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Pandora está em coma, Pandora vive

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Chicago, 10 de janeiro de 2015

– Então você é favorável à pena de morte?

– Não. Sou radicalmente contrário à pena de morte. Jamais me perdoaria se relegasse ao Estado a minha vingança.

Sorrisos de soslaio de parte a parte.

– Então me diga: será que a sua vingança traria um filho seu de volta à vida?

– Quem foi que disse que apenas alguém acossado por uma situação pode julgá-la – e essa pessoa é justamente a última a poder julgá-la?

EugenBertholdFriedrich Brecht, também conhecido como Bertolt Brecht.

Ecce homo – eis o homem.

– Não, não, não: o senhor não vai sair dessa encruzilhada com erudição, não. Chutou o frango? Engole a macumba. Vamos, me diga: será que a sua vingança traria um filho seu de volta à vida?

– Parece que meu caro amigo humanista não entendeu que, diante do paredón em questão, a escatologia de Brecht é a mão que calça a luva – ou melhor, o pescoço que se acopla ao talhe da guilhotina.

– Pois me mostre como, meu caro carrasco: sou todo ouvidos.

– Aquele que tem ouvidos, ouça: sua pergunta, meu caro humanista, pressupõe a racionalidade da brisa primaveril. “Será que a sua vingança traria um filho seu de volta à vida?” Ah, que temperatura amena! Ah, que reflexão ponderada! Ah, que distância do cadafalso! É muita luz – e pouco calor. Você se coloca como espectador, mas sequer imagina as agruras da testemunha – que dirá o choro e o ranger de dentes da vítima (se é que ela teve tempo de suplicar pela própria vida). Sinta o desespero de Maria diante do filho crucificado, meu caro humanista, vamos! Eu bem vejo que você não quer sujar as mãos de sangue. Pois muito bem, meu caro Pôncio Pilatos, eis que devo apontar a sua pergunta contra a sua própria têmpora: e se fosse o seu filho – o que você faria, papai?

Caim dá um sorriso de soslaio.

Abel franze o cenho.

– Bem... (Coça o cocuruto com a mão direita.) Creio que teria vontade de me vingar – provavelmente, muita vontade –, mas não retaliaria.

– Quem foi que disse que se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti? Que é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno? Que se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti? Que é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena?

– Jesus Cristo.

Ecce homo – eis o homem.

Caim dá outro sorriso de soslaio.

Abel franze ainda mais o cenho.

– Ah, meu caro humanista, quer dizer que você também tem lá seus diabinhos, não?... Mas me responda a uma outra pergunta – e me responda com toda a sinceridade de que for capaz: você não mataria o assassino do seu filho por causa de um sentido elevadíssimo de perdão – ou será que, na verdade, você não quereria sujar as mãos de sangue como ele, agir como ele, ser, em suma, aquele a quem você despreza, ou melhor (ou pior), incorporar aquele a quem você odeia?

– Bem... (Coça o cocuruto com a mão esquerda.) Bem... (Coça o cocuruto com as duas mãos.)

– Não tenha medo, meu caro humanista, nada tema: conhecerás a verdade, e a verdade te libertará.

– Pois muito bem, meu caro carrasco: vou responder à sua pergunta com uma nova questão.

– Sou todo ouvidos.

– Aquele que tem ouvidos, ouça: e se o perdão fizer todo o sentido? E se o perdão puder libertar o pai e a mãe da dor por conta da perda do filho?

– Ora, ora, aí eu vejo dois pequenitos problemas, meu caro humanista – quiproquós tão ínfimos e singelos quanto a própria morte. Em primeiro lugar, como é que o perdão pode fazer sentido? Acaso o assassínio pode ser desfeito? Acaso o filho pode reviver? Acaso os pais deixarão de ser órfãos? Acaso os pais podem perdoar em lugar do filho? Agora – e em segundo lugar –, se é preciso sobreviver à carcaça do próprio filho; se é preciso ser narcísico para retomar a calmaria do próprio ego; se é preciso ser pragmático para que novamente sejamos içados pelo despertador na primeira segunda-feira após a licença nojo, de fato o perdão pode nos livrar do cárcere da verdade para nos devolver à masmorra do mundo.

Caim dá mais um sorriso de soslaio.

Abel apoia o queixo na palma da mão esquerda.

– Suponhamos, então, meu caro carrasco – e não mais do que suponhamos –, que o filho continue a existir após a morte. A morte, dessa maneira, deixaria de existir. Se, em nossa hipótese, o filho pedisse aos pais que não retaliassem, o perdão não seria dirigido apenas aos progenitores ou ao espírito do filho assassinado. O perdão poderia fazer com que o assassino perdoasse a si mesmo.

