A+ A A-

Crime sem castigo

Chicago, 10 de maio de 2015

I. Deixa que os mortos enterrem seus mortos

            The Act of Killing (2012), documentário dirigido por Joshua Oppenheimer.

            “Em 1965, o governo da Indonésia foi deposto pelos militares. Quem se opusesse à ditadura militar poderia ser acusado de ser comunista: membros dos sindicatos, camponeses sem-terra, intelectuais – e os chineses étnicos”.

            (Um espectro ronda a Indonésia, o espectro do Grande Timoneiro, também conhecido como Mao Tsé-Tung.)

            “Em menos de um ano – e com a ajuda direta dos governos ocidentais –, mais de um milhão de ‘comunistas’ foram assassinados”.

            (Um espectro presta consultoria à Indonésia, o espectro da CIA – e da prisão vindoura de Guantânamo.)

            “O Exército usou paramilitares e gângsteres para realizar os assassínios. Esses homens estão no poder – e continuam a perseguir seus oponentes – desde aquela época.

            “Quando nós encontramos os assassinos, eles contaram com orgulho as histórias sobre o que fizeram.

            “Para entender o porquê, nós lhes pedimos para criar cenas sobre os assassínios da forma como eles quisessem.

            “O filme acompanha esse processo e documenta suas consequências”.

            Conheçam Anwar Congo, algoz dos ‘comunistas’ em 1965, e Herman Koto, gângster e líder paramilitar.

            Acompanhemos Anwar e Herman até o terraço da sede da Juventude Pancasila, a versão indonésia do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas.

            - Há muitos fantasmas por aqui. Eu nem sei dizer quantas pessoas eu matei neste terraço. No começo, havia sempre muito sangue, nós espancávamos os comunas. O cheiro era insuportável. Depois, nós aperfeiçoamos o processo com arame.

Anwar se torna o ator de si mesmo e começa a atuar no filme que se descortina dentro do documentário. Ele amarra os pulsos de Herman atrás das costas e o obriga a sentar-se perto de um poste de iluminação delgado. Com a perícia e o didatismo do hábito, Anwar enlaça o poste com uma das extremidades do arame, em seguida enlaça o pescoço de Herman e, por fim, conecta a extremidade oposta do arame a um pedaço de madeira.

Quando Anwar simula a tensão no arame a partir do pedaço de madeira – o algoz/ator não deixa de olhar para a câmera por um instante sequer –, logo ficamos sabendo que, “se fosse real, Herman estaria morto em questão de instantes. Foi assim que nós encontramos uma maneira mais rápida e higiênica para o serviço. Com a mordaça, ninguém ouvia nada”.

Quando Anwar é interpelado sobre possíveis dores e remorsos, ele alisa os cabelos crespos e encanecidos antes de mirar a câmera com um olhar profundo:

- A princípio, eu busquei a música e a dança. (Com seu sorriso desfalcado dos molares, Anwar começa a dançar salsa consigo mesmo – quiçá o algoz esteja bailando com seus fantasmas.) A maconha e o álcool também me ajudam. Ecstasy é bom, muito bom!

Anwar e Herman descem à rua e dizem que, à época, havia um cinema em frente à sede da Juventude Pancasila. Nós sempre amamos o cinema. Faroestes, filmes de gângsteres – aquela elegância toda, aquelas mortes tão bem encenadas. Nós saíamos dos filmes assoviando, mexíamos com as garotas, era só atravessar a rua que já estávamos no terraço novamente. Quando voltávamos a usar o arame logo após a sessão da tarde, era como se estivéssemos matando alegremente. (Herman assovia a trilha sonora de O Poderoso Chefão enquanto enrola o arame ao redor do punho direito.) Anwar se lembra de que, quando minha mãe ainda estava viva, ela me acordava quando eu começava a gritar à noite, tomado por pesadelos. Meu filho, você não pode dormir sem lavar os pés. E reze direito antes de dormir! Eu sei que tenho pesadelos por tudo o que fiz... Matei pessoas que não queriam morrer.

É hora de Anwar e Herman fazerem visitas.

Anwar se veste com imponência – calças de seda, paletó aprumado, chapéu ao estilo indonésio. Quem o recebe é Syamsul Arifin, governador da província de Sumatra do Norte. Eu nunca tive medo do Anwar. Foi ele que cuidou de mim quando eu era jovem. Sim, eu cuidei dele – Anwar dá um tapa cordial no barrigão do governador –, vocês não acreditariam, mas quando ele era pequeno, vixe!, ele parecia uma bolinha.

Syamsul só interrompe a gargalhada para falar sobre os filhos dos comunistas mortos por homens como Anwar:

- Eles agora estão querendo recontar a história. Mas isso não vai acontecer, não – ele apóia a mão direita sobre o ombro esquerdo de Anwar –, isso jamais vai acontecer.

Em seguida, Anwar e Herman vão à sede do Medan Pos, um importante jornal governista. Lá eles encontram Ibrahim Sinik. Logo ficamos sabendo que Sinik colhia os depoimentos e as confissões – Anwar e Herman não conseguem deixar de rir ao ouvirem o termo – dos comunistas. Dependendo do veredito de Sinik – ou melhor, de sua triagem –, os comunas deveriam pagar propinas indenizatórias, ou então eram escoados, a poucos quarteirões de distância, para o terraço da Juventude Pancasila, onde Anwar e Herman os esperavam.

