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It’s like they say in the USA: The world is one big network

Chicago, 15 de julho de 2015

Preâmbulo

Mitgefangen, mitgehangen

(Presos juntos, juntos enforcados)

            Há aproximadamente 150 anos, o bom e velho Karl Heinrich Marx, entrincheirado em sua mesa de estudos na British Library, em Londres, entrevia as relações humanas deformadas sob a égide do capital como uma rede de (inter)dependência reificada universal.

            Grosso modo, a reificação – ou coisificação, já que, etimologicamente, o termo remonta à palavra latina res, isto é, coisa – diria respeito ao processo de recrudescimento da instrumentalização das pessoas, ou pior, dos produtores e/ou (não-)portadores de mercadorias, de tal maneira que fôssemos tratados (e também passássemos a nos ver e a nos tratar) cada vez mais como meios para o alcance de determinados fins. (Fins que, em sociedades tão desiguais e competitivas, tendem, em enorme medida, a nos ser alheios. Fins que nos escapam – mas que não deixam de nos aguilhoar.)

            Ao invés de os sujeitos serem tratados como fins em si mesmos, como cidadãos que possuem dignidade ontológica própria, os consumidores, se e quando conseguimos participar da ciranda de veiculação e circulação de mercadorias, nos vemos reduzidos à condição de súditos que se ajoelham diante de nossos próprios produtos.

            É assim que os preços do dólar e da cesta básica sobem ou despencam, como se tais coisas, como que por um abracadabra, fossem animadas com características humanas – como se não houvesse relações sociais que alicerçassem tais oscilações. Diante do aumento/diminuição da taxa Selic, o telespectador/ouvinte/leitor do jornal, atônito e impotente, teme a cada momento por seu emprego. Ateus e agnósticos ainda precisam se ajoelhar diante de velas de cera e ícones silenciosos de madeira para que o desespero diante do imponderável possa ser minimamente apaziguado. (Daí o caráter acirradíssimo do show da fé: hóstias, água benta, sessões de descarrego, a multiplicação do dízimo como promessa para a multiplicação dos pães e livros de autoajuda disputam, palmo a palmo, tostão a tostão, o nicho cada vez mais prescrito pelas drágeas da indústria farmacêutica.)

            Na sociedade das ações racionais com relação a fins, na sociedade utilitária da maximização das satisfações pessoais, o imponderável e a irracionalidade se insinuam pelas frestas do processo de reificação das pessoas e de humanização das coisas. (Tais fatores fizeram com que um conterrâneo de Marx chamado Walter Benjamin, há pouco menos de um século, entrevisse o capitalismo não apenas como um sistema produtor de mercadorias, mas como uma forma sofisticadíssima de monoteísmo, por meio de cuja doutrina o Capital, a destronar o velho deus que pairava sobre o Monte Sinai, passaria a ser a única criatura a poder dizer Eu sou aquele que sou.)

            Assim, quando apreende as relações humanas deformadas sob a égide do capital como uma rede de (inter)dependência reificada universal, Marx ilumina os dutos de esgoto da noção de que o homem é um animal social.

            Sim, é verdade que a alteridade social mediata ou imediata, concreta ou espectral, estabelece mediações em relação a todas e a cada uma das nossas ações e pensamentos.

            Fulano não se chama Fulano – seus pais, primeiramente, o chamaram assim.

            Quando pensamos em algo, quando nos lembramos de alguém, esse algo e esse alguém, que nos mobilizam, já nos transformam em um outro para nós mesmos. É nesse sentido que podemos ler Saramago, quando o português diz que é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós.

Sozinho em meu quarto, estou escrevendo este texto sentado em uma cadeira giratória produzida por operários de Bangladesh e coloco o laptop sobre uma escrivaninha de madeira talhada na Costa do Marfim, enquanto o microprocessador desenvolvido por engenheiros indianos com nanotecnologia do Vale do Silício e/ou japonesa permite que o Word conte, até o presente momento, 605 palavras.

Mas, quando entrevemos o homem como um animal social, como se fosse necessário aceitar o (e se resignar diante do) atual estado de coisas como um dado da natureza (e não da história), deixamos de desvelar o caráter reificado das relações que alijam as pessoas umas das outras na mesma medida em que somos todos coagidos aos aguilhões da proximidade instrumental.

– Em que posso servi-lo? (Ou melhor: como é que eu posso me servir de você?)

(Já dissera um velho provérbio alemão: Mitgefangen, mitgehangen, isto é, presos juntos, juntos enforcados.)

Assim, em face (e para além) da atual sociopatologia, o homem como um animal social é não um dado, mas um vir a ser. (É como se o homem fosse a utopia do Homem – nesse dia, a ilha poderá decidir, livremente, se abandona o exílio em relação ao continente.)

I. There’s no place like home?

There’s no place like homeless

            Após 150 anos sob a égide do capital, aterrissemos na Finlândia.

O filme The Frozen Land (2005), dirigido por Aku Louhimies, nos fará caminhar não apenas entre os escombros do Estado de Bem-Estar Social, mas também entre os punhais afiados da reificação, processo que parece atingir seu paroxismo em momentos de crise aguda do capitalismo.

No princípio era o Verbo?

Não.

No princípio era um enterro.

Um jovem cujo nome ainda não conhecemos faz as vezes de orador diante de um caixão branco.

– Eu nunca quis que isso acontecesse. Você se lembra das perguntas que nós fazíamos um ao outro quando éramos crianças?

Por que eu sou quem eu sou?

Por que eu nasci aqui?

Por que eu não posso gritar quando eu me sinto mal?

Qual é o sentido de viver se essa vida é um mero inferno?

– Mas nós temos que acreditar que, ao fim e ao cabo, as coisas vão dar certo. Do contrário, nada faz sentido.

No princípio eram as respostas para as perguntas mais essenciais?

            Não.

No princípio era uma aula de Literatura Russa à qual os alunos de uma escola secundária mal prestam atenção.

