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Carta à vó

Chicago, 02 de junho de 2015

 

            Dona Nena, minha querida vó,

            Quando aquele barulhinho de garoa-quase-chuva começava a cair sobre as telhas Brasilit do quintal num sábado à tarde, a Lara e eu íamos correndo pra cozinha.

            – Bolinho de chuva!

            (Nessa altura do campeonato, cê já tinha posto açúcar e canela no prato pra gente passar nos bolinhos.)

            Cê não me deixava chegar perto da panela, eu queria ver a fritura dos bolinhos – pra me afastar do fogo, cê ficava falando aqueles palavrões que a gente nunca entendia.

– Porca miseria, brutto bestio! (Quando a mãe tava por perto, cê não dizia nada – bom, ao menos em voz alta. Mas eu via que cê ficava ralhando baixinho, tua dentadura às vezes escapava, aí cê ria e xingava, xingava e ria.)

Mas, uma vez (uma, duas, três vezes), cê me deixou ver os bolinhos esturricando no óleo. (Naquela época cê ainda tinha força pra me pegar no colo.) O céu aqui de Chicago tá com poucas nuvens agora, vó, mas as poucas que eu vejo vão dando cambalhotas como se elas estivessem dentro da tua panela. Lembra quando cê ficava falando pra gente adivinhar que bichos que eram as nuvens nas viagens de carro pra Quintana? (Cê nunca me explicou como é que tinha zoológico no céu, vó. E outra coisa, vó: por que é que lá em cima não tem grade, por que é que as nuvens não se atacam?) A Lara via coelho, elefante era fácil de ver, até girafa ela via. Uma vez cê viu um camelo e me apontou – olha lá o camelo do Tintim, Ricardinho, olha lá! Eu logo vi o Tintim sobre a corcova do camelo no Saara, mas cê não conseguia falar corcova, vó, assim como cê lutava pra falar lidificador, liquificador – a Lara ensinava, é li-qui-di-fi-ca-dor, vó.

Vó, por que é que muitas vezes cê era tão brava com a gente?

[A Lara ia lá e pegava duas colheres: numa delas ela colocava açúcar; na outra, sal. (Bom, às vezes eu mandava a Lara pôr sal nas duas.) Daí a gente fazia cê adivinhar qual que era qual, vó – prova, vó, prova!]

No inverno aqui em Chicago eu descobri teu reumatismo, vó. Mal eu tiro as luvas na rua, os dedos começam a latejar como se fossem explodir. A mão vai se curvando e inchando – ela parece um feto em busca de calor –, os dedos viram garras (nisso eles como que imitam os galhos sinuosos.) Quando eu olho pra esses galhos de inverno, vó, esse caos que vai se ramificando me lembra as tuas varizes. Já não tinha pele lisa na tua perna, vó, e sempre que eu sinto cheiro de vinagre (sempre!) eu me lembro de quando cê banhava as pernas na bacia e as colocava pra cima antes de a novela começar. (E por que é que cê respondia boa noite pro Cid Moreira quando terminava o Jornal Nacional?)

Cê contava pra gente os causos da roça, vó. Tinha história dura de quando a geada acabava com a colheita, e o vô, meeiro do dono do sítio, tinha que cortar a própria carne pra pagar o banco e o patrão. A mãe ficava seis meses sem ver carne, mistura é coisa de gente que pode, o vô chutava que chutava a bola de mortadela – é verdade que ele ficava dizendo que cê só passava bife sola de sapato pra ele, vó? (A mãe morria de dar risada.) E eu também me lembro daquela irmã tua que morreu novinha, novinha. O parto já tinha sido difícil, né? Bom, naquele tempo lá na roça, qual parto que não era difícil, né? Partos feitos em casa, parteira esperta e vivida. Era vela atrás de reza e reza atrás de promessa pro bebê sair vivo. (E era mesmo verdade que os antigos enterravam o cordão umbilical pro santo quando o bebê nascia forte e corado, vó?) Mas, bom, eu lembro quando cê me contou que a Duartina, tua irmãzinha, morreu brincando perto da cerca do sitiozinho. Ela só ficava atiçando o boi, batia com a vara no pinto do boi, já tinha se arranhado um monte de vezes no arame, mas um dia, fugindo do irmão – era o tio Vardo e/ou o tio Zeca, vó? –, ela inventou de pular a cerca. [Mas, antes disso, é claro, aqueles dois (ou três) tinham feito uma bela guerra de bosta seca de cavalo.] Mas aí, vó, veio a hora: quando ela trepou na cerca, parece que tinha tábua solta por lá, algo assim, ou foi tábua que se desprendeu – é difícil alembrar, é duro puxar memória em preto e branco lá pelos idos de 1930, 35 –, só sei que um prego enferrujado da tauba – é tábua, vó! – entrou na cabeça da Duartina, Jesus, Maria e José! E naquele tempo a gente velava o corpo dentro de casa, e vinha carpideira, sim – eu não gostava de choro falso, nunca gostei, mas o desgosto era tanto que até meu pai chorou, eu nunca tinha visto meu pai chorar, o vô Beto era um homem duro, italianão da Calábria que gostava duma caninha e dum curau, mas naquele dia ele se derreteu, a Duartina era o xodó dele, a vó Isabel mal conseguia rezar o terço, eu nunca vi tanta gente naquele sala. A Duartina não tinha nem 5 aninhos – não, minto, ela ia fazer 6... [Eu sempre achei, vó, que quando cê ficava em silêncio depois de falar isso, quando cê ficava remordendo o lábio e olhando fixo pralgum lugar, era pra segurar as lágrimas, como se houvesse alguma comporta invisível pra elas desaguarem embaixo da pele, sob a máscara do rosto. (Depois de ganhar de você aquele boneco do Esqueleto, vó – o Esqueleto do He-Man, lembra? –, eu comecei a achar que a caveira, na verdade, era o rosto que a gente negava, era o que tava ao fim do arco-íris. Foi aí que eu te perguntei se, hoje, a Duartina se parece com o Esqueleto, e cê me abraçou bem forte e disse que, a partir de agora, a gente vai ter um segredo: o Esqueleto, irmão da Duartina, vai se chamar Duarte.)

