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As intermitências da morte

Chicago, 29 de fevereiro de 2015

I. Homesick

            Entro no ônibus que segue pela 26th Street e me sento ao lado de uma jovem mãe. À nossa frente, devidamente guarnecida por um casaquinho rosa e luvas pouco maiores do que bolinhas de gude, uma bebê serelepe vai escaneando todos e cada um dos meus gestos.

            – What’s her name?

            A mãe aperta a bochechinha da filha ao me dizer:

            – Trinity.

            Logo fico sabendo que a pequena Trinity, de olhos grandes, negros e brilhantes como jabuticabas, tem apenas 14 meses.

            Arregalo os olhos como uma coruja – Trinity abre bem a boca e tenta alcançar o meu narigão. Faço boca de banguela – ela ri até engasgar (a mamãe logo vem com o babador).

            A mãe de Trinity deve ter 20 anos (se tanto).

            Tem o olhar cansado (e belos lábios intumescidos).

Ela não perde sequer um gesto da filha – quando o sacolejo do ônibus faz Trinity resvalar a cabecinha na haste do carrinho de bebê, a mãe se inclina para beijar a pequena antes que se forme um galo. (Sempre que eu batia a cabeça – e eu batia a cabeça sempre –, minha vó logo vinha com uma faca para desenhar uma cruz sobre a batida com o lado invertido da lâmina antes que o galo cantasse três vezes.)

Mas aonde vão a pequena Trinity e sua mãe em uma tarde de sábado abaixo de zero?

(Tenho a impressão de que há um pacto tácito entre o bailado errante dos flocos de neve e a língua mirabolante de Trinity formada por pedacinhos de palavras recém-saídos da maravilhosa fábrica de chocolates.)

Trinity parece hipnotizada pela queda malemolente da neve. (Será que ela já sente a angústia dos galhos nus e tortuosos em busca de luz, angústia que a neve tenta apaziguar?)

Mas aonde vão a pequena Trinity e sua mãe?

Quando minha indiscrição latina faz menção de lhes perguntar, a 26th Street, à direita e à esquerda, desvela muros e portões altíssimos encimados por câmeras, arame farpado – rolos e mais rolos de arame farpado – e torres de vigilância.

A mãe puxa a cordinha – STOP REQUESTED –, a bebê começa a pular de alegria.

– Come on, Trinity, let’s get off, honey, it’s time to see daddy!

II. There is no place like home?

There is no place like homeless

            Estou à espera do ônibus 55 que me levará à estação Garfield (red line) do “L”, o elevated train de Chicago.

            Este escritor peripatético simplesmente não consigo ficar parado enquanto a cidade ausente da imaginação abre suas comportas e me faz auscultar as personagens. (Um escritor prevenido teria sempre à mão um bloco de notas para tentar reter as ideias tão fugidias quanto os flocos de neve que só a pequena Trinity consegue reger. À falta do papel e da pena, Eça de Queirós chegava a pichar suas estórias pelos muros medievais de Lisboa.) Fico andando de um lado para o outro e de um outro para o lado, como se as ideias (e as) narrativas precisassem queimar a lenha dos meus pés, como se a ampulheta do meu corpo alimentasse o tapete alado de Aladdin. Passo a falar sozinho, já sou um outro para mim mesmo, me vejo povoado por um oráculo de barba pontiaguda, uma senhora junto à máquina de costura fica dando corda em sua caixinha de música, ali está um trem abandonado que vai sendo tomado pelo mato – a molecada brinca de esconde-esconde ali dentro, Laura e Ricardo descobrem o desejo nesses vagões –, aqui ninguém pergunta por quem os sinos dobram, a aurora tem pálpebras, a noite é negra e brilhante como o dorso da pantera, há hospitais para Lázaro e Jó, Neruda acaba de escrever uma dedicatória comovida para o cancioneiro que o Che leva em sua mochila Sierra Maestra adentro, Gagárin, flutuando ao redor da Terra, já consegue discernir todos os tons de azul, já não há rádios, apenas vitrolas, e o casal que acaba de completar bodas de diamante dança a reboque da cadência do blues de há 100 anos. [Há 6 anos, enquanto eu esperava a carona de um amigo que viria me pegar em frente a uma das saídas do metrô Penha, em São Paulo, para que fôssemos a um churrasco, este escritor/andarilho de Atlântida fui interpelado por uma senhora de cabelos aqui-e-ali grisalhos e queixo algo proeminente – com a mão esquerda a pousar gentilmente sobre o meu ombro direito, ela faz com que eu pare de tresandar e assim me pergunta: “Tá tudo bem com você? Você tá bem mesmo? Fica calmo, tá? Você tomou seu remédio hoje? Que medicação você toma?” (Caro leitor, cara leitora, me digam: não são preferíveis o exílio e o refúgio em Atlântida?...)