O professor está analisando o conto O cupom falso, de autoria do bom e velho Liev Tolstói. [A narrativa tolstoiana é como que parodiada (e, a meu ver, superada) pelo filme de Louhimies, de tal maneira que, no transcurso deste texto, me centrarei na estória finlandesa e apenas me remeterei a Tolstói quando for o momento de desvelar uma possível saída que o russo oferece para o labirinto da reificação – saída que a narrativa apocalíptica de Louhimies transforma em uma nova entrada, de modo que as personagens estilhaçadas já sintam prazer em lamber o pus de suas próprias feridas.]

E eis que o professor, diante do imbróglio tolstoiano, assim sentencia:

– Começo, meio e fim; começo, conflito, transformação e assim por diante. Eu não quero saber que a pessoa A acabou entregando o cupom falso para a pessoa B, a qual, por sua vez, se viu obrigada a passá-lo adiante para a pessoa C – e assim por diante. O que é relevante nesta estória é o que é dito, e não como as coisas são ditas. Nos ensaios que vocês devem me entregar na próxima aula, contem-me sobre o mundo de Tolstói.

Dado que The Frozen Land dialoga estruturalmente com O cupom falso, o comentário do professor – algo como a moldura para a sequência do filme – desponta como uma chave hermenêutica fundamental para compreendermos a história sob a estória, já que “o que é relevante nesta estória é o que é dito, e não como as coisas são ditas”. Se o professor pede aos alunos que discorram sobre o mundo de Tolstói, Aku Louhimies, o professor do professor, insinua que devemos estar atentos à ruína de nosso próprio mundo.

Depois da aula, a diretora da escola chama o professor de Literatura até sua sala, mas não sem antes apresentá-lo ao mais novo professor de Matemática – a esta altura, nós ainda não sabemos que a (inter)dependência reificada universal logo atará o desemprego iminente do primeiro ao desespero futuro do segundo. (Presos juntos, juntos enforcados.) Por ora, o professor de Matemática é o mais novo contratado, ao passo que o professor de Literatura, após ouvir da diretora que “o senhor é o melhor professor da nossa escola”, fica sabendo que “houve uma reformulação da nossa grade curricular, de modo que as humanidades serão preteridas em função das exatas. Assim, o senhor está demitido”.

            Logo, o outrora leitor contumaz do mestre russo se transforma em um desempregado alcoólatra que passa a barganhar cada um dos itens de sua casa para entorpecer a consciência de que não conseguirá voltar a lecionar por já ter atravessado o desfiladeiro dos 50 anos. Assim, Niko, seu filho (o orador do enterro apresentado no início do filme), já não tem como ouvir músicas e ver filmes – só lhe resta passar os dias fumando maconha. (O pai desempregado compara o filho-preguiça a Oblomov, personagem do romance homônimo do russo Ivan Gontcharov, um aristocrata decadente que passa seus dias e noites esmerando a arte de não fazer porra nenhuma.)

            Diante dos protestos de Niko de que a casa está sendo dilapidada para manter a bebedeira do pai, o ex-professor começa a xingar o filho até que, num rompante, Niko é expulso de casa.

Os leitores da grande literatura russa estamos acostumados aos paroxismos que tornam contíguos apatia e sadismo, empatia e aversão, compaixão e (auto)comiseração. Assim, quando o fogo fátuo do pai começa a ver que suas bravatas enfim expulsarão Niko de casa, que o filho, finalmente!, vai fazer alguma coisa, que ele vai se mover, que ele vai me deixar, o ex-professor começa a gritar que é assim mesmo, isso, faça como a sua mãe, me abandone, vocês dois são iguaizinhos, é isso mesmo!

A pecha de coitadinho faz Niko se condoer, e então o pai, que há pouco gritava a plenos pulmões, agora balbucia como uma criança mimada a pedir a mamadeira:

            – Niko, meu filho, vamos, me dê uns 20 euros, são só 20 eurinhos, eu sei que você tem, vamos, eu já tô ficando sem cerveja, meu filho, eu não vou conseguir dormir se não beber, Niko...

            Quando Niko diz que não tem dinheiro, o professor desempregado, num átimo, volta a se enfurecer.

            – Fora daqui, seu moleque, rua daqui, vagabundo! E não volte enquanto não tiver um emprego!

           

II. Casa da Moeda

            Niko busca refúgio na casa de Tuomas, seu melhor amigo. [Só depois saberemos que Niko, no início (e no fim) do filme, faz as vezes de orador no enterro de Tuomas.]

            Tuomas namora Elina, uma jovem bela (e milionária).

            (Niko, melhor amigo de Tuomas, deseja Elina.)

            Os três vão passar o Ano Novo na casa de um grã-fino.

            Álcool, maconha e cocaína – os ícones da atual juventude far niente encarnarda por Niko Oblomov.

            Em dado momento, a câmera de Aku Louhimies nos mostra o olhar entre sequioso e invejoso de Niko a observar, de longe, um beijo de Tuomas e Elina. (Mal sabe Niko que, naquele instante, seu melhor amigo e a namorada planejam envolvê-lo em uma conspiração Robin Hood.)

            Niko cheira mais uma carreira, esfrega o pó nas gengivas e, entre um trago e outro, sentencia:

            – A humanidade está próxima do fim. Sim, o fim está próximo!

            No princípio era o Verbo?

            Não.

            No princípio era o ato.

            Quando Niko vê Tuomas trabalhando no computador com o holograma de uma nota de 500 euros, Oblomov tem uma ideia para tentar reaver os bens que lhe haviam sido usurpados pela bebedeira do pai: “Vou imprimir esse dinheiro!”

III. Pequenas empresas, grandes negócios

            Niko Oblomov, 500 euros menos pé-rapado, vai a uma loja de eletroeletrônicos usados para comprar um aparelhinho de som.

            Quiçá afeiçoada aos traços andróginos de Niko e à sua pêra sob os lábios finos, a vendedora sexagenária mal olha para as notas que o rapaz embola em suas mãos.