Ah, vó, mas cê ainda tinha 8 irmãos, né? [Vó, como é que a vó Isabel aguentou? E que danado que era o vó Beto, hein? (A vó e a mãe riam que se matavam!)]

Tio Nirdo, tio Zeca, tia Lila, tio Vardo, tia Mariazinha, tia Brada, tia Wanda e tia Darci – a tia Darci tem a idade da mãe, vó, olha só que coisa. E cê era a mais velha, vó, a Nena, nascida em 1924.

Agora pega toda essa italianada e embaralha. Vamos levar todo mundo pra casa da tia Brada, que fica ali pertinho da antiga estação de trem de Quintana.

Em 1988, todo mundo ainda vivo, a gente fez a festa de 64 anos de casamento do vô Beto e da vó Isabel. (Cê ficava triste comigo, vó, porque eu tinha medo do vô Beto. Mas não era por mal que eu chutava a canela dele com a bota ortopédica, vó, não era. Sabe o que era? Então, lá em Quintana tinha muita mosca, o córrego ficava ali perto da casinha, e eu já tinha que ficar espantando mosca toda hora e nunca conseguia catar as galinhas. Então eu ficava bravo e ia pra casa, e o vô ficava ali, sentado na poltrona, bem na entrada da sala, e ele tinha aquela boca chupada, tadinho, ele também não tinha dente, e naquela época ele já tinha tido o derrame – e eu lá sabia o que era isso? –, daí eu queria passar e o vô talvez quisesse me abraçar, só que eu achava que ele queria me pegar soltando aqueles grunhidos todos, me dava muito medo – e se o vô fosse o homem do saco? –, aí eu chutava o vô com a bota ortopédica, ele berrava, coitado, mas daí eu conseguia passar pelo guardião.

E como é que eu vou esquecer aquelas fotos antigas dos casais da roça que ficavam na sala das casas? Elas não me lembravam fotos, não, elas sempre me pareceram desenhos. O marido à esquerda, a esposa à direita – sempre, sempre, sempre.

E daí cê teve a ideia de tirar uma foto com toda a família que tava ali na casa da tia Brada. O pai não me deixou tirar essa foto, vó – a Lara ficou dando risada de mim –, mas eu me lembro dela como se fosse agora. [É gozado, vó, parece que é só essa dor da distância, essa dor que já não me deixa roubar balinha de goma do teu avental há 20 anos, que transforma tudo isso em argila da memória, como se o tempo recobrisse a vida com uma camada de açúcar queimado – aquela mesma que cê jogava no pudim pra depois dar o pote pra gente lamber (e eu nunca repartia as raspas com a Lara – léro-léro, léro-léro!)]