Sinik fala abertamente sobre as alterações nos depoimentos e confissões. Na parede de seu gabinete de editor-chefe do Medan Pos, há fotos de militares e políticos. Em um altar, há uma foto de Sinik ao lado de ninguém mais que o General Suharto, golpista de primeira hora em 1965, mandante-mor da chacina contra os comunistas e presidente dinástico da Indonésia entre 1967 e 1998.

Quando Joshua Oppenheimer insta Ibrahim Sinik a falar sobre Anwar, o editor/inquisitor dá de ombros. (Estamos em um campo de golfe agora.) Anwar é apenas mais dos vários e vários algozes que se apresentavam rotineiramente para a tarefa. (Em uma cena anterior, ainda na sede do Medan Pos, Anwar e Herman desejam a Sinik vida longa e prosperidade, desde que nossas mãos continuem a ser molhadas. Quando Sinik ouve a extorsão risonha diante das câmeras, o editor/inquisidor sentencia: “Ora, peçam ao Joshua, ele deve ter muito mais dinheiro do que eu, ele é cineasta, ele é de Londres, não é?”) Sinik fala sobre as mortes em série enquanto se prepara para um long shot com seu taco de golfe. Ele só interrompe a narração para desferir a tacada e acompanhar a trajetória da bola com os binóculos. “Este momento é sagrado, me desculpe, Joshua, agora eu preciso ficar em silêncio”. Quando a bola atinge o buraco, a alegria de Sinik contabiliza que, hoje, a Juventude Pancasila, fundamental para os serviços de 1965 e 1966, têm mais de 3.000.000 de membros. Quantos Anwares e Hermans em potencial, não?

Anwar e Herman nos levam a uma antiga sala de interrogatório convertida em set de filmagem. Anwar e Herman, consultores de verossimilhança, se preocupam com cada detalhe do cenário. A máquina de escrever preta e brilhante, a mesa pensa de madeira rústica, a lâmpada de sódio pendurada por um fio desencapado.

Súbito, Anwar faz a câmera de Joshua focalizar, um a um, os quatro pés da mesa. Nós acoplávamos o pescoço dos comunas sob os pés da mesa. Quatro pés de mesa, quatro pescoços. Para matá-los, o balofo Herman, eu e outros dois funcionários nos sentávamos sobre o tampo da mesa enquanto cotejávamos nossos paletós Armani. Quando os ruídos cessavam, despachávamos os corpos para aquela salinha ali. Em seguida, quatro novos comunas eram convocados. E assim por diante.

Os órgãos de repressão da Indonésia aprenderam a lição que os romenos só internalizaram após muitos esforços por parte da SS.

A Romênia, sob o punho de Ion Antonescu, tornou-se aliada do III Reich em junho de 1941 – não à toa, na mesma época em que Hitler invade a União Soviética. As forças militares e paramilitares romenas se mostraram sumamente diligentes na arregimentação das remessas judias. Ocorre que, durante a evacuação judaica para os trens de carga rumo aos campos de concentração, muitos romenos exorbitavam suas funções e começavam a espancar e a matar os judeus à luz do dia, em plena rua. Assim, foi preciso que a SS capitaneada por Heinrich Himmler desse lições de civilidade aos bárbaros romenos. A civilização exige assassínios industriais. Não pode haver irrupções furiosas por parte dos algozes. Tudo deve ser feito de maneira impessoal. Não estamos mais no medievo de Drácula, meus caros romenos. O assassínio irascível só funciona para lotar as salas de cinema. Na prática, a impessoalidade, a repetição minuciosa e a rapidez geram eficiência e produtividade. (Garanto-lhes que o número de carrascos acometidos por resíduos anacrônicos de culpa, apoplexia, alcoolismo e suicídios será mínimo caso sejam implementadas nossas normas de segurança no trabalho.)

Anwar e Herman dizem que os comunas chineses não eram assassinados se fosse possível extorqui-los. (Dinheiro, esposas, filhas e netas.)

Joshua acompanha Herman e outros membros da Juventude Pacansila em um tour por um grande mercado local. Um a um, os comerciantes são instados a pagar suas cotas. (É curioso que o dinheiro jamais seja dado diretamente; os comerciantes colocam as cédulas em panos ou envelopes – como se o profano tivesse que receber o invólucro do sagrado.)

O leitor e a leitora deste texto – potenciais espectadores de The Act of Killing – poderiam acusar o diretor Joshua Oppenheimer, neste momento, de cumplicidade com os mafiosos que cometem um crime diante da câmera. “Sim” – sentenciam os leitores judiciosos –, “porque uma coisa é narrar que os assassínios eram cometidos assim, assim e assado. Quem nos garante que os algozes não estavam exagerando, criando e recriando seus feitos? Agora, quando a câmera flagra uma extorsão real, o diretor se torna coautor”.

Ao que Joshua Oppenheimer e este escritor poderíamos responder da seguinte maneira:

- A quem devemos denunciar os ilícitos cometidos pelos gângsteres da Juventude Pancasila? À polícia?

Vejam, então, o que diz Jusuf Kalla, vice-presidente da Indonésia, devidamente paramentado com o uniforme laranja e negro dos paramilitares, no discurso principal do encontro anual da Juventude Pancasila:

- Acusam a Juventude Pancasila de ser composta por gângsteres. Ora, gângsteres são aqueles que trabalham fora do sistema. A Juventude Pancasila trabalha para o governo. Agora, se todos trabalhassem para o governo, nós seríamos uma nação de burocratas, e nada seria feito. Nós precisamos dos gângsteres para que as coisas sejam feitas.