            Assim, Niko supera a inércia de Oblomov ao comprar o aparelhinho de som e ainda receber 470 euros de troco – 4 notas de 100, 1 nota de 50 e 2 notas de 10.

            – Tá tudo certo? – diz a vendedora septuagenária com a voz melíflua de seus tempos de moça casadoira.

            Niko esboça um sorriso e amarelo e, sem mais, chispa da loja.

IV. A justiça e o proctologista

            Não demora até que o dono da loja, vendedor matreiro e calejado, descubra a estupidez cometida por sua funcionária.

            Mas, como o cliente sempre tem razão, é hora de ser ainda mais racional com o próximo freguês. (“É preciso servir bem para servir sempre”.)

            Súbito, surge na loja um hooligan de cavanhaque com pinta de texano da KKK e que tem uma bandeira com a cruz sulista dos Confederados em seu Ford Mercury, ano 1975. Isto quer vender uma TV formidável, 40 polegadas, flat screen, coisa linda, eu nem terminei de pagá-la, faltam 6 prestações, olha só! O dono do estabelecimento começa uma barganha e, sem que Isto se dê conta, escorrega a nota de 500 euros de Niko entre as demais cédulas.

            O dono da loja levou uma TV de 510 euros por míseros 10 mangos.

            Embalados pela country music texana, Isto e seus tostões vão ao clube de striptease onde trabalha uma bela dançarina com a qual o Shrek em questão já tivera um affair.

            – Meu bem, hoje é a tua noite de sorte! Quero te levar pra jantar, e você escolhe o lugar, minha princesa, não importa o preço!

            (A loira desce lentamente do palco para responder.)

            – Ah, até que enfim cê voltou a trabalhar, Isto, que bom, teu oficial da condicional vai ficar feliz da vida... Mas, me conta, em que muquifo cê tá trabalhando?

            – Não é nenhum muquifo, não, meu chuchu, é coisa fina, eu agora sou representante comercial! (O self-made man Isto vende xampus anticaspa de porta em porta.)

            Isto insiste em sua regeneração, ele quer mais uma chance com a bela de mamilos intumescidos, mas a stripper coça a cabeça e, já sem paciência, dá um fora em Isto, fora que ecoa a demissão categórica do ex-professor, que, por sua vez, reverbera o pé na bunda que expulsou Niko de casa, que, por sua vez, ecoa o engodo da vendedora octogenária e casadoira, que, por sua vez, reverbera a nota falsa repassada a Isto, que, por sua vez, também vai querer se vingar.

            O hooligan texano vai a um bar, enche a lata e, ao mexer com duas belezuras em uma mesa próxima, Isto se vê interpelado pelo garçom e pela trupe de seguranças. Súbito, ele saca do bolso os 500 euros para lhes gritar, a plenos pulmões, que eu existo, eu exijo respeito!

            (Não demora para que Isto tenha a existência devidamente avalizada. Logo vemos um policial atarracado, em uma saleta obscura da delegacia, introduzindo o dedo médio no cu do texano escandinavo para averiguar se Isto não está escondendo eventuais entorpecentes das autoridades.)

            Dias depois, quando é expelido da delegacia, Isto se depara com seu Ford Mercury completamente depenado.

            (Tido como um marginal, Isto, de fato, queria se reabilitar. Ocorre que a reabilitação de Isto foi obstruída pela justiça. Ora, se a justiça tem os olhos vendados, por que é que Isto deveria segurar o rojão sozinho?)

V. Espírito de equipe

            Isto recebeu uma nota falsa?

            Isto tomou um pé na bunda da stripper?

            Isto tomou no cu?

            O carro de Isto foi depenado?

            Ora, Isto vai até uma loja de carros de última geração e, a reboque do espírito meliante que a justiça só fez insuflar, o hooligan furta, de madrugada, um 4x4 que, enfim, lhe restitui a dignidade devida.

            Intumescido pelo câmbio automático e pelas canções texanas, Isto Shrek está de volta à ativa.

VI. There’s no place like home?

There’s no place like homeless

            Pela manhã, o dono da loja de carros de última geração precisa contabilizar o prejuízo.

            Súbito, Teuvo, seu velho amigo, aparece na loja.

            O self-made man Teuvo vende aspiradores de pó de porta em porta.

            O self-made man Teuvo não tem mais dinheiro para quitar as parcelas de seu furgão.

            (O furgão, na glacial Finlândia, já se havia transformado na casa do self-made man Teuvo.)

            O self-made man Teuvo, assim, vai à loja de carros de seu velho amigo para lhe pedir uma chance de quitar as parcelas do furgão daqui a alguns meses, quando a pequena empresa de mim mesmo de aspiradores de pó voltar a prosperar. Vamos lá, por favor, é pelos velhos tempos, meu amigo!

            Ocorre que, em nossa sociedade, o dono da loja de carros de última geração, antes de ser um velho amigo de Teuvo, é dono da loja de carros de última geração, ainda que a amizade com Teuvo seja mais antiga do que a loja de carros de última geração.

            A loja de carros de última geração havia sido depenada naquela madrugada.

            Quem pagaria o prejuízo do dono da loja de carros de última geração?

            Teuvo?

            Ora, o self-made man Teuvo, vendedor de aspiradores de pó de porta em porta, não consegue quitar nem as parcelas de seu furgão.

            Como é que o dono da loja de carros de última geração pode ser solidário quando lhe estão fodendo o cu?

            – Teuvo, se você não pagar as prestações do furgão, meu chapa, você vai ter que me devolver o veículo – e é pra já!

            Teuvo vai até o furgão e retira de lá seu aspirador de pó, um colchonete mirrado e um arremedo de cobertor. Antes de devolver o furgão ao dono da loja de carros de última geração/seu muy amigo, Teuvo se esgueira até o volante do carro, lhe dá um beijo estalado e sussurra para o espelho retrovisor:

            – Adeus, querido amigo! Adeus – e muito obrigado!