Na foto, o pai pediu pra ordenar a família conforme as gerações. Então, ao centro, e com solenidade, ficaram o vô Beto, de chapéu preto, suspensório e cigarrinho de palha no canto da boca, e a vó Isabel, com um vestido bem florido que parecia realçar o cabelo branco, branco, branco – por que a mãe falava os adjetivos três vezes quanto queria realçar as coisas, vó? –, cabelinho branco como algodão doce. (Uma vez a Lara chegou a te perguntar se o cabelo da vó Isabel era pra comer, mas daí cê disse que comer algodão doce era igual pôr colera nas nuvens, e eu nunca consegui entender o que cê quis dizer com aquilo, vó, até eu descobrir a poesia do Neruda.) Então, com o vô Beto à esquerda e a vó Isabel à direita, o pai pediu que os filhos (meus tios-avôs!) ficassem à esquerda do bisa, do mais velho para o mais novo – o mais velho mais próximo do vô Beto. (Será que o pai pensou que, assim, a borda da foto ia ficar aberta pra geração mais nova, como se a foto fosse continuar numa sequência dinâmica de fotos, como se a família tivesse que continuar como um filme?) Então, do centro para a esquerda, os homens ficaram assim ordenados: vô Beto, tio Nirdo, tio Zeca e tio Vardo, nosso eterno sanfoneiro. [O tio Vardo, mulherengo que só, me contava das paqueras que sempre vinham depois dos bailes de sanfona (logo, logo cê vai descobrir o que é bom nesta vida, Ricardinho!) – a vó torcia o nariz praqueles causos do tio Vardo, mas eu gostava que gostava de ouvir aquelas histórias embaixo do pé de jabuticaba. (Ou será que era um limoeiro?) Ô sombra boa, meu Deus!] Pois bem: do centro para a direita da foto, ficaram, respectivamente, a vó Isabel, você, vó, isto é, a Nena, a tia Lila, a tia Brada, a tia Mariazinha, a tia Wanda e a tia Darci. A primeira foto foi assim. Depois, cê pediu pras novas gerações virem à frente. Então começou um enxame de filhos, netos e bisnetos. E, vó, a gente não consegue ter dimensão de como a lembrança vai doer depois, de como aquilo ali, aquele encontro, foi querido e único – depois, vó, eu fiquei sabendo que os chineses, matreiros que só, têm um dito e uma imagem pra isso. Eles dizem, vó, veja só, que o lugar mais escuro fica justamente embaixo da lâmpada. (Não, vó, não é aquela lâmpada de sódio do banheiro, aquela de luz bem amarela, que cê nunca me deixou desrosquear, não...)

Depois, cê me levou até a velha estação de trem. Cê não era de Quintana, vó, cê era de Dracena – há quem diga que cê nasceu em Vera Cruz, mas eu fico com Dracena. Aí cê me disse que o vô Ricardo, de cabelo escovinha, bigode e com a pálpebra direita levemente descaída (como a minha), chegou de trem em Quintana pra pedir tua mão em casamento pro vô Beto. (Cê lembra que cê me contou que a vó Isabel tinha um plano procê fugir com o vô Ricardo se o vô Beto não desse a bênção?) Cê tinha posto um vestido azul – azul, azul, azul! – e tava com pó-de-arroz no rosto (o bigode do vô Ricardo ficou polvilhado, e o vô Beto, matreiro e João Sem Braço, fez que não viu). O vô Ricardo trouxe fumo de corda pro vô Beto e doce de abóbora pra vó Isabel. A vó e o vô só podiam namorar com a família na sala, e se eles fossem dar uma volta pela cidade, ora, a tia Lila, a tia Brada, a tia Mariazinha e a tia Wanda se revezavam na vigilância (e na vista grossa). (A tia Darci só não participava da escolta católica porque ela só viria a nascer um tempinho mais tarde, meses depois da minha mãe, né, vó?)

O vô Ricardo era trabalhador, homem de fibra, não gostava de dono de sítio, não gostava de patrão, queria domar a própria vida, não gostava de sela pra andar a cavalo. A vó não tinha ido pra escola – escola? na roça? –, mas já cozinhava bem e costurava e bordava como ninguém. Moça prendada. (Pois é: depois da morte do vô, em 1974, foi com a costura que cê conseguiu aquele emprego na fábrica do seu Giacinto Tognato, vó, em São Bernardo, lá na Pereira Barreto.) O vô Beto logo abençoou o casório, era tudo motivo de festa, pinga e truco – e ai de quem não soubesse trucar direito!

Cê ficava mexendo a massa do bolinho de chuva com a colher de pau pra dar liga, e a gente ficava maravilhado – os olhos da Lara se arregalavam como dois faróis azuis (azuis, azuis, azuis!) – quando cê conseguia juntar um bolinho com o outro mexendo a colher no óleo, quando cê brincava de construir pontes de massinha ou pescoços de girafa. Tô ouvindo agora o barulhinho da casca do bolinho de chuva a se embeber na canela e no açúcar e a roçar no papel-toalha que vai se esfarelando com o excesso de óleo.

Quando eu te conheci, vó, cê já tinha as costas abauladas. Eu ficava tentando endireitar tua coluna ao puxar teus ombros pra trás. Não tinha jeito, cê voltava a ficar curvadinha. E até hoje eu acho que cê não sabia que eu me escondia embaixo da mesa – aquela mesa de madeira da cozinha cujas pernas eram trançadas por uma viga (nela eu apoiava os cotovelos e aprumava os ouvidos) –, daí eu ficava só espreitando o que cê fazia junto à pia, ficava ouvindo as histórias que cê contava pra si mesma, cê repassava as tarefas do dia, que tinha que lavar o banheiro, que já tinha limpado as janelas, que já tinha passado a roupa, mas daí, sem que eu conseguisse entender como, cê já tava falando da Duartina, cê já tava falando com a Duartina (um arrepio me eriçava e subia até a nuca), cê ria, chorava, xingava, redarguia, perguntava – e narrava. Cê não foi pra escola, vó, cê mal manuseava as palavras, mas foi você, vó, foi você, Nena, quem pariu minha imaginação.