Diante da declaração do vice-presidente da Indonésia, Joshua Oppenheimer e este escritor perguntamos aos leitores (e potenciais espectadores) judiciosos e contrafeitos:

- A quem devemos denunciar os ilícitos cometidos pelos gângsteres da Juventude Pancasila? À polícia de Jusuf Kalla?

Logo ficamos sabendo que Anwar conciliava sua atividade de algoz estatal com o trabalho de lanterninha no cinema em frente à sede da Juventude Pancasila. À época, o governo produziu um filme anticomunista a que toda a população escolar da Indonésia precisava assistir, das crianças aos adolescentes. O filme mostrava, pelo prisma do governo que patrocinava chacinas, a crueldade e a ferocidade dos comunistas. Sempre que revia o filme, Anwar sentia orgulho, porque eu matei comunistas que eram totalmente brutais no filme. (Bom, é claro que eu mesmo fui muito além de qualquer coisa que havia no filme.)

Conheçam Adi Zulkadry, colega de Anwar nos assassínios aos comunas em 1965.

Anwar vai buscá-lo no aeroporto. Adi, eu venho te ligando há tanto tempo, por que você nunca atende as minhas chamadas? (Adi não queria falar com Anwar, mas certamente quer ser um dos protagonistas do documentário do cineasta norte-americano.)

A caminho do set de filmagens, o jipe de Anwar e Adi passa por sobre uma ponte ladeada por um rio. Era aqui que nós desovávamos os cadáveres à noite. Nós os retalhávamos e os colocávamos em sacos de estopa com pedras. (O leito desse rio é fértil em matéria orgânica.) E os corpos despencavam de modo magnífico, eles pareciam paraquedas. Tchibum!

Anwar e Adi foram algozes, mas eles têm visões bastante distintas sobre as atrocidades que cometeram.

Enquanto Anwar se exime da culpa sempre que assiste ao filme anticomunista produzido pelo governo, Adi, munido da crueza do algoz, sentencia:

- Até mesmo tartarugas conseguem escalar árvores caídas. É fácil tornar os comunistas vilões depois que nós os matamos. Aquele filme foi feito para torná-los demônios. Mas, bom, matar é algo que se faz rapidamente! Desove os corpos e volte para casa! E é verdade, quando nós matávamos, nós o fazíamos com rapidez.

Anwar, geralmente confortável diante da câmera, agora se sente incomodado pelas colocações extraoficiais de Adi. Ainda assim, Anwar não procura se desvencilhar das lentes do documentário para recomendar prudência a Adi. (Afinal, quem irá puni-lo?)

- Nós não deveríamos dizer coisas ruins sobre aquele filme para forasteiros, Adi.

Ao que Adi, afiado como um punhal, redargue:

- Os comunistas não foram mais cruéis do que nós. Nós fomos os cruéis.

Neste momento, um assessor de Ibrahim Sinik, o editor/inquisidor do Medam Pos, começa a discutir semântica com o algoz:

- Veja bem, Adi, ser cruel não significa ser sádico.

- Ora, ora, isso é um mero jogo de palavras, deixa disso!

- Eu insisto: nós fomos cruéis, mas não fomos sádicos. E digo mais: eu não fiquei sabendo das matanças, eu jamais me envolvi nisso.

- Ah, então é assim que você se exime...

- Você está me chamando de mentiroso?

- Não, não, de forma alguma... Mas é curioso: você foi e é assessor do senhor Ibrahim Sinik, figura central no sistema de repressão. Vida e morte dependiam da assinatura de Sinik. O país inteiro sabia o que estávamos fazendo, nossa vitória foi acachapante e incontestável. Mas você, entranhado até a unha do dedinho do pé nas estruturas de poder, quer me dizer que não sabia sobre os assassinatos que estávamos cometendo? Ora, a lógica não está a seu favor, meu caro... Mas, bom, isso é até normal.

- Normal? Por quê?

- Porque um jornalista como você não quer e não vai sujar as mãos. É claro. É por isso que vocês precisam de nós. Não haveria pias de mármore e sanitários de porcelana sem dutos de esgoto.

(Se morasse em São Paulo, Adi escavaria os dutos subterrâneos que ligam Higienópolis, a pólis da higiene, à infecta Cracolândia.)

Adi se mostra exímio na arte do sincericídio. Ele chega a dizer que, para que os mortos de fato possam enterrar os mortos, o governo deveria emitir um pedido oficial de desculpa. Precisamos admitir a verdade factual da realidade. E você, Anwar, precisa parar de ter a cabeça fraca. Que pesadelos são esses? As pessoas que nós matamos perderam. Elas foram derrotadas mesmo quando ainda tinham corpos. Agora, elas são apenas espíritos e, por isso, são fracas. Sendo assim, que mal elas podem fazer a você?

Para Adi, enterrar os mortos de vez viabiliza uma política de invulnerabilidade e higiene mental.

- Se você se sentir culpado, Anwar, suas defesas entrarão em colapso.

[Mesmo a frieza de Adi nos deixa de entrever que, se há defesas, há um conteúdo de verdade na dor moral que não pode ser de todo extirpada. (Pandora, no claustro de sua caixa, ainda respira com a ajuda de aparelhos.)]

