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O futebol é a única religião que não tem ateus

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Não há nada mais vazio do que um estádio vazio.

Não há nada mais mudo do que alambrados sem torcida.

Eduardo Galeano, El fútbol a sol y sombra

(O título deste texto também é um aforismo de Galeano.)

Chicago, 27 de outubro de 2015

            No dia 27 de julho de 2011, há precisamente 4 anos, Santos Futebol Clube e Clube de Regatas do Flamengo protagonizaram um duelo digno das pinceladas trêmulas e das cores sôfregas de Van Gogh, um jogo repleto de idas e vindas digno das viradas narrativas de Lars von Trier, uma peleja digna da majestade de Edson Arantes do Nascimento, também conhecido como Pelé.

            Estádio Urbano Caldeira, também conhecido como o alçapão da Vila Belmiro, em Santos.

            Santos: 1. Rafael (goleiro); 2. Edu Dracena e 6. Durval (zagueiros); 3. Léo e 4. Pará (respectivamente, laterais esquerdo e direito); 5. Arouca e 7. Ibson (volantes); 8. Elano, substituído por Alan Kardec, e 10. Paulo Henrique Ganso (meias); 9. Borges e 11. Neymar (atacantes). Técnico: Muricy Ramalho.

            Flamengo: 1. Felipe (goleiro); 3. Welinton, substituído por David Braz, e 4. Ronaldo Angelim (zagueiros); 2. Léo Moura e 6. Júnior César (respectivamente, laterais direito e esquerdo); 8. Willians e 38. Luiz Antônio, substituído por Bottinelli (volantes); 7. Thiago Neves e 11. Renato (meias); 9. Deivid, substituído por Jean, e 10. Ronaldinho Gaúcho (atacantes). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

            Árbitro: André Luiz de Freitas Castro (Goiás).

            Assistentes, também conhecidos como bandeirinhas: Márcio Eustáquio Santiago (Minas Gerais) e Erich Bandeira (Paraná).

            (Quando da entrada do trio de arbitragem no gramado, a Torcida Jovem alvinegra e a Fla Manguaça e a Urubuzada rubro-negras prestam as devidas homenagens às progenitoras do juiz e dos bandeirinhas.)

            Público: 12.968 pagantes.

            Renda: a bagatela de R$ 312.040,00.

            Além do duelo entre as feras em campo, este Santos e Flamengo envolve 9 títulos brasileiros nos respectivos bancos de reservas.

            Muricy foi tricampeão brasileiro com o São Paulo (2006, 2007 e 2008) e campeão brasileiro com o Fluminense (2010).

            Luxemburgo, também conhecido como Luxa, foi bicampeão brasileiro com o Palmeiras (1993 e 1994) e campeão brasileiro com o Coringão (1998), o Cruzeiro (2003) e o Santos (2004).

            Apita o árbitro!, ou, como narraria Januário de Oliveira, gaúcho de Alegrete, na TV Bandeirantes, taí o que você queria: bola rolando para Santos e Flamengo, ou, como narraria o bom e velho ítalo-paulista Fiori Gigliotti na Rádio Bandeirantes, abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira, balão subindo e descendo até que Ibson na lateral do campo rouba a bola e toca pra Neymar, Neymar domina com a canhota e de direita dribla em meia-lua o marcador, Neymar vai pra dividida pra completar o drible e racha e ganha e vira a bola pra Elano, Elano vê Borges em diagonal, Elano enfia a bola com açúcar e com afeto na cabeça da grande área entre os zagueiros, Borges mata a bola com a canhota e já ajeita a pelota pra perna direita, é Borges cara a cara com o arqueiro Felipe, ex-Corinthians, torcida brasileira, Borges dá um tapa de chapa com categoria para o canto direito da meta e é fogo, é gol!

É gol, é gol, é gol!

Gooooooooooooooool!

Futebol é com a Bandeirantes, que traz a emoção desse gol pra mim – gol!

Um gol de triangulação, um gol de talento coletivo, um gol relâmpago, torcida brasileira – pouco mais de 4 minutos (4’18’’) da primeira etapa. E Borges vai que vai dar cambalhotas junto à bandeirinha de escanteio pra comemorar com a torcida que, no alçapão da Vila, fica rente ao campo com suas cusparadas e copos de plástico com jurubeba e mijo. Agora, Santos 1, Flamengo nada.

Com menos de 5 minutos de jogo, começa a avalanche na Vila Belmiro.

