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Da guerra sem ódio

Chicago, 12 de outubro de 2014

            No princípio era a guerra – no princípio era o pathos.

            Crânios rachados, rostos dilacerados, lábios rasgados, dorsos prostrados, murros, chutes e mordidas, gritos e uivos, choro e ranger dos cacos de dentes.

            No princípio era a violência dos corpos contíguos, o horror dos corpos-cúmplices.

A guerra primordial – a guerra pelas presas, a guerra por comida, a guerra aguilhoada ao estômago – demarca seu território com urina e o expande com sangue e sêmen.

O soco do hominídeo estraçalha a mandíbula do inimigo, a mandíbula do inimigo incha o punho do hominídeo e lhe quebra as falanges.

No princípio era a guerra dos corpos que faziam sofrer.

No princípio era a guerra dos corpos que se viam sofrer.

            O urro dos mais fortes cala com sua pata de elefante o gemido dos corpos frágeis como gravetos.

            A barbaridade da guerra primordial é a barbaridade da guerra que se depara, aqui e agora, com a ejaculação de sua violência corpórea.

            Os guerreiros se tocam, os guerreiros se cospem, os guerreiros se rasgam, os guerreiros se socam, os guerreiros se mordem, os guerreiros se chutam.

            A guerra primordial por comida enreda os corpos dos guerreiros com o cordão umbilical da mãe-terra.

            No princípio de 2001: Uma odisseia no espaço, filme dirigido pelo bom e velho Stanley Kubrick, as hordas de chimpanzés, antes de se engalfinharem no corpo a corpo da guerra primordial, urram umas contra as outras para inocular coragem quadrúpede ao medo quase bípede dos macacos. (Milênios e milênios depois, o ruflar de tambores e o berro das trombetas da guerra clássica calariam fundo nos soldados que, se quisessem sobreviver à carnificina das batalhas, precisariam reencarnar a ira ancestral dos gorilas.)

            Mas eis que a câmera de Kubrick, subitamente, dá um close num chimpanzé altivo após a batalha – o provável líder de sua horda.

            Arquimedes – chamemo-lo assim – está diante da carcaça de um bisão. O macaco vai remexendo nos ossos a esmo, até que sua mão peluda soergue um possível fêmur. Arquimedes raspa o osso na cara, começa a cheirá-lo e a mordê-lo como que a ver se encontra um naco de carne e logo passa a batucar o fêmur nos demais ossos. Os primeiros golpes do macaco com o fêmur são trêmulos, experimentais, quase singelos. Logo Arquimedes se dá conta de que, após içar o osso com força e rapidez, os golpes com o fêmur conseguem estraçalhar as costelas e até mesmo o crânio do bisão. (A trilha sonora frenética de Kubrick revela ao espectador que estamos diante da aurora de um novo ser – o hominídeo está para ser parido pelo macaco.)

            O fêmur de Arquimedes, extensão de seu corpo, extensão de sua fome, é o prenúncio da clava contra as hordas inimigas.

            O fêmur de Arquimedes funda a arte da guerra para além do corpo a corpo da guerra primordial. (O fêmur de Arquimedes corta o cordão umbilical que enredava os corpos dos guerreiros à mãe-terra.)

            Com o fêmur de Arquimedes, o macaco expele o hominídeo, o primeiro ser que, sem sofrer, pode fazer sofrer.

            Com o fêmur de Arquimedes, o macaco expele o homem, o primeiro ser que, sem sofrer, quer fazer sofrer.

            O fêmur de Arquimedes dá à luz o tacape de pedra lascada.

            O fêmur de Arquimedes dá à luz o tacape de pedra polida.

            O fêmur de Arquimedes dá à luz a funda de que Davi lança mão para derrubar o gigante Golias. [O fêmur de Arquimedes e suas metamorfoses decretam a igualdade dos homens perante a morte. A partir de agora, do Faraó ao último dos escravos, todos podem ser assassinados. (O fêmur de Arquimedes é o descobridor do calcanhar de Aquiles.)]

Com o arco e flecha, Arquimedes já não precisa ouvir a mãe suplicar pela vida de seu bebê. (Os corpos em guerra parecem definitivamente apartados.) O arqueiro Arquimedes já não precisa encarar o olhar agônico de suas vítimas. Ele pode se esconder para matar. Se o fêmur requer o golpe final, o arqueiro Arquimedes já não precisa disparar a flecha de misericórdia.

