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A via crucis do corpo

Para Laura Oviedo,

em nossa via crucis de La Paz a Cusco

Chicago, 11 de setembro de 2014

            Como bem sabem os torturadores de direita de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa e os torturadores de esquerda de Alexander Soljenítsin e Arthur Koestler, o corpo tem unhas e articulações, saliências e reentrâncias, flancos e mais flancos – e muitos, mas muitos orifícios.

            Como um campo minado (e um pergaminho), o corpo, carne da memória (e da impossibilidade de esquecimento), convive com sardas e melanomas, chupões e hematomas, sêmen e vômito, paixões e cicatrizes, planos e tumores.

            Pergunta: O que é o corpo?

            Resposta: Meu tempo.

            Há corpos que devoram e corpos que são devorados.

Quiçá um dos primeiros prenúncios de individuação (e distinção) se relacione aos corpos e às suas respectivas posições diante da caça abatida.

            Quem vai comer a carne em abundância?

            Quem vai roer as patas?

            (Quem vai chupar os intestinos?)

            Ainda assim, a horda famélica ao redor do corpo caçado mais parece um único corpo umbilicalmente atado à cadeia alimentar.

            O corpo como ego, o corpo como fronteira, o corpo como propriedade privada – invenção recentíssima na história do animal humano – quiçá tenha surgido em concomitância com o prato de comida.

            O prato não é nosso.

            O prato não é seu.

            O prato é meu.

            Invadir meu prato de comida provoca reações imediatas de surpresa e afronta, tamanhos a interdição e o tabu.

            Apenas a intimidade dos corpos permite, momentaneamente, que a invasão seja ressignificada como convite – ou melhor, como autorização.

            Podemos comer junto com os demais, mas somente eu posso comer do meu prato.

            Apenas a intimidade dos corpos permite, momentaneamente, que minha comida seja levada à boca de outrem.

            Um bebê, isto é, o prenúncio do corpo, precisa ser alimentado.

            Um velho, isto é, o naufrágio do corpo, precisa ser alimentado.

            Como sinal de muita intimidade dos corpos, eu posso dar comida na boca da minha namorada.

            Em meio à história sem fim de nossas castrações, a impossibilidade de comer com as mãos já se tornou uma interdição imemorial. [Tal castração, posterior à interdição do homicídio, está a ele profundamente relacionada: em meio à luta pela sobrevivência, o êxtase do caçador – o porão mais antigo (e vedado) de nossa consciência – também é o êxtase táctil do canibal.]

            Não podemos comer com as mãos, não podemos nos lambuzar com a comida (o guardanapo deve estar sempre a postos), mal podemos farejar a comida (se o fazemos, deve haver algo estragado no front.)

            Aqueles e aquelas que sentem incomensurável prazer com a sinestesia poética – os corpos que já mergulharam em ecstasy e que já flutuaram pelo universo com o cipó do ayahuasca bem compreendem, tocam, veem e cheiram o que estou falando – tentam reviver, aqui e agora, a fusão sensorial dos corpos ancestrais que mal haviam sido paridos pela natureza, corpos que eram extensões das vísceras do mundo, corpos-secreções, corpos-pulsões. (Por mais moralistas que sejam os primórdios da filosofia, a noção de natureza humana ainda ressoa os gritos e gemidos dos corpos selvagens e indômitos acorrentados nas masmorras da civilização.)

            Pergunta: O que é o tempo?

            Resposta: Meu corpo.

            O corpo que mija e caga é ainda mais interdito do que o corpo que come. [Nas Tábuas da Lei, a chuva dourada e a coprofagia só perdem para a necrofilia seguida de canibalismo (ou seria o canibalismo seguido de necrofilia?)]

            É bem verdade que o comilão é coagido a mastigar em silêncio e com a boca fechada – até mesmo os detritos do êxtase imemorial dos caçadores devem ser banidos do olhar –, mas o corpo que mija e caga nos deve ser invisível (e inodoro). (Gêmeo bivitelino da flatulência, o mau hálito sofre menos represália do que o peido porque não é expelido pelo cu.)

