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Recordações da Casa dos Mortos

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Chicago, 10 de maio de 2015

“Segundo o relatório São Paulo Megacity Mental Health Survey (VIANA, Maria Carmen et al. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo: volume 31, número 4, dezembro de 2009, pp. 375-386), a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) apresenta a maior incidência de perturbações mentais do mundo.

            “O estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que 29,6% dos moradores da RMSP sofrem de algum tipo de perturbação mental. O levantamento pesquisou 24 cidades em diferentes países.

            “Além de ser a cidade com a maior incidência de perturbações mentais, São Paulo também aparece na liderança do ranking de casos graves, com 10% da população afetada”.

(São Paulo é a cidade com o maior índice de perturbações mentais do mundo. In: SPRESSOSP: http://spressosp.com.br/2013/07/10/sao-paulo-e-a-cidade-com-maior-indice-de-perturbacoes-mentais-no-mundo/. Reportagem publicada no dia 10/07/2013.)

Metrô de São Paulo, hora do rush.

Dado o tratamento que se ejacula sobre o corpo das mulheres – ou pior, dada a ejaculação com que se tratam as mulheres circunscritas como corpos –, está aberta a temporada de priapismo mal contido pelos zíperes.

Para (tentar) coibir as bolinadas, encoxadas, dedadas e gozadas criminosas, consta que as cidades de Curitiba e Rio de Janeiro são incisivas: na hora do rush, os homens não podemos entrar nos vagões exclusivamente destinados às mulheres.

Piu-piu reza à gaiola para (tentar) escapar do Frajola.

São Paulo é a cidade com o maior índice de perturbações mentais do mundo – é mesmo?

Nas imediações do Theatro Municipal, a Rua Barão de Itapetininga, no centro velho de São Paulo, é exclusiva para pedestres.

Durante o dia, o Barão premido entre o Viaduto do Chá e a Avenida Ipiranga ferve com o zunzunzum de pastores munidos de bíblias de capa de couro e ternos da Camisaria Fascynios, usuários de craque recém-escorraçados da Cracolândia com seus cachimbos de pote de Yakult, putas itinerantes – R$ 30,00/15 minutos; R$ 50,00/meia hora – junto a portinholas que se esgueiram entre as múltiplas lojas de R$ 1,99, homens-placa e os anúncios de biscates para homens-desemprego, a maré nauseante do óleo velho dos churros, o vinagrete e as salsichas amareladas do tiozinho do cachorro-quente, vira-latas esquálidos com as costelas quase rasgando o couro e camelôs sempre à espreita de mais um rapa da Guarda Civil Metropolitana (GCM).

Durante a noite, salve-se quem puder. [Com o espectro de que, em média, 1 mulher é violentada no Brasil a cada 11 minutos, restam menos de 2 minutos para que a balconista Jucileide consiga escapar do corredor polonês da Barão de Itapetininga para pegar um ônibus abarrotado de Frajolas na Praça da República. (4 horas depois, Jucileide desce na quebrada e faz o enésimo Pelo Sinal antes de encarar a viela sem luz e asfalto que desemboca no seu casebre de alvenaria.)]

São Paulo é a cidade com o maior índice de perturbações mentais do mundo – jura?

Certa vez, uma amiga-quase-namorada que trabalhava na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) me presenteou com um ingresso para um concerto de violinos em um camarote com vista pra lá de especial em relação ao palco.

Como eu moro perto da estação de metrô Butantã – e como meu carro calça entre 41 e 42 –, a linha Amarela me leva, de ponta a ponta, até a estação Luz, perto da qual fica a Sala São Paulo.

Enquanto subo os degraus que me vão escarrar na Luz, o coração da Cracolândia, meninas-moças esquálidas de saias curtíssimas junto ao corrimão da escadaria arreganham as pernas e ficam raspando a calcinha no grelo me pedindo, insistentemente, cinco reais.

