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E se o transatlântico, enquanto vai a pique, fizer o elogio do próprio naufrágio?

Chicago, 26 de fevereiro de 2015

[Florença, 26 de fevereiro de 1869] Tenho minha própria ideia de arte: o que a maioria das pessoas entende como fantástico ou como falta de universalidade, eu tomo por algo próximo à suprema essência da verdade. Há muito deixei de ver as áridas observações de trivialidades cotidianas como realismo – é bem o oposto. Em qualquer jornal encontramos reportagens sobre fatos totalmente autênticos, mas que alguns veem como fora do comum. Nossos escritores os veem como fantásticos, e por isso não prestam nenhuma atenção a eles. E eles são verdadeiros, pois são fatos. Mas quem se preocupa em observá-los, gravá-los, descrevê-los? Acontecem todos os dias e a todo o momento, logo não são nem um pouco excepcionais.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski em uma carta para

o filósofo e crítico literário Nikólai Nikoláievitch Strákhov

            E se o transatlântico, enquanto vai a pique, fizer o elogio do próprio naufrágio?

            Após me deparar com uma reportagem jornalística no mínimo inusitada – Rapaz é absolvido após ceder à súplica de irmão tetraplégico e matá-lo–, me dirijo, sem mais, ao município de Nova Atlântida, que fica a 137 km de São Paulo. Lá, a partir dos detalhes que me são fornecidos pelos aposentados a jogar dominó nas pracinhas e pela legião de desempregados dos botecos, fico conhecendo a história dos irmãos Abraão e Isaac Pilatos dos Santos.

            A família de retirantes Pilatos dos Santos era composta por 12 filhos. Depois que o pater familias faleceu, o primogênito Abraão passou a reger os irmãos com rédea curta. Ai de quem desobedecesse ao carpinteiro Abraão! Choro e ranger de dentes não lhe suscitavam misericórdia. (Consta que Abraão, de 33 anos, levava sempre uma palmatória no bolso traseiro de seu inseparável macacão.)

            O caçula Isaac, de 23 anos, era ajudante de Abraão na carpintaria. Em família, explora-se mais (ainda mais) e ganha-se menos (ainda menos), fato que a tirania de Abraão só fazia aprofundar.

            Mas nem tudo são penúrias no reino de Abraão. Quando lhe dava na telha – vá alguém explicar como e por quê –, Abraão inventava churrascos para reunir a todos e a cada um de seus irmãos. (Isaac ficava junto à churrasqueira, é claro.) E Abraão bancava tudo. (A mão que usurpa é a mesma mão que pode prover.)

            Ao fim de uma tarde de sábado regada por muitos tragos de Velho Barreiro e espetinhos de carne moída – era um dia 11 de novembro –, Abraão ordena que Isaac abaixe o volume do forró. O primogênito lança um desafio a todos e a cada um dos irmãos – a mãe e a esposa de Abraão já começam a fazer o Pelo Sinal da Santa Cruz.

            – Tem algum cabra macho aqui pra me desafiar num racha lá na estradinha de terra? Tem ou não tem!? Tem alguém com aquilo roxo aqui ou o que eu tô vendo nesta bodega é um bando de bunda suja?! Vai, diacho, quem guenta essa, quem vai me encarar!?

            Silêncio.

            Silêncio entreolhado.

            (O silêncio que precede a tormenta.)

            Súbito, todas as cabeças se voltam para a churrasqueira: a mão trêmula de Isaac está levantada. (A mão que treme é a mesma mão que pode fazer calar.)

            Abraão começa a gargalhar com tanta força que o primogênito peida e tosse enquanto se contorce. A mãe de Isaac, já desesperada, se joga sobre o caçula, suas irmãs choram em súplica, mas a decisão havia sido tomada.

            – Eu topo o seu desafio...

            O olhar entre surpreso e admirado de Abraão (e dos outros 10 irmãos) denuncia que, pela primeira vez, Abraão vê em Isaac um homem que existe para além da fotossíntese.

            – Pois então vamos, moleque! E é pra já, é pra já!, antes que cê cague nas fraldas e dê pra trás... Vambora!

