil, você deverá trocá-lo imediatamente.

            Assim falou Antônio para Abujamra:

            – Eu, Antônio Abujamra, um Jonathan Swift subdesenvolvido, jurado erudito e exótico do 38º Festival Internacional de Televisão, no Principado de Monte Carlo, conduzido ao dentista mais caro e mais conceituado de Monte Carlo por William Bill, presidente da Fox Internacional e comandante do Titanic, estou com o pivô provisório até hoje – e jamais irei trocá-lo.

            Antônio Abujamra faleceu no dia 28 de abril de 2015.

            Marineuza Vassoler, minha mãe, faleceu no dia 28 de abril de 2012.

            Um mês e onze dias antes de Abujamra falecer, as Provocações recebem um convidado umbilical. Dia 17 de março – dia do aniversário da minha mãe. Assim falou Antônio, o pai:

            Provocações, 14 anos no ar! Provocações: caminhando pelo incerto e idolatrando a dúvida. Este programa pode não ser uma janela aberta para o mundo, mas é certamente um periscópio sobre o oceano do social. Provocações! Provocações! E hoje, meus amigos, recebemos alguém que tem tudo a ver com este programa – de alfa a ômega, do princípio ao fim. O convidado de hoje compôs a música de abertura e encerramento de Provocações. O som das vinhetas é dele. Ele é compositor, multi-instrumentista, diretor, ator, conhecedor das coisas da música – da erudita ao rock. Já esteve nos palcos do teatro, andou pelas telas do cinema e da televisão, até telenovelas ele já fez. E, ademais, ele é filho deste apresentador. Ele é André Abujamra!

            Desde o início da entrevista – ou melhor, da despedida –, André olha para Antônio com ternura.

            Como é ser filho de Abujamra?

            Como é ser filho da conquista?

Como é descobrir que André conviverá sempre com o espectro do Abujamra filho?

            O dito de que os pais procuram reconciliar suas próprias frustrações através da vida dos filhos é deveras requentado. Mas o que sente o filho cuja consciência reza em nome do pai?

            Levemos a tensão entre pai e filho às últimas consequências – distanciemo-nos, momentaneamente, de Antônio e André. Pensemos em Saturno a devorar seu próprio filho e nos lembremos de Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin.

            Nem mesmo os ateus ignoram o destino do Filho de Deus – por sinal, muitos deles consideram o desenlace da Paixão como um motivo a mais para a crença no ateísmo.

            “[E] Jesus exclamou em voz forte: ‘Eli, Eli, lammá sabactáni?’ – o que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mateus, 27, 46)

            Nem mesmo os religiosos ignoram o destino do filho do deus que destronou Deus – por sinal, muito deles consideram o desenlace de Iákov Iossifovitch Djugachvíli como um motivo a mais para a descrença na utopia.

            Quando o pai é saudado como o Guia Genial dos Povos, que resta ao filho senão a penumbra do soldado? [Stálin arremata: soldado raso. (Ou, segundo a tradição georgiana dos Djugachvíli – tradição que apenas Stálin logrou superar, tradição que apenas Stálin pôde superar –, um “simples sapateiro”.)]

            Certa feita, Iákov acorre até o pai, com muita alegria, para lhe contar, em primeiríssima mão, que acabara de ficar noivo de sua bem-amada. Quando Stálin fica sabendo que a noiva de seu filho é judia, expurga o noivado sem mais – a relação está terminantemente proibida. Nadejda Alliluieva, esposa de Stálin, mal pode acreditar na erupção antissemita do revolucionário bolchevique. Enquanto Stálin e Nadejda se engalfinham, Iákov corre até o quarto em desespero. Súbito, Stálin e Nadejda ouvem um disparo. Nadejda voa até o quarto e encontra Iákov ferido e semiconsciente junto ao criado-mudo. Nadejda grita por ajuda, os guarda-costas logo irrompem e levam Iákov ao hospital.

            Assim que o pai fica sabendo que o filho sobrevivera ao suicídio, deus revisita o desprezo de Deus por suas criaturas ao afogá-las com o dilúvio. Assim falou Stálin:

            - Ora, ora, mas que paspalho imprestável! Ele não consegue sequer atirar direito!

            Durante a Segunda Guerra Mundial, Iákov serviu como Oficial de Artilharia do Exército Vermelho e, nos estágios iniciais da invasão nazista à União Soviética, a 16 de julho de 1941, o filho de Stálin foi capturado pelos alemães na Batalha de Smolensk.