VII. Se o trabalho dignifica o homem, o álcool o redime

            O self-made man e sem-teto Teuvo, vendedor de aspiradores de pó, tenta, de porta em porta, empurrar o seu produto. [A rede de nossa reificação faz com que, entre os potenciais (não-)compradores do aspirador de Teuvo, esteja o ex-professor de Literatura.]

            Além de self-man vendedor de aspiradores de pó e sem-teto, Teuvo também luta contra o alcoolismo.

            Em uma sessão dos Alcoólicos Anônimos, Teuvo, com o rosto extenuado e os olhos marejados, diz aos colegas de suplício que já sente saudade de seu velho amigo furgão. Ah, e é claro, sim, sim, sim, eu já ia me esquecendo: eu agradeço a Deus por mais um dia sem álcool, eu agradeço ao Pai por mais um dia de sobriedade.

VIII. Orgasmos múltiplos

            Isto, o hooligan texano-finlandês, vai atrás do filho da puta que me passou a nota falsa de 500 euros.

            Isto encontra o dono da loja de eletroeletrônicos usados quando o filho da puta está para dar a partida em seu carro.

            Isto usa uma pá para arrebentar o carro do filho da puta do dono da loja de eletroeletrônicos usados que lhe havia passado a nota falsa de 500 euros.

            Os golpes de Isto contra o carro tem a cadência das estocadas que o hooligan não pôde introduzir na stripper e são mil vezes mais contundentes do que a dedada que Isto teve que engolir na delegacia.

            Após ejacular a ultraviolência, o texano volta a montar em seu cavalo 4x4 e, em um cruzamento, o carro quase atropela o distraído Niko, a quem Isto, membro da seção finlandesa da KKK, prontamente identifica como um viadinho filho da puta!

           

IX. Eu ainda desejo, eu ainda estou vivo!

            O hooligan e sem-teto Isto, co-incidentemente, acaba se hospedando no mesmo hotel em que o self-made man e sem-teto Teuvo está hospedado.

            Os dois se encontram junto ao balcão do bar do hotel.

            Isto está bebendo a enésima cerveja.

            Teuvo abre um jornal na seção de empregos e pede um café – e outro café, e outro café, e outro café. (O lobo perde o pelo, mas não perde o vício.)

            Isto puxa um dedo de prosa com Teuvo.

            Isto diz a Teuvo que é dono de uma loja de carros de última geração.

            Teuvo diz a Isto que está interessado em uma linha de crédito para financiar um furgão.

            Teuvo logo reconhece a camiseta que Isto está usando.

            – Então quer dizer que você também vende xampus anticaspa?!

            A réplica de Isto nos apresenta uma nova chave hermenêutica que desponta como uma síntese para o movimento reificado da narrativa:

            – It’s like they say in the USA: The world is one big network!

            Com o copo de cerveja em riste, Isto ordena que Teuvo pare com a viadagem, porra!, olha lá, onde já se viu tomar café e copinho de leite, vambora!, pede aí um trago de homem, isso, uísque duplo, vamos lá!

            Logo, logo os dois bêbados desempregados, atracados como velhos amigos, estão cantando o mantra da vitória:

            – A vida só é dura pra quem é mole, mole-mole!, mole-mole!, e minha empresa vai bem, bem-bem, bem-bem!, e minha empresa vai bem, bem-bem, bem-bem!         

            E eis que Isto determina que chegou a hora de caça às mulheres.

            Teuvo, sempre acompanhado de seu aspirador de pó, segue o empreendedor pró-ativo.

            10 conhaques depois, Isto e Teuvo estão acariciando uma belezura de seios fartos e 90 cm de cintura. (Teuvo usa a turbina do aspirador, seu fiel escudeiro, para simular uma espanhola naquela que, a partir de agora, chamaremos de Lolita.)

            Isto, Lolita e Teuvo (e o aspirador) vão para o hotel.

            Teuvo até que tenta seduzir Lolita enquanto Isto vai ao banheiro, mas a beldade escorraça o velho self-made man e sem-teto com o mesmo escárnio dos não-compradores de aspiradores de pó e do dono da loja de carros de última geração.

            Isto não apenas monta sobre Lolita como começa a dar aulas para Teuvo sobre como se deve tratar uma mulher. [Cada gargalhada de Lolita esbofeteia Teuvo com a mesma força dos golpes de pá de Isto contra o carro do dono da loja de eletroeletrônicos usados – se não fosse por ele, se não fosse por Niko, se não fosse pelo ex-professor de Literatura (se não fosse, ao fim e ao cabo, por Adão e Eva), Teuvo não estaria se sentindo agora como um montículo de merda repisado pelo coturno de Isto.]

            Teuvo vai entornando, tresloucadamente, todas as biritas do frigobar.

            A poltrona em que Teuvo está sentado se encontra entre a televisão e a cama de casal.

            O filme pornô na TV mostra a Teuvo uma foda.

            A cama mostra a Teuvo uma foda.

            (Isto e Lolita vão imitando, pari passu, as posições do filme pornô.)

            Teuvo não fode no filme.      

            Teuvo não fode na vida.

            Já não suportando tamanha castração, Teuvo vai até a cama de casal e enfia a boca entre o pau de Isto e a buceta de Lolita – é como se Teuvo fosse a câmera do filme pornô.

            Sem mais, e incitado pela trilha sonora das gargalhadas de Lolita, Isto vocifera:

            – Saia já daqui, seu merda! Vai meter o pau no teu aspirador de pó, vai!

            Lolita engasga com as próprias gargalhadas e geme aos sobressaltos enquanto Isto a fode olhando bem para a cara de Teuvo.

            Os escombros de Teuvo fazem menção de deixar o quarto.

            Afinal, o que significaria mais um chute nos fundilhos do self-man vendedor de aspiradores de pó de porta em porta sem-teto alcoólatra enjeitado castrado e achincalhado?

            Resposta: A gota d’água.