Quem eram e de onde vinham todas aquelas vozes com as quais cê convivia enquanto fazia a sopa marrom? – uma delícia de sopa de caldo de feijão na qual jamais faltavam carne de panela e batata doce, e, quando eu peidava na cama, cê ria que se engasgava antes de colocar a dentadura no copo d’água. (Um dia eu fiz a Lara tomar a água da dentadura pra ela me dizer que gosto que tinha.) E tinha uma tabuinha de madeira, vó, tabuinha que cê usava pra bater o bife com o martelinho antes de embebê-lo na gema e passar farinha – como é eu vou me esquecer dos teus bifes à milanesa? A tabuinha tinha o tamanho do caderno que eu uso pra fazer os rascunhos dos meus textos, vó. O potinho onde cê colocava a gema era marrom ou verde – o cheiro da gema era forte, não saía com uma só lavada, não. E eu não entendia por que às vezes cê preferia bater a carne com o punho – na verdade, cê batia os bifes com o pulso, porque te doía bater a carne com os dedos de reumatismo. Vó, por que cê faz isso, por que cê não bate sempre com o martelinho? Daí cê me disse que bater o bife com o martelinho é a mesma coisa que fazer carinho com luva. (Cê teria sido muito amiga do Alberto Caeiro, vó, ele também gostava de afagar a pele da vida.) Então cê ia batendo o bife pros teus netos e me contava, sem saber, que a tia Mariazinha tinha ligado outro dia – a gente só pode se falar de domingo, telefone é muito caro –, tá tudo bem com a Mônica e com o Alexandre, ela ainda sente muita falta do Nelsinho, menino de ouro, menino estudioso, cê foi chamar ele muito cedo, meu Pai, e a Neuza hoje vai fazer hora extra, ela só chega depois da novela, e esses meninos querem sempre sonhos, sonhos da Bariloche, vá, vá, vá!, lá na roça não tinha nada, mal tinha bala, e a Neuza fica mimando a Larinha e o Ricardinho, mas tá bonita essa Larinha, polaquinha que só, mas tá danado esse Ricardinho, menino serelepe, se deixar come tudo que é doce, ah, a lata de leite moça ele não acha ali na gaveta de verdura da geladeira, não acha, não, agora o duro é se ele fuçar (como era bom comer doce de madrugada, vó, brigado por vazar esse segredo!), e logo o Nhanho levanta pra pegar a perua pra ir pro serviço, a marmita dele tem que tá pronta, esse homem é simples e bondoso, gosta de bife acebolado e muito feijão, ele tá cuidando bem do Ricardinho, como se fosse filho dele, mas ele é o pai, pai é quem cria, então deixa eu pôr mais caldinho de feijão no arroz, hum, peraí, tá faltando um pouquinho de sal, olha lá, tocou o despertador, o Nhanho já vem, primeiro ele abre a torneira, vai lavar o rosto, depois pega aquela toalha de rosto da Volks pra se secar – parece que eu tô vendo ele lá.

Quando o pai acordava, eu saía da minha toca sob a mesa (a minha concha acústica, uma das primeiras passagens subterrâneas de Atlântida) e ia pra sala ver mais um programa dos Anos Incríveis. Eu tava apaixonado pela Winnie Cooper – bom, eu, a torcida do Coringão e a torcida do Flamengo –, e a minha vó sempre dizia que o Kevin Arnold era uma gracinha de menino, e daí ela vinha querer pentear o meu cabelo igual ao do Kevin (a Lara ficava dando risada, mas aí eu falava pra vó fazer a trança da Winnie no cabelo dela, rá, rá, rá, rá, rá!)