            Súbito, uma mão direita pousa gentilmente sobre o meu ombro esquerdo. [Lembrem-se de que eu estou à espera do ônibus 55 que me levará à estação Garfield (red line) do “L”, o elevated train de Chicago.]

– Are you all right?

– Sim, sim, tá tudo bem.

– É que, lá de longe, eu te vi andando em roda aqui no ponto de ônibus, daí eu pensei, olha lá o cacique ensaiando a dança da chuva, e, poxa, esse cara, às 9 da madrugada, já tá em outra dimensão. Sim, porque tá muito cedo pra fumar um, né?

(E não é que mais dia, menos dia, a gente acaba esbarrando em conterrâneos de Atlântida?)

Esboço um sorriso e logo fico sabendo que minha interlocutora espirituosa, com um anel de arame em cada dedão, se chama Rose.

A tintura mesclada nos cabelos não me deixa saber se Rose é loira ou ruiva. (Quiçá o tom alarajando das folhas tardias de outono para quais eu fico olhando através da janela enquanto escrevo seja a cor mais precisa.) Os olhos azuis de Rose, grandes e bem redondos, são circundados por vincos da meia-idade e parecem dois sóis saídos de desenhos animados – seriam os olhos solares de Rose esboços para uma aula de Educação Artística da professora Cleide, no pré-primário, lá pelos idos de 1988?

Rose logo me diz que é uma homeless, mas hoje eu tô contente, sim!, porque esses cupons aqui vão me dar algo de comer, bom, pelo menos até esse governador de Illinois – sim, sim, esse asshole é do Partido Republicano, é claro – cortar todos os subsídios para os pobres. Eu leio os jornais todos os dias, oh, yeah, e cheguei a pensar em chamar a rapaziada da rua para fazer um cerco à casa desse governador. But in this country, my friend, só por fazer isso, só por se aproximar da propriedade daquele lixo, você já pode ser preso, veja só! E agora meu dilema é o seguinte: com esses cupons eu como hoje, mas eu ainda preciso juntar 37 dólares e 81 centavos para comprar uma passagem de ônibus pra Flórida. Quem está lá? Meu irmão, ele mora lá, num trailer. Bom, melhor do que eu ele tá, né? E eu até consigo ficar sem comer on the road, mas como é que eu vou fazer amanhã?

Enquanto eu raspo minhas moedas da carteira – mais um pouco e sou eu a pedir uma esmola para a Rose –, minha conterrânea de Atlântida me conta como entrou para as fileiras do AHA, o American Homeless Army:

– Faz 20 anos, you know, 20 anos... Eu sequer me lembro da minha mãe. Meu pai disse que um dia ela se cansou da gente e caiu de vez na noite. (Não foi culpa minha, não foi.) Se meu irmão diz que é meu irmão eu acredito. Meu pai nunca negou. (Mas também nunca afirmou.) E por que ele foi pra Flórida? Bom, você também teria fugido se apanhasse aquele tanto do meu pai, ah, se teria! Mas eu não apanhava, não. Meu pai me tratava bem demais – ele me tratava bem até demais. Me dava banho, ele sempre queria me dar banho, lavava direitinho, com cuidado, e eu acho que só fiquei sabendo que tinha um corpo por causa do meu pai. (Não foi culpa minha, não foi.) E meu pai, querendo exclusividade, me protegia do meu tio – bom, eu sempre ouvi falar que aquele gordo careca era meu tio. Meu tio nunca veio me dar banho, não, meu pai não deixava. [Mas quem é que me protegia do meu pai? (Não foi culpa minha, não foi.)] Mas eu gostava do meu pai, a gente comia macarrão com ketchup, às vezes tinha sardinha, depois dos vários banhos que ele me dava tinha até coca-cola. Eu ia pra escola contente, até que era boa aluna. Às vezes meu pai me dizia que eu parecia com a minha mãe – aquilo me revirava o estômago, nunca descobri por quê. Quando eu voltava da escola, procurava cozinhar com o que tinha, e meu pai comia quando dava as caras. Eu gostava de levar a marmita pra ele na construção, só que ele não me deixava ir muito lá, não, tinha muito cara parecido com o meu tio por lá... E um dia, no inverno – dia 29 de fevereiro de 1995, eu me lembro bem –, meu pai me deu um abraço. Um abraço diferente – abraço apertado, abraço carinhoso, abraço confortável, eu queria me perder naquele abraço, eu queria me afogar naquele abraço. Daí ele me deu um beijo na testa, me olhou bem fundo (eu devia ter suspeitado daqueles olhos marejados) e disse pra eu ficar bem. Faz 20 anos, you know, 20 anos... (Não foi culpa minha, não foi.) Quando eu voltei da escola, cadê meu pai? Ele nunca mais voltou, eu nunca mais vi meu pai... Será que ele se cansou de mim? Será que ele encontrou minha mãe?

Silêncio.

Silêncio entreolhado.

O que é que eu poderia dizer para a Rose?

(Quando Atlântida é tomada de assalto pela Blitzkrieg da realidade, leva certo tempo para que a realidade ficcional consiga levantar um novo abrigo com os escombros.)

Rose entende o meu silêncio.

(Ela o entende ainda mais quando o escape do meu soslaio vislumbra o ônibus 55 a despontar lá no fim da avenida.)

Antes que eu me vá – antes que apenas o espectro da memória volte a fazer companhia para Rose –, ela engatilha o olhar e me pergunta:

– Hey, tell me, você já sentiu inveja dos mortos?

Rose não se refere aos vivos – a realidade sempre lhe fora repleta de fantasmas –, mas à trégua oferecida pela morte. Como se a morte, a suma ausência de conflitos, fosse a única emissária capaz de selar um armistício. {Foi nesse preciso sentido que Nietzsche, ilustre emissário de Atlântida, chegou a sentenciar que, em momentos de profunda agonia – momentos noturnos em que o desespero pela falta de sentido nos asfixia com a mão-garrote da verdade –, em momentos de agonia profunda, a possibilidade do suicídio desponta como uma doce saída, uma grata reconciliação. [O alento de que Rose (ainda?) não tenha bebido a cicuta de Nietzsche nos revela que Pandora continua à frente da Cruz Vermelha de Atlântida. Afinal, não se trata de uma mera dor a ser extirpada – não se trata de fazer o pus jorrar para que a infecção seja expulsa do corpo sadio. Rose não está sentindo dor. Rose, simplesmente, dói. Mas o que é que você tem, Rose? Vamos, diga-nos! Nada, não é nada. Fora a vida, tudo bem.]}

Antes de eu tomar o ônibus 55, Rose pousa as duas mãos em meus ombros.

Nas falanges da mão direita, vejo tatuadas as letras R O S E.

Nas falanges da mão esquerda, as letras P A U L.

(Pai, por que me abandonaste?)

– Hey, tell me, você já sentiu inveja dos mortos?

III. Vitória de Pirro

            Kinshasa, Zaire (atual República Democrática do Congo), 30 de outubro de 1974.

            Cassius Clay, também conhecido como Muhammad Ali, enfrenta o colosso George Foreman para tentar reaver o título de campeão mundial de boxe que lhe fora usurpado em 1967, por conta da recusa exemplar de Ali em servir ao Exército dos EUA na guerra contra o Vietnã.

            O boxeador bailarino, em suas flutuações pelo ringue, ficara 3 anos e meio sem poder nocautear os adversários. Em 1970, Ali readquire a licença e parte para a ofensiva. A lenda do boxe ganha duas lutas, mas, ao tentar recuperar o cinturão, acaba perdendo para Joe Frazier.

            George Foreman, por sua vez, havia conquistado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 68, que ocorreram na Cidade do México.