            Teuvo volta ao quarto e desembainha seu aspirador.

            Com golpes tão bruscos e certeiros quanto os golpes de pá de Isto, Teuvo penetra a cabeça do hooligan texano-finlandês com uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete estocadas do aspirador de pó.

            Lolita começa a berrar em desespero e foge até o banheiro.

            Teuvo vai até lá e, com a mesma destreza com que conta as cédulas do seguro-desemprego, o empreendedor penetra o crânio de Lolita com 14 (catorze) estocadas do aspirador de pó.

            Afinal, o que significaria mais um chute nos fundilhos do self-man vendedor de aspiradores de pó de porta em porta sem-teto alcoólatra enjeitado castrado e achincalhado?

            Resposta: Um duplo homicídio.

            Os olhos vidrados de Isto como que sentenciam:

            – Eu ainda desejo, eu ainda estou vivo!

            Suas mãos pararam de tremer – Teuvo observa, com os olhos esbugalhados, as mãos inchadas e ensanguentadas. Súbito, ele olha para a braguilha e nota que acabara de ter uma ereção.

            – Quem disse que eu preciso de Viagra, porra?!

            Após o crime, é preciso eliminar todos e quaisquer vestígios.

            Mas, antes de mais nada, Teuvo lava seu aspirador de pó com o esmero de uma mamãe a dar o primeiro banho em seu bebê.

            Em seguida, o aspirador de pó remove todos os vestígios.

            Quando uma policial chega ao hotel – provavelmente à procura do meliante Isto –, Teuvo fica a seu lado na recepção. (A essa altura do campeonato, já sabemos que a policial será a nova bola da vez no castelo de cartas de Aku Louhimies.)

            A policial vai até o quarto e encontra os corpos de Isto e Lolita no banheiro – os cadáveres estão na mesma posição nupcial em que se encontravam no momento imediatamente anterior às estocadas do aspirador.

            Hannele, a policial, fica transtornada.

Ela curva o corpo como um feto e começa a vomitar uma pasta rubro-esverdeada sobre os cadáveres de Isto e Lolita.

X. E ainda ter que sobreviver a si mesmo...

            Noite.

            Teuvo está dirigindo o carro roubado por Isto, o carro roubado do dono da loja de carros de última geração, o carro de seu muy amigo.

            Teuvo, agoniado, não consegue esquecer o duplo homicídio.

            Teuvo esfrega as mãos repletas de nódoas e venículas contra o rosto como se fosse rasgar a própria pele.

            Súbito, Teuvo pára o carro.

            Teuvo tira o aspirador de pó do carro.

            Teuvo acopla uma das pontas da turbina do aspirador ao escapamento do carro.

            (Aspirador de pó do Teuvo, 1001 utilidades.)

            Teuvo fecha os vidros das janelas do carro – só resta uma pequena fresta, através da qual a outra ponta da turbina do aspirador é introduzida.

            Teuvo entra no carro.

            Teuvo dá a partida.

            Teuvo começa a inalar monóxido de carbono.

            Teuvo ainda deseja, Teuvo ainda está vivo, mas, a despeito da patologia social que golpeia e fustiga Teuvo sem que ele consiga identificar onde está o algoz, Teuvo não quer sobreviver contra os demais, Teuvo não quer sobreviver às suas vítimas.

            (Quer dizer que Teuvo, o duplo homicida, está são?)

            Ocorre que, ao fim e ao cabo, Teuvo não consegue se suicidar.

            O pobre diabo abre a porta do carro e desaba.

            Seu rosto transtornado denuncia menos suplício físico que moral.

            É o fim da linha para Teuvo: Aku Louhimies decide sacá-lo da estória após a tentativa frustrada de suicídio.

            Afinal, o que pode ser pior para Teuvo do que ainda ter que conviver consigo mesmo?    

XI. O esconde-esconde do conhece-te a ti mesmo

            Hannele, a policial que descobrira as vítimas de Teuvo no hotel, está em casa – ela acaba de tomar mais uma cartela de seu tarja-preta.

            Súbito, alguém toca a campainha.

            Hannele corre até o armarinho onde guarda a pistola antes de abrir a porta.

            Quando a policial vê que é sua filha, a mãe dá um beijo carinhoso na testa da filhota com a pistola escondida atrás das costas.

            Logo ficamos sabendo que Hannele é casada com Antti, o professor de Matemática que ocupara o lugar do pai de Niko na escola secundária.

            Hannele e Antti tem três filhos – dois meninos e uma menina.

            Certa noite, Hannele e seu parceiro policial estão na viatura fazendo a ronda pela cidade.

            O policial pergunta para Hannele se ela pretende fazer o exame para detetive dentro em breve.

            Hannele, com a cabeça nos cadáveres, pergunta ao parceiro em que ano Karl Marx morreu. [Como se ao espectro de Isto e Lolita se juntasse o cadáver da utopia, ou pior, a impossibilidade de se lembrar de algo para além da mortificação atual.]

            Súbito, um carro em fuga cruza o caminho da viatura.

            Hannele liga o giroflex e passa a perseguir o suspeito.

            Pergunta: O que pode ser pior do que descobrir dois cadáveres desfigurados e em posição de cópula no banheiro de um hotel?

            Resposta: Capotar a viatura durante a perseguição e se sentir responsável pela morte do parceiro.

            Outra noite de trabalho. (Hannele precisa continuar a continuar.)

            Hannele mal consegue respirar, os fármacos já não conseguem entorpecer a dor – se Hannele pudesse tocar seu desespero, se Hannele pudesse auscultá-lo, Hannele descobriria em sua culpa, ou melhor, em sua sensação de culpa, algo que ainda pulsa, algo que ainda vive para além da mera sobrevivência.

            Súbito, um pedestre em fuga cruza o caminho da viatura.

            Hannele liga o giroflex e passa a perseguir o suspeito.

            Quando o fugitivo vai se esconder entre os vagões dos trens, é preciso abandonar a viatura para persegui-lo a pé.

