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Antártida, Atlântida

Chicago, 22 de junho de 2015

Que nos dizem os Encounters at the end of the world (2007), documentário dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog?

“A National Science Foundation me convidara para ir à Antártida, mesmo após eu ter deixado claro que não faria mais um daqueles filmes sobre pinguins. Eu os fiz saber que minhas indagações sobre a natureza eram diferentes. Eu lhes disse que sempre quis saber por que os seres humanos colocam máscaras ou penas para para esconder sua identidade. E por que eles selam cavalos e alimentam o ímpeto de perseguir os homens maus? E por que é que algumas espécies de formigas mantêm bandos de piolhos de plantas como escravos para lhes dar gotas de açúcar? Eu lhes perguntei por que um animal sofisticado como o chimpanzé não instrumentaliza criaturas inferiores? Ele poderia montar em um bode e cavalgar rumo ao pôr do sol”.

Herzog alcança um cume de beleza tão sublime que cheguei a entrever o conceito wagneriano de Gesamtkunstwerk (a obra de arte total) encarnado pelo documentário.

Pairam sobre os encontros no fim do mundo as impressões apocalípticas dos cientistas radicados na Antártida: a espécie humana caminha rumo ao colapso e à extinção. Diferentemente dos dinossauros inscientes, no entanto, nós entoaremos, pari passu, o nosso próprio réquiem.

Ainda assim, a voz algo rouca e eloquente de Herzog insiste em narrar o ímpeto de descoberta da humanidade – o ímpeto nômade dos exploradores, o ímpeto daqueles que pretendemos libertar Pandora de seu cárcere.

As tomadas panorâmicas vão da altivez tememária de um iceberg de dimensões continentais até um vulcão cujas entranhas escancaradas jorram magma, fumaça e energia.

A câmera de Herzog acompanha os mergulhadores que se aventuram pelos mares abissais e seus seres minúsculos e hobbesianos. Eis algumas considerações de um biólogo e mergulhador há muito versado nas memórias do subsolo glacial:

“As criaturas submarinas da Antártida são como criaturas de ficção científica. Elas despontam como se fossem devorar você, como se fossem retalhar e estilhaçar você. Mas,na verdade, elas são ainda mais aterrorizantes do que as criaturas de ficção científica, pois têm garras que nos enredam e, conforme tentamos escapar, nós ficamos cada vez mais presos e subjugados. E, então, quando ficamos extenuados, aí tais criaturas começam a nos sugar e a nos deglutir. Esse é apenas um dos exemplos de tais criaturas. Também há criaturas em forma de verme com mandíbulas terríveis, elas só fazem nos morder em busca de carne.

“Trata-se de um mundo horrivelmente violento e que nos é muito obscuro, já que nós, mergulhadores, estamos encalacrados pelo traje de neoprene e, bom, nós somos muito maiores do que esse mundo. Então, na verdade, tudo isso não nos afeta muito, mas, se nos tornássemos miniaturas, estaríamos certamente em um lugar horrível para se viver. Simplesmente horrível.

“Como se trata de um mundo anterior aos seres humanos, eu poderia dizer que a espécie humana e os outros mamíferos evoluíram pelo pânico e saíram dos oceanos rumo à terra firme para conseguir escapar de tudo isso. O pânico foi a força motriz da evolução para que suplantássemos todo esse horror, para que escapássemos do que é horrivelmente violento desde a escala praticamente intangível”.

Herzog fala sobre os mergulhadores como sacerdotes do desconhecido, como exploradores que se sentem em catedrais silenciosas quando, envoltos pelas águas friíssimas, olham para o alto e se deparam com o céu de gelo que isola o oceano da superfície, como se o sagrado ainda precisasse de um véu para resvalar o profano.

A beleza das imagens capturadas (e libertas) por Herzog me fizeram reviver o ímpeto da criança de olhos esbugalhados e boca entreaberta diante da surpresa a lhe expandir o mundo: formas desconexas e enregeladas desafiam Euclides e Pitágoras; seres oceânicos malemolentes se movem através de algoritmos ocultos; uma cientista alucinógena compara os “grunhidos inorgânicos” (sic) dos leões marinhos à sinestesia das músicas do Pink Floyd; a trilha sonora de Herzog ressoa mantras de povos nativos da Antártida que mimetizam cantos gregorianos – e imemoriais.

