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Coágulo dos insetos em âmbar

Chicago, 19 de agosto de 2015

 

Água e dialética.Sólida, líquida e gasosa. A frieza do gelo arrefece inchaços – e queima a pele nua. Icebergs fundam continentes – e afundam transatlânticos. A água mata a sede. A água do mar mata o náufrago de sede. A água limpa, refresca – e afoga. Versátil, a água assume a forma do recipiente que a contém. Volúvel, a água assume a forma do recipiente que a contém. As nuvens são ubíquas, as nuvens são lúdicas. (As nuvens são etéreas.) O zoológico das nuvens desenha todos os animais, não há grades – tampouco há vida. Somos, sobretudo, água. Não à toa, assim falou Lee Jun-fan, também conhecido como Bruce Lee, após beber a água de Heráclito de Éfeso e Georg Wilhelm Friedrich Hegel: “Be like water, my friend”.

A formiga de La Fontaine.Um poço.

A cigarra de La Fontaine.Uma cachoeira.

Agonia e êxtase.A pororoca.

A insônia de Albert Camus.Será possível imaginar Sísifo a dormir?

Fragilidade.Um graveto sobre a relva.

Carência.Luz de inverno.

Ressentimento.Quando crocita (cuááá, cuááá!), o corvo nos convida – e nos afugenta. O corvo se lembra – e já não consegue esquecer.

Vincent Van Gogh.Tremor amarelo da angústia.

Vazio.Uma estepe vastíssima habitada pelo nomadismo do vento.

Paralisia (e renovação).Um charco ao fundo do qual folhas de outono marrons e amarelas se decompõem.

Divina Comédia Humana.Leitor de Honoré de Balzac, Fiódor Dostoiévski levou às últimas consequências o niilismo da Comédia Humana. Leitor de Dante Alighieri, Fiódor Dostoiévski elevou às derradeiras súplicas a redenção da Divina Comédia.

Claude Monet. Vitórias-régias sobre a reconciliação aquarela.

O vinho e as confissões de Santo Agostinho. Retrato do pagão quando jovem: sapatilhas das putas de Hipona como cálices. Aura do bispo quando velho: in vino veritas, Jesus, o sangue de Cristo. (De alfa a ômega, eis a derme e a epiderme da verdade.) Quando Agostinho se lembra dos (e se eriça com com os) pecadilhos e espartilhos da juventude, o velho bispo de Hipona se arrepende – e se arrebata. O fluxo intumescido da memória caça as confissões e tenta aplacar o incêndio do jovem cujas labaredas nem mesmo a barricada do tempo consegue extinguir. Agostinho manuseia e rodopia as frases como as pernas roliças e longilíneas de suas concubinas. (O cristianismo como laxante da libido; o cristianismo como sarcófago do desejo.) Assim falou Santo Agostinho: “Ó, Pai, afasta de mim estes cálices!” Assim ainda gemem as madrugadas de Hipona: “Senhor, faça-me casto! Mas não agora...”

Bumerangue. “Eu te amo, Narciso” – suspira Pandora. “Eu também” – concorda Narciso.

Amor em tempos de cólera – o título visceral da obra de Gabriel García Márquez nos soa, a princípio, como um sumo paradoxo. Como é possível amar quando o ódio se transforma na segunda natureza da realidade? Mas, ora, o ódio é uma paixão violentíssima, quem odeia tem verdadeira obsessão pelo ser odiado. (A cólera como forma de devoção – e amor.) Na verdade, se quiséssemos submeter o bom e velho Gabo a cem anos de solidão, deveríamos condenar o colombiano a amar em nossos tempos entorpecidos. Amor em tempos de catatonia.

De cavalo dado não se olham os dentes– mas, de pronto, se lhe sente o hálito.

Reconciliação.Brisa noturna após um pé d’água. Frescor matinal do orvalho após uma noite insone.

Locus amoenus.Chicago e o prenúncio do crepúsculo pelo canto das cigarras.

Hipnose.A queda malemolente dos flocos de neve.

Piedade.Quando minha vó Antônia conseguia destroncar o pescoço da galinha de uma só vez.

Piedade.Assistir à galinha semidestroncada estrebuchar e rodopiar e se esgoelar em desespero.

A dó e o esconde-esconde.(Com a boca suja de molho pardo.) “Hum, que delícia! Dá mais um pedaço dessa galinha caipira aí, vó!”

Palidez sepulcral. O tempo como máscara mortuária.

O parto da ampulheta.11 de novembro de 1986, aniversário de 5 anos. “Pai, mãe, o que que é a morte?”

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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