Vó, tempinho atrás eu fui lá pra São Bernardo, e a Alice e o Luiz Alberto, que te mandam abraços tão apertados quanto os meus, me levaram à rua Liberdade, 475, lá no Baeta. (Rua Liberdade, vó – será que o meu berço poderia ter sido embalado por um lugar mais propício?) Cê se lembra daquela casinha? Quando a mãe se separou do meu pai, cês foram morar lá. A dona da casa morava no subsolo, tinha uma escadinha à esquerda do portão que dava acesso pra lá. Ainda tem ali a garagem onde a mãe, à época bem nova de carta, acabou estilhaçando o vidro da janela da sala com o carro, aquele Corcelzinho bordô que o pai depois vendeu pra gente tentar quitar a casa com o PIS e o FGTS durante o Plano Cruzado. “Brasileiros e brasileiras!” – cê gostava dos discursos do Sarney, vó, mas teus olhos até brilhavam quando o Dr. Paulo Salim Maluf aparecia no horário político. Cê queria votar nele em 89 – cê já não precisava votar, o pai não queria deixar, Dona Nena, a senhora precisa votar no Lula, olha a nossa situação, Dona Nena, ah, Nhanho, mas ele fala tão bem, olha só!, São Paulo é Paulo porque Paulo é trabalhador, São Paulo é Paulo, é Maluf sim, senhor! (Olha, vó, muitos anos depois, quando a rapaziada de esquerda lá do movimento estudantil da faculdade falava em “consciência de classe do proletariado em si e para si” – aquela rapaziada filha da burguesia e da grã-finagem –, eu não conseguia deixar de sentir que a ironia do bom e velho Machado de Assis me ajudava a escavar minhas próprias memórias.) Mas então, vó, eu fui ali pra nossa casinha da rua Liberdade – tá tudo ali, tudo, só que a defesa civil interditou todas aquelas casinhas [parece que a construção de um condomínio ali vizinho acabou abalando a estrutura do lugar (nada que a especulação imobiliária e sua irmã bivitelina, a câmara dos vereadores, não possam escamotear)]. A Alice me contou que cê passava o dia todo comigo – eu tinha pouco mais de um aninho, se tanto, e a Lara, claro, ainda nem tinha nascido –, daí a mãe saía da G.E. na hora do almoço e vinha me amamentar. (A Alice tá com o cabelo bem branquinho, vó, igual ao da vó Isabel, cabelo sedoso de algodão doce. Ela não tinge o cabelo, vó, cê sabe, já você sempre usava aquela Loção Nova – eita troço fedido, Deus que me perdoe! A fronha do teu travesseiro ficava manchada – uma semana depois de você ir, vó, eu passei o domingo todo a acariciar aquela nódoa na fronha.) Bom, mas cê me conhece, vó, que mané defesa civil o escambau!, eu fui lá e pulei o portão, então eu vi, depois da garagem, a escadinha de dois degraus que dá acesso à sala e aos quartos à esquerda – a sala e os quartos, cê se lembra, ficam em um nível um pouco rebaixado em relação à rua, daí a escadinha (e daí o Corcelzinho da mãe barbeira a rachar o vidro da janela). O Luiz Alberto, que ia pegar água lá na bica pra gente, me contou que eu não parava quieto com a brinquedaiada. Chutava a bola e o cavalinho de pau, fazia que ia rasgar o babador, só a tua vó, Ricardinho (ele me chama assim até hoje), te fazia parar de pular e esbravejar, nem a tua mãe conseguia. E de lá a gente foi pra rua Atibaia – coisa de uns 7 quarteirões pra baixo, cruzando a Getúlio Vargas. Cê se lembra do terreno no número 223? Pois é, vó, eu encontrei a tua antiga comadre e locatária, a Dona Palomina. Mal ela me viu e já disse: ah, olha aí o neto da Nena, o filho da Neuza. Só que eu não tinha nem nascido quando cês moraram lá, vó, isso é que eu achei curioso, muito curioso! Antes de me levar até a casinha caiada de vocês ali no fundo do terreno – que terreno grande ali no Baeta, vó, coisa rara de se ver hoje em dia –, ela me contou que todas as noites, antes de dormir, cê lavava o rosto com água de arroz e passava Niveae leite de rosas. (Dona Palomina, de olhos marejados, me mostrou a área onde cês colocavam as cadeiras pra ficar proseando à luz cálida da tardinha.) Quando eu subi levemente até a parte de trás do terreno, foi como se eu visse você e a mãe cuidando da hortinha – a Dona Palomina até se arrepiou quando eu apontei o lugar onde a hortinha de couve e almeirão poderia ter ficado. (Ora, vó, se não tivesse couve ou almeirão na janta, cê nunca comia direito.) E tinha também salsinha e cebolinha, meu filho, e tua vó chegou a pensar em plantar uma jabuticabeira aqui. Tua mãe gostava muito de jabuticaba, cê sabe, agora eu nunca vi uma moça pra gostar de goiaba quiném a tua mãe, menino do céu!, dava gosto fazer suco de goiaba pra ela, ela comia goiabada com queijo que era uma beleza, e meu marido, que Deus tenha em bom lugar aquele filho duma égua, que Deus me perdoe, meu marido fazia bicos lá na Serra da Canastra de vez em quando, então ele aproveitava pra trazer uns queijinhos pra gente, tua vó fazia também cada doce! E eu não sei, Dona Palomina? (Vó, foi o teu doce de leite que me ensinou que tudo que é bom na vida também traz suplício. Pai do céu, por que é que demora tanto pra engrossar esse caldo de leite com açúcar? Aí cê quer acelerar o processo e bota a panela em fogo alto – o leite sobe e transborda mal a gente tira os olhos do fogão. Aí o jeito é deixar em fogo baixo, o jeito é mastigar a paciência, o leite fica borbulhando, aquele tédio do banho-maria, daí, depois de 3, 4 horas, aquele tantão de leite e açúcar do começo vira um tiquinho de doce de leite que eu comia em duas colheradas – bom, hoje eu entendo a sabedoria da gaveta de verduras, vó, aquele esconderijo da formiga parcimoniosa que quer impedir que a cigarra se lambuze de uma só vez e fique sem nada amanhã. Cê sabe, Ricardinho, teu pai é ridico, teu pai é pão-duro, ele não vai comprar mais!