O jogo é franco, o jogo é jogado, aos 10 (10’12’’) Elano dá um passe errado em direção à zaga do Peixe e municia ninguém mais que Ronaldo de Assis Moreira, também conhecido como Ronaldinho Gaúcho. Com sua tradicional bandana, o craque do Grêmio e do Barça parte pra cima da meta santista, corta o primeiro zagueiro com a direita (já estamos na cabeça da grande área), corta o segundo zagueiro com a direita (já estamos na grande área), levanta levemente a cabeça, espia o gol – espeta!, espeta! – e dá um tapa de canhota tentando tirar do goleiro Rafael. Rafael se estica como uma lagartixa e, com a pontinha dos dedos, resvala a bola que tinha endereço certo e manda a pelota pra escanteio.

– Pelo amor dos meus filhinhos! – urraria o bom e velho Sílvio Luiz.

Após a arrancada digna de Messi, o Gaúcho se contorce e leva as mãos à cabeça e aos céus! (A câmera da Globo e a marcha da família com Deus pela liberdade fazem a leitura labial do puta que o pariu, porra, vai tomar no cu, caralho!)

E não dá nem pra respirar, nego que vai pro banheiro químico na Vila e nego que vai pro banheiro em casa perde lance atrás de lance, é jogo lá e cá, a bola rola que rola, jogo de poucas faltas, jogo jogado, jogo franco, e lá vai o Renato, ex-Timão, do lado esquerdo da cancha, fazer uma virada de jogo, Renato erra o lançamento, e ninguém menos que Neymar intercepta a bola na intermediária. Neymar dispara e passa a bola pro maestro PHGanso, Ganso dá uma penteada na bola, faz a leitura instantânea de jogo – segundo Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, também conhecido como Dr. Sócrates, não há quem seja mais cerebral do que Ganso para a leitura de jogo – e enfia a pelota para Neymar entre 5 (eu repito: 5!) marcadores flamenguistas. Já na grande área, cara a cara com Felipe, Neymar dá uma cavadinha tentando encobrir o arqueiro – olho no lance! –, mas Felipe Aranha estende o braço e intercepta a bola, a bola volta para Neymar que, de puxeta, numa minibicicleta, tenta arrematar a gol, no que o artilheiro Borges, bem posicionado antes da linha da bola e oportunista como ele só – não tem impedimento, não, Felipe, não adianta chorar –, pega a rebarba no coração da pequena área e completa para as redes.

Ééééééééééééééé, é do Santos!

Confira comigo no replay: foi, foi, foi, foi, foi, foi ele, Borges, o craque da camisa número 9!

Quando eram jogados redondos 15 minutos da primeira etapa.

Agora, Santos 2, Flamengo nada.

Octávio Muniz, o que é que só você viu?

Tá no filó, rapaziada, agora quem dá a bola é o Santos: a maré tá cheia, tá, tá, tá, tá, tá cheia do quê? Cheia de sereia, e o Santos tá querendo golear – caiu na rede é peixe, lê-lê-á, o quê, o quê? O Santos vai golear! Mas uma vez Flamengo, torcida brasileira, sempre Flamengo, então o rubro-negro não esmorece e vai pra cima do Peixe. Sob as vaias, apupos e catarradas da torcida santista rente ao alambrado do alçapão da Vila, Léo Moura vem pela direita e abre para Luiz Antônio na passagem. Mesmo marcado pelo Léo santista, Luiz Antônio descola um cruzamento rasteiro com uma bola venenosa que varre a grande área – o arqueiro Rafael sai no vazio, e Deivid, na chegada rápida e como que sem acreditar, fica com a faca e o queijo no pé de cara para o gol escancarado. Deivid chega desequilibrado, Deivid chega trupicando, Deivid, ex-Santos, a 30 cm da linha do gol, se tanto, tenta dominar a bola com a canhota, mas ela bate em sua canela direita e se perde, caprichosa e traíra, pela linha de fundo, à direita do gol do Santos, tirando tinta da trave.

– Pelas barbas do profeta! – urraria o bom e velho Sílvio Luiz.

 Deivid perde um gol feito, Luxemburgo vai à loucura, Luxa não acredita nessa pedreiragem de várzea, mas a Torcida Jovem atrás do gol, com a marola de maconha misturada à fumaça dos rojões, vibra que vibra, a galera manda beijos pra mãe do Deivid – mal sabem eles que a vingança é um prato que se come fervendo. Deixa estar, Deivid, eles mal perdem por esperar.