– Porque o Filho do homem veio salvar o que estava perdido. E que lhe parece? Um homem possui cem ovelhas: uma delas se desgarra. Não deixa ele as noventa e nove na montanha para ir buscar aquela que se desgarrou? E, se a encontra, sente mais júbilo do que pelas noventa e nove que não se desgarraram. Assim é a vontade de nosso Pai celeste, que não se perca um só destes pequeninos.

– Mateus, capítulo 18, do versículo 11 ao versículo 14.

– Bravo, meu caro humanista! Brá-vô! Mas, apenas a título de curiosidade – e não que isso possa acontecer na vida real, é claro –, lhe pergunto: e se o lobo estiver vestindo a pele do cordeiro?

– Pois, meu caro carrasco, respondo à sua pergunta com uma nova questão: e se o lobo já não puder vestir a pele do cordeiro? E se o homem, para deixar de ser o lobo do homem, tiver um filho seu com a cara do filho de outrem que assassinou?

– Tal pai, tal filho.

– E se o filho do assassino for, de fato, o retorno do filho que ele assassinou?

– Sua reencarnação?

– Sim.

Caim franze o cenho.

Abel dá um sorriso de soslaio.

– Bem... (Coça o cocuruto com a mão direita.) Bem... (Coça o cocuruto com as duas mãos.)

– Não tenha medo, meu caro carrasco, nada tema: conhecerás a verdade, e a verdade te libertará.

– Pois muito bem, meu caro humanista: eu também vou responder à sua pergunta com uma nova questão.

– Sou todo ouvidos.

– Aquele que tem ouvidos, ouça: você poderia provar o que está dizendo?

Caim dá um sorriso de soslaio.

Abel franze o cenho.

– Homem de pouca fé, por que duvida?

– Quem foi que disse que só é inabalável a fé que pode encarar a razão em todas as etapas da humanidade?

Hippolyte Léon Denizard Rivail, também conhecido como Allan Kardec.

Ecce homo – eis o homem moderno. Ou você quer que voltemos a acender velas de cera diante de ícones silenciosos – ou melhor (ou pior), diante de ícones mudos?

– Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro carrasco: nesta noite mesma, antes que o despertador urre, você me negará três vezes.

– Que assim seja, meu caro humanista.

Caim dá outro sorriso de soslaio.

Abel franze ainda mais o cenho.

– Mas, vamos, meu caro humanista, como é que conseguiremos tosar o casaco de peles do lobo? Como é que o além pode falar conosco? (A chamada é a cobrar?)

– E se eu lhe dissesse, meu caro carrasco, que, em uma situação bem próxima à escatologia da nossa discussão, um pai perdoou ao suposto assassino de seu filho após receber uma carta psicografada por Francisco Cândido Xavier?

– Eu lhe pediria para prosseguir com o era uma vez, meu caro humanista.