Agora, vó, cê tinha um gênio forte que só – a mãe ficava muito brava quando cê me xingava de larazento ou excomungado (cê xingava a gente com o punho cerrado e em riste, e a raiva fazia a dentadura escorregar, nem parecia a velhinha risonha que ria porque ria do Sassá Mutema e que pedia pra eu imitar o Roque Santeiro com aquele relógio de pulso que ficava saracoteando no meu braço então fininho como um graveto). E, quando a gente voltava a ficar de bem, eu perguntava que que é larazento, vó, que que é excomungado? Eu só descobri o infortúnio dos lazarentos depois de ler, no catecismo, a parábola da ressurreição de Lázaro. Já o lance do excomungado demorou um pouco mais. Ser um excomungado sempre me pareceu algo muito ameaçador – teu rosto ficava transtornado, vó, parecia que cê tava relampeando –, e eu só fui entender o anátema de Roma contra os hereges e demais trânsfugas religiosos (e políticos) nas aulas de História. E por causa de você, vó, por causa da tua história, por causa do interior profundo, sempre me vinha uma sensação de nostalgia e tristeza quando eu ouvia na escola coisas como êxodo rural, boia-fria, ciclo do café, bicho barbeiro, amarelão, casa de pau a pique, teníase e Doença de Chagas. Cê nunca aprendeu nada disso, vó. Cê viveu. (Cê sobreviveu.) Você, a mãe e o pai.

Tinha aquela sabedoria antiga dos antigos – aquela sabedoria longínqua cuja origem a gente tenta puxar com a corda, mas ela parece um poço sem fundo que nunca enche o balde com água, que nunca mostra de onde vem. Era assim que cê me dizia que os chinelos, os tênis e os sapatos não podiam ficar virados de cabeça pra baixo. Cadarços não podiam ficar amarrados. Tomar banho depois de comer? Nem pensar! É congestão na certa. Não pode lavar a cabeça à noite. Não come doce antes da comida – vai estragar o almoço, e, olha lá, já estragou a janta! Mas por que, vó? Por que o quê? Por que que é assim? Ué, tua mãe aprendeu comigo, eu aprendi com a vó, a vó aprendeu com a nona. A nona Campidella, Ricardinho, ô mulher vistosa, só que ela não tinha nem 1,50 cm, era uma cotoquinha desse tamaninho, ela e o nono passaram coisa de 40 dias no navio até Santos, viagem sofrida, muito enjoo. E de onde eles vieram, vó? Ah, Ricardinho, tem quem fale que foi da Calábria, tem quem fale que foi de Verona. E eu lá sei? Eles tinham sofrido tanto por lá que dava dó de ficar perguntando. Mas quando a vó Isabel fazia porpeta, o molho secreto era da vecchia signora, era da bota, era da Itália (tinha que pôr no molho uma pitada de açúcar e azeite, mas só a vó Isabel sabia o tanto e o ponto certos). Agora, vó, será que cê adivinha de que prato teu eu gostava mais além do bife à milanesa e da sopa marrom? (Enquanto cê pensa, já te vejo pegando umas balinhas de goma no bolso do avental.) Não sabe? Será mesmo? Pois era aquela galinha caipira lá de Quintana, vó, aquela que levava coloral. Como é que cê não ia lembrar, né? Agora, vó, eu nunca entendi como é que cê conseguia destroncar o pescoço daquelas galinhas. Bom, eu já disse que nunca conseguia catar aquelas galinhas. Era só cercar em roda que elas já fugiam como o diabo foge da cruz. Galinha d’Angola, então, vixe! Só de a gente ameaçar ela já começa a pular. (E cê já viu bicho mais enjoado na roça que galo de terreiro, vó? Deve ter algum parentesco com o pavão, mas o danado do tio Vardo me prometia que me prometia que ia me levar pruma rinha, vó, mas nunca me levou.) Mas, vó, me conta, como é que cê conseguia destroncar aquelas galinhas? Eu ficava com muita dó. O pai tinha feito aquela biquinha atrás da casa da vó Isabel, lá no quintal, e parecia que cê fazia de propósito: quando eu ia tomar um banhão lá na biquinha no fim da tarde, lá vinha você com a galinha com as patas e o bico amarrados. Cê sentava na muretinha, punha a galinha entre as pernas – e zás! Girava e puxava bem o pescoço, me lembro do créque – o estalido de um galho seco – como se fosse agora, como se fosse em mim, eu cobria o pescoço, não queria olhar, tapava os olhos, mas era uma coisa doida, vó, eu sempre deixava umas frestas entre os dedos pra ver a galinha estrebuchar – quando cê não puxava o pescoço direito, quando a galinha era boa de briga e de vida, a bichinha ficava rodopiando quiném peão, e aí eu me lembro, eu me lembro fisicamente, eu sentia vontade de ajudar a galinha, eu sentia vontade de abreviar a agonia dela, eu queria dar vassourada, buscava pedra, mas o pai, mesmo de longe, brigava comigo, então ficava aquela galinha pomba-gira no quintal – vó, por que cê não mergulhou a galinha na água fervendo, vó? Ela ia sofrer menos! Ora, menino, cê por acaso já queimou a mão? Quer queimar o pé pra ver se cê guenta? E de repente ela parou de se mexer, de repente ela parou de lutar e cararejar – talvez aquele coraçãozinho de frango de churrasco ainda estivesse batendo, e eu prometi, eu sempre prometia, que não ia comer, que nunca mais ia comer. (O que será que tem no cheiro do molho de coloral da galinha caipira que faz a gente quebrar tudo que é promessa, vó?) E carne igual àquela eu nunca vi, vó – bom, só nos churrascos do pai, mas lá não tinha coloral e nem feijãozinho de corda de Quintana.