            Pergunta: O que pode ser ainda pior do que descobrir dois cadáveres desfigurados e em posição de cópula no banheiro de um hotel e capotar a viatura durante uma perseguição e se sentir responsável pela morte do parceiro?

            Resposta: Acabar sendo esquartejada por um trem durante o esconde-esconde com o fugitivo.

XII. Beijos de despedida

            – Toc-toc-toc-toc!

            (A diretora bate à porta da sala de aula de Antti, professor de Matemática e marido de Hannele.)

            Antti está discorrendo sobre a teoria do caos.

            [Ora, a (inter)dependência reificada universal e a trama de The Frozen Land bem sabem que o bater de asas de uma borboleta em Helsinque pode provocar um furacão em Nova Iorque. Basta que ampliemos o escopo para encontrarmos as mediações que nos podem levar da crise do mercado imobiliário finlandês à bancarrota da Lehman Brothers – e da GM e do Zaire e de Gâmbia e da Bovespa e do Fórum Econômico Mundial de Davos e do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e do McDonalds e da Cruz Vermelha e de Teuvo e dos coveiros daquilo que restou de Isto e Lolita e Hannele e de todas e cada uma das peças de dominó perfiladas no cassino do capitalismo mundial.]

            A diretora chama o professor. (Ainda não é o momento de demiti-lo.)

            A diretora delega ao policial a tarefa de dar a Antti a notícia da chacina de sua esposa.

            (O policial, como que a tentar afagar a tormenta, diz a Antti que, ao menos, o suspeito pela morte de sua esposa já está preso.)

            Quando chega em casa, Antti, catatônico, precisa dar a notícia aos filhos.

            (Os filhos querem fazer compras – papai, papai, você prometeu que a gente ia pro shopping hoje, papai! Os filhos disputam, até a última gota de sangue, as chacinas no video game.)

            Antti coloca os filhos no carro.

            Antti vai pela estrada.

            Antti começa a correr.

            Como se fossem pais de Antti, os filhos gritam para que ele pare, papai, pelo amor de Deus! (Agora já podemos entrever que papel a policial Hannele também desempenhava na vida de Antti.)

            Antti pára o carro no acostamento da estrada. A criançada volta a adverti-lo: é proibido parar aqui, papai, é proibido!

            Antti já não consegue se conter: ele encosta a cabeça ao volante – Teuvo beijara o volante de seu furgão antes da despedida – e, entre gritos e gemidos, revela aos filhos que a mãe de vocês já não existe mais!

XIII. Canto de Circe

            Ora, se a trama de Aku Louhimies não dá ponto sem nó, quem era o fugitivo em cuja busca Hannele acabou esquartejada?

            The Frozen Land nos faz voltar à festa de Ano Novo.

            Reencontramos Niko e o casal Tuomas e Elina.

            Tuomas chama Niko de canto. (Niko não tira os olhos da namorada bela e milionária do velho amigo.)

            – O negócio é o seguinte, Niko: a Elina e eu vamos roubar a empresa do pai dela. É coisa séria, um velho sonho, e a gente vai distribuir a grana pros mais pobres. (Tomando a enésima taça de champanhe, Niko chega a engasgar de despeito.)

            – Cês querem dar uma de Robin Hood agora?! Pára com essa merda! Eu quero saber o que é que eu tenho a ver com isso? Eu quero saber o que é que eu ganho com isso?

            Elina põe a mão direita no ventre – há pouco ela descobrira que estava grávida – e a mão esquerda no ombro de Niko. Ela sussurra as palavras contemplando Niko com os olhos verdes em súplica:

            – Nós precisamos da tua ajuda, Niko, por favor...

XIV. Curetagem intrauterina

            Tuomas vai à casa do pai para lhe dizer que Elina está grávida de um filho seu.

            – Nós vamos nos casar em breve, pai!

            Entre taciturno e melancólico, o pai olha bem para o fundo de sua caneca de café antes de voltar os olhos para o filho e sentenciar:

            – O fim está próximo... Trazer filhos para um mundo como este... (O pai engatilha os olhos para o filho.) Será que isso faz sentido?

XV. Sombras em Sodoma

            Tuomas e Elina vão à mansão dos pais de Elina que estão em um tour pela Tailândia – é preciso surrupiar os códigos de acesso à empresa.

            Niko ficará de butuca fora da empresa e esperará por Tuomas no carro com um rádio-comunicador, que, no frigir dos ovos, não funciona como deveria.

            Tuomas invade a empresa, mas alarmes imprevistos são acionados.

            Sem conseguir contato com Niko pelo rádio-comunicador, os muy amigos acabam se separando na fuga.

            Tuomas é o fugitivo que acaba implicado na fatídica chacina da policial Hannele. [Tuomas não a empurrou contra a linha férrea, ele não é o responsável imediato pela morte de Hannele – assim como Elina, Niko, Isto, Teuvo, Lolita e o ex-professor de Literatura sequer são responsáveis pela queda da peça de dominó imediatamente a seu lado. Ora, a (inter)dependência reificada universal nos enreda em um verdadeiro quiproquó: ninguém e todos nós somos culpados. É como se o homem tivesse culpa, mas não dolo, por ser um animal social.]

            Niko, por sua vez, vai parar em um clube de striptease – provavelmente o mesmo inferninho frequentado por Isto.

            Ocorre que Niko, ao invés de flertar com las muchachas, recebe o galanteio de um Latin lover que quer aliciá-lo:

            – ¡Hola! ¿Cómo estás?