            Isaac fulmina Abraão com o silêncio pálido de seu rosto – os lábios do caçula tremem. Súbito, sob o avental sujo de gordura, o ajudante de carpinteiro sentencia:

            – Eu vou ganhar esse racha, e o senhor vai ter que me respeitar!

            Risonho (e admirado), Abraão sacode Isaac pelos ombros. “Vambora, então, moleque, vambora!”

            Abraão toma assento em seu Gol 1000, o Bucéfalo amarelo com suspensões rebaixadas, motor turbinado e calotas cromadas.

            Isaac monta em sua CG 125, a Rocinante mirrada que o caçula parcelara em 60 prestações.

            Abraão grita em meio aos roncos do motor:

            – A linha de chegada é a curva do rio, moleque – se você conseguir chegar até lá, se você ainda estiver vivo...

            Abraão ordena que Maria Madalena fique entre Bucéfalo e Rocinante. Quando sua esposa levantar o braço direito, o racha levantará poeira na estradinha de terra à beira-rio.

            Já!

            Rocinante sai rasgando à frente, mas logo Bucéfalo lhe cola na traseira e começa a resvalar o pneuzinho da CG. Isaac tenta se distanciar, mas o ronco de Rocinante já parece gemer. Quando Abraão nota que a CG já tá pedindo penico, Bucéfalo irrompe bruscamente à direita para ultrapassar o adversário/retardatário. Como medida desesperada para impedir a derrota certa, o kamikaze Isaac arremete Rocinante contra a passagem de Bucéfalo, de tal maneira que, para não atropelar o caçula, o primogênito gira o volante bruscamente para a direita, no que a estradinha de terra esburacada cobra seu pedágio.

            Bucéfalo capota e cai no rio de ponta-cabeça.

            Rocinante só se dá conta do acidente após cruzar a curva do rio.

            (Vim, vi e venci.)

            Como que por um milagre, Isaac e seus irmãos conseguem resgatar Abraão com vida. Era a primeira vez que eles viam o primogênito indefeso. (A mão que empunha o cetro é a mesma mão que se arrima com a bengala.)

            Isaac fica em estado de choque.

            Horas depois, quando os irmãos revelam ao caçula que o primogênito ficara tetraplégico, consta que o rosto de Isaac teria assumido o mesmo semblante da Mona Lisa.

            Era um dia 11 de novembro.

            Mas e se o transatlântico, enquanto vai a pique, fizer o elogio do próprio naufrágio?

            A tragédia de Abraão selou o destino da família Pilatos dos Santos.

            Como a tetraplegia impede Abraão de empunhar a clava, o primogênito transforma a língua em chicote. A suma paralisia coroa o rei como imperador.

            Casado com Maria Madalena, Abraão é pai de Adão, de apenas 5 anos, que nascera com uma má-formação que acabou lhe condenando à paraplegia.

            Tal filho, tal pai.

            Sobre o trono de sua maca, Abraão tenta se suicidar inúmeras vezes mordendo a própria língua, mas o jorro de sangue não é o bastante para asfixiá-lo.

            Consta que, após a derrota clamorosa para os russos, Napoleão Bonaparte não vê outra saída senão o suicídio. O generalíssimo já galgara todos os postos e já pisara sobre todas as cabeças. Ainda assim, não foram as vitórias incontestáveis que desvelaram a Napoleão a contingência e a fragilidade que aproximam o cume da queda. Foi a derrota irredimível que, ao fim e ao cabo, revelou ao imperador que a ascensão vertiginosa está umbilicalmente irmanada ao beco sem saída daquele que já não pode mais cair sem ter que se ajoelhar.

O senhor se vê aguilhoado a seus escravos. (De olhos esbugalhados, os aposentados das pracinhas de Nova Atlântida me revelam que os gritos e trovões de Abraão chegavam a derrubar as peças de dominó.)

