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Será que Narciso não gosta de se mutilar?

Chicago, 05 de agosto de 2015

Japonês mata e come amigo que se “voluntariou” para ser assassinado

Atiradores da Columbine High School matam dezenas de estudantes

Atirador da escola de Realengo mata dezenas de estudantes

            Antes que tendências mórbidas sejam inequivocamente atribuídas a este escritor, vale frisar que as três manchetes se referem a histórias que teriam acontecido.

            Consta que o canibal necrófilo japonês conheceu sua vítima por meio de um anúncio na internet. Em seu anúncio, a vítima/cúmplice dizia estar em busca de alguém que se dispusesse a matá-la. O cúmplice/vítima estabelecia uma única ressalva contratual: o algoz selecionado deveria cortar o pênis do anunciante e comer o membro, regado a molho madeira, junto com o voluntário.

            Centenas e centenas de pessoas se candidataram. (Não mencionemos que, na verdade, os candidatos foram contados aos milhares, já que tal revelação poderia chocar tanto os telespectadores dos programas Aqui Agora, Brasil Urgente, Cidade Alerta, Polícia 24 Horas e Cadeia Nacional quanto os eleitores do deputado federal Jair Messias Bolsonaro.)

            O canibal necrófilo, um homem de 40 anos, matou o anunciante, um homem de 30 anos, com cortes profundos no pescoço após a degustação peniana. O corpo do anunciante foi retalhado e congelado para futuros desjejuns.

            Consta que a polícia só conseguiu prender o Hannibal nipônico depois de ele ter feito um anúncio na internet procurando novos voluntários que se dispusessem a ser mortos e comidos – não necessariamente nessa ordem. (Constava do anúncio um vídeo em alta resolução do jantar regado a molho madeira.)

No início do documentário Tiros em Columbine (2002), o cineasta norte-americano Michael Moore entrevista um adolescente hooligan da cidade de Columbine, no Colorado, onde aconteceu o massacre da Columbine High School.

Tony – chamemo-lo assim – usa boné virado para trás, fuma compulsivamente, enverga um bigodinho ralo como penugem e é quase tão obeso quanto Michael Moore.

Após o massacre na Columbine High School, as autoridades escolares e a polícia elaboram uma lista de estudantes que teriam fortes tendências a transformar o massacre em sequências do filme Jogos Mortais.

Os olhos de Tony brilham quando ele revela a Michael Moore que quase chegou ao topo da lista de jovens-bomba. “Eu fiquei em segundo lugar, Mike, quase ganhei a medalha de ouro, quase!”

            Michael Moore então lhe pergunta se ele gostaria de ter se tornado o inimigo público número um de Columbine. Tony dá mais uma tragada em seu Marlboro antes de responder.

            – Ora, mas é claro! Quem não quer ficar em primeiro lugar?

            [A câmera analítica (e cúmplice?) de Michael Moore dá um close no rosto de Tony, como que a nos sussurrar: “Quem não quer aparecer?”]

            Consta que os dois atiradores da Columbine High School, antes de dispararem a esmo contra seus colegas de escola, gravaram vídeos prenunciando o massacre e os postaram no YouTube.

            Após lançarem mão de toda a munição, os dois atiradores sacam da cintura revólveres 38 e disparam contra a própria têmpora – o circuito interno de câmeras da escola mostra os suicídios em baixa resolução.

            No vídeo postado no YouTube, os atiradores brancos e de bochechas coradas sentenciam que toda causa que perdura na história da humanidade começa com o holocausto do mártir fundador. (Um grande crucifixo paira sobre os dois jovens.)

            Doze anos depois – Tony nos pergunta com o dedo riste: “Por que vocês aí do Brasil levaram tanto tempo?” –, a Escola Municipal Tasso da Silveira, que fica no bairro do Realengo, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, recebe a encenação do massacre da Columbine High School.

Consta que o atirador do Realengo era um ex-aluno do colégio.

Testemunhas afirmaram que, antes de entrar no colégio, o atirador teria baleado duas pessoas fora da escola.

Bem vestido, o atirador teria conseguido entrar no colégio com a desculpa de que iria ministrar palestras.

Antes de se dirigir ao segundo andar do Tasso da Silveira e começar a matança, o atirador teria conversado, amigavelmente, com uma antiga professora que o reconheceu tão logo o viu.