Logo Herzog passa a dialogar com o Prof. Dr. Gorham, docente da Universidade do Havaí. Gorham é o físico responsável pelo Projeto Neutrino.

Eis como o cientista discorre sobre sua atividade de argonauta do invisível – um espectro ronda Herzog e Gorham, o espectro de Allan Kardec:

“Então, o que nós estamos tentando fazer aqui na Antártida com esse instrumento é nos tornarmos o primeiro grupo de cientistas a detectar a mais elevada energia dos neutrinos no universo – assim nós esperamos.

“O neutrino é a partícula mais ridícula – isto é, a mais insignificante – que você possa imaginar. Um bilhão de neutrinos já passaram pelo meu nariz enquanto conversamos. Um trilhão de neutrinos passaram pelo meu nariz agora mesmo, e eles não me fizeram nada. Eles atravessam toda a matéria ao nosso redor continuamente, em uma grande explosão de partículas que não fazem nada. É como se os neutrinos quase existissem em um universo paralelo, mas, como físicos, nós sabemos que é possível mensurá-los, que é possível fazer previsões e medidas precisas. Os neutrinos existem, mas nós não conseguimos colocar as mãos neles, porque eles parecem existir apenas em outro lugar. E, no entanto, sem os neutrinos, não teria havido um início para o universo, não haveria a matéria que existe hoje, porque os elementos não teriam sido criados sem os neutrinos. Nos primeiríssimos instantes do Big Bang, os neutrinos eram as partículas dominantes, eles determinaram boa parte da cinética da produção dos elementos que nós hoje conhecemos. Então, o universo não pode existir da forma como o conhecemos sem os neutrinos, mas eles parecem estar em um universo próprio e à parte, e, de fato, nós estamos tentando fazer contato com esse universo outro dos neutrinos.

“E, como físico, apesar de eu compreender tudo isso matemática e intelectualmente, ainda há algo que me toma de modo visceral: a noção de que há algo ao meu redor, algo que nos cerca, algo como um tipo de espírito ou deus que eu não posso tocar, mas que eu posso medir. É como se eu estivesse mensurando o mundo espiritual ou algo assim. Você vai e toca essas coisas”.

- Um pinguim pode ficar louco?

Eis a pergunta que Werner Herzog faz a um pesquisador ermitão que estuda os pinguins há mais de 20 anos.

O cientista não se surpreende com o lirismo de Herzog. Ele estende o indicador direito rumo a um pinguim que, cada vez mais apartado do bando e da costa – não se sabe como, não se sabe por quê –, caminha de peito estufado em direção ao coração da Antártida. Algo melancólico, Herzog sentencia que Cristóvão Colombo, o pinguim, caminha rumo a uma morte certa. Ainda assim, ele caminha.

“A terra, na região do vale, fixa o homem ao solo, tornando-o infinitamente dependente; o mar [ou o coração do continente] o conduz para além desses limitados círculos de pensamento e ação. Aqueles que cruzam os mares [e os continentes] visam também ao lucro; mas os meios que utilizam para realizar esse intento são paradoxais: arriscam a propriedade e a própria vida. Os meios são, portanto, o oposto daquilo que tencionam”. (Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Filosofia da História*.)

Quando, daqui a algum tempo, eu voltar à Antártida de Herzog ao lado de minha namorada, vou pedi-la em casamento no preciso momento em que os neutrinos decifrarem a língua inorgânica dos leões marinhos.

Tempos depois, quando voltarmos a peregrinar pelas catedrais submersas, Pandora congelará o filme no preciso momento em que os cientistas apocalípticos discorrerem sobre a extinção dos seres humanos para, com os olhos marejados, ela me revelar a origem das espécies:

- Ricardo, você vai ser pai, meu amor, eu tô grávida!


* Brasília: Editora da UnB, 2008, pp. 80-81. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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