Súbito, um dos atores do filme dentro do documentário, um chinês étnico vizinho de Anwar, conta uma história para os algozes da Juventude Pancasila nos bastidores da filmagem:

- Certa madrugada, os gânsteres bateram à nossa porta. Eu era pequeno, mas eu me lembro. Eles estavam à procura do meu pai. (Na verdade, ele não era meu pai biológico, ele era meu padrasto, mas eu não tenho memórias sem ele, já que meu padrasto me criou desde bebê.) Minha mãe me agarrou para eu não descer – a última coisa que ouvi do meu pai foi para eu cuidar da minha mãe. Só ficamos sabendo o que aconteceu quando um vizinho, na surdina de uma nova madrugada, veio dizer que o corpo estava em uma vala ali próxima. Minha mãe logo desmaiou, mas meu avô e eu, os homens da casa, tínhamos que fazer alguma coisa. Ninguém quis nos ajudar, todo mundo tinha medo de se envolver, mas nós fomos até lá, colocamos o corpo do papai num carrinho de mão e, como os cemitérios estavam vedados para os inimigos do Estado, nós o enterramos junto à estrada, como se ele fosse um bode. Eu tinha 11 para 12 anos, mas eu me lembro. Por ser filho de um comunista, eu não pude frequentar a escola, eu tive que aprender a ler sozinho. Mas eu juro que não estou criticando vocês, minha história é apenas mais uma estória para o filme de vocês, eu juro!

Silêncio.

Silêncio entreolhado dos antigos algozes.

Cabe a Adi a retomada do fio narrativo:

- Bom, o fato é o seguinte: com o filme, nós passaremos a ser os cruéis, os cruéis já não serão os comunistas. E é claro que eu não tenho medo algum: já se passaram mais de 40 anos, todos os prazos de punição já prescreveram. [Se o conhecimento jurídico (e doloso) de Adi fosse um pouco mais apurado, ele saberia que os crimes contra a humanidade e a tortura são imprescritíveis. Ao que o algoz poderia redarguir: “E quem vai me levar ao Tribunal Internacional de Haia? Os líderes ocidentais que, no ápice da Guerra Fria, nos ensinavam a matar e pagavam os nossos salários? Quando interessa para eles, os hipócritas vêm falar da Convenção de Genebra. Mas, na prática, o que vale é a Convenção de Jacarta”.] Tudo isso, então, não é um problema para nós. O que fizemos é um problema para a história. (Adi talvez tenha querido dizer: trata-se de um problema para a história hagiográfica dos vencedores.) Assim, em verdade, em verdade lhes digo: nem tudo deveria vir à tona, nem tudo deveria ser tornado público. Acreditem-me: até mesmo Deus tem segredos.

Quando Joshua Oppenheimer diz que, se as investigações efetivas sobre as atrocidades e os assassínios não interessam aos vencedores, elas certamente interessam aos filhos das vítimas. Ao que Adi, a ensinar sofística para Nicolau Maquiavel, assim redargue:

- Pois muito bem: vocês quererm descobrir a verdade, não é mesmo? Vocês querem exumar os mortos, não é isso? Se é assim, por que é que vocês querem investigar, especificamente, as nossas atrocidades? Por que é que nós devemos pagar o pato? A humanidade está repleta de banhos de sangue e carnificinas! Por que é que nós devemos ser os bois de piranha? Não, não, eu não vou ser o bode expiatório, não, de jeito nenhum! Se é para investigar os crimes contra a humanidade, sejamos coerentes, ora! Voltemos à origem de tudo, condenemos Caim, assassino de Abel, assassino do próprio irmão.

- Mas e se você fosse levado, de fato, ao Tribunal Internacional de Haia, Adi?

- Ora, eu não vou, por que eu deveria ir? Quem é que vai me mandar para lá? Nosso presidente? Eu venci, eu faço as leis. Eu não me sinto culpado, por que eu deveria ir? Se os filhos dos comunistas querem justiça, eles que tentem fazer como nós – que se tornem justiceiros. Mas, é claro, eles não têm essa coragem, porque a Pancasila os esmagaria sem dó nem piedade. Agora, bom, tem uma coisa que me levaria a Haia, sim.

- E o que é?

- Se eu me tornasse réu em Haia, tenho certeza de que ficaria mundialmente famoso. Mas, Joshua, como você já está fazendo um filme sobre todos nós – e como seu documentário, se Deus quiser, será indicado ao Oscar –, eu já vou ganhar minha notoriedade, de modo que a justiça, para mim, se torna obsoleta.

(Adi e sua lógica férrea foram premonitórios: The Act of Killing quase recebeu uma estatueta em Hollywood.)

Certa noite, Joshua filma Anwar a pescar. A câmera capta Anwar com os olhos marejados. Ele diz que, após ter visto a cena do filme em que mulheres e crianças são espancadas e estupradas, em que suas casas são incendiadas, ele começou a sentir, corporalmente, que nós seríamos e seremos amaldiçoados para sempre. É o karma, Joshua, é o karma...

- E o que isso significa para você, Anwar? Do que você tem medo?

- O karma é como uma lei da natureza, uma punição que vem diretamente de Deus. Eu poderia reencarnar como um aleijado, por exemplo.

Ora, Adi não tem tempo para a metafísica residual de Anwar. É domingo, Joshua, e eu gosto de levar minha esposa e minha filha ao shopping. E, ademais, nós enfiávamos tocos de madeira no cu deles até que eles morressem. Nós esmagávamos o pescoço deles com porretes. Nós os enforcávamos. Nós os estrangulávamos com arame. Nós os decepávamos. Nós passávamos por cima deles com carros e motos. Nós tínhamos permissão para fazer isso. E a prova disso é que nós assassinamos pessoas e nunca fomos punidos. E, bom, quanto às pessoas que assassinamos... Não há nada a fazer a esse respeito. As vítimas têm que aceitar o seu destino. Talvez eu só esteja tentando me eximir, mas tudo isso funciona: eu nunca me senti culpado, eu nunca entrei em depressão, eu nunca tive pesadelos.