Não foi por acaso que Stanley Kubrick fez com que o macaco, no auge de seu êxtase com o osso que condenou os homens à maioridade da guerra, arremessasse sua alavanca para os céus até que o fêmur de Arquimedes entrasse em órbita e se transformasse, com o abracadabra da aceleração cinematográfica do tempo histórico, em uma estação espacial. É como se Kubrick insinuasse que, se não há uma história universal que vai do macaco à noção emancipatória de humanidade, certamente há uma história da guerra que vai do fêmur de Arquimedes à bomba atômica.

            A pólvora e o canhão transformam Arquimedes em conquistador dos sete mares.

            Arquimedes se mata de tanto rir quando os incas aguerridos, ao invés de atacarem os cavaleiros da Coroa, cortam a cabeça dos cavalos espanhóis como se os invasores (e) assassinos, Pelo Sinal da Santa Cruz, fossem os centauros da colonização.

            A garrucha, tataraneta dileta do arco e flecha, cinde ainda mais a distância entre Caim e Abel.

            A espingarda.

            O revólver. [Portátil e de bolso (anatômico), o revólver se funde ao corpo como a verdadeira restituição do fêmur a Arquimedes.]

            A metralhadora.

            A bazuca.

            O míssil.

            O míssil intercontinental.

            O assinatura e o go ahead do mandatário.

            A guerra primordial era bárbara, sangrenta e odiosa – porque era humana.

            (No princípio era a guerra – no princípio era o pathos.)

            Na guerra de altíssima tecnologia, a morte é cirúrgica – civilizados, os manuais de administração dos vencedores há muito não enviam (ou dizem ser demasiado custoso enviar) cossacos para o campo de batalha para pilhar, violar e incendiar (não necessariamente nessa ordem) o corpo da derrota.

            Na guerra de altíssima tecnologia – a guerra com a letalidade milimétrica dos alvos via satélite –, a morte, cirúrgica, se transforma em collateral damage.

            A guerra high-tech é civilizada, asséptica e impessoal – como não há sobreviventes (como a morte é instantânea), não há choro e ranger de dentes.

            A guerra high-tech aposenta os soldados. Os snipers da novíssima guerra – hackers hermeticamente encalacrados pelo Estado – julgariam bizarra a experiência estética de Napoleão nos campos de batalha. Para o imperador francês, a geometria harmônica dos batalhões antes dos confrontos, o ar saturado de ímpeto e medo, o aríete dos gritos de guerra e a ira das baionetas em riste transformavam o general em um verdadeiro maestro. [Pouco mais de um século depois de Austerlitz, o futurista (e fascista) Filippo Tommaso Marinetti comporia odes ao odor de decomposição dos campos de batalha, à tempestade de aço e escombros dos bombardeios e às espirais de fumaça a asfixiar as nuvens.] Para os snipers da novíssima guerra, Napoleão e Marinetti não passam de diletantes. Afinal, que é a carnificina da guerra real diante do hiper-realismo dos jogos de video game via satélite? Afinal, Napoleão e Marinetti precisavam de lunetas e binóculos pré-históricos para espreitar a morte, ao passo que a guerra high-tech coloca à disposição de seus snipers o zoom e o replay microscópicos.

            É quando chegamos à guerra sem ódio.

            A guerra dos drones que sequer desconfiam que o fêmur de Arquimedes faz parte de esqueletos que respiram.

            Na fronteira dos Estados Unidos Mexicanos com os Estados Unidos da América, já não é preciso erigir cercas encimadas por arame farpado de alta tensão.

            Bastam os onipresentes e oniscientes sensores de calor.

            Ao menor sinal de calor humano, drones abatem imigrantes ilegais sem saber se se trata de cucarachas ou de Juan Miguel, María Carmona e o pequenito Javier, de 6 meses, ainda na barriga da mamãe.

            Não, o drone não está para além do bem e do mal.

            Bem?

What ERROR is this?

Mal?

What ERROR is this?

            O drone não odeia.

            O drone não faz a guerra.

            O drone apenas funciona.

            O drone apenas trabalha.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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