            Diante da envergadura mastodôntica de Foreman, Joe Frazier e seu empresário consideram a nova promessa do boxe um lutador lento e sem o devido preparo.

– Foreman não é páreo para mim!

O erro crasso de avaliação custa a Frazier o título de campeão mundial dos pesos pesados, já que Foreman, em 2 rounds, faz Frazier beijar a lona 6 vezes. O juiz logo interrompe o combate e decreta o nocaute técnico que alça Foreman ao panteão do boxe.

            Foreman também venceria a luta contra Ken Norton, o único boxeador que, ao lado de Frazier, havia derrotado Muhammad Ali.

            Assim, George Foreman, na plenitude de seus 25 anos, desponta como o franco favorito diante dos 32 anos de Ali para a luta-espetáculo que entraria para a história do boxe como The Rumble in the Jungle, a luta na selva. [Consta que a luta épica, um dos primeiros eventos promovidos pelo famigerado Don King, teria recebido um generoso patrocínio por parte do presidente do Zaire para que ocorresse em Kinshasa. (Consta também que o juiz Sérgio Moro chegou a cogitar sobre a possibilidade de enviar uma força-tarefa da Operação Lava Jato para conduzir Don King e o outrora ditador do Zaire, coercitivamente, às devidas oitivas e acareações.)]

            Para tentar derrotar Foreman, Ali lança mão de uma estratégia que teria provocado a inveja de todos os kamikazes de que já tivemos notícias. (Consta que retratos de Ali são cultuados até hoje em casas de sadomasoquismo.)

            Ciente de que Foreman era muito mais forte e de que não seria páreo para ele na luta franca, Ali decide exaurir ao máximo a força e a resistência de seu adversário. (Sempre a nocautear seus oponentes nos primeiros assaltos, o urso George Foreman jamais havia enfrentado uma luta muito longa.)

Consta que a ideia para a estratégia usada por Ali contra Foreman teria sido sugerida pelo fotógrafo de boxe George Kalinsky, que assim teria raciocinado:

– Por que você não faz o seguinte, Cassius: fique deslizando e se esquivando junto às cordas. Assim, quando Foreman tentar te golpear, acontecerá como nos closes das minhas fotos: os socos rasgarão o vazio, ele só fará nocautear o ar.

(Não sendo a mandíbula fraturada de Kalinsky a sair nas capas dos jornais e revistas, toda sugestão de grego dos amigos é válida.)

Dissequemos mais de perto o harakiri de Muhammad Ali: a estratégia requer que o boxeador fique em uma posição defensiva – na pose clássica de Ali, o lutador se escora junto às cordas, o que faz com que boa parte da energia dos golpes que vai recebendo seja absorvida pela elasticidade das cordas, ao invés de ser arremessada, como um aríete, contra o corpo do lutador. As esquivas de Ali e os muitos golpes no vazio de Foreman permitem os contra-ataques do kamikaze, de modo que a exaustão e os jabs furtivos vão minando os pés de barro do gigante de 192 centímetros.

No início da luta, Ali cumpre a promessa de bailar ao redor de Foreman antes de se posicionar junto à trincheira das cordas.

(Se Ali houvesse perdido a rumble in the jungle, um poeta presente ao ginásio municipal de Kinshasa bem poderia imaginar que o bailado inicial de Ali ao redor de Foreman teria prenunciado o círculo de fogo que, ao encurralar o escorpião, acaba por coagir o animal a cravar o ferrão em seu próprio corpo.)

Durante os sete primeiros rounds, o público ensandecido urra ao ver que Ali, premido entre as cordas, vai sendo massacrado pelas marretadas de Foreman que, copiosa, insistente e alternadamente, lhe atingem os rins e o fígado, o baço e o estômago. (É visível, no entanto, que a guarda e o pêndulo de Ali evitam que Foreman golpeie seu rosto.)

A esmagadora maioria de nós desabaríamos com o mero prenúncio de uma das patadas do urso. Muhammad Ali, por sua vez, não apenas vai assimilando as dezenas e centenas de socos como, entre um contragolpe e outro, entre um jab furtivo e outro, insulta Foreman para que a fúria do touro diante da capa vermelha ajude a lhe drenar as energias:

– Is that all you got? Você só é capaz disso, Foreman?!