            10 conhaques e 5 carreiras depois, Niko está de quatro na sala do galanteador que o sodomiza com a mesma impetuosidade de Tuomas sobre Elina. [A câmera de Aku Louhimies dá um close no rosto de Niko, e é possível notar que a aparência andrógina do rapaz lembra Elina. Assim, é possível imaginar que os sentimentos de Niko em relação a Tuomas são mais ambíguos do que a princípio poderíamos supor. Ao lado da velha amizade e da inveja por conta da bela namorada milionária do amigo, Niko poderia querer ser Tuomas a ponto de desejá-lo – Niko poderia querer ser Tuomas a ponto de mimetizar o papel de Elina. Ademais, devemos nos lembrar de que, antes de ser expulso de casa pelo pai, Niko ouviu de seu progenitor “que você é igualzinho à sua mãe, sim, vocês dois me abandonaram!” A sodomia, nesse sentido, também poderia representar uma nova fusão de Niko com uma figura feminina – desta vez, com a mãe. Assim, Niko, “igualzinho à mãe”, aceita a subordinação (e a culpa) em relação aos frangalhos do pai ao tomar no cu.]

            Após ser sodomizado, Niko só recebe uma nota legítima de 500 euros pelo programa após dar um beijo estalado no Latin lover.

XVI. Lealdade umbilical

            Tuomas está preso. {Tuomas não cagueta Elina e Niko. [A República da Finlândia parece desconhecer a eficácia do pau-de-arara. (Consta, no entanto, que já há tratativas para a transferência de tecnologia envolvendo as inteligências das polícias de São Paulo e de Helsinque.)]}

            A polícia vai à casa de Elina e tenta implicá-la na invasão da empresa de seus pais.

            – Se não há sinais de arrombamento por lá, Dona Elina, como é que seu namoradinho Tuomas teria invadido a empresa sem a tua ajuda, hein? Será que cê não passou as senhas de segurança pra ele enquanto teus pais tão se esbaldando na Tailândia, mocinha? Vamos, diga, foi você, não foi?!

            Elina chora e range os dentes diante das ilações pra lá de factíveis dos policiais. Ainda assim, como não foi possível extrair a mãe de todas as provas (a confissão) do choro e ranger de dentes de Tuomas, não há provas. Logo, Elina é liberada.

            Elina liga para Niko.

            Sumamente agradecidos pela lealdade de Tuomas e em homenagem ao bebê que está por vir, Elina e Niko vão a uma balada, tomam todas, mesclam várias drogas – e acabam nus em um banheiro.

            Niko coloca Elina de quatro – assim como, há poucas horas, o Latin lover o colocara.

            (Quiçá seja possível engravidar Elina duplamente, para que Niko e Tuomas, muy amigos umbilicais, assumam a copaternidade.)

XVII. Rest in Peace?

            Elina acaba sofrendo uma overdose.

            (Elina vai se recuperar. Afinal, Aku Louhimies não acha justo que a parricida abandone tão facilmente o nosso inferno para ser redimida pelo nada.)

XVIII. E quanto às potenciais rejeições do transplante cardíaco?

            Antti e seus três filhos vão ao velório de Hannele. [Velório precedido pelo sermão do padre. (Velório, portanto, duplamente fúnebre.)]

            Assim pregou o clérigo:

            – O mal não está fora de nós!

            (Será que Aku Louhimies concordaria com o padre?)

            Assim pregou o clérigo:

            – Por que a sociedade não está livre do mal?

            [A (inter)dependência reificada universal redargue: “E por que ela deveria estar livre do mal, padre?”]

            Ainda assim, a pergunta do padre ressoa o bom e velho Liev Tolstói.

            Os revolucionários querem transformar, radicalmente, a sociedade.

            Mas será que eles querem transformar, radicalmente, a si mesmos?

            O mal historicamente reproduzido e legado de geração em geração não será extirpado da noite para as Luzes de um novo tempo. (A esse respeito, o século XX desponta como um estudo de caso sobre o caráter umbilical a enredar utopia e distopia.)

            O velho Tolstói nos pergunta:

            – Basta transformar o mundo sem que o coração passe a bombear um novo sangue?

            “Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração” (Mateus, 6, 21).

            Aku Louhimies pergunta a Tolstói:

            – Mas em que mundo, ao fim e ao cabo, bate o nosso coração? O sangue não recebe nutrientes? Os nutrientes não são semeados? (Os nutrientes não são usurpados?...)

            Tolstói fala sobre a regeneração moral.

            Louhimies, sobre a revolução social.

            Onde é que está a ponte para que a ilha do coração regenerado possa voltar ao continente da sociedade para nos ajudar a separar o joio do trigo?

            Antti e as crianças jogam as cinzas de Hannele à beira do rio.

            Há gelo sobre a margem.

            The Frozen Land.

XIX. 5 x 500

            Tuomas vai a julgamento.

            Tuomas, de fato, não cagueta Elina e Niko.

            Tuomas, portanto, assume a responsabilidade sozinho.

            Por intermédio de seu advogado, Tuomas se considera (i) inocente em relação ao assassinato de Hannele e (ii) culpado por ter invadido a empresa do pai de Elina.

            Não foi possível provar que Tuomas empurrou Hannele por sobre a linha do trem.

(Ainda assim, a policial não teria morrido se não tivesse perseguido Tuomas.)

            Tuomas é sentenciado a 8 anos e 6 meses de reclusão, dos quais ele já cumprira 185 dias. Ademais, o condenado precisará pagar 2.500 (dois mil e quinhentos euros, isto é, 5 x 500) pelo sofrimento psicológico das crianças.

            Antti não se conforma.

            O marido de Hannele vai até a promotora e lhe pergunta se é mesmo verdade que Tuomas não será condenado à cadeira elétrica.

XX. O senhor é o melhor professor da nossa escola, mas...

– Toc-toc-toc-toc!

            (A diretora bate à porta da sala de aula de Antti, professor de Matemática e viúvo de Hannele.)

XXI. Painkillers

            Viúvo, isto é, sem poder contar com o salário de Hannele, e desempregado, Antti precisa renegociar a hipoteca da casa – 50% de sua moradia pertencem ao banco – e alimentar três crianças com a merreca do seguro social.

            (Em verdade, em verdade o psiquiatra nos diz que a ansiedade, a insônia e os rompantes de violência que vêm acossando Antti se devem, efetivamente, a um desequilíbrio das taxas de lítio.)