25 minutos do primeiro tempo (25’10’’), Neymar domina a pelota premido por dois flamenguistas na lateral esquerda do campo de ataque, nas cercanias da intermediária. Neymar finta o primeiro de letra e se esgueira como um corisco entre o segundo e o terceiro marcador, que chega como uma vaca louca – Neymar, em disparada, serve a Borges, Borges de bate-pronto devolve a bola para Neymar, o camisa 11, acossado por uma sombra flamenguista, vê a chegada do zagueiro, dá uma veloz penteada na bola e, com a canhota, aplica uma meia-lua no marcador para, com o pé direito, cara a cara com a muralha Felipe, completar o drible com um totó que estufa as redes do Flamengo pela terceira vez em menos de 30 minutos de jogo.

Uma pintura de gol, Neymar, um golaço, um gol antológico, um gol de placa, um gol que, para o comentarista Leovegildo Lins da Gama, também conhecido como Júnior, grande meia do Flamengo e da Copa de 82, sintetiza a essência do futebol brasileiro, o futebol arte, o futebol moleque, o futebol ousadia, o futebol intrépido para muito além da burocracia do 4-4-2/3-5-2 e da indústria anabólica da preparação física.

Na tribuna de honra da Vila, Pelé bate palmas de pé.

Não percamos as contas, torcida brasileira: agora, Santos 3, Flamengo ainda nada.

Mas já dizia o hino rubro-negro que, uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Quem morre na praia é Peixe, Santos, porque, no jogo jogado, no jogo franco, no jogo lá e cá, o Mengão, aos 28, vem que vem com Léo Moura pela direita, Léo Moura enfia nova bola para Luiz Antônio, Luiz Antônio, agora marcado por dois, descola novo cruzamento rasteiro e venenoso que, novamente, percorre a extensão da grande área e, ainda uma vez, passa por sob as mãos de alface do arqueiro Rafael e pela furada do zagueirão Edu Dracena (meu vô, minha vó e minha mãe moraram em Dracena). A bola sobra livre, leve e solta para Ronaldinho Gaúcho – não, a história não se repete como farsa. Com um taquito, o camisa 10 do Mengão empurra a bola pro fundo do gol e vai buscar a pelota prontamente para que o jogo tenha rápido reinício. Por ora, Gaúcho está cabisbaixo. Mas logo menos um sorriso cheio de dentes grandes e brancos como pérolas vai silenciar a Vila Belmiro. Logo menos, mas não agora.

Gol de misericórdia, gol de náufrago no mar do Peixe: Santos 3 x 1 Flamengo.

É jogo de poucas faltas, jogo de bola rolando, jogo febril.

O teeempo paaassa, torcida brasileira: quase 31 minutos de partida.

            E vem que vem Thiago Neves, ex-São Paulo, ele toca pra Gaúcho, Ronaldinho recebe e serve a Renato, Renato domina mascado, a bola quica, Renato então aplica um chapeuzinho bonito que só vendo no santista que vem pra lhe dar o bote, Renato enfia a bola pra Deivid na cabeça da grande área, Deivid, de costas pro gol e com categoria, abre na direita pra Léo Moura, Léo Moura se achega e cruza, no chuveirinho, para o salseiro da pequena área – nela, sozinho, pra desespero do arqueiro Rafael, Thiago Neves testa pro chão e, aos 31 minutos mais 8 segundos, começa a dar esperança pro Flamengo. Santos 3 x 2 Flamengo. Thiago Neves também não comemora. Ele pega a bola prontamente e marcha até o círculo central como um espartano.

            Aos 35’12’’, o Mengo ainda teve um gol de Deivid bem anulado pelo bandeirinha – o centroavante estava uns 30 cm, se tanto, adiantado. (E a Vila se agita: “Arrá, urru, o bandeirinha é nosso! Arrá, urru, o bandeirinha é nosso!”) O ex-árbitro de final de Copa do Mundo e comentarista de arbitragem José Roberto Wright sentencia que, além do impedimento, Deivid dá uma matada na bola meio de braço, meio de ombro – e, apesar da choradeira rubro-negra, segue o jogo, é jogo que segue.

            Passamos de 40 minutos, mas Neymar e sua juventude de corisco arrancam da intermediária. Neymar passa pelo primeiro, o segundo marcador segue em sua cola como um vira-lata atrás do gato, Neymar já adentra a grande área – Felipe se vê desguarnecido mais uma vez! –, então Willians, desprovido de um 38, não vê outra saída: para barrar Neymar, sua mão esquerda (supostamente) empurra o quadril do atacante, também conhecido à boca pequena como cai-cai. Rente ao lance, o juiz, caseiro como ele só, marca pênalti para o Santos – penalidade máxima na Vila Belmiro. Os flamenguistas cercam o árbitro, é aquele chororô inútil de sempre, chororô pra marcar território, chororô pra que mais cagadas contra o time visitante não se repitam, mas não tem jeito, é pênalti! Willians, ainda por cima, toma cartão amarelo. Neymar, por sua vez, é convidado a ministrar a Aula Magna do mais novo curso de Artes Cênicas da Universidade Federal da Baixada Santista.