Em uma cena derradeira do filme dentro do documentário – se o leitor e a leitora me perguntarem se há fronteiras nítidas entre os dois, eu já não saberei dizer –, Anwar, o algoz, assume a posição do torturado. Herman lhe dá pauladas, rouba seu relógio de ouro, cospe em seu terno Armani, o enforca com a gravata de seda. Chega o momento de enlaçar o pescoço de Anwar com arame, chega o momento de estrangulá-lo. Anwar não suporta, ele começa a tossir e a tremer – o ator vomita o algoz, o algoz vomita o torturado. Eu me senti morto naquele momento, Herman, meu Deus!

- Não se envolva tanto com o seu papel, Anwar – e não pense muito sobre tudo isso.

Herman aconselha Anwar a não se envolver muito com o papel. Mas, Herman, quando Anwar assume o papel de torturado, ele consegue, pela primeira vez, entender (e sentir!) o que faz um torturador. E mais, Herman: não se trata de não se envolver em demasia com o papel. Neste preciso momento, o filme dos algozes e o documentário de Joshua Oppenheimer transgrediram o tabu do incesto. Ficção e realidade forjaram a realidade ficcional que ainda governa a Indonésia.

Em sua casa, Anwar quer rever a cena em que foi torturado. Ele chama seus netos, Yan e Ami, para ver o vovô sendo espancado – a cada golpe que Anwar recebe no vídeo, o vovô beija os netinhos.

Yan e Ami logo deixam a sala a pedido de Joshua – é tudo muito violento, Anwar, eles não devem ver! (Ao que o vovô Anwar bem poderia acrescentar: “Eles não devem ver ainda...”)

Ao assistir à própria tortura, Anwar fica com os olhos marejados e passa a sentir náusea. Joshua, será que as pessoas que eu torturei sentiam a mesma coisa que eu tô sentindo agora? Eu tô sentindo o que as pessoas que eu torturei sentiram. A minha dignidade foi destruída – e é aí que o medo surge. O terror toma conta do meu corpo, ele me cerca e me faz tremer, o terror me domina.

Assim falou Joshua Oppenheimer a Anwar Congo sobre The Act of Killing:

- Na verdade, Anwar, as pessoas que você torturou sentiam algo muito pior, porque você sabe que tudo isso é apenas um filme, mas elas sabiam que iam morrer.

O filme e o documentário terminam quando Anwar volta a subir ao terraço da sede da Juventude Pancasila, o patíbulo.

No início do filme (e do documentário), um Anwar sorridente dançara salsa no local em que espancara e estrangulara milhares de seres humanos. Agora, ao fim do documentário (e do filme), Anwar faz menção de vomitar e começa a chorar.

Será que o carrasco está profunda e sinceramente arrependido? (Ou será que Anwar Congo, cinéfilo contumaz, bem sabe que Hollywood requer sempre um happy end?)

II. If history has taught us anything,

it’s that you can kill anyone

           

            A leitora e o leitor bem poderiam me perguntar:

            - Quando é que os cossacos que comandam a Indonésia desde as barbaridades perpetradas na década de 60 serão alijados do poder?

            Em verdade, em verdade lhes digo: perguntemos a Francis Ford Coppola e à terceira parte do épico O Poderoso Chefão.

            Michael Corleone, eternizado pelo bom e velho Al Pacino, está no auge do poder. O gângster outrora iniciante se tornou um magnata transnacional. E, bom, conforme o crime me levou do bueiro à cobertura, de Cérbero ao céu, é preciso tornar legítimos todos os meus investimentos, é preciso transformar o vinho em água, eu preciso me purificar.

            Para abandonar todas e quaisquer relações com a máfia, Don Corleone convida todos os chefes das demais famílias mafiosas para uma reunião de cúpula em um suntuoso hotel de Las Vegas.

            - Eu sei que todos vocês sentirão a minha falta, eu sei que todos vocês, um dia, quererão seguir o meu caminho, pois todos nós sabemos: o crime só compensa enquanto não podemos fazer parte da camarilha, o crime só recompensa enquanto não podemos ser eleitos, enquanto não somos recebidos na Casa Branca. Eu alcancei esse patamar, meus velhos amigos, e é por isso que quero dividir com vocês, neste nosso derradeiro encontro, a multiplicação de meus peixes e pães.

            Diante de cada capo silicialino (ou calabrês), Don Corleone ordena que sejam depositados envelopes com cheques milionários. (Para que a gerontocracia mafiosa aceite batizar Michael Corleone no Jordão da legalidade, é preciso que João Batista seja convertido à boa nova.)

            Os seis zeros à direita só fazem desejar ao ex-Don e agora apóstolo Corleone toda a felicidade e lisura do mundo, até que Joey Zaza, representante da Jovem Guarda da Cosa Nostra – ou seria da Camorra? –, se mostra contrafeito.

            Joey Zaza acabara de sair na capa da revista Time como o mais jovem empresário do ano – o faturamento de suas lavanderias e a caridade de suas extorsões já lhe haviam rendido a alcunha debom samaritano.

            Segundo a Time, Joey tem uma bella figura, é pró-ativo, impetuoso – e ambicioso. Sendo assim, meus caros, por que é que apenas Michael Corleone pode ser santificado, ao passo que todos nós devemos permanecer hereges? Se Don Corleone pode purificar sua liturgia, todos nós também podemos. Non è vero?