            A individuação do corpo sobrevive à putrefação cadavérica. (Não choramos diante do túmulo de um ente querido?) Já a vala coletiva, reedição da desova primitiva dos corpos, denuncia a abolição do Não matarás (Não matarás o corpo) e desponta como a imagem-síntese do genocídio. [Em vida, a história dos corpos – isto é, a história contra os corpos – aceita (e incita) que os corpos sejam golpeados e esfaqueados, estuprados e alvejados, demitidos e humilhados. Ainda assim, como concessão do vício ao corpo da verdade, os corpos devem ser velados. O cadáver inspira respeito; o corpo que respira, não. A verdade não consegue abortar a ironia.]

            O homem jovem e esbelto só se dá conta do próprio corpo quando sente fome e quando as mulheres lhe despertam o desejo. (A não ser que seu corpo sinta atração por outro corpo masculino. Neste caso, as Tábuas da Lei lhe destinam Sodoma e masmorras.)

            A mulher, por sua vez, é a síntese da história do corpo – isto é, a síntese da história contra o corpo.

            Cor, comprimento e textura dos cabelos (presos ou soltos?); cor e maciez da pele; comprimento e espessura das sobrancelhas; caça irascível aos pelos; cor e comprimento das unhas; tamanho e formato dos seios; circunferência da cintura, dos quadris e das coxas; tamanho e formato das nádegas; tom de voz; gestuário; o vestir-se; o sentar-se; o levantar-se; o deitar-se; decotes; desejos.

            O corpo da mulher como profusão, puta.

            O corpo da mulher como discrição, dama.

            A limitação de ir e vir certamente não surgiu como interdição para o corpo do homem nativo e mandatário – ele sempre legou pegadas e rastros por onde passou. Os corpos vergados dos estrangeiros e das mulheres bem sabem a quem as Tábuas da Lei se destinam.

            “O Senhor disse-lhe: ‘Sabe que teus descendentes habitarão como estrangeiros e peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante quatrocentos anos’” (Gênesis, 15, 13).

            “Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias; não lhes é permitido falar, mas devem estar submissas como também ordena a lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos, porque é inconveniente para uma mulher falar na assembleia” (I Coríntios, 14, 34-35).

            O corpo da mulher é deificado quando e enquanto ela é mãe. Maria, mãe de Deus – mãe do homem. A história do corpo, isto é, a história da castração, ou, por outra, a história da misoginia, relata um único parto masculino – justamente o primeiro, o parto original: Adão dá à luz Eva. E Eva, culpada e lasciva por ter nascido mulher, é tida como a artífice da perda do paraíso. (Eva, e não a tentação masculina de Satanás.)

            Assim, um historiador dialético a acompanhar o voo da coruja de Minerva em meio ao entardecer de nossa época bem poderia dizer que a história do corpo é também a história da revolta contra o corpo. Mulheres, velhos, famélicos, homossexuais, anões, baixotes, aleijados, mutilados, disformes, paralíticos, tetraplégicos, gordos e tripas-secas querem se libertar do obituário de seus corpos.

            Zé Queixada, Maria Pancinha, Johnny Papada e Joana Nadadora – “nada de frente, nada de costas” – bem sabem que não adianta esconder o corpo. O corpo-apelido, o corpo proscrito, precisa se esgueirar. Corpos noturnos.

            Sentenciam as Tábuas da Lei que, quando o corpo é revestido pela noite da história – a pele escura, a pele negra –, há choro e ranger de dentes (e ranger de correntes).

            Navio negreiro?

            Senzala?

            Basta a capa do corpo, a pele como anátema, a pele que não cicatriza.

            A esperança em uma história radicalmente outra parece estar fundada no martírio do corpo, como se o suplício a prostrar os mártires pudesse redimir (e encorajar) os corpos dos demais cativos.

