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Pelé em Pasárgada

Chicago, 03 de agosto de 2015

 

 

Há pouco mais de 45 anos, no dia 17 de junho de 1970, o Brasil vencia o Uruguai, por 3 a 1, no estádio Jalisco, em Guadalajara, em partida válida pelas semifinais da Copa do Mundo, então sediada no México.

Narremos, no entanto, não os gols que sacramentaram a vitória, mas a leitura futebolística do poema Vou-me embora pra Pasárgada, do bom e velho Manuel Bandeira:

Vou-me embora pra Pasárgada

“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

– Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada”*

Situada na região metropolitana de Utópolis, Pasárgada desponta como a vida que poderia ter sido, mas (ainda) não foi.

Edson Arantes do Nascimento, também conhecido como Pelé, o embaixador-mor de Pasárgada, protagoniza três lances no jogo contra o Uruguai que fazem com que os espectadores torçamos, a cada replay, para que a bola ganhe novas trajetórias e contradiga Henri-Marie Beyle, também conhecido como Stendhal, quando o escritor francês sentencia que a arte é uma promessa de felicidade. (A promessa, se é o que há de vir, também desponta como o que ainda não veio.)

O primeiro lance, na verdade, acontece na partida contra a então Tchecoslováquia válida pela primeira fase do Mundial e disputada no dia 03 de junho de 1970, também no estádio Jalisco, o templo de Pelé. (Já dissera o poeta Ferreira Gullar que a arte existe, porque a vida não basta. Ocorre que, como a genialidade de Pelé supera a prosa e se funde à poesia, o quase-gol contra a Tchecoslováquia prenuncia seus irmãos trivitelinos do jogo contra o Uruguai e reconfigura o conceito de realidade ficcional.)

            Os jogadores tchecos tocam a bola no campo de defesa do Brasil, perto da intermediária. Um passe mal dado faz Jairzinho disputar a bola com o tcheco; por muito pouco, o europeu se sai melhor na dividida e logo toca a bola, na fogueira, para um companheiro próximo – no que um volantão brasileiro (Piazza?) dá um carrinho e libera a pelota para Pelé.

            A bola rola entre vagarosa e lépida por poucos segundos – são os instantes de que Pelé precisa para, ao entrever o arqueiro Viktor adiantado, disparar da intermediária:

            - Gol de placa à vista!

            A câmera lenta exacerba o desespero do goleiro tcheco – a ironia, musa da história, faz com que a principal testemunha ocular de um dos mais belos poemas de Pelé não possa torcer para que a bola entre.

            O tirambaço de Pelé quase resvala a trave direita. Em súplica, o arqueiro Viktor Iscariotes beija o poste.

            Vamos ao segundo lance: o goleiro uruguaio Mazurkiewicz – parente polaco de Viktor – está para bater o tiro de meta. Pelé, novamente na intermediária, espreita o lance com a calmaria dúbia do predador. (A trégua que precede o bote.)

O chute de Mazurkiewicz sai mascado, a bola vai quicando errante até o meio do campo; súbito, com um sem-pulo de direita, Pelé dispara a bola em direção ao gol de um Mazurkiewicz de olhos esbugalhados e ainda mais surpreso do que seu colega tcheco. O goleiro uruguaio, até hoje não se sabe como, consegue se recompor da batida torta do tiro de meta e, elástico como língua de sapo, defende o voleio que, do meio de campo, tinha endereço certo.

            Pelé não acredita, o rei xinga e esbraveja e cobre o rosto suado e transtornado com as mãos em palma.

            Mais uma vez, a história sitia Pasárgada.

            O replay do lance nos mostra um detalhe inusitado: um zagueiro uruguaio (Matosas, Mujica ou Ancheta?) precisa se abaixar para que o chute torto de Mazurkiewicz não o atinja. Sendo assim, a visão de Pelé, no momento do tiro de meta, está encoberta pelo defensor, o que torna ainda mais exíguo o raio de ação que o camisa 10 tem para chutar a bola de bate-pronto.