– Vamos lá, Alemão, eu te chupo ali no jardim, tem um bequinho lá pra atrás, eu deixo cê comer meu cu, mas me dá logo cinquinho, Alemão – vai, vai, pode até ser dois, Alemão, eu pago uma chupeta pro trafica, aí ele me dá mais uma pedra! Vamos lá, Alemão, vem me comer, vem!

Quando eu pergunto o nome dela, a primeira reação da Juliana – ou pior, do que resta da Juliana – é me mandar tomar no cu. Eu só não te mandei pra puta que te pariu, Alemão, porque cê parece uma mistura do Xaveco com o Anjinho da Turma da Mônica, e eu gostava de ler gibi que só a porra!

Juliana, cujos cabelos amarelíssimos de tintura parecem fios de miojo, me olha com o furor da Medusa enquanto coça o bico flácido daquilo que um dia fora seu peito esquerdo.

– Mas que que cê tá fazendo por aqui, criatura?

Digo a ela que estou indo a um concerto na Sala São Paulo, e então Juliana, não sem um risinho de despeito, me propõe um novo trato:

– Alemão, cê parece ser sangue bom, já tô manjando você. Vamos fazer o seguinte: aqui na Cracolândia, nego tem que andar na sombra mesmo de noite. Essa tal de Sala São Paulo, clubinho de bacana, tá aqui pertinho. Mas é capaz de nego fazer maldade com você por aqui – que que cê tá fazendo por aqui, criatura?! Então vamos fazer o seguinte: cê me dá 10 conto, Alemão, e eu te entrego são e salvo lá na porta da biqueira. Vambora, Xaveco?

– Juliana, cê não tá com fome? Ao invés de eu te dar o dinheiro, eu te pago uma bela janta, que tal?

Ela coça o miojo de raízes pretas com as unhas sujas e lascadas e, antes de me responder, dá uma cuspadela pro lado:

– Porra, Alemão, não viaja, velho! Alguém te pergunta que que cê faz com o teu dinheiro, Anjinho? Não pergunta, né? Então, Xaveco, por que que cê quer meter o bedelho no que eu vou fazer com a grana? É por que eu vou comprar pedra? Ah, cê num quer isso pra mim, né? (Ah, se vai ficar com a consciência pesada, né, Alemão? Cê num quer isso pra você, né, Anjinho?) Então, Alemão, é o seguinte, deixa eu te dizer uma coisa, é papo reto: cê acha que eu num quero sair dessa merda, Alemão? Cê acha que eu num quero sair dessa vala? Eu quero, Xaveco, eu quero, sim, Anjinho! Mas aí me vem uma coisa na telha, Alemão, e aí eu num sei se cê vai me entender, não – cê deve crescido à base de leite Ninho, Anjinho, olha aí, tá até com a pele corada e tudo, então num sei se cê vai me entender, não. Mas eu vou te dizer mesmo assim: a rapaziada do mundo de vocês fala que a gente aqui tá na merda, Alemão. Bom, o nome já diz tudo, né? Cracolândia, Boca do Lixo! Tem nego aí que já morreu bem antes de morrer – sepultar o camarada vivo é até motivo de caridade, Anjinho, esquadrão da morte vira bom samaritano. O que pega é que pra muita gente aqui, Alemão, lá fora, lá do outro lado – lá naquele outro planeta de onde cê acabou de sair, Alemão, a coisa é ainda pior. Quem é meu pai? Cadê meus irmãos? Pra onde foi o estuprador do meu tio? Outro dia eu mesma coloquei um saco de lixo em cima da minha mãe – a gente fumou 37 pedras, Alemão, daí ela não aguentou, ficou só com o dedão pra fora, dedão cascudo. E eu vou te confessar uma coisa, Alemão – ó, vou te dizer isso aí porque cê é ponta firme, gostei de você, Xaveco, não falo isso pra qualquer um, não, vou te falar porque cê tá aí me ouvindo, Anjinho, ô cara 13!, nunca vi nego querer saber de desgraça assim, não, mas cê tá aí me ouvindo, Alemão, então eu vou te dizer: minha mãe é que tá bem agora, Anjinho, eu sinto inveja dela... Te juro, Alemão, eu sinto inveja dela, sim... Mas então, Xaveco, porra, cê não vai me deixar fumar uma pedrinha por quê? Cê sabe o que que eu tô vivendo? Cê lá sabe o que é isso aqui?!