            Jesus Cristo e Spartacus crucificados; Santa Cecília e Zumbi dos Palmares decapitados; Joana D’Arc e Giordano Bruno incinerados; Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi e Che Guevara alvejados.

            Concepções libertárias querem alçar a bandeira do corpo que se rebela, do corpo que dança, do corpo que estende a mão para a amizade, do corpo que (se) cura, do corpo que abraça, do corpo que jura, do corpo que ama, do corpo que canta e do corpo que clama. Mas o corpo que trepa ainda é o corpo que precisa trabalhar. “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar” (Gênesis, 3, 19). A libertação do corpo pressupõe a libertação dos corpos; a libertação dos corpos pressupõe a libertação das relações entre os corpos; a libertação das relações entre os corpos pressupõe a libertação do Corpo Social.

            Os hinduístas, os egípcios e Pitágoras, Sócrates e Platão, Santo Agostinho e Dante, Hegel, Dostoiévski e Allan Kardec acreditam que a individuação do corpo sobrevive à putrefação cadavérica. O corpo como invólucro, a essência do corpo como espírito.

            A eternidade do espírito poderia conferir sentido ao perecimento do corpo – isto é, à vida-a-ser-ceifada-pela-morte. Se a morte não existe, o corpo insuflado pelo espírito desconhece a finitude do afeto e dos vínculos. A vida-do-corpo-aqui-e-agora se revigora com a vida-eterna-do-corpo-por-vir. [As tendências espirituais conservadoras (ou reacionárias) – historicamente, as poderosas (e belicosas) religiões institucionais –, por meio do cânone de suas liturgias, invertem (e proscrevem) o sentido da eternidade (e a eternidade como sentido): para elas, a vida eterna do espírito – ou pior, a entrada na vida eterna – só seria possível com o arrefecimento da vida do corpo aqui e agora, ou pior, com a castração do corpo nesta vida considerada pecaminosa. Pai, Filho e Espírito Santo; Autoridade, Fé e Milagre; Obediência, Castração e Dízimo. Bênçãos a reis e a imperadores, glória a Deus, a baionetas e a ogivas. Por séculos e séculos, amém.]

            Os niilistas não acreditam que a individuação do corpo sobreviva à putrefação cadavérica.

            Pergunta: O que é o corpo?

            Resposta: Meu tempo.

           Pergunta: O que é o tempo?

            Resposta: Meu corpo.

            Para os niilistas, o corpo é o instante. (Um grão de areia pelo delgado pescoço da ampulheta.)

            Como o instante já não existe, o corpo, para os niilistas, é o instante-já.

            Antes que a coruja agourenta alce voo, o niilista tenta cristalizar a borboleta de Minerva.

            É assim que escorrego a ponta dos dedos pelo rosto delicado de Laura até que o dedão e o indicador se toquem sob seu queixo. Semidesperta, ela desliza em minha direção – o lençol se embola ainda mais – e começa a me fazer cafuné da nuca ao cocuruto, do cocuruto à nuca. (Nem preciso sussurrar pra ela resvalar as unhas, Laura nunca esquece.) Súbito, ela me envolve com um olhar entre terno e incisivo, como se quisesse capturar a borboleta de uma confissão. (Olhar inescapável; meu silêncio poderia ser tido, perigosamente, como desdém.) Me deito sobre ela – Laura passa a acariciar minhas panturrilhas com os pés macios enquanto me sente enrijecer. Embolo seus cabelos negros em minha mão direita – ela entreabre os lábios de desejo – e, após lhe mordiscar o queixo e o lóbulo esquerdo, me afasto mínima e vagarosamente para lhe revelar o que a intimidade de nossos corpos já exala há bastante tempo:

            – Eu te amo, meu bem... Eu te amo muito!  

            (Será por isso que a intensidade, a melancolia e o ceticismo franceses consideram que o corpo que goza, em seu instante-já, alcança o êxtase de la petite mort?)

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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