– Me disseram que você batia forte – cadê tua força, negão, cadê!?

– Minha mãe bate mais forte que você!

Ainda assim, vários comentaristas da luta chegaram a vaticinar (e a vociferar) que, diante daquela surra descomunal, Ali não sairia vivo do ringue de Kinshasa.

Ainda assim, Ali, tenaz como Sísifo, sai da trincheira das cordas no oitavo round e, sempre a lançar mão da guarda e da esquiva pendular, começa a encaixar jabs de direita e esquerda a castigar os olhos e os supercílios de Foreman que vão inchando como duas batatas.

Estafadas, lentas e cada vez mais previsíveis, as marretadas de Foreman já não conseguem atingir Ali, e o boxer bailarino passa a dançar ao redor do urso até que uma sequência vertiginosa de seis socos contra a cabeça e a mandíbula de Foreman faz o gigante Adamastor girar ao redor do próprio eixo antes de desabar aos 2 minutos e 58 segundos.

O juiz abre a contagem – um Foreman cambaleante recorre às cordas de Ali para tentar se levantar, mas a luta é finalizada.

Muhammad Ali recupera o cinturão de campeão mundial dos pesos pesados.

(A rumble in the jungle foi a primeira derrota de George Foreman, e Ali também entraria para a história como o único boxeador a abater o urso por nocaute.)

Após a inacreditável vitória – e após várias semanas de recuperação –, o campeão mundial dos pesos pesados concede uma entrevista coletiva.

Invariavelmente criativos, os jornalistas esportivos só fazem surpreender Muhammad Ali e os milhões de telespectadores e ouvintes:

– Ali, grande campeão, qual foi a sua sensação após a surpreendente vitória naquela que já é considerada a luta do século?

(Se Muhammad Ali fosse um jogador de futebol, já saberíamos que, graças a Deus – ou melhor, a Alá –, meu treinador, meus companheiros de equipe e eu conquistamos mais uma vitória pra nossa torcida e somamos mais três pontos em busca do título.)

Como se trata do espirituoso Cassius Clay, ouçamos o que Muhammad Ali tem a nos dizer após ter sobrevivido à rumble in the jungle:

– Jesus Christ! Depois daquela luta – uma verdadeira vitória de Pirro! –, cada segmento do meu corpo doía – e ainda dói! Foi só então que eu descobri que a gente tem unhas. Você só sabe que tem unhas quando a manicure faz merda – é ou não é? Pois até minhas unhas doíam! Minha esposa e minhas filhas queriam me abraçar e me beijar – eu suspeitava que elas queriam ter certeza, a cada momento, de que eu ainda estava vivo. Ai! Ai, ai! Vocês já sentiram o bafejo cálido da morte? Eu mal conseguia me mover, doía até pra falar, e foi só então que eu descobri que todas as partes do corpo estão interligadas, que o calcanhar se ramifica e faz doer e latejar o maxilar, o nariz e o céu da boca. Mas o pior era quando eu ia urinar, Deus meu! Eu tomei tanta porrada nos rins, mas tanta porrada nos rins, que a urina vinha queimando, ela vinha rasgando, daí, quando enfim ela explodia, eu me via mijando sangue – sangue e pus, e tinha resto de não sei o que ali, era um horror, doía muito, eu berrava como um bebê de colo… Aquilo foi o mais próximo da morte a que eu já cheguei – eu sentia que não ia resistir mais, eu sentia vontade de ir embora, de abandonar tudo, de me olhar de fora, de sair do meu corpo, de fugir de mim mesmo. Eu já não conseguia me lembrar de como era não ter dor, eu já tinha esquecido o que era a normalidade. A gente só sabe que tem um corpo de verdade no prazer e na dor mais intensos, só ali e só então. E agora eu entendo aqueles prisioneiros dos campos de concentração que diziam que a morte já não era nada, que a morte, na verdade, vinha para redimi-los. É uma coisa muito dura, é uma coisa muito louca, minha família tava ali do meu lado, minha filhinha me dizendo eu te amo, papai, fica com a gente, volta pra mim, e eu ali, deitado, prostrado, sentindo inveja dos mortos.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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