– Pois muito bem: em uma brincadeira trágica com uma arma de fogo, Maurício, de 15 anos, foi alvejado por seu melhor amigo, José Divino, de 18 anos. A arma pertencia ao pai de José. Consta que, além de melhores amigos, Maurício e José Divino eram vizinhos. Na noite anterior ao acidente, os dois haviam ido a uma festa que se prolongara madrugada adentro. José Divino disse a Maurício que eu não vou pra escola manhã, não. Ainda assim, Maurício foi até a minha casa logo cedo, antes da aula, como de costume. Eu briguei com o meu pai, velho, tô triste pra caramba. Ah, não fica assim, não, Maurício, hoje tem outra festa, velho, e vai ter muita mulher bonita por lá! Foi então que o Maurício, fumante bissexto, me pediu um cigarro. Toquei nos bolsos da bermuda, mas nada. Daí lembrei que meu pai deixava o Marlboro vermelho na pasta de trabalho – e olha só: aquela pasta tava sempre fechada a código, mas, naquele dia – justo naquele dia! –, ela tava destravada. O Maurício foi lá, abriu a pasta e logo viu o 38. Ele pegou o revólver, mas, dado o meu grande traquejo, as balas logo caíram do tambor. O Zé Divino ficou me dizendo pra eu largar a arma, que aquilo não era brinquedo – eu cheguei até a ouvir a voz da minha mãe na cabeça, “o diabo atenta, menino, o diabo atenta!” Ela sempre falava isso quando eu pegava faca afiada. Mas agora era um revólver, e, poxa, eu queria me ver no espelho, queria posar com o trabuco, queria empunhar o três-oitão. Não é sempre que a gente vira estrela de filme de ação. Fui até o espelho, paguei de gatão e mirei contra o Zé Divino: bang, bang! Eu dei risada, daí o Zé tirou o revólver da minha mão, e eu fui pra cozinha revirar o armário pra ver se tinha cigarro lá. Foi aí que o Zé entrou na onda também, ele quis dar uma de predador. Ué, se o Maurício podia ser o Rambo, por que é que eu não podia? Não me dei conta de que o Maurício já tava voltando pro quarto e acabei disparando – sem querer... Só que ainda havia uma bala no tambor, e ela tava engatilhada! Meu Deus, eu alvejei o meu melhor amigo! Acode, socorro, me ajuda, socorro! Eu ainda consegui levá-lo a tempo pro hospital, mas o Maurício morreu na mesa de cirurgia. Meu Pai do céu, que que eu fiz?! Que que eu fiz, meu Deus!? Eu não tive intenção, foi sem querer, eu juro, juro por tudo o que é mais sagrado, foi sem querer! Mas como é que eu vou dizer isso pros pais do Maurício? Como é que vou dizer isso pros meus pais? Que que eu faço agora, meu Deus?! Aquela angústia terrível me fez ficar uma semana foragido. Mas eu voltei, fui até a delegacia e prestei depoimento. À saída, apupos e escarros: todos me chamaram de assassino, inclusive minha namorada e outros amigos muito próximos. Perdi a todos. Mas eis que a mãe de Maurício, a dona Dejanira Garcez Henrique, foi a Uberaba. Assim que eu cheguei ao centro/casa do Chico Xavier, senti uma coisa muito forte dentro de mim. Quando me sentei ao lado do Chico na mesa de orações, ele olhou bem fundo pra mim e disse você é a mãe do Maurício, aquele menino de Goiânia. Será que o Chico tinha lido isso nos jornais? Como é que ele sabia quem eu era? Eu não tinha dito nada pra ele, eu não tinha me identificado. Mas o Chico disse que o Maurício tá bem, ele está aqui entre nós, a senhora pode estar certa disso. Meses depois, chegou a primeira carta. Acreditei nela desde o início – havia coisas ali que só nós sabíamos, coisas que só o meu marido sabia. E meu marido era ateu, sim, eu era ateu. Mas, no julgamento, pedi ao juiz Orimar de Bastos e ao júri que, entre as outras provas, levassem totalmente em consideração a carta psicografada pelo Chico, a carta do meu filho Maurício. Se eu perdoei ao Zé Divino? Não sei bem, minha esposa e eu ainda temos muita saudade, é claro, a gente ainda chora. Mas foi o Maurício que nos pediu, em suas cartas, que nós perdoássemos ao Zé, que nós contribuíssemos para a sua absolvição. Seja feita a tua vontade, meu filho, assim na terra como no céu e assim no céu como na terra. Diferentemente de Pôncio Pilatos, meu caro carrasco, o juiz Orimar de Bastos acolheu a carta como uma das provas dos autos e, ao fim e ao cabo, o réu José Divino acabou inocentado da acusação de homicídio doloso. Assim, meu caro carrasco, eu lhe pergunto: fiat lux?

– Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: se non è vero, è ben trovato. (Coça o cocuruto com as duas mãos.) Mas, se perguntar não ofende, meu caro humanista, eis que visto a toga do advogado do Canhoto ainda uma vez. Suponhamos, e não mais do que suponhamos: e se Chico Xavier já tivesse visto alguma foto de dona Dejanira? (Em 1976, já havia transmissões televisivas em nossa Terra Brasilis.) E se algum parente ou amigo de dona Dejanira já tivesse ido ao centro de Chico para lhe dar informações? E se, demasiado humanos, os pais de Maurício estivessem propensos a acreditar no que quer que fosse para que o filho não virasse apenas névoa de memória, para que Maurício continuasse a existir para além do choro e do ranger de dentes? Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: assim é, se lhe parece...

Caim dá mais um sorriso de soslaio.

Abel apoia o queixo na palma da mão direita.