Antes de sacar a carteira, a franqueza escatológica de Juliana me encoraja a uma pergunta.

– Juliana...

– Fala, Alemão, aqui não tem balela, não, Anjinho, manda a letra, Xaveco, pode falar!

– Juliana... por que que cê ainda não se matou?

– Porra, Alemão, agora cê foi firmeza, Anjinho, cê meteu o estilete na taturana, Xaveco, cê cavucou a ferida! Porra, Alemão, sei não, cê é meio 13 também, né, não? Não quer ir lá brisar comigo, não, Alemão? Outro dia eu vi uma Naja lindona enroscada no poste, obra de arte, Anjinho, vê lá! Mas, bom, cê parou com a balelada, Xaveco, cê mandou o coice no peito, e tal, então eu vou te dizer, sim – cê acha que nego estudado entende isso aqui, Anjinho? Porra, aqui vem doutor de tudo que é campo – médico, psicólogo, sociólogo, assistente social e o caralho a quatro. Vem nego de tudo que é religião, e fala que fala, e prega que prega, nego não entende porra nenhuma, nego só fala com a resenha do lado de lá, com as ideias do planeta de vocês, nego não manja o que se passa aqui dentro, nego não quer sentir o cheiro do ralo. Quando cê chegou aqui, Alemão, teu olho esbugalhado era bem a marca do lado de lá, do outro planeta. Mas agora, Xaveco, essa tua pergunta aí já é de 13 mesmo, de nego brisado, de Anjinho xarope. Por que que eu ainda não me matei, né? Por que que eu ainda tô na pista, né?

– É, é isso aí, Juliana, por quê?...

– Porra, Alemão, mas cê não é repórter, não, né? Aí é foda, Anjinho! Vai ficar me girando assim igual peão pra me pagar merreca no final... E aí? Venha a nós sem vosso reino é foda, Xaveco, vê lá!

– Não, não sou jornalista, não, Juliana. Pode confiar em mim. Eu só quero ouvir o que cê tiver pra me dizer.

– Confiar em você, Anjinho? Tá, Xaveco, desenrola outra, vai... Mas, Alemão, o negócio é o seguinte: já tentei me matar, sim – mas tentar se matar, a bem dizer, não é querer se matar. Tem nego que quer chamar a atenção pra si – não é o meu caso, eu já não tenho ninguém... eu já não tenho mais ninguém. Eu já até pensei que a gente fica acostumado com esse esgoto todo, que a gente começa a gostar de tomar no lombo – tem muito disso aqui, Alemão, pode crer. Mas tem uma parada, Anjinho, tem um lance que nego não quer falar pra ninguém – nego tem até medo de deixar alguém ver que ele acredita nisso, mas é algo que tá aí, sim, lá no fundo. Eu não sei por quê, Xaveco, eu não sei como, velho, mas eu ainda acho que eu vou dar descarga nessa merda toda... Que eu vou dar descarga em mim mesma, que eu vou sair daqui. A esperança é a última pedra que a gente fuma. E eu acabei descobrindo que quando nego bate no fundo do poço, que quando nego não vislumbra mais nada – é coisa de 13 isso aí que eu vou te dizer, Alemão, é brisa pura, vê lá! –, aí nego se livra do vício na hora, nego desperta do transe de zumbi num piscar de olhos, Alemão – nego vai e se joga do viaduto...

– Puta que o pariu!

– Pois é, pois é... Mas e aí, Anjinho, ouviu o que cê queria?

– Recordações da Casa dos Mortos.

– Quê?

– Nada, não, Juliana. E aí, vamos ou não vamos?

– Dinheiro primeiro.

Saco logo R$ 20,00, Juliana sorri com os cacos dos dentes.