Consta que o atirador estava armado com dois revólveres calibre 38, além de dispor de muita munição em suas duas mochilas.

Já no segundo andar da escola, o atirador entra em uma das salas de aula e começa a disparar contra os aluninhos. (À época, o Tasso da Silveira tinha 14 turmas de 4º a 9º anos; tratava-se, assim, de crianças e pré-adolescentes de 9 a 14 anos.)

            Mesmo ferido, um menino consegue fugir. Ele corre até uma via próxima e clama por socorro para o policial Márcio Alves, que estava realizando uma blitz próxima ao colégio à procura de transportes escolares irregulares.

            Destemido, o soldado Alves voa até o colégio e, no segundo andar, próximo às escadas, começa a trocar tiros com o discípulo de Columbine.

            O atirador é alvejado na perna – mais precisamente, na coxa esquerda.

            O atirador cai e, antes da aproximação do policial, dispara contra a própria têmpora.

            Onze crianças são assassinadas.

            Treze crianças ficam feridas, dentre as quais quatro em estado gravíssimo.

            O atirador do Realengo enverga um bigode ralo como o de Tony, tem cabelos crespos e queixo anguloso.

            Ele parece não ter recursos para subir sua pregação para o YouTube, mas deixa uma epístola.

            Nela, o atirador do Realengo dá instruções sobre como seu cadáver deve ser purificado antes de ser enterrado. [Ele deixara um lençol branco dentro de uma mochila, no primeiro andar da escola, para lhe servir de mortalha (e sudário).]

            Ademais, o atirador do Realengo exige que o casebre que os pais já falecidos lhe deixaram seja transferido para uma instituição de proteção aos animais. “Diferentemente das pessoas, os animais são indefesos”.

            Por fim, o atirador do Realengo roga que um servo do Senhor visite seu túmulo uma vez por mês. “Peçam a Deus que me perdoe”.

Japonês mata e come amigo que se “voluntariou” para ser assassinado

Atiradores da Columbine High School matam dezenas de estudantes

Atirador da escola de Realengo mata dezenas de estudantes

            Antes que tendências mórbidas sejam inequivocamente atribuídas a este escritor, pergunto ao leitor e à leitora:

            – Em nossa época, será que Narciso não gosta de se mutilar?

           A câmera analítica (e cúmplice?) de Michael Moore dá um close no canibal necrófilo japonês e em sua vítima voluntária, em Tony e nos atiradores de Columbine e do Realengo, como que a nos sussurrar: “Quem não quer aparecer?”

            Àqueles e àquelas que sentem náuseas e comichões diante do paradoxo do prazer narcísico que irrompe como sadomasoquismo e automutilação, peço, encarecidamente, que jamais se aproximem das obras de Edgar Allan Poe e Fiódor Dostoiévski; de Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche; de Sigmund Freud e Oswald Spengler; de Franz Kafka e Albert Camus; de Nelson Rodrigues e Danis Tanović; de Lars von Trier e Jonathan Littell.

            Ora, Cristo não prometeu que os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos?

            Para nossa época sumamente utilitária e hedonista, a eternidade e a reconciliação só podem existir aqui e agora.

            Logo, as metamorfoses de Narciso pregam que os losers devem remover a venda de sobre os olhos da justiça, aqui e agora, para que todos aqueles que têm um coração de pobre; para que todos aqueles que são mansos; para que todos aqueles que têm fome e sede de justiça; para que todos aqueles que são misericordiosos; para que todos aqueles que são puros de coração; e para que todos aqueles que são pacíficos possam deixar de chorar e ranger os dentes.

            O canibal necrófilo, sua vítima/cúmplice e todos aqueles que clamam por seus anúncios virtuais; Tony e os atiradores de Columbine e do Realengo – em suma, os mártires de Narciso – escarafuncham ainda mais suas feridas para legar a boa nova a seus seguidores.

– Quem tem ouvidos, ouça: Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de nós. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa na web, pois assim perseguiram os mártires que vieram antes de vós.

Consta que, quando acusados de assassinos de inocentes e indefesos e quando apupados como hereges e blasfemos, os mártires de Narciso teriam recorrido à jurisprudência divina (e histórica) em seus sermões online.