Quem considerar indevida (ou mesmo indecorosa) a aproximação do carpinteiro Abraão com o imperador Napoleão talvez deva remontar a genealogia de Bonaparte à pequena nobreza córsega, isto é, ao baixo clero do baixo clero. Assim, a ascensão vertiginosa do segundo tenente aos quadros máximos de la Patrie após a Revolução Francesa também poderá se relacionar, sub-repticiamente, a feridas e ressentimentos de classe que, quando ardem em espíritos sedentos por poder e distinção, fustigam o dorso da vontade para que ela alce voos sempre mais altos. {Nesse sentido, a vitória e a desforra finais só se consumariam quando Napoleão tivesse varrido da Europa todo o alto clero da nobreza, em especial o nobilíssimo Tsar de Todas as Rússias. [Nesse mesmo sentido, será que o cabo austríaco e conquistador da Europa Adolf Hitler teria invadido a URSS se o segundo tenente imperial Napoleão Bonaparte tivesse desbancado o tsar Alexandre I? (Nesse mesmíssimo sentido, será que o filho de sapateiro georgiano e tsar do Partido Comunista de Todas as Rússias Ióssif Stálin teria expandido a Cortina de Ferro até Berlim se Alexandre I não tivesse levado suas tropas até Paris após desbancar Napoleão?)]}

Lembremos que, deitado no trono de sua maca, Abraão tenta se suicidar inúmeras vezes mordendo a própria língua, mas o jorro de sangue nunca é o bastante para asfixiá-lo.

Napoleão considera que, para se suicidar, é preciso tomar três vezes mais veneno do que as pessoas normais. Pois é justamente a overdose de veneno que acaba fazendo com que o organismo do imperador consiga vomitar o suicídio. A megalomania de Napoleão consegue salvá-lo.

            Abraão já não consegue nem olhar para as curvas de Maria Madalena. Castrado, o desejo passa a lhe doer – a fúria é a única coisa capaz de intumescer cada fímbria de seu cadáver.

            Se Abraão assistisse ao filme Breaking the Waves, do diretor dinamarquês Lars von Trier, a personagem Jan Nyman poderia lhe dar uma ideia.

            Casado com a bela Bess McNeill, Jan trabalha em uma plataforma petrolífera e, por causa disso, precisa ficar longos períodos ilhado em alto mar. Sempre que Jan volta de seu exílio, Bess o recebe com toda a ardência de seu corpo apaixonado. Jan e Bess fazem amor com tanto ímpeto e furor, que seus corpos como que se fundem em hibernação após o êxtase.

            Em um de seus exílios em alto mar, Jan acaba sofrendo um gravíssimo acidente – desgovernado, um eixo da sonda petrolífera atinge a cervical de Jan na casa de máquinas. Assim como Abraão, Jan fica tetraplégico. Assim como Abraão, Jan, a princípio, tenta, em vão, se matar. Como é possível viver sem sentir o ardor de Bess, meu amor, eu quero sentir o teu gosto de novo, eu quero voltar a entrar em você, meu bem, meu Deus, por quê, meu Deus, por quê?!

            O amor voluptuoso de Jan por Bess é tão ardente, que o marido impotente, no ápice da agonia, só faz suplicar à esposa:

            – Bess, meu amor, pelo amor de Deus, eu quero que você faça uma coisa por mim – e eu quero que você faça isso já, já! Procure alguém, procure um homem, e faça amor com ele como se você estivesse fazendo amor comigo, como se eu estivesse dentro de você. Faça tudo como a gente faz, meu amor, cada movimento, cada suspiro, cada gemido, não deixe nada escapar. Nada! Depois, meu amor, a cada vez, eu quero que você volte aqui, Bess, e me conte tudo, em detalhes, tim-tim por tim-tim, meu bem, e não é pra esconder nada, cê tá ouvindo?, absolutamente nada!

            Bess começa a chorar e a gritar em desespero, mas o olhar imperial de seu amado Jan não lhe deixa quaisquer dúvidas sobre o que ela tem que fazer se quiser evitar que a tetraplegia leve Jan à loucura.

            Se Jan chegasse a fazer tal proposição para Abraão, o pernambucano cabra macho seria capaz de se levantar de sua tetraplegia para, munido de sua peixeira, capar Jan de uma vez – mas não sem antes comer Bess diante do próprio marido.

            Lembremos, então, que Abraão já não consegue nem olhar para as curvas de Maria Madalena.

            Que fazer?

            Ora, Abraão espera até o dia 11 de novembro para revelar à esposa/enfermeira seu mais novo decreto:

            – Rua daqui, mulher, chispa, fora!

            Atordoada, Maria Madalena não acredita no que acabara de ouvir. Assim, Abraão troveja com ainda mais força:

            – Fora, mulher, chispa! Se eu não posso mais ser homem, você já não é minha mulher. Rua daqui!