A mãe ia trabalhar, vó, cê ficava cuidando da gente. A tarde toda. Eu nunca vi cê mentir, vó – e, bom, como a maçã dificilmente cai longe da árvore, dava pra ver facinho quando a mãe queria esconder algo da gente (por exemplo, a lata de leite moça na gaveta de verduras da geladeira). Todo mundo gostava da Dona Nena lá no Bamerindus, cê ia buscar a aposentadoria com muito orgulho e toda bem vestida, e o salarinho ficava todo contado pra pagar as passagens de ônibus pra ir pra Quintana visitar a vó Isabel e pra comprar linha de costura e doces e mais doces pra gente. “O tempo passa, o tempo voa – pã-pã-pã! –, e a poupança Bamerindus continua numa boááá! E a poupança Bamerindus-dus-dus-dus!”

Eu fiz um altar com a tua máquina de costura, vó. Dentro dela ainda tá aquele travesseirinho pequeno e gordinho que cê colocava embaixo das partes mais difíceis das camisas pra poder passá-las sem deixar nenhum vinco – nossa, vó, como cê ficou triste quando o pai deu embora aquele ferro da roça que levava brasa, mas depois cê abriu um sorriso e bateu palmas quando chegou o ferro rubro-negro da Black & Decker, aquele que a gente chamava de flamenguista. A tua caixa vermelha de costura ainda tá lá, vó, como você a deixou. Olha aqui o teu dedal – eu me lembro desse dedal entre preto e cinza no teu dedo indicador, daí cê punha óculos grandes de aros rosados pra conseguir passar a linha pelo buraco da agulha. (E, anos depois, quando a Lara me disse que o compasso dos meus textos datilografados na máquina de escrever lembrava a cadência da tua máquina de costura, vó, a gente redescobriu a trilha sonora da nossa infância.) Na caixa de costura também tem a tua tesoura – na verdade, ela tá pendurada num ganchinho da porta da máquina. Qualquer tesourinha vagabunda enferruja em três tempos, mas a tua tesoura tá ali, a postos, ao lado da fita métrica tricolor (verde, amarela e vermelha) que você, a mãe e o pai usavam pra marcar as nossas espichadas de criança nos azulejos da cozinha a cada seis meses. Quando a Lari passou de um metro, vó, cê fez um doce de abóbora que eu nunca provei igual. Bom, tem um restaurante indiano aqui em Chicago que, outro dia, num combo de almoço, serviu um doce alaranjado que me levou, na hora, até o comecinho de 1986, na praia de Perequeaçu, em Ubatuba. Eu tô ouvindo tuas cantigas que vão amansando o choro da Lara pro pai tirar a foto:

Lá em casa tinha um bigorrilho

Bigorrilho fazia mingau

Bigorrilho foi quem que me ensinou

A tirar o cavaco do pau

Trepa, Antônio,

Siri tá no pau

Eu também sei tirar

O cavaco do pau

            A Lara saiu mansinha na foto, as bochechas de almôndega já tão ali, ela tá parecendo o teu pão feito em casa vó, branquinha e gordinha, e aí só faltou aquela casquinha crocante que a gente lotava de requeijão (não dava pra saber se tinha mais pão ou mais requeijão na fatia).

            E por que que o pai te chamava de Dona Antónia, vó, se todo mundo falava Dona Antônia? [Num restaurante lá em Lisboa, perto do Mosteiro de São Jerônimo (onde tá enterrado o teu heterônimo, vó, o Alberto Caeiro), eu pedi ao gerente que chamasse a cozinheira ao fim do almoço, porque eu queria dar os parabéns à verdadeira artista que havia preparado aquele polvo salpicado de ervas finas (só faltou o teu coloral, vó). Qual não foi a minha surpresa quando o patrício, a reboque de um sorriso pra lá de satisfeito, pediu que a Dona Antónia viesse conhecer nosso amigo do Brasil, pá!]