            Os demais capos das famílias mafiosas tentam dissudiar Joey de sua querela com Michael Corleone – afinal, todos os caminhos levam a Roma –, mas Zaza se mostra irredutível:

            – Somos todos iguais perante Deus, meus amigos, não há eleitos. Ora, os italianos não somos calvinistas! Se Michael pode ascender ao Reino dos Céus, todos nos tornaremos seus anjos da guarda. E, meu caro Don, não pense que pode nos converter com sua caridade, não jogue suas pérolas aos porcos.

            O cisma se estabelece no Concílio Siciliano.

            Quando Michael tenta oferecer mais hóstias para enternecer o coração de Joey – “Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mateus, 6, 21) –, Zaza se enfurece e abandona sem mais a sala de reuniões presidenciais encimada por um belíssimo teto translúcido construído com cristais de Murano.

            Os capos endinheirados se entreolham em desespero. De que valem os cheques corleônicos se logo haverá uma guerra entre Michael e Joey? O Poderoso Chefão tenta acalmar os ânimos, nós chegaremos a um acordo, fiquem calmos, mantenham a fé – até que, através do teto cristalino, um facho de luz banha a gerontocracia mafiosa. Ninguém consegue entender nada, estão todos cegos por conta da luz, o barulho ensurdecedor das hélices do helicóptero põe os convivas em polvorosa, até que uma metralhadora começa a disparar contra a Velha Guarda.

            Um a um os mafiosos são alvejados sem poder lavar o cheque na pia batismal.

            “Joey, seu bastardo!”

            Sangue siciliano tinge o mámore de Carrara.

            “Zaza, seu carcamano!”

            O único sobrevivente, como não poderia deixar de ser, é Michael Corleone.

            A camarilha Corleone está furiosa, mil e uma maneiras de matar Joey Zaza vêm à tona. Mas Michael, via de regra frio e célere como a lâmina de um punhal napolitano, só faz sentenciar:

            - Silêncio, silêncio! Saibam, desde já, que eu admiro Joey Zaza.

            – O quê?! Como!? Zaza tentou te matar, Michael, será que você enlouqueceu?!

            – Não, não, longe disso. Estou mais lúcido do que nunca. Nós faremos um acordo com Joey Zaza, nós selaremos a paz. Vamos mandar os mensageiros agora.

            – Como?! O quê?! Fazer um acordo com aquele que tentou te matar!?

            – Silêncio, silêncio! Mas vocês ainda não aprenderam nada, não é mesmo? Jamais odeiem o inimigo. Isso turva a mente – e embaralha o cálculo. Os amigos devem estar sempre por perto. Os inimigos devem estar ao nosso lado. Eu admiro o que o Joey fez: o novo aniquila o velho. Nesse mandamento se resume toda a lei e os profetas.

III. Da atiradeira à bomba atômica

            Assim falou Theodor Wiesengrund Adorno em sua Dialética Negativa:

            “Não há nenhuma história universal que conduza do selvagem à humanidade. Mas há certamente uma que conduza da atiradeira à bomba atômica”[1].

           

III. i. Dança da chuva

Em O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, o bufão Liébediev decide nos contar uma estória medieval, uma estória de um tempo em que Deus lastreava as relações e se confundia com a consciência moral do todo e de cada um de nós.

Trata-se da trajetória de um monge que, em uma época de extrema inanição em meados do século XII, havia canibalizado 60 pessoas. Ao contrário do espírito moderno e individualista que levaria o monge a se eximir de seus atos – o anacronismo da culpa e do castigo em face do crime contumaz –, o religioso acabou se entregando.

Liébediev, então, quer entender o ímpeto de autoexpiação do monge e a completa excepcionalidade de tal ato em nossos tempos.

Que tormentos o esperavam naquele tempo, que rodas, fogueiras e fogos? Quem o impeliu a ir denunciar-se? Por que não parar simplesmente na casa dos sessenta, mantendo o segredo até o último alento? Por que não largar simplesmente o clero para lá e viver arrependido como um ermitão? Aí está a decifração. Quer dizer que houve algo mais forte do que as fogueiras e o fogo e até mais forte que um hábito de vinte anos! Quer dizer que havia um pensamento mais forte do que todas as desgraças, más colheitas, torturas, lepra, maldições e toda sorte de inferno que a humanidade não suportaria sem um pensamento que concatenasse, orientasse o coração e fertilizasse as fontes da vida! Mostrem-me os senhores algo semelhante a tal força em nosso século de vícios e estradas de ferro... isto é, é preciso dizer, em nosso século de vícios e estradas de ferro, porque eu sou um beberrão, porém justo! Mostrem-me uma ideia que ligue e agregue a atual sociedade humana ao menos com a metade daquela força que havia naqueles séculos. E atrevam-se a dizer, por fim, que não se debilitaram, que não se turvaram as fontes da vida sob essa “estrela”, sob essa rede que prende os homens. (...) Há mais riquezas, porém menos força; não resta mais uma ideia agregadora[2].

            À época em que havia uma ideia agregadora, Liébediev, os homens e as mulheres se ajoelhavam diante de velas de cera.

            Será que precisaremos sempre da clava do Deus Pai – o Deus do dilúvio, o Deus que exige de Isaac a imolação de seu filho Jacó – para que aprendamos a coexistir sem nos devorarmos?