            Antti quer soníferos.

            (Na verdade, a frieza da língua inglesa lhe prescreve painkillers.)

            Antti quer dormir – profundamente.

            (Antti quer voltar a acordar?)

            De madrugada, Antti pega o revólver de Hannele e enfia o cabo da arma garganta adentro.

            Mas, como Teuvo, Antti não consegue se matar.

            (A câmera corta para as crianças, pela manhã.)

            – Mata ele, mata ele!

            Eis o que é preciso fazer no jogo de video game dos filhos de Antti.

            Súbito, Antti não suporta a bagunça e dá uma coça em um de seus filhos.

            Minutos depois, o próprio pai, entre arrependido e aliviado, liga para o que ainda resta do Estado de Bem-Estar Social finlandês e confessa à assistente social que eu acabo de agredir um dos meus filhos e que já não tenho condições de ficar com eles.

            – Eu te amo, meus filhos! – acena o papai Antti quando as crianças já estão no banco de trás do carro da assistente social.

XXII. Pais e filhos

            Passam-se anos.

            Tal pai, tal filho: Niko agora é professor de Literatura.

            Ao fim de uma aula, o professor pergunta aos alunos:

            – Se todos nós nascemos bons, de onde é que vem o mal?

            De onde, pai?

De onde, Niko?

            De onde, Tuomas?

            De onde, Elina?

            De onde, Isto?

            De onde, Teuvo?

            De onde, Lolita?

            De onde, Hannele?

            De onde, Antti?

            Tuomas está para sair da cadeia.

            [Niko, seu melhor amigo, há tempos está saindo com Elina. Niko, em um grupo de apoio como o de Teuvo, os Amigos Anônimos, assevera que está com a consciência tranquila.]

            Niko vai abraçar Tuomas em seu primeiro momento de liberdade.

            (Por mera casualidade, a causalidade de Aku Louhimies faz os amigos passarem pela mesma estação de metrô em que mora um literato sem-teto, o pai de Niko.)

            Agora é Niko quem pode ajudar Tuomas.

            Niko estende uma nota de 500 euros para o melhor amigo.

            – Pra você recomeçar, meu velho!

            Tal pai, tal filho.

            – E, Tuomas, você precisa ver a Elina. Você precisa conhecer teu filho.

XXIII. Sermão da Estepe?

            Tuomas vai ver o filho.

            Tuomas volta a ver Elina.

            Rapidamente.

            É hora de reencontrar Antti.

            É hora de pedir perdão.

XXIV. O Evangelho segundo Talião

            Tuomas e Antti estão sentados na cozinha.

            Um retrato de Hannele paira sobre os dois – mais especificamente, sobre a cabeça de Tuomas.

            Tuomas bebe o café de Antti.

            Tuomas vê as fotos dos filhos de Antti (e Hannele) e diz que eles são muito bonitos.

            – Mas onde é que eles estão?

            Antti fica olhando fixamente para o fundo da caneca de café.

            Antti, supostamente, vai ao banheiro.

            (O viúvo pega o revólver de Hannele e o esconde sob a camisa.)

            Antti volta à cozinha.

– Tuomas, vamos visitar o túmulo de Antti.

Os dois já estão à beira do rio.

Antti à esquerda, Tuomas à direita.

            Dois metros os separam – se tanto.

            Já não há neve sobre o túmulo de Hannele.

            Mas o ódio parece desconhecer o degelo.

            The Frozen Land.

            Antti aponta a arma para o coração de Tuomas – o coração de Jesus Tolstói.

            Tuomas clama por misericórdia!

            Antti dispara o tiro de misericórdia.

            O corpo de Tuomas, encolhido como um feto, frágil como a vida e impassível como a morte, jaz junto à margem do rio, sobre as cinzas de Hannele.

            Sobre o nosso pó.

XXV. Copaternidade

            Na penúltima cena de The Frozen Land, Elina está na sala de espera de um hospital.

            É Niko quem vai até Elina para lhe dizer que Tuomas está morto.

XXVI. Réquiem

            Na última cena de The Frozen Land – a última e a primeira, porque os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos, porque o Apocalipse traz o aborto do Gênesis no útero –, Niko está diante do caixão de Tuomas:

            – Eu nunca quis que isso acontecesse.

            Nem seu pai, Niko.

            Nem Elina.

            Nem o filho de Elina – e de Tuomas.

            Nem o próprio Tuomas.

            Nem Isto.

            Nem Teuvo.

            Nem Lolita.

            Nem Hannele.

            E, talvez, nem mesmo Antti – e a diretora da escola.

            – Você se lembra das perguntas que nós fazíamos um ao outro quando éramos crianças?

            (Tuomas redargue: “Você se lembra das respostas que nós demos um ao outro quando nos tornamos adultos?”)

Por que eu sou quem eu sou?

[Tuomas redargue: “Por que não deveríamos ser como somos?”]

Por que eu nasci aqui?

(A diretora da escola redargue: “Para quê, meu caro, para quê!”)

Por que eu não posso gritar quando eu me sinto mal?

[Tuomas, o pai de Niko, Elina, o filho de Elina (e de Tuomas), Isto, Teuvo, Lolita, Hannele, Antti e a diretora da escola redarguem: “Quer dizemos que devemos passar a vida gritando?]

Qual é o sentido de viver se essa vida é um mero inferno?

[O pai de Niko, Elina, o filho de Elina (e de Tuomas), Isto, Teuvo, Lolita, Hannele, Antti e a diretora da escola, cabisbaixos, ficam, como o caixão branco de Tuomas, em completo silêncio.]

– Mas nós temos que acreditar que, ao fim e ao cabo, as coisas vão dar certo. Do contrário, nada faz sentido.

A câmera de Aku Louhimies dá um close no caixão branco de Tuomas.

Não há mais ninguém ao seu redor.

Ninguém.

Como se já não fosse preciso enterrá-lo.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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