            Lá no altar da tua máquina de costura, vó, tem fotos tuas, tem fotos nossas, tem fotos da mãe e do pai, tem o troféu de basquete da Lara – o time que ela comanda foi campeão paulista em 2013, vó! –, tem os meus livros, tem as cinzas do meu pai. A partir do dia 27 de outubro de 1996, vó, quando eu já não pude mais puxar os teus ombros pra trás e pentear o teu cabelo (tampando o nariz) depois de mais uma aplicação da Loção Nova, os anos mais risonhos da minha vida – o baú do tesouro que a Dona Nena, a pirata, sempre enterrava na gaveta de verduras da geladeira – começaram a se transformar em um espectro [como se fosse aquela neblina densa do Riacho Grande (ou de Ribeirão Pires), neblina que a gente singrava com o farol alto, neblina que cê tentava espantar com o Sinal da Cruz.] Agora e amanhã, vó, eu ouço as badaladas dos versos de T.S. Eliot como se elas replicassem os sinos de Quintana, cidadezinha que eu descobri ser um dos distritos da minha Atlântida submersa – “O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro”. Agora e amanhã, vó, um espectro ronda Atlântida, o espectro do Atacuíra.

            [Atacuíra? Quer me enganar que cê não lembra, vó? (E fala pra mãe parar de fazer figa atrás das costas, eu sei que cês duas tão se segurando pra não dar risada.)]

            Quando a Lara e eu éramos pequeninos – eu ainda não tinha alcançando o cume da tua fita métrica, vó –, tuas chineladas impunham respeito. [A Lara ia se trancar no banheiro (bendito trinco giratório que permitia a estes fugitivos-mirins impedir a abertura da porta à chave por fora); eu me entocava em minha barricada sob a mesa.] Mas nós logo ficamos grandotes, vó, e aí não tinha mais jeito: cê ralhava com a dentadura aos solavancos – cazzo, vaffanculo! –, mas a gente já não deixava de comer na sala. [E haja aspirador de pó aos sábados para (tentar) remover as crostas de arroz e feijão do carpete.] Mas eis que a Dona Nena, quiçá inspirada pelas refilmagens do Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa dirigidas pelo singelo Quentin Tarantino, tira da cartola – ou melhor, da gaveta de verduras da geladeira – o reinado nefasto do Atacuíra.

            Na virada dos anos 80 para os anos 90, Senor Abravanel, também conhecido como Sílvio Santos, passou a apresentar (e a reprisar e a repisar), PELA PRIMEIRA VEZ NA TELEVISÃO!, o clássico O ataque das formigas gigantes. A partir de então, as onipresentes formiguinhas, companheiras das migalhas legadas por Ricardinho João e Lara Maria pela floresta do carpete, poderiam se transformar nos Atacuíras, verdadeiros monstros devoradores de criancinhas, caso entrassem em contato com um líquido tóxico-radiativo (na ficção de Tarantino) ou com os nossos inevitáveis detritos alimentares (na realidade ficcional da Dona Nena).

            Súbito, o friso dourado do tapete da sala que ficava junto à soleira da porta se transformou, por anos e anos a fio, em uma fronteira repleta de trincheiras a dividir dois mundos: do lado de lá, a Terra do Nunca infestada de Atacuíras; do lado de cá, a doce gaveta de verduras sob a batuta da Dona Nena. Sobre a porta/fronteira da sala, a Dona Nena, conterrâneade Dante, usou as mesmas canetinhas com as quais a gente pichava as paredes do corredor para escrever – ou melhor, para sentenciar:

Lasciate ogni speranza, voi ch’intrate

Um inimigo pode ser muito poderoso, mas ele também tem carne e osso, ele também tem flancos e calcanhares. (E se a capital do inimigo for o World Trade Center?)

Ocorre que você, Dona Nena, transformou nossos castelinhos de areia de Ubatuba em uma fortaleza inexpugnável. Como é que eu posso combater o Atacuíra? Ele está ali, atrás da cortina que se move, sob o sofá, ao lado da almofada – o Atacuíra é a minha coceira, o Atacuíra é a paúra que não olha pra trás, o Atacuíra é a sede que não vai beber água de madrugada (pode haver escutas telefônicas no filtro de barro), o Atacuíra é o abrigo antiaéreo sob o edredon.

Mas o Atacuíra não é apenas um aliado do medo, não.

O Atacuíra também é o emissário de uma realidade outra.

(Dona Nena me sussurra: o Atacuíra, na verdade, é um menestrel.)

E quem diria, vó, que o Atacuíra, outrora sentinela da nossa sala, acabaria se transformando em um guia (a reencarnação do Mestre dos Magos?) a me conduzir pela Cidade Proibida de Atlântida?

Vó, cê foi minha mãe, minha guarida, minha companheira de monólogos dialogados no subsolo da mesa da cozinha. Cê não me ensinou “apenas” a ter esperança – se todo coração é uma célula revolucionária, baionetas em riste (mais uma metamorfose do Atacuíra) não disparam; baionetas em riste afagam.

Vó, cê me ensinou a auscultar mesmo aquilo que se cala.

Vó, cê me ensinou a acreditar. (Ah, então é mesmo verdade que o Atacuíra se casou com a Pandora?!)

Vó, cê me ensinou a imaginar: abre-te, sésamo, vó, eu te amo.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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