– Bem... (Coça o cocuruto com a mão esquerda.) Bom, se perguntar não ofende, meu caro carrasco, eis que gostaria de apontar o seu ceticismo contra a própria têmpora. Afinal, se a razão e a ciência não quiserem ser dogmáticas, elas precisam sempre postular o princípio da dúvida, não é mesmo? (Caim meneia a cabeça verticalmente.) Arremessemos, então, a dúvida contra si mesma, meu caro carrasco: suponhamos, e não mais do que suponhamos, que todas as dúvidas por você levantadas não deem conta de explicar o caso – é possível supor, e não mais do que supor, que o juiz Orimar de Bastos tenha tomado as devidas precauções. Chico Xavier jamais vira a dona Dejanira e jamais entrara em contato com quaisquer segredos da família de Maurício. Os pais de Maurício – sobretudo seu pai ateu – não se mostraram propensos à credulidade, já que eles juraram de pés juntos que determinados detalhes da carta só poderiam ser conhecidos por Maurício. Sendo assim, meu caro, se não investigarmos um fenômeno como esse, se não tentarmos dissecá-lo e exauri-lo com todas as explicações possíveis e imagináveis, nós não voltaremos a acender velas de cera diante de ícones silenciosamente racionais – ou melhor (ou pior), diante de ícones racionalmente mudos?

Caim franze o cenho.

Abel dá um sorriso de soslaio.

– Quem foi que disse que se costuma dar muita importância aos limites do pensamento e da razão, e que se afirma mesmo que esses limites não podem ser transgredidos? E que nessa afirmação reside a ausência da consciência de que no fato mesmo de algo ser determinado como limite já se transgridem esses limites? E que uma fronteira não é determinada como limite senão em oposição ao seu outro em geral, em oposição ao seu ilimitado? E que, por fim, o outro de um limite é justamente o para-além desse limite mesmo?

– Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

Ecce homo – eis o homem: bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados.

– Pois muito bem, meu caro humanista: desçamos da montanha onde até hoje parece estar confinado o seu sermão e caminhemos entre os escombros de nossa estepe – a estepe de nossa história. Ora, se o conheço bem, você é um militante da revolução social, não é mesmo?

– Quem foi que disse que, no portal de Atlântida, estará escrito: de cada um, conforme sua capacidade; a cada um, conforme sua necessidade?

– Karl Heinrich Marx.

– Mas e se, para que o Livro Vermelho substitua as Escrituras, meu caro humanista, forem necessários muito choro e ranger de dentes? E se, mesmo após a morte do antigo Deus, ainda for preciso despencar um dilúvio de sangue para redimir e renovar a humanidade? Afinal, a guilhotina não pariu a república e a democracia modernas? A miscigenação não é a filha bastarda do navio negreiro? Que dizer sobre os direitos trabalhistas forjados com o sangue dos mártires do movimento operário?

– Talvez, e não mais do que talvez, meu caro carrasco, Nicolau Maquiavel nos dissesse que a revolução comete crimes contra a humanidade – em nome da humanidade.

– Ora, ora, quem diria, hein? Nicolau Maquiavel! Não sabia que meu caro humanista vestia pele de cordeiro para consultar o Index Librorum Prohibitorum. Ora, ora, meu caro humanista carrasco: erudição contra a humanidade – em nome da humanidade. A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, não é mesmo?

Caim dá um sorriso de soslaio.

Abel franze o cenho.

– Quem foi que disse que veio a este mundo para trazer não a paz, mas a espada? Que veio trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra? E que os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa?

– Jesus Cristo.

– Tem certeza, meu caro humanista?

– Mateus, capítulo 10, do versículo 34 ao versículo 36.

– E Mateus não poderia ter comprado gato por lebre – ou melhor, lobo por cordeiro, ou pior, Judas por Jesus? (Em verdade, em verdade lhe pergunto, meu caro humanista: você apostaria em Nicolau Maquiavel como a reencarnação de Judas Iscariotes?)

Caim dá outro sorriso de soslaio.

Abel franze ainda mais o cenho.

– Em verdade, em verdade lhe pergunto ainda mais, meu caro humanista: por que é que as baixas da revolução – ou melhor (ou pior), os justiçamentos revolucionários – seriam mais justificáveis do que a minha vingança contra o assassino hipotético da minha filha?

– Talvez, e não mais do que talvez, meu caro carrasco, porque nem tudo o que é sólido se desmancha no ar: as ideias não morrem.

