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A Metamorfose

Chicago, 08 de julho de 2015

I. Elogio da masmorra

     Fiódor Dostoiévski pode ser tido como um dos autores que mais escavaram o subsolo da síndrome de Estocolmo, o amor da vítima pelo carrasco, o apego do prisioneiro pelas grades de sua cela. No mito da caverna dostoievskiano, os cativos se debatem não para arrebentar os elos das correntes que os submetem, mas para apedrejar todos aqueles que tentam demovê-los do charco de suas sombras, do regozijo em sentir prazer com o embotamento da realidade. É assim que tudo aquilo que desponta como algo terno e despido de confronto – algo que tem o sentido de converter a dor em purgação – parece flagelar o niilista com o mesmo rancor que pauta suas (não-)relações. A reconciliação lembra ao niilista a necessidade de se haver com suas próprias faltas, a necessidade de (se) cicatrizar, ao passo que a inércia tautológica da dor começa a sentir prazer com o punhal a escarafunchar a ferida purulenta. O passo seguinte é se aproximar da fragilidade que ainda sorri não com o ímpeto por compaixão, mas com a partilha da dor – se a dor flagela o niilista, que ela passe então a flagelar a todos os demais. Eis o que o niilismo concebe como convivência.

II. A mão que afaga é a mesma que apedreja,

então escarra nessa boca que te beija!

Eis que o poeta brasileiro Augusto dos Anjos se mostra um exímio leitor de Fiódor Dostoiévski com a visceralidade de seus

Versos Íntimos

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
*

 

III. É preciso imaginar Sísifo eterno

O dostoievskiano Albert Camus rola a pedra d’O mito de Sísifo (1942) com a seguinte lápide inaugural: “Só há apenas um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”.

Para além de quaisquer legitimações vãs da vida-a-ser-ceifada-pela-morte – contra, portanto, o belo (e idílico) aforismo de Camus de que “é preciso imaginar Sísifo feliz” –, imaginei a resposta que o homem ridículo, personagem dostoievskiana de O sonho de um homem ridículo (1877), daria ao niilismo (parcial) de Camus:

- Só há apenas uma ação niilista verdadeiramente séria: o suicídio.

Após a cicatrização de seu espírito por meio do sonho escatológico e redentor que leva o homem ridículo do penhasco do suicídio à tangibilidade da utopia e do sentido, assim falou o herói dostoievskiano:

- Só há apenas um problema existencial verdadeiramente sério: a eternidade.

IV. A mão que fere é a mesma que pode curar,

então ampara essa boca que ainda não beija

            Após arremessarmos Dostoiévski contra Camus e o homem ridículo contra Dostoiévski, arremessemos a verve demoníaca de Augusto dos Anjos contra si mesma, de modo a descobrirmos que a mão que fere é a mesma mão que pode curar.

A metamorfose

Ouves? Alguém já ausculta a formidável

Súplica de tua Fênix.

Não só a Gratidão – esta Pandora –

É tua companheira inseparável!

Levanta-te do charco que te prostra!

O Homem, que, nesta terra ainda purulenta,

Mora, entre feras, sente inextirpável

Vontade de já não ser fera.

Toma um fósforo. Reconcilia tua noite com o dia!

O beijo, bela, é o prenúncio do amparo,

A mão que fere é a mesma que pode curar.

Se a ninguém causa ainda pena a tua chaga

Cura essas mãos vis que não afagam,

Ampara essa boca que ainda não beija.


*In: Eu e Outras Poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 1998, p. 69. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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