            [A mão que sequer se masturba é a mesma mão que enxota. (Antes que Maria Madalena sequer cogite em abandoná-lo, Abraão a abandona.)]

Será que o leitor e a leitora imaginam quem será coagido a ocupar o lugar de Maria Madalena na enfermagem?

Precisamente: Isaac Pilatos dos Santos.

            Já os decretos draconianos de Abraão seriam mais do que suficientes para obrigar Isaac a dar banho no primogênito e a lhe limpar a bunda. Ocorre que, após o racha que transformou Abraão em um vegetal, Isaac não é apenas um escravo. Isaac é o culpado – ou melhor, Isaac é aquele a quem se deve culpar.

            Ué, mas não foi Abraão quem desafiou os irmãos ao racha?

            Não. Foi Isaac quem aceitou o desafio.

            Ué, mas o primogênito não havia açoitado o caçula – ou pior, o ajudante de carpinteiro – como se o racha fosse uma questão de vida ou morte?

            Não. Foi Isaac quem empurrou Abraão para a tetraplegia.

            A vítima é culpada por ser vítima.

Abraão sentencia que o passarinho é quem busca a gaiola.

            E a fúria de Abraão fazia ressoar até mesmo o silêncio de Deus quando Isaac lhe trocava a sonda urinária.

            – Puta que o pariu, caralho, vai tomar no cu! Por que esse diacho dói tanto se meu pau já não fica duro, por quê, meu Deus, por quê?! Fala alguma coisa, merda, Você me deve explicações, vamos, por que eu tô sofrendo assim, por quê, meu Deus, por quê?!

            Quando a mãe de Abraão faz menção de lhe falar sobre os infortúnios de Jó, Abraão urra de revolta:

            – Jó é o caralho! Jó de cu é rola! Cara fraco é assim, acaba se ajoelhando, acaba aceitando... Mas eu não, jamais! Nunca! Tá pra nascer alguém que mande em mim, tá pra nascer alguém que me diga o que eu tenho que fazer! Diacho! Quem foi que levantou aquela carpintaria, hein? Quem foi que deu de comer a todos vocês? Quem foi que educou vocês? Quem tomou as decisões por aqui? E agora o quê? Eu viro esse pedaço de merda? Eu fico olhando pra esse mingau que é o meu corpo como se eu estivesse no meu próprio velório? Pra puta que te pariu!

            Como a cama e a cadeira de rodas de Abraão são pra lá de inadequadas, o corpo do primogênito vai sendo tomado por escaras.

            Isaac é o culpado.

            Cuspes contra Isaac – eis os socos do tetraplégico.

            Dois anos após o acidente, uma nova tragédia despenca sobre a família Pilatos dos Santos.

            João Lucas, o mais boa praça entre os irmãos, falece em um acidente de carro.

            Era um dia 11 de novembro.

            A partir de então, Abraão decide não perder mais tempo em auscultar o silêncio de Deus. A tetraplegia lhe ensinou que o eco não traz respostas.

            Abraão não precisa ler Nietzsche para saber, com todas as fímbrias de seu corpo, que tudo o que é forte nesta vida vem a fenecer.

            Será que a tetraplegia de Abraão riria de Mefistófeles, quando o diabo sentencia que tudo o que existe merece perecer?

            Pergunta: Tudo o que existe merece perecer?

            Resposta: Tudo o que existe vai perecer.

Abraão agora só tem uma ideia.

            Eutanásia, eis o monoteísmo de Abraão.

            E quando Abraão seria suicidado?

            No dia 11 de novembro, é claro.

Será que o leitor e a leitora imaginam quem será coagido a suicidar Abraão?

Precisamente: Isaac Pilatos dos Santos, o bode expiatório.

Para que não seja dito que o primogênito não pensava no futuro do caçula, o homicídio por envenenamento logo foi descartado por Abraão. A trama seria facilmente descoberta, e Isaac acabaria preso. Afinal, que sabiam aqueles carpinteiros sobre veneno?

Abraão passa noites insones maquinando seu naufrágio. (O primogênito, sentindo seu corpo podre vibrar, descobre a vivacidade da morte.)