            Com personalidade e suando em bicas, Elano pega a bola e a posiciona na marca da cal. O meia, com altíssimo aproveitamento em pênaltis, fica ajeitando o meião. O Santos pode abrir 4 a 2 pra cima do Flamengo ainda no primeiro tempo, torcida brasileira.

            Elano toma distância, Felipe o observa do centro do gol, fixo como um poste.

            André Luiz de Freitas Castro autoriza a cobrança, o apito prende a respiração da Fla Manguaça e da Urubuzada atrás do gol de Felipe, Elano parte pra bola, Elano e Felipe, Felipe e Elano, Elano de perna de direita apontou – e vai que vai uma cavadinha, lenta e marrenta no centro de gol, cavadinha com a aposta de que o goleiro ia escolher um canto, cavadinha com a malandragem de que o goleirão não ia nem sair na foto, mas Felipe, ligeiro como ele só, esperou a definição de Elano. O arqueiro encaixa a bola e começa a fazer embaixadinha – uma, duas, três, quatro petecadas, a Fla Manguaça vai ao delírio, a Urubuzada sobrevoa a carcaça de Elano.

            Ora, o pênalti perdido pelo Peixe – ainda mais com o menosprezo com que Elano bateu a penalidade – é munição pro Flamengo. Nego sabe que, em esportes coletivos, o brio e o moral das equipes, junto com a torcida em polvorosa, são o 12º jogador. (A Camisa 12 e os Gaviões da Fiel que o digam.)

            Quem não faz, toma, Elano.

            Quem não toma, faz, Felipe.

            Empurrado pela Fla Manguaça, o Mengão, pouco mais de um minuto depois, descola um escanteio pela esquerda. Ronaldinho Gaúcho na bola, tensão da Torcida Jovem que fica espantando a zica com as mãos trêmulas em palma, é bola no primeiro pau – olho no lance! –, Deivid, entre a carcaça de Elano e Edu Dracena, raspa o cocuruto na bola e manda a pelota, rente à trave, pro fundo do barbante santista. Como narraria Osvaldo Maciel, também conhecido como Maciça, na Rádio Transamérica, tááá naaa reeedeee: goooooooooooooooool! Rafael fica sentado em cima da linha do gol olhando desolado pra bola – o arqueiro quase bateu a cabeça na trave para tentar desviar a cocurutada certeira de Deivid. O centroavante, ex-Santos, comemora timidamente, e logo chegam Ronaldinho e Thiago Neves para abraçá-lo.

            6 gols no alçapão da Vila Belmiro, torcida brasileira, em menos de 45 minutos: como diria, no pique, o palmeirense Roberto Avallone, 1, 2, 3, 4, 5, 6 gols. Não percam as contas: agora, Santos 1, 2, 3, Flamengo 1, 2, 3.

            Como narraria o carioca Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, o jogo fica dramático nos acréscimos, jogo ainda mais lá e cá, balão subindo e descendo, bola pingando na área do Peixe e do Mengo, quando eeerrrgue o braço André Luiz de Freitas Castro: final de primeiro tempo na Vila Belmiro.

            Abelhas no mel, os repórteres esperam Ronaldinho Gaúcho junto à entrada do vestiário. O Gaúcho diz que a gente vinha jogando bem, os primeiros gols deles foram de passes errados nossos. E o Flamengo, cês sabem, é time de raça, é time de fibra, então a gente seguiu lutando, a gente corrigiu os erros e igualou o marcador. É mérito nosso. Mas e aquele pênalti perdido pelo Elano na cavadinha, Ronaldinho, aquilo ali mexeu com o brio de vocês? O Gaúcho desconversa, não, não, o Elano bateu como ele deve ter treinado, e teve também aquele gol anulado do Deivid, aí, sim, a gente ficou com aquilo ali entalado na garganta, mas o Elano treinou e bateu com personalidade, só que o Felipe tava ali, ele foi muito bem e ainda mostrou que sabe fazer embaixadinha (também pudera, né, ele aprendeu comigo!) – o Gaúcho sorri pra câmera como um milonguero argentino e desce que desce pro vestiário.