A Sala São Paulo fica ali próxima, mas ela faz questão de me dizer que a gente precisa andar no meio da rua, com a mão sempre no bolso, como se a gente tivesse uma máquina de choque ou um spray de pimenta de prontidão, e aí eu vejo um furgão da PM cujos soldados assistem, impassíveis, aos estalos dos isqueiros da legião de Julianas.

A cloaca da Cracolândia, eutanásia à brasileira.

Eugenópolis na Boca do Lixo: que os répteis se devorem.

Pouco depois de escapar da Juliana e de entrar no bunker suntuoso da Sala São Paulo, Thaís e uma taça de champanhe me dão as boas-vindas à iminência do concerto.

Thaís está muito bonita – além de o vestido azul-royal lhe talhar a cintura judiciosamente, ela não se esqueceu do rabo-de-cavalo a desnudar o pescocinho. Ocorre que a voz de Thaís começa a ficar pastosa – é impressão minha ou a borbulha do champanhe, chuva de granizo, tá bombardeando o céu da minha boca? E que zunido de pernilongo é esse do violino? Eu sinto a mãozinha da Thaís afagando a minha nuca suada, essa mãozinha perfumada e macia, mas eu só consigo ver a calcinha vincada de corrimento da Juliana, aquele rastro marrom e podre, essas mãos encardidas, o vapor do craque defumando suas gengivas roxas e sem vida. Os músicos tocam dentro do meu estômago, o concerto tem a cadência de túneis longos e escuros – preciso engolir em seco pra tirar a pressão dos tímpanos. Os vitrais da Sala São Paulo estão derretendo, vidro líquido na minha boca, um colar de bitucas de cigarro envolve de névoa o rosto de Thaís, as maçãs do rosto dela, levemente saltadas, lhe rasgam a pele, e ela tá dando risada – meu Deus do céu, como é que ela tá dando risada? Me apoio no parapeito do camarote, uma gota de suor, viscosa como mel, cai da ponta do meu nariz e resvala a careca envernizada de um octogenário com um bigode em ponta de espada. Ele olha para cima e me fita horrorizado, me lembro até agora da cara da velha a tiracolo engessada pelo botox, mas não dá tempo pra eles desviarem: vomito uma gorfada quente e esverdeada – depois ficam aqueles detritos de carne colados nas amígdalas (e desde 2003 eu não tenho mais amígdalas!) –, gorfada que lambe a cara do velho do queixo à careca. A Thaís dá um grito de soprano – eu sempre soube que ela ainda podia cantar! – e me arrasta, sem mais, até o banheiro. Ela tenta lavar meu rosto, mas eu sinto que já não dá pra tirar o vômito da minha barba, tem pedaço semidigerido de gordura de bife fincado nos cílios, logo me dá vontade de lamber os dedos da Thaís – eu tiro o brinco dela com a língua, a danada ainda fica toda arrepiadinha! –, eu consigo ficar de pé, encosto a Thaís na pia de mármore (eu acabo de ver uma gordinha bem roliça saindo correndo com a calcinha pingando pelo meio da coxa), percorro a coxa da Thaís roçando a mão pelo vestido – a mão granulada de vômito pelo tecido emite o som de um reco-reco (ou seria uma cuíca?). A Thaís me enlaça e me pergunta se eu tô bem, ela vai me dando tapinhas no rosto pra eu não dormir, ela grita por ajuda – meu pau tá bem duro, eu escorrego a mão dela pra minha braguilha, a Thaís me sente e me apalpa, seu maluco!, ela logo vai chamar alguém, eu me debruço sobre a privada, abraço a porcelana e olho fixamente pro espelho d’água. Cabelos percolados na testa com uma mistura de suor e vômito, detritos no queixo e na orelha direita. Autorretrato. Será que a água vai varrer essa merda? (Cadê o ralo da memória?) Será que a água vai varrer toda essa merda? Será que eu ainda consigo dar descarga em mim mesmo? 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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