            Mais uma vez, a história é a quarentena de Pasárgada.

            Para o terceiro e último lance, o embaixador-mor Pelé convoca dois de seus mais brilhantes menestréis: o botafoguense Jairzinho, camisa 7, e o cruzeirense Tostão, camisa 9.

            Novamente, a jogada começa na intermediária – como se o meio de campo, dada a meia vida que (re)levamos, precisasse da poesia de Pelé para nos brindar com a vida e meia em Pasárgada.

            O endiabrado Jairzinho ginga pra cima do meia uruguaio (Ubinas, Montero ou Ildo Manero?), o ponta faz o hermano rodopiar e abre a bola para a elegância de Tostão. O meia mineiro conduz a pelota com a canhota e logo entrevê Pelé aberto pela direita. Eis, então, que um passe açucarado entre dois marcadores uruguaios – algo como a liberdade diagonal da hipotenusa a suplantar a limitação dos catetos – coloca nosso camisa 10 diante de um Mazurkiewicz atônito que abandona a grande área como uma vaca louca para tentar conter o avanço imperial de Pelé.

Pergunta: Que faz, então, o rei do futebol?

Resposta: Transforma Mazurkiewicz em bobo da corte.

            Ao invés de interceptar de pronto o passe pitagórico de Tostão, Pelé deixa a bola passar por si e pelo goleiro uruguaio, de modo que a pelota continua em sua trajetória diagonal, pela direita, enquanto Pelé corre em diagonal pela esquerda de modo a contornar o arqueiro – o leitor e a leitora logo se deparam com um Mazurkiewicz estático, sem nada entender e sem ter o que fazer, em meio à encruzilhada etérea que a poesia de Pelé escande numa fração de segundos.

            Trata-se da meia-lua mais inusitada da história do futebol – se o bom e velho Georg Wilhelm Friedrich Hegel estivesse nas arquibancadas do estádio Jalisco, o filósofo alemão, existencial e dialeticamente boquiaberto, sem mais narraria a jogada de Pelé como um raio em céu azul.

            Como um corisco, Pelé circunda Mazurkiewicz e vai à caça da bola em diagonal para, com um chute que o desequilibra – o atacante precisa mudar a rota de sua diagonal para arrematar o passe de Tostão –, disparar contra o gol do Uruguai aberto de par em par.

            Gol?!

            Golaço!?

            Gol de placa?!

            Gol antológico!?

            Não…

Eis o maior gol que poderia ter sido, mas não foi.

            Antologia poética.

            O chute de um Pelé desequilibrado pelo drible em Mazurkiewicz (e em si mesmo) cruza toda a extensão da pequena área e, antes de se perder pela linha de fundo, quase resvala a trave esquerda do arqueiro uruguaio. (A exemplo de Viktor Iscariotes, Judas Mazurkiewicz beija o poste do gol que Pelé por pouco, muito pouco, pouco mesmo não consegue canonizar.)

            São Jalisco de Guadalajara.

            - Pelas barbas do Profeta! – grita o saudoso locutor Sílvio Luiz com sua voz tonitruante.

            Quase, advérbio de utopia.

            Quase-gol, substantivo ontológico.

            Vale frisar que um zagueiro uruguaio (Ancheta, Mujica ou Matosas?) se joga contra a trajetória da bola para tentar impedir, sem sucesso, o quase-gol de Pelé.

            (Em Pasárgada, o Supremo Tribunal de Utópolis condenaria Matosas, Mujica ou Ancheta a incansáveis estudos sobre a quadratura do círculo, até que, de volta para o futuro, a poesia de Pelé conseguisse reorientar a trajetória da bola.)

Mais uma vez, Pasárgada (ainda) não é a capital da história.

 


*In: Bandeira a Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Alumbramento, 1986, p. 90.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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