           

III. ii. Renascimento

            Trecho de Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac:

Os avarentos não creem numa vida futura, o presente é tudo para eles. Essa reflexão lança uma luz horrível sobre a época atual, na qual, mais que em qualquer outro tempo, o dinheiro domina as leis, a política e os costumes. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira para minar a crença numa vida futura, sobre a qual se apóia o edifício social há 1800 anos. Hoje em dia, o esquife é uma transição pouco temida. O futuro, que nos esperava para além do réquiem, transportou-se para o presente. Chegar per fas et nefas [pelo lícito e pelo ilícito] ao paraíso terrestre do luxo e dos prazeres vãos, petrificar o coração e macerar o corpo em busca de posses passageiras, como outrora se sofria o martírio da vida em busca de bens eternos, eis a ideia geral! Ideia aliás inscrita por toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: “Que pagar?”, ao invés de: “Que pensas?” Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?[3]

III. iii. Revolução Industrial

            Trechos de O único e a sua propriedade, do filósofo alemão Max Stirner.

           

Que Deus se preocupe com o que é divino e que o homem se preocupe com o que é humano. Eu não me preocupo com o que é divino e nem com o que é humano, verdadeiro, justo, livre etc., mas apenas com o que é meu, e não com o que é geral e abstrato, mas com o que é único, porque eu sou único. Nada significa mais para mim do que eu mesmo!

O egoísmo não pensa em sacrificar nada e não quer desistir de nada do que deseja; ele simplesmente decide: eu tenho que conseguir o que eu quero e vou lutar por isso com unhas e dentes. O que o homem puder obter lhe pertence: o mundo me pertence.

O correto é o que me convém.

            Nadine Natov, em Dostoevsky versus Max Stirner[4], retoma um trecho do diálogo do diabo com Ivan Karamázov, personagens da obra-mor de Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov.

O diabo relembrou a Ivan sua afirmação de que não há Deus e não há imortalidade. O Deus-homem [Jesus Cristo] será negado, e o homem se tornará Deus. Assim, o novo Homem-deus ordenará a sua vida como lhe aprouver com base em novos princípios. O novo Homem-deus ultrapassará todas as barreiras da velha moralidade, e todas as coisas lhe serão permitidas.

III. iv. Pais e filhos

            Após o crepúsculo dos deuses – máxima com que Friedrich Nietzsche batizou a morte de Deus –, assim falou o pai de Zaratustra sobre a importância do esquecimentocomo condição humana fundamental não apenas para a superaçãoda nossa consciência-para-a-morte, mas também para o enraizamento fugaz do ser no instante, para a ruminação do que, por ora (e apenas por ora), ainda nos é tangível:

Toda ação exige esquecimento, assim como toda vida orgânica exige não somente luz, mas também a escuridão. Um homem que quisesse sentir as coisas de maneira absoluta e exclusivamente histórica seria semelhante àquele que fosse obrigado a se privar do sono, ou a um animal que só pudesse viver continuamente dos mesmos alimentos. É portanto possível viver, e mesmo ser feliz, quase sem qualquer lembrança, como o demonstra o animal; mas é absolutamente impossível viver sem esquecimento[5].

            Napoleão Bonaparte, com a autoridade de quem prostou a Europa sob os cascos de seu cavalo, considera O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, uma cartilha deveras didática.

O algoz indonésio Adi Zulkadry, com a autoridade de quem levou o esquecimento às últimas consequências, considera a II Consideração Intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da Amnésia para a vida, de Friedrich Nietzsche, uma cartilha deveras pragmática.

 

III. v. Master in Business Administration

            Trecho de The Kindly Ones, de Jonathan Littell[6].

            (Maximilien Aue, o narrador, é um antigo oficial da SS de ascendência alemã e francesa que ajudou a perpetrar o Holocausto e esteve presente durante os maiores eventos da Segunda Guerra Mundial.)

Soviéticos mortos: 20 milhões

Alemães mortos: 3 milhões

Subtotal (para o Front Oriental): 23 milhões

Endlösung (Solução Final): 5,1 milhões

Total: 26,6 milhões, dado que 1,5 milhão de judeus também foram contados como soviéticos mortos (“Cidadãos soviéticos mortos pelos invasores fascistas alemães”, conforme consta do extraordinário monumento em Kiev)

