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Gaia ciência?

Chicago, 14 de agosto de 2015

 

No ensaio O artista na prisão*, Albert Camus sentencia que a obra de Oscar Fingal O'Flahertie Wills, também conhecido como Oscar Wilde, só alcança efetiva densidade existencial após o encarceramento do esteta irlandês outrora frívolo e hedonista. Para Camus, a prisão injusta de Wilde transforma o sorriso do prazer fugaz no vinco transtornado daquele que sofre – na ferida purulenta daquele que, desesperadamente, precisa perscrutar a própria tragédia.

É a cela de 2m² que faz Wilde entoar, a plenos pulmões, o grito ontológico por liberdade; é a vida diante do cadafalso – o pescoço acoplado ao talhe de madeira do algoz – que faz Wilde se voltar da fugacidade narcísica (e resignada) do que existe até perecer para o clamor existencial por justiça – e eternidade. (Quem muito pensa sobre a vida cedo ou tarde se depara com a morte.)

O condenado Oscar Wilde sente a fonte vital jorrar e se irradiar justamente quando o transbordamento de si bem pode afogá-lo em seu claustro. (Eis o momento em que Wilde compreende com o próprio corpo o dilema de Pandora em sua caixa-cárcere.)

Dialeticamente, o charco que faz Wilde submergir também o iça para além de si mesmo.

É assim que a estética começa a entoar súplicas éticas, é assim que o pus prenuncia a cicatrização, é assim que a finitude se estilhaça e passa a auscultar os sentidos até resvalar o sentido. É assim que, segundo Camus, Wilde abandona a verdade epidérmica das máscaras para vivenciar o que há de mais profundo, para nos narrar De Profundis. Eis, então, com que tristeza ctônica tem início a via crucis de Wilde:

Suffering is one very long moment. We cannot divide it by seasons. We can only record its moods, and chronicle their return. With us time itself does not progress. It revolves. It seems to circle round one centre of pain. The paralysing immobility of a life every circumstance of which is regulated after an unchangeable pattern, so that we eat and drink and lie down and pray, or kneel at least for prayer, according to the inflexible laws of an iron formula: this immobile quality, that makes each dreadful day in the very minutest detail like its brother, seems to communicate itself to those external forces the very essence of whose existence is ceaseless change. Of seed-time or harvest, of the reapers bending over the corn, or the grape gatherers threading through the vines, of the grass in the orchard made white with broken blossoms or strewn with fallen fruit: of these we know nothing and can know nothing.

For us there is only one season, the season of sorrow. The very sun and moon seem taken from us. Outside, the day may be blue and gold, but the light that creeps down through the thickly-muffled glass of the small iron-barred window beneath which one sits is grey and niggard. It is always twilight in one's cell, as it is always twilight in one's heart. And in the sphere of thought, no less than in the sphere of time, motion is no more**.

 


* In: A inteligência e o cadafalso. Rio de Janeiro: Record, 1998.

**De Profundis pode ser lido integralmente a partir do seguinte link do Projeto Gutenberg: www.gutenberg.org/ebooks/921.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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