            Aguenta, coração: mais 45 minutos de bola rolando nesse duelo que entrou para a história do Brasileirão, duelo que, a ressuscitar o Canal 100, é transmitido em preto e branco, com aqueles chuviscados na tela, e a câmera rente ao gramado mostrando as pernas tortas de Garrincha Gaúcho e o moicano lúdico do Neymar Cai-Cai, a Vila vira Maracanã e, ao fundo, desponta a trilha sonora da arquibancada e da geral, lá estão os Arquibaldos e Geraldinos de Nelson Rodrigues com o coro nostálgico do pã-pã-pã/ pã-pã/ pã // pã-pã-pã/ pã-rã-pã-pã-pã/ pã-pã-pã/ pã-rã-pã-pã-pã/ pã-pã-pã/ pã-rã-pã-pã (duas vezes); pã-pein/ pã-pã/ pã-pein-pã/ pã-pein/ pã-pã-pã/ pã-pã-pã-pã.

            Apita o árbitro, abrem-se as cortinas e recomeça o espetáculo, torcida brasileira, placar Bandeirantes: Santos 3 x 3 Flamengo.

            Logo aos 5 minutos (5’5’’), Thiago Neves erra um passe no ataque – melhor para PHGanso que recupera a bola e, com a elegância e a categoria que lhe são peculiares (além do sono que o faz sumir em vários jogos), o meia conduz a pelota e abre o jogo à esquerda para Léo, o canhoto Léo corta Léo Moura na intermediária e dispara, Léo corta ainda outro flamenguista na passagem e, de direita, enfia a bola para Neymar, em diagonal, no bico da grande área, Neymar ganha no jogo de corpo de David Braz e fica na cara do gol, Felipe ainda tenta emparedar Neymar, mas o atacante dá uma cavadinha de chapa – é fogo, é gol! – e manda a bola pro ninho da coruja do Mengão. Gol de classe, segundo gol de Neymar no jogo, e lá vai Ganso, padrinho do filho de Neymar, levantá-lo na comemoração junto à torcida, Borges vem pro bolo, Santos de novo à frente do placar, 4 x 3.

            É jogo de alta voltagem, nem parece que as equipes foram pros vestiários, nem parece que as equipes tiveram um intervalo, e o Flamengo, mesmo estando novamente em desvantagem, vai castigando o sistema defensivo do Santos, o queijo suíço da Vila, e Ronaldinho Gaúcho, derrubado (cenicamente) perto da pequena área por Edu Dracena aos 16 minutos, reclama de pênalti para o árbitro goiano, como quem diz o professor não deu aquele pênalti no primeiro tempo em cima do Neymar? Dois pesos, uma medida. Agora, a lei das compensações pede que o professor marque pênalti com o empurrão (cênico) do Dracena em cima de mim. O juiz caseiro diz que não houve nada, então segue o jogo, é jogo que segue!

            Quase 21 da etapa final, o volante Willians rouba a bola do volante Ibson e serve a ninguém mais que Ronaldinho Gaúcho à beira da grande área santista – alarme no alçapão! O Gaúcho, de letra, faz o carrinho de Edu Dracena passar batido – a torcida gritaria ooolééé se não estivesse com aquele grito de olhos esbugalhados em suspensão –, Ronaldinho protege a bola e faz firula entre os zagueiros já quase cruzando a fronteira da grande área – fronteira de um possível pênalti a ser cavado. Tá mais do que na hora, então, de perder um anel pra manter o dedinho de vantagem no placar: Arouca vai lá e faz a falta. É falta pe-ri-go-sís-si-ma contra a meta santista, a Vila fica apreensiva, o Gaúcho é um exímio cobrador de faltas, é ele mesmo que vai pra bola. (Como que a plagiar Marcelo Pereira Surcin, também conhecido como Marcelinho Carioca, o spitfire da Fiel, Ronaldinho se ajoelha e fica sussurrando uma resenha pra bola antes de tomar posição.) Rafael monta a barreira e se posiciona – 19,9 m de distância –, alguns jogadores do Flamengo, para encobrir a visão do goleiro, fazem uma barreira ao lado da muralha santista, tá feito o salseiro na grande área, já passamos dos 22 minutos.

            Ronaldinho fica com o olhar no vazio, a barreira já se prepara pra pular com a expectativa de que ele vai tentar encaixar a bola no ninho da coruja, Ronaldinho parte pra bola, a barreira salta, e o Gaúcho, matreiro como ele só, cerebral como ele só, experiente como ele só, dá um taquito seco de sinuca na bola que desliza direta e reta por sob os jogadores saltitantes, pega o goleiro Rafael de calças curtas e vai morrer, caprichosa, no fundo da caçapa do Peixe. Rafael, atônito, cai de bunda e queixo no chão. Ronaldinho Gaúcho sai correndo em direção ao banco de reservas com um sorriso rasgado de guri e dá um abraço no técnico como que a dizer, poxa, Luxa, eu te avisei que ia fazer isso aí, eu tinha cantado a bola, mas Luxemburgo, marrento de Nova Iguaçu, Baixada (e Quebrada) Fluminense, manda o craque retomar sua posição na meia-cancha.