– Em verdade, em verdade lhes perguntamos: Deus não alagou os primeiros seres de sua criação? Deus não dizimou Sodoma e Gomorra? Deus não fez com que Abraão oferecesse seu filho Isaac em holocausto como prova de fé? Deus não fez apostas com o demônio para submeter Jó, seu servo mais fiel, aos mais cáusticos suplícios da fé? Deus Pai não abandonou seu filho à própria sorte? (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”) A guilhotina não deu à luz a república e a democracia modernas? Os aguilhões da escravidão não acabaram por ensejar a pluralidade étnico-cultural? Os aguilhões da exploração não acabaram por ensejar consciência de classe, revoltas e revoluções?

Àqueles e àquelas que ainda sentirem náuseas e comichões diante do paradoxo do prazer narcísico que irrompe como sadomasoquismo e automutilação, peço, ainda mais encarecidamente, que reflitam sobre as artimanhas de que a criança lança mão para chamar a atenção para si.

Se a criança não puder arrancar risos dos adultos com as mais diversas estripulias, o Marquês de Sade e Freud insinuam que, de maneira mais sofisticada, a criança finge que sente dor – e se ela começar a gostar daquilo que dói?... –, ela tropeça e bate a cabeça de propósito, ela começa a chorar e a se esgoelar.

Narciso, com justiça, não se sente bem por ser chamado de bolo fofo, tripa seca ou espinhudo. Mas, ao invés de ressignificar tais insultos como a suma estupidez e ignorância daqueles que só fazem ofendê-lo – “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem” –, Narciso rola diante de todos como uma bola de boliche [eles mal sabem que Narciso Columbine logo vai fazer um strike (Bowling for Columbine)], ele levanta a camiseta e toca harpa nas costelas à mostra ou oferece o pus das espinhas para a plateia. {Afinal, como é que o achincalhado Narciso poderia ressignificar tudo isso sozinho? [Se não pode com eles, junte-se a eles. (Após Columbine, se não pode com eles, naufrague com eles.)]}

Àqueles e àquelas que sentirem ainda mais náuseas e comichões diante do paradoxo do prazer narcísico que irrompe como sadomasoquismo e automutilação, peço, ao fim e ao cabo, que reflitam sobre a corrida armamentista relacionada aos mausoléus dos narcotraficantes mexicanos.

Já é parte do folclore da nossa sociopatologia da vida cotidiana que os Estados Unidos Mexicanos se tornaram um país sitiado pelas guerras intestinas das múltiplas facções do narcotráfico. [No Brasil, mais especificamente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, é possível torcer para o Flamengo e o Comando Vermelho, para o Vasco e o Terceiro Comando, para o Fluminense e os Amigos dos Amigos (ADA). (Em luta pelo direito das minorias, o Botafogo ainda está à espera de sua facção organizada.)]

Para os narcos mexicanos, a morte não é apenas a espada de Dâmocles que a juventude imagina – e não mais do que imagina – manter na bainha do Acaso.

Para os narcos mexicanos, a morte é um soslaio, uma batida à porta, um encontrão na esquina.

Para os narcos mexicanos, a morte é um dado.

Logo, não basta aos narcos mexicanos engordar contas milionárias na Suíça, no Panamá, nas Ilhas Cayman e nas demais lavanderias mundo afora; não lhes basta enfileirar as maiores mansões e limusines; não lhes basta colocar no bolso (embolsamar) os mais populares e pródigos políticos e magistrados; não lhes bastam as orgias com as mais belas concubinas; em suma, não lhes basta a vida.

Para além do princípio do prazer: improváveis leitores do enfant terrible Jean Nicolas Arthur Rimbaud, os narcos mexicanos querem transformar Uma temporada no inferno em um mausoléu de veraneio para o regozijo eterno de seus corpos-cadáveres.

Assim falou Joaquín Archivaldo Guzmán Loera, também conhecido como El Chapo Guzmán, o poeta do narcotráfico que transformou as estórias do colombiano Pablo Emilio Escobar Gaviria em contos da carochinha:

– Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos e bandejas de prata salpicadas de pó celestial. (Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar.) Uma noite, sentei a Morte em meus joelhos. E achei-a insípida – e prosaica. Foi quando decidi casá-la com a Vida.

Os narcos mexicanos competem, palmo a palmo, para ver que corpo-cadáver terá o maior e mais belo túmulo.

Consta que El Chapo Guzmán, autoproclamado sucessor de Pancho Villa como benemérito social, soerguerá para si um mausoléu que fará com que o enclave de Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin, no coração da Praça Vermelha, não passe de um arremedo de sombra.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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