            Consta que, posteriormente, os alemães propuseram aos soviéticos uma troca justa. Se os comunistas devolvessem às forças do Terceiro Reich o Marechal de Campo Friedrich Paulus, capturado na Batalha de Stalingrado, os alemães devolveriam Iákov são e salvo.

            Quando a proposta foi transmitida a Stálin, o pai deu de ombros:

            - Ora, eu não vou trocar um marechal por um tenente.

            Não é à toa que o bom e velho Sigmund Freud, ao ler Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, encontrou o tema fulcral que funda a civilização – e reproduz seu mal-estar: o parricídio.

            - Pai, por que me abandonaste?

            Iákov não conseguiu escapar do aguilhão umbilical. Saturno devorou mais um de seus filhos.

            Segundo a versão oficial do Terceiro Reich, Iákov Iossifovitch Djugachvíli teria se suicidado ao se jogar contra a cerca de alta tensão do campo de concentração de Sachsenhausen, ao norte de Berlim.

            Iákov, tragicamente, não recebeu o amor e o ímpeto que Antônio transmitiu a André.

            Quando o pai ouve o filho discorrer sobre a vivência do som como uma cura essencial para os males da alma, Abujamra vaticina:

            - Essa liberdade você não pode perder nunca, André, não deixe que a liberdade fuja de você, por favor!

            (O pai insufla o vento para que filho alado voe.)

            Interpelado por Antônio a respeito do cenário musical no Brasil contemporâneo, André se diz um outsider ao lado de Maurício Pereira, seu parceiro na banda Os Mulheres Negras, Paulinho Moska, Lenine – e “meu filho, José Abujamra”. Ao que Antônio, pai de André e avô de José, sentencia:

            - Você tem que ter cuidado, André! O José vai tocar melhor do que você com o tempo, hein? Aliás, ele já está tocando, ele já é um talento! Também pudera: é meu neto, né?

            (O avô insufla a turbulência para que o neto alado voe para além do filho.)

            - André, o que é que os jovens de hoje mais desconhecem na música?

            - Olha, pai, eu acho que eles desconhecem o estofo.

            - O estofo?

            - É, o estofo. Isso é uma coisa que eu sempre ouvi de você...

            - De mim?

- É, de você, pai! Eu não entendia muito bem as frases que você me dizia quando eu era pequeno, mas agora, com a idade – eu vou fazer 50 anos em 2015 –, eu começo a entender – e começo a dar o braço a torcer pra você, pai. Hoje, mais velho, eu acredito em tudo o que você me falou, pai. E você dizia: “Tudo o que não é tradição é plágio”. E isso, a princípio, sempre me soou como um paradoxo. Ora, se a gente reitera a tradição, aí é que está o plágio. O novo, quando eu era novo, me parecia a ruptura com a tradição. (O silêncio de Antônio como que pergunta: a ruptura com o pai, André?) Mas, hoje, eu entendo que o novo depende, visceralmente, do conhecimento profundo da tradição, das percepções das diferentes tomadas de posição, das direções e contradireções das criações e recriações. O iconoclasta ama a tradição! É assim que o novo desponta do acúmulo crítico da tradição. (O silêncio de Antônio como que sentencia: da contradição, André.) É isso que falta à juventude de hoje, pai, esse conhecimento mais aprofundado. Então, hoje eu entendo outra máxima sua, pai: “Juventude, cresça!” Ou então: “A música é uma arte duvidosa”.

- Bom, André, falar que a música é uma arte duvidosa é uma questão de abrir uma briga! Mas nós temos que brigar sempre!

- Mas, apesar de você sempre me dizer que a música é uma arte duvidosa, eu consegui fazer com que minha vida orbitasse ao redor dela. (O silêncio de Abujamra sorri: Ícaro alçou voo.)

- Agora, André, me conte uma coisa: que história é essa de você falar russo? Que personagem é essa que você criou que fala russo? Que russo farsesco é esse, meu filho?

- Então, pai, é o seguinte: eu demorei muito para aprender a falar – e você sabe disso.

(Antônio e sua eloquência, Abujamra e sua voz tonitruante – o silêncio do ator e orador Antônio Abujamra bem sabe (por) que André demorou para articular as próprias palavras.) 

- Na verdade, hoje eu sei que eu necessitava do som, pai. Barulho, pra mim, é música. Eu inventei o russo falso para poder dizer alguma coisa – qualquer coisa desconexa – como música, e não como palavra. Então eu passei a inventar palavras, a partir da minha língua russa, para que elas se tornassem música.

O pai provocador – o pai das Provocações – já provocara o filho: “A música é uma arte duvidosa”.