            Que golaço, torcida brasileira, um gol de maestro, um gol de quem sabe tudo e mais um pouco de bola, um gol de quem fica jogando futebol de madrugada no PlayStation, um gol de quem jogou golzinho chinês na rua com pedra de construção como marca do gol, um gol de quem cansou de jogar rebatida quando era pivete.

            Atrás do gol santista, a Fla Manguaça do Urubu vai ao delírio.

            Jogo estonteante, jogo de tirar o fôlego, 8 gols na Vila – e tem mais?

            Tem, tem mais, sim.

            Como narraria Dirceu Marchioli Maravilha, se for pro gol, me chama que eu vou! E no toque-toque da bola e no tique-taque do tempo, na Bandeirantes São Paulo você fica sabendo – pã-pã-pã/ pã-pã-rã-pã-pã-rã (logo depois vem aquele barulho de onda radiofônica: póim, póim, póim, póim, pium, pium, pium, pium): Vila Belmiro, 34 minutos, etapa final, Santos 4, Flamengo 4 – a-guen-ta, co-ra-ção!

            Balão subindo e descendo e o Ganso perde a bola pro Deivid no círculo central. A defesa do Santos, o contumaz queijo suíço, está toda desconjuntada, são três defensores pra tentar conter a Blitzkrieg de Deivid, Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho – a covardia contra a zaga na marcação homem a homem –, Deivid serve a Thiago Neves, Thiago Neves vê Ronaldinho passar à sua esquerda e, antes da interceptação do zagueiro, desliza a bola pro Gaúcho, Ronaldinho adentra a grande área em diagonal – vem chumbo grosso, pimba na gorduchinha, Osmar Santos! –, o Gaúcho entrevê Rafael e, com açúcar e com afeto, dá um tapa curvo na bola e tira do goleiro pra fazer a bola morrer girando no fundo das redes praianas.

            Pela primeira vez, o Santos fica em desvantagem; pela primeira vez, o Flamengo comanda o placar – agora quem dá bola é o Mengo, peixada! Santos 4 x 5 Flamengo, 35’08’’.

            Nesse jogão de 9 gols – média de 1 gol a cada 10 minutos de partida –, o Flamengo, com o espírito pra lá de corinthiano, rola a pedra de Sísifo morro acima até convertê-la na bola cheia de Ronaldo Gaúcho e companhia ilimitada.

            Gaúcho marca seu terceiro gol na casa do anfitrião Neymar, como que a lhe dizer aprenda, juvenil, que there’s no place like home também é uma faca de dois gumes.

            O jogo continua elétrico, o jogo continua célere, mas o bonde do Mengão vai pondo o Santos na roda. Tem ooolééé da Fla Manguaça e da Urubuzada.

            O teeempooo paaassaaa: crepúsculo de jogo, torcida brasileira!

            Eis o coro da torcida do Mengo:

            – Ai-ai, ai-ai, ai-ai-ai, tá chegando a hora! O dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora!

            É quando apita o árbitro André Luís de Freitas Castro – fim de jogo na Vila Belmiro, um jogo para entrar na história e nas estórias dos botecos e firmas e portarias e escolas e quebradas do futebol brasileiro.

            Assim arrematou Roberto Avallone: Santos 1, 2, 3, 4, Flamengo 1, 2, 3, 4, 5, um placar chico-languiano para os amigos do Mesa Redonda Futebol e Debate. (Avallone se refere a seu velho colega Chico Nostradamus Lang, corinthiano de quatro costados da crônica esportiva e vidente das maiores goleadas.)

Exaustos, os jogadores vão trocando camisas, a torcida aplaude de pé os jogadores, os jogadores se abraçam e aplaudem os torcedores. Na tribuna de honra da Vila Belmiro, Edson Arantes do Nascimento, com os olhos marejados, aplaude o concerto regido por Ronaldinho Gaúcho e Neymar, que, no círculo central da cancha, posam para a posteridade.

Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira.

Extenuado como se eu mesmo tivesse jogado, eletrizado como se o Coringão tivesse acabado de se sagrar campeão, eu sinto o futebol como a tangibilidade da memória, o futebol como o retorno do meu pai.

Era uma vez o futebol, era uma vez o Corinthians, era uma vez, pai.