– Ah, mas nós morremos, meu caro humanista – todos e cada um de nós morremos. (As revoluções à esquerda e as revoltas a torto e à direita sentenciam: morremos como moscas.) E nem todos estamos dispostos a oferecer a cabeça em holocausto como Santa Cecília o fez contra o gládio de Roma; nem todos estamos dispostos a incinerar o próprio corpo para atingir o Nirvana como o monge budista Thich Quang Duc o fez contra a guerra no Vietnã. Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: quem ama a própria vida não quer perdê-la; e mesmo quem odeia a própria vida neste mundo já não tem certeza de que a conservará para a(s) vida(s) eterna(s). E mais: você tem certeza de que, ao matar – ou melhor (ou bem pior), ao caminhar por estepes totalmente abarrotadas de corpos eviscerados pela revolução, estepes ao longo das quais não é possível sequer pisar no chão –, você tem certeza de que, ao ceifar vidas, a revolução não passará a se excitar com o intumescimento do próprio poder? E ainda mais: depois que se cruza a fronteira do Não matarás, ainda será possível dizer amém? (Ou será necessário sentenciar que assim seja?)

Caim dá mais um sorriso de soslaio.

Abel apoia o queixo na palma das mãos.

– Bem... (Coça o cocuruto com a mão direita.) Bem... (Coça o cocuruto com as duas mãos.) Quem foi que disse que o egoísmo, longe de diminuir, aumenta com a civilização, que parece excitá-lo e entretê-lo? E que, quanto maior o mal, mais ele se torna hediondo? E que talvez tenha sido preciso que o egoísmo fizesse muito mal para fazer compreender a necessidade de extirpá-lo? Quem foi que disse que a história nos mostra uma multidão de povos que, depois dos abalos que os agitaram, caíram na barbárie? E que, nesse caso, seria muito difícil entrever a revolução moral? Quem foi que chegou à conclusão dialética de que, quando nossa casa ameaça ruir, nós a derrubamos para reconstruí-la de maneira mais sólida e mais cômoda? E que, até que ela não esteja totalmente reconstruída, haverá, em nossa casa, perturbação e confusão, choro e ranger de dentes?

Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais uma vez conhecido como Allan Kardec. E sabe de uma coisa, meu caro humanista?

– Não sei, meu caro carrasco – a telepatia não consta dos meus dons mediúnicos. Diga-me, homem de pouca fé.

– Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: com a sua rebeldia paradoxal a tentar resgatar Pandora de seu coma histórico, você ainda vai escrever uma ode intitulada Hegel e Kardec: A fé na dialética – ou, então, Kardec e Hegel: A dialética como profissão de fé. Prefácio de Ióssif Vissariónovitch Djugachvili, também conhecido como Stálin. Posfácio de Mohandas Karamchand Gandhi, também conhecido como Mahatma Gandhi. A paz entre os escombros. Mas, meu caro humanista, você já considerou que, em meio ao labirinto de nossos escombros, a saída pode não passar de uma nova entrada? E se nossos escombros já não souberem erigir moradas? E se estivermos condenados ao bunker?

– E se eu lhe dissesse, meu caro carrasco, que, em algum lugar do cosmos – em inumeráveis lugares do espaço-tempo infinito –, a lei das probabilidades me autoriza a dizer que duas pessoas exatamente como você e eu, com os mesmos nomes e as mesmas ideias, estão tendo esta mesma conversa ao mesmo tempo? E que, ainda que se trate de nós-dois-lá, ainda que eles-nós tenham (tenhamos) os mesmos nomes e as mesmas ideias, que estejam (estejamos) tendo esta mesma conversa ao mesmo tempo, as conclusões (as veredas) podem ser total e infinitamente diferentes? O que você me diria, meu caro carrasco?

– Eu lhe diria que talvez, e não mais do que talvez, na casa de nosso Pai haja muitas moradas... Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: eu gostaria muito de concordar com (ou melhor, de acreditar em) João Heráclito Guimarães Rosa de Éfeso, para quem o retorno às águas do mesmo rio – retorno impossível diante do fluxo perpétuo do tempo a nos liquefazer – pressupõe a terceira margem da vida.

– Bem-aventurados os que choram, meu caro carrasco humanista, porque serão consolados! Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo da mesa, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa.

– Mateus, capítulo 5, versículos 4, 14 e 15.

– Ah, meu caro carrasco, quer dizer que você também tem lá seus anjinhos, não? Não sabia que você já tinha entrevisto a terceira margem do nosso rio sobre o cume da montanha.

Caim franze o cenho.

Abel dá um sorriso de soslaio.

– Em todo o caso, meu caro humanista (saca uma moeda do bolso), trago aqui comigo este denário.

Abel franze o cenho.

Caim engatilha um sorriso de soslaio – e sentencia:

– Em verdade, em verdade lhe digo, meu caro humanista: o barqueiro que me vai conduzir até a terceira margem do Hades precisa ser pago. A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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