Agora com relação à matemática. O conflito com a União Soviética durou das 03:00 do dia 22 de junho de 1941 até, oficialmente, às 23:01 do dia 08 de maio de 1945, cômputo que totaliza 03 anos, 10 meses, 16 dias, 20 horas e 1 minuto, ou, arredondando, 46,5 meses, 202,42 semanas, 1.417 dias, 34.004 horas ou 2.040.241 minutos (contando o minuto extra). Para o programa conhecido como a “Solução Final”, nós usaremos as mesmas datas; antes disso, nada ainda havia sido decidido ou sistematizado, então as baixas judaicas eram, em sua maioria, acidentais. Agora, façamos a média: para os alemães, isso nos dá 64.516 mortos por mês, ou 14.821 mortos por semana, ou 2.117 mortos por dia, ou 88 mortos por hora, ou 1,47 morto por minuto, em média, para cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano por 3 anos, 10 meses, 16 dias, 20 horas e 1 minuto. Para os judeus, incluindo-se os judeus soviéticos, nós temos ao redor de 109.677 mortos por mês, o que resulta em 25.195 mortos por semana, 3.599 mortos por dia, 150 mortos por hora, ou 2,5 mortos por minuto, ao longo do mesmo período. Finalmente, do lado soviético, isso nos dá 430.108 mortos por mês, 98.804 mortos por semana, 14.114 mortos por dia, 588 mortos por hora, ou 9,8 mortos por minuto, para o mesmo período. Assim, para o total geral em meu campo de atividades, nós temos uma média de 572.043 mortos por mês, 131.410 mortos por semana, 18.772 mortos por dia, 782 mortos por hora e 13,04 mortos por minuto, em cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano do período dado, cômputo que totaliza, como você se lembra, 3 anos, 10 meses, 16 dias, 20 horas e 1 minuto. Peço àqueles que riem tolamente do minuto extra e supostamente pedante que considerem que ele equivale a um adicional de 13,04 mortos, em média, e que imaginem, se puderem, 13  pessoas de seu círculo de amizades mortas em 1 minuto. Você também pode calcular o lapso de tempo necessário para gerar um novo cadáver: isso nos dá, em média, um alemão morto a cada 40,8 segundos, um judeu morto a cada 24 segundos e um bolchevique morto (incluindo-se os judeus soviéticos) a cada 6,12 segundos, ou, em termos gerais, um novo corpo morto, em média, a cada 4,6 segundos, para a totalidade do período considerado. Com base nesses números, você agora tem condições de executar exercícios concretos de imaginação. Por exemplo: com um cronômetro em mãos, conte 1 morto, 2 mortos, 3 mortos etc., a cada 4,6 segundos (ou a cada 6,12 segundos ou a cada 24 segundos ou a cada 40,8 segundos, caso você tenha alguma preferência), enquanto você tenta imaginar os mortos estirados à sua frente, aqueles 1, 2, 3 mortos. Você verá que se trata de um bom exercício de meditação. Ou então considere alguma catástrofe mais recente que o afetou fortemente e compare as duas. Por exemplo: se você for norte-americano, considere a sua pequena aventura no Vietnã, que tanto traumatizou seus concidadãos. Vocês perderam 50.000 soldados por lá em 10 anos: isso é o equivalente a um pouco menos que 3 dias e 2 horas do tempo necessário para matar no Front Oriental, ou algo como 13 dias, 21 horas e 25 minutos do tempo necessário para matar judeus. Obviamente, eu não estou incluindo os mortos vietnamitas; já que vocês nunca falam sobre eles em seus livros ou programas de TV, eles não devem contar muito para vocês. Ainda assim, vocês mataram 40 vietnamitas para cada um de seus próprios mortos, um belo esforço mesmo comparado com o nosso, e um esforço que certamente depõe a favor do valor do progresso tecnológico [grifo de Theodor Wiesengrund Adorno]. Eu vou parando por aqui, do contrário nós continuaríamos eternamente. Eu o convido a continuar por si só, até que o chão se abra sob os seus pés. Quanto a mim, não há necessidade: já há muito tempo o pensamento sobre a morte tem sido mais próximo de mim do que a veia em meu pescoço, conforme uma bela passagem do Alcorão. Se algum dia você conseguisse me fazer chorar, minhas lágrimas queimariam o seu rosto[7].

III. vi. Monografia para a obtenção do título de

Master in Business Administration

            Em abril de 1961, tinha início, em Jerusalém, o julgamento de Adolf Eichmann, oficial da SS responsável pelo Setor IV, cuja função era a deportação dos judeus para os campos de concentração.

            (Adolf Eichmann, também conhecido na Argentina como Ricardo Klement, fora capturado pelo Mossad, o serviço secreto israelense, na periferia de Buenos Aires. O Mossad o descobrira e o sequestrara em 1960. Após passar 11 dias, 23 horas e 1 minuto amarrado a uma cama, o oficial da SS foi coagido a assinar um documento atestando para os devidos fins que estava de acordo com a realização de seu julgamento em um tribunal israelense.)

            Consta que, diante das acusações e interpelações do promotor, o Tenente-Coronel Adolf Otto Eichmann assim teria declarado:

            - Não me considero culpado, de forma alguma, em relação ao extermínio dos judeus. Eu apenas cumpria ordens em uma enorme e complexa estrutura burocrático-administrativa. Eu era apenas uma peça ínfima na engrenagem do III Reich. Jamais fiz qualquer coisa contra um judeu sequer. Eu havia prestado um juramento de lealdade ao Führer e, como funcionário diligente que era, eu apenas cumpria ordens para otimizar a deportação dos trens para os campos. Assim, eu, Adolf Otto Eichmann, além de me declarar inocente em relação às acusações de crimes contra a humanidade – mais especificamente, crimes contra o povo escolhido –, declaro, para os devidos fins, que jamais fui e não sou antissemita.


[1]Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p. 255.

[2]São Paulo: Editora 34, 2002, p. 423.

[3]São Paulo: Abril Cultural, 1971, pp. 106-107.

[4]In: Dostoevsky Studies. Volume 6. Tübingen: Attempto Verlag, 2002, pp. 28-38. Os trechos de Stirner, que traduzi livremente, foram mencionados por Nadine Natov.

[5]II Consideração Intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da História para a vida. In: Escritos sobre História. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2005, pp. 67-178; na citação em questão, pp. 72-73.

[6]Publicado no Brasil com o título de As Benevolentes. São Paulo: Editora Objetiva, 2007.

[7] Realizei a tradução livre de tal trecho de The Kindly Ones a partir da seguinte edição: New York: Harper Perennial Editon, 2010, pp. 15-16. 

Avalie este item
(2 votos)
Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

Mais recentes de Flávio Ricardo Vassoler

voltar ao topo