Abraão é pó, e ao pó da terra retornará?

Então, meu Deus, que seja feita a minha vontade, e não a Tua.

9 meses depois, eureka!

A simulação de um latrocínio – isto é, um roubo seguido de morte – consumaria a crucificação de Abraão.

Isaac foi informado da decisão de Abraão.

E mais: Abraão ordena a Isaac que use o dinheiro que o seguro obrigatório, o DPVAT (Danos Pessoais causados por Veículos Automotores de via Terrestre), lhe pagara após o acidente para comprar o revólver.

Quem com ferro foi ferido, com ferro ferirá.

Encapuzado e com o 38 na cintura, Isaac simula uma invasão à própria casa.

O caçula pula o muro, entra pela janela, dispara duas vezes contra o irmão – Pai e Filho sem o Espírito Santo – e foge levando R$ 200,00 (duzentos reais) em moedas acumuladas em um porquinho alaranjado.

Era um dia 11 de novembro.

A notícia logo se espalha como o pó da estradinha de terra de Damasco que condenara Abraão à tetraplegia.

A polícia logo passa a suspeitar do latrocínio.

Eis um trecho da entrevista exclusiva concedida pelo delegado Sérgio Protógenes de Morais ao programa Cadeia Nacional:

– A família Pilatos dos Santos é pobre. A vítima, Abraão Pilatos dos Santos, sua mãe e seus irmãos moravam nesta casa humilde – a câmera corta para o casebre dos Pilatos dos Santos, “que fica na periferia de Nova Atlântida”, completa Marcelo Mantena, o apresentador em Cadeia Nacional. [Prossegue o Dr. Sérgio Protógenes de Morais]: O elemento alvejou a vítima tetraplégica com dois disparos à queima-roupa: um na cabeça – mais precisamente contra a têmpora direita – e outro no pescoço. Suspeitamos, assim, que o homicídio, e não o roubo, tenha sido o motivo principal do crime.

Para o completo azar de Isaac, Marcos Mateus, filho de João Lucas Pilatos dos Santos – o irmão falecido em um acidente de carro –, estava escondido na casa no momento em que Isaac deu cabo de Abraão.

Dada a comoção após o Bárbaro homicídio de tetraplégico em Nova Atlântida – eis a manchete reverberada em Cadeia Nacional pelo apresentador Marcelo Mantena –, não foram necessárias 30 moedas de prata para que a mera ameaça de pau-de-arara por parte do Dr. Sérgio Protógenes de Morais extraísse a confissão premiada de Marcos Mateus.

            Isaac Pilatos dos Santos, bode expiatório, torna-se acusado.

            Os fios desencapados e os socos ingleses da delegacia do Dr. Sérgio Protógenes de Morais logo extraem a autodelação do corpo de Isaac.

            Isaac Pilatos dos Santos, bode expiatório, agora é réu.

            Quando o advogado Simão Bacamarte fica sabendo do martírio de Abraão Isaac – assim o causo ficou conhecido nas pracinhas e botecos (e até mesmo nas igrejas e terreiros) –, o renomado criminalista acorre a Nova Atlântida para defender Isaac Pilatos dos Santos gratuitamente, frisa o Dr. Bacamarte em entrevista exclusiva em Cadeia Nacional.

            Quando instado pelo apresentador Marcelo Mantena sobre a linha de defesa que adotaria para lograr a absolvição de Isaac, assim proclama, ao vivo, o Dr. Simão Bacamarte:

            – Como é de conhecimento dos milhões de telespectadores em Cadeia Nacional, sou um defensor ferrenho da eutanásia. Assim, antes de mais nada, devo dizer que defendo, até as últimas consequências, o direito de Abraão Isaac dos Santos de querer morrer. Peço a você, Marcelo, e aos milhões de telespectadores em Cadeia Nacional que calcem as sandálias de Abraão. O que nós faríamos se estivéssemos em seu lugar? Tenho certeza de que, arrepiados, nós sequer queremos imaginar algo assim. Mas, ora, o esgoto não pode ficar a céu aberto, alguém precisa canalizá-lo, do contrário os cidadãos de bem não vamos poder lavar as mãos. Assim, diante daquilo que defendo como o direito humano de Abraão para recorrer à eutanásia, precisamos dissecar a fortíssima e inescapável coação moral a que foi submetido o jovem Isaac Pilatos dos Santos por parte de seu irmão tirano que só lhe fazia suplicar pela morte – a câmera corta para uma imagem de Isaac algemado e a vestir um uniforme laranja, estando às suas costas os logos da Polícia Civil e do Governo do Estado de São Paulo, Trabalhando por você. [Prossegue o Dr. Simão Bacamarte]: Assim, terrivelmente acossado pelo irmão mais velho, o jovem Isaac se viu preso em uma arapuca que mesclava amor e culpa, solidariedade e ódio, crime e castigo. Não preciso dizer a você, Marcelo, e aos milhões de telespectadores em Cadeia Nacional que Jesus Cristo nos ensinou que, para não sermos julgados, nós não devemos julgar. Assim, meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos, é inocente em relação à acusação de homicídio doloso, isto é, o homicídio em que o agente tem a intenção de matar. Caro Marcelo e caríssimos telespectadores em Cadeia Nacional, meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos – na tela o rosto cabisbaixo de Isaac –, acusado de homicídio, na verdade é uma vítima da tirania de seu irmão, tirania que, ainda assim, deve ter o direito de poder morrer. Em todo caso, nós também estamos prontos para pedir, diante do juiz togado e dos jurados, o devido perdão judicial, ainda que isso implique considerar que meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos, é culpado – e nós jamais consideramos e consideraremos o caçula da família Pilatos dos Santos (corta para o rosto ainda mais cabisbaixo de Isaac) culpado da acusação de homicídio doloso. Mas, Marcelo, os milhões de telespectadores em Cadeia Nacional podem estar se perguntando? “Mas, ora, como assim? É possível conceder um perdão judicial? O que é o perdão judicial?” Eles perguntam, eu respondo: o perdão judicial diz respeito à clemência que o Estado pode conceder em situações expressamente previstas em lei. Quando o perdão judicial é concedido, não se aplica a pena prevista para determinados delitos, caso sejam satisfeitos determinados requisitos relacionados à infração penal. Assim, podemos citar o artigo 121, parágrafo 5º, como um exemplo de perdão judicial. [O Dr. Simão Bacamarte fecha os olhos em Cadeia Nacional para declamar o Código Penal]: “Na hipótese de homicídio culposo” – aquele em que o agente não tem a intenção de matar –, “o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”. Ora, caro Marcelo e caríssimos telespectadores em Cadeia Nacional, este não é o caso do meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos? (A câmera corta para o rosto transtornado de Isaac, que chora copiosamente.) Isaac já não foi suficientemente punido pela inescapável tortura moral a que Abraão o submeteu? O fantasma de Abraão não continuará a assolar o pobre Isaac, vítima do homicídio que ele não teve como não cometer? Caro Marcelo e caríssimos telespectadores em Cadeia Nacional, meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos, não puxou o gatilho sozinho. Eu repito: Isaac, vítima de seu próprio crime, não puxou o gatilho sozinho! Assim, confiante de estar clamando pela justiça, eu peço a todos que absolvam Isaac; olhem para seus olhos, vejam um irmão que sofre, um irmão solidário e solitário, um trabalhador exemplar, um humilde ajudante de carpinteiro acossado desde sempre e até o último momento por seu irmão que era padrasto, por seu irmão que era carrasco – por seu irmão que, ainda assim, tinha o direito de querer morrer. Se não absolvermos meu cliente, o jovem Isaac Pilatos dos Santos, nós nos tornaremos cúmplices, teremos todos pólvora nas mãos. (Com uma trilha sonora de tensão e reconciliação, uma foto de Abraão e Isaac sorridentes tirada no dia do churrasco estampa a tela em Cadeia Nacional.)

            Por 4 votos favoráveis e 3 votos contrários, o júri soberano, que não precisa fundamentar sua decisão, decreta que Abel não conseguira resistir às súplicas de Caim.

            Atordoado, o passarinho agora pode sair da gaiola: Isaac é considerado inocente.

            Quando a mãe, Maria Madalena e os irmãos vão abraçar o caçula em liberdade, a câmera, em Cadeia Nacional, dá um close no semblante de Mona Lisa de Isaac Pilatos dos Santos.

 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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