1988. Final do Campeonato Paulista. Estádio Brinco de Ouro da Princesa, Campinas. Guarani x Corinthians. Nós em casa. Quem? Meu pai e eu – minha irmã e minha mãe de butuca. Meu pai ia escalando o time junto com o Osmar Santos. O Neto ainda jogava no Guarani. O rádio e a TV ligados – meu pai não podia passar sem o Fiori Gigliotti. Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira! Tinha 7 anos, se tanto. A imagem da TV era bem chuviscada, eu tinha que chegar bem perto da tela pra poder ver o jogo. Sai daí, menino! Não sei por que minha mãe não gostava. Hoje eu uso óculos. Já chegaram perto da tela da TV? Você vê os pontinhos que formam a imagem – eu costumava levar a minha irmã nessas aventuras. Lara, sai um ventinho da tela, vem ver! E ela de fato encontrava a tela bem de perto – depois meu pai vinha brigar comigo, não sei por quê. Eu só queria que ela visse melhor, mas eu sempre achava que ela não chegava perto o suficiente – no que eu, claro, me dispunha a ajudar. E me dispus ainda uma – duas, três, quatro – vez(es) aquele dia. Curioso: pela primeira vez – e que eu me lembre –, meu pai não ligou. Brigou foi com a minha irmã, ora, que tá na frente da TV, caramba! Meu pai tava obsedado, eu não entendia. Eu mexia na pasta dele – e nada. Peguei até dinheiro na carteira dele – e nada. Pai, assina um cheque pra mim? Ele disse que depois assinava, depois, depois. Até promessa? Ali, na pasta, aqui, tem uma revista que eu sempre quis ver. Nem sei o que é, mas, bom, se eu não posso ver, bom, deve ser legal, deve ter figurinha, tem mulher bonita. “Penetrando em Lili”. Que que é isso? Bem, olha o menino ali, olha o que ele tá fazendo! Minha mãe. Esquenta não, esquenta não – e ainda passou a mão na minha cabeça. Confesso: a revista perdeu muito da graça – e ela tinha muita. Talvez eu quisesse saber o que é que prendia tanto a atenção do meu pai. E a gente tem dessas, né?! Me sentei no sofá como ele – tá certo que meus pés não conseguiam tocar o chão, bom, mas isso é com o tempo, né?, quando eu crescer. Ele protestava – eu também. Tinha algumas palavras que ele falava – eu não entendia. Minha mãe brigava – eu não. Pai, quanto tá o jogo? Peraí, peraí! Vi quando os olhos dele ficaram esbugalhados, o corpo foi pra frente, ele parecia que tava jogando – vai, vai! Nem notou que eu tirei a almofada dele – vai, vai! Nem notou, só notava, só, eu notava – vai, vai! A bola cruzou a grande área, era a primeira vez que eu via uma bobeada dos zagueiros – menos um, o atacante: Paulo Sérgio Rosa, o Viola. A bola cruzou a grande área, ele na pequena, carrinho, é fogo, é gol! Gol, gol, gol! É gol, é gol, é gol! Futebol é com a Bandeirantes, que traz a emoção desse gol pra mim, gol! Viola, Violão, Violino! Meu pai pulava, eu não entendia – mas, bom, bem, pulava junto, eu até sabia o que tava fazendo. O quê? Ué, meu pai pulava, eu também. Caiu até o bombril da antena da TV, daí a imagem ficou chuviscada, chuviscada, mas já não interessava. Corinthians Campeão Paulista! Eu, um corinthiano.