Antônio Abujamra é apresentador, diretor, ator e literato.

Antônio Abujamra, para quem a música é uma arte duvidosa, não é músico.

André Abujamra é compositor, multi-instrumentista e conhecedor das coisas da música – da erudita ao rock. André compôs a música de abertura e encerramento de Provocações e é o autor do som das vinhetas do programa. A vida de André orbita ao redor da música.

O parricida André Abujamra ama seu pai.

Se Antônio Abujamra pariu a máxima de que “a música é uma arte duvidosa”, o músico André Abujamra assim compõe o contraponto:

- Parto, pai, logo existo.

- Mude a vida, André, mude-a!

- Eu tento, pai, eu tento. Eu tenho sempre milhões de ideias!

- Ideia qualquer mente vulgar é capaz de ter, meu filho.

- Isso... Isso foi você que me falou. Então, eu tenho várias ideias vulgares ou sou vulgarmente cheio de ideias. Pai, eu preciso fazer o que me incomoda para que eu sempre consiga me reinventar. (Grifo de Iákov Iossifovitch Djugachvíli.)

- Pois muito bem: você, André, ao contrário de quase toda a nossa família, é religioso. Explica isso.

- Desde pequeno, eu procuro tudo na religião. Budismo tibetano, Allan Kardec, umbanda, candomblé. (O silêncio literato de Antônio Abujamra se lembra de Riobaldo: “Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque”.) E por quê? Por causa do som. Tem um apito, um apito de cachorro, que, quando você o assopra, fiu!, só o cachorro escuta, a gente, não. E o apito tem uma vibração. Essa vibração é muito aguda, por isso a gente não ouve. E nós, humanos, somos vibrações, nós temos células que vibram. Aí, desde pequeno, eu venho pensando: se o som vibra muito rápido e eu não escuto, deve existir gente que eu não vejo. É uma coisa científica, e, a partir daí, eu parti para o espiritismo, o candomblé, e eu gosto muito.

            - Pois muito bem: e se ao morrer, André – você que se diz religioso –, você descobrir que, lá em cima (ou lá embaixo), existe apenas um imenso e silencioso nada?

            - Se eu descobrir isso, eu vou curtir também, porque a maior música, pra mim, é o silêncio, o maior som é o silêncio, porque sem o silêncio não existiria som.

            O pai, que não é músico, permanece em silêncio diante do filho.

Súbito, Abujamra retira o indicador direito de sobre o lábio superior – um de seus gestuais pensantes mais característicos – e interpela o filho:

            - André, o que é a vida?

            - A vida, papai, é uma causa perdida, e, hoje, eu acredito nessa máxima que você me diz desde pequeno.

            O pai, que não é músico, reitera a pergunta para o filho como se ela fosse um refrão:

            - André, o que é a vida?

            O filho, que também é pai, responde ao pai, que também é avô:

            - A vida, papai, é o amor que eu sinto pelos meus filhos e por você.

            Quando a entrevista – ou melhor, o diálogo – mais lírico e tocante da trajetória de Provocações termina, o pai pede ao filho que se levante e “e me dê aqui um abraço, porque o abraço é a única coisa falsa que tem neste programa”.

Se André Abujamra, com os olhos marejados, soubesse que, 1 mês e 11 dias depois, seu pai viria a falecer, qual seria o som do beijo que o filho dá na careca do pai?

Para nos despedirmos do bom e velho camarada Antônio Abujamra, é preciso provocar, ainda uma vez, o pai das Provocações. Com e contra Antônio (e com André), sejamos abujâmricos, sejamos parricidas. 

Tese de Antônio Abujamra a recitar e a fundir, ao fim de suas Provocações, dois poemas de Alberto Caeiro, uma das pessoas de Fernando:

Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas

“Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas.

 

Para ti tudo tem um sentido velado.

 

Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.

 

O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.

 

Para mim graças a ter olhos só para ver,

 

Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;

 

Vejo-o e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.

 

Ser uma coisa é não ser suscetível de interpretação”.

A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas

 

É a minha descoberta de todos os dias.

 

Caida coisa é o que é.

 

É difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

 

E quanto isso me basta”

 

(...)

Antítese de Antônio Pessoa a arremessar Fernando Abujamra contra si mesmo – e para além de si mesmo. (Antítese extraída do desassossego mediúnico do Livro do Desassossego.)

            “Deus é o existirmos e isto não ser tudo”.

Síntese de André Riobaldo Cardéque Abujamra:

            - Muito obrigado, pai. Eu te amo – e até breve. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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