1990. Final do Campeonato Brasileiro. Estádio Cícero Pompeu de Toledo, também conhecido como Morumbi. São Paulo x Corinthians. Nós em casa. Quem? Meu pai e eu. Meu pai ia escalando o time junto com o Luciano do Valle. O Neto já jogava no Corinthians. Quem? José Ferreira Neto, meu primeiro ídolo no futebol. O rádio e a TV ligados – eu e meu pai não podíamos passar sem o Fiori Gigliotti. Crepúsculo de jogo, torcida brasileira, placar Bandeirantes: São Paulo 0, Corinthians 0. Eu já conhecia o ritual, ora: a bola tá chegando, vai, vai, vai! Xinga se tiver vindo, xinga, xinga! Ele, né?! Eu xingava baixinho, minha mãe tava sempre por ali – olha o menino, bem! Aquele campeonato foi todo pra minha pasta. Sim, eu tinha uma pasta! Recortava todas as notícias do Diário do Grande ABC, tudo o que saía do Corinthians. Curioso: por que as notícias do Diário do Grande ABC são iguais às da Folha ou do Estadão? Vai saber! O time do São Paulo era melhor – assim todo mundo dizia, todo mundo. Meu pai também. Eu ficava bravo, ficava triste, acho que inventava um mundo só pra mim – e o Corinthians era o melhor, claro. E o Neto, bom, o Neto comandava, sempre. Quando fazia gol, ele deslizava de joelhos, vibrava alternando os braços pra cima, era uma comemoração só dele. O Neto levou o time nas costas – nunca um time foi Campeão Brasileiro com tantos empates por 0 a 0. Mero detalhe. Meu pai tava de folga, até tinha falado que um amigo do serviço tinha ido lá pro Morumbi. É, pai? Pó-de-arroz, vai ver o São Paulo perder! Que que é pó-de-arroz, pai? Bem, olha o menino! Minha mãe sempre à espreita. O jogo tava duro, muito difícil, o Ronaldo tava garantindo. Quem? Ronaldo Soares Giovanelli, meu segundo ídolo no futebol. Curioso: antes, o Ronaldo era reserva do Carlos – se não me engano –, e ele então tinha entrado pra cobrir o titular que tava contundido. Era um clássico contra o São Paulo. Teve um pênalti. O Ronaldo chamou pra si a responsa, bateu as luvas e o caramba. Dario Pereira na bola – e o Ronaldo de-fen-deu! E ele ali, agora, garantindo todas. Meu pai tava reclamando muito – por que o Nelsinho não mexe no time? Quem? Nelsinho Batista, técnico do Coringão. Mas a gente sempre tinha o Neto – assim eu pensava. E, bom, eu tinha sempre um truque – e tava dando certo, e dá certo. Lembra aquela almofada que eu peguei do meu pai, em 88? Só 2 anos atrás, lembra? Pois então: passei a ver os jogos sempre com ela, sempre. Quando o time adversário atacava, bom, eu sempre fazia uma figa debaixo da almofada, uma boa figa – e não saía gol, não saía. Não saía? Se saísse eu já sabia: tinha feito a figa errada, era esse o problema. E naquele jogo, aqui, a figa tá funcionando direitinho. Meu pai era alto, é grande, minha mãe sempre falava do lustre na sala, que ia quebrar – mas não dava pra deixar de pular, né?! O Neto lançou o Tupãzinho na ponta direita – olha o Tupãzinho, mãe, o Tupãzinho: minha mãe vinha correndo ver, ela é de Marília, cidade próxima a Tupã. Minha mãe era palmeirense, meu vô Ricardo era italianão – mas logo ela vai virar corinthiana, deixa estar. O Tupãzinho seguia com a bola, ponta direita, e quem o marcava, quem? O Cafu, torcida brasileira, o Cafu. Mas ele – desde aquela época! – deixou o Tupãzinho ganhar espaço, deixou o corinthiano se aproximar, e ele veio, e nós vínhamos, já távamos de pé – e o Cafu então foi pra cima, opa!, tomou um rolinho, bola no meio das canetas, coisa linda!, o Tupãzinho tocou pro Fabinho, atenção, torcida brasileira!, o Fabinho de frente pro Zetti, chuta, puta que o pariu!, o Zetti pega, e rebote, e rebote, e rebote, Tupãzinho o carrinho é fogo é gol! Gol, gol, gol! É gol: que felicidade! É gol: o meu time é a alegria da cidade! O Tupãzinho foi comemorar com a Gaviões, a Coringão Chopp e a Camisa 12, a gente pulava, o lustre cortou a careca do meu pai, manchou até minha camisa do Neto – minha primeira camisa corinthiana, a primeira de todas. Patrocínio da Kalunga. Minha mãe até que não reclamou muito, ficou estancando a ferida pro meu pai que berrava, a gente cantava – ele até me deixou dar uma bicadinha na cerveja, Tadeu, olha o menino, Tadeu! E o Senra, o colega de serviço do meu pai, o Senra pó-de-arroz tava no Morumbi – meu pai ria e vibrava. E eu me lembro, eu me lembro: um corinthiano, já velhinho, ia cruzando o campo do Morumbi de joelhos, ele foi até o gol do Ronaldo – naquela época a gente podia invadir o campo. O velhinho que era a cara do Vicente Matheus tirou as redes das traves e pagou sua promessa, e foi assim que eu aprendi o que é a fé, foi assim que eu descobri que existe uma realidade mais tangível do que a realidade que existe apenas aqui e agora – uma cidade invisível, Atlântida, no centro da qual há um campão de futebol, um campo de terra batida e alaranjada, o terrão de Itaquera, o estádio ausente do Corinthians, Campeão Brasileiro, pela primeira vez, em 1990. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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