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E agora, Moisés? E agora, você?

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 Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope
você marcha, José!
José, para onde?

Drummond, E agora, José?

Chicago, 01 de abril de 2015

            É fim de ano letivo na Escola Estadual Gilberto Freyre, que fica no bairro de Nova Atlântida, periferia da periferia da cidade de São Paulo.

            É fim também da minha última aula de Sociologia para os estudantes do 3ºZ, uma das turmas do terceiro ano do Ensino Médio.

            Quando eu tô pra sair da sala, o Joca, um dos melhores (e mais controversos) alunos da turma vem me cumprimentar.

            – Pô, professor, valeu mesmo por essas aulas aí, o senhor mandou bem pra caramba, abriu a cabeça da gente!

            – Não precisa me chamar de senhor, não, Joca – o senhor não deveria existir nem no céu e nem na terra.

            – Pô, professor, é sem maldade, é força do hábito, é que lá na biqueira nego tem que chamar o comando de senhor, professor, senão a chapa esquenta...

            – Pois é, Joca, tô preocupado com você, velho – e não é de hoje. A gente já não tinha conversado sobre esse lance da biqueira? Cê não tinha falado que ia parar de trabalhar lá?

            – Pô, professor, é papo reto, é por isso que eu vim aqui falar com o se... com você. Eu quero saber se eu posso mandar a letra na real, de boa, se eu posso te falar mesmo o que eu tenho pra te dizer.

            – Ué, Joca, e por que não? Eu sempre incentivei vocês a se expressarem, não é verdade?

            – Até é, professor, até é, mas...

            – Mas o quê?

            – Pô, professor, eu vou mandar a letra mesmo, hein? O se..., digo, cê não vai ficar cabreiro comigo, não, né?

            – Joca, para com xaropada, velho. Senta aí, e vamos conversar. Que que tá pegando?

            – O negócio é o seguinte, professor: eu pensei bastante naquele montão de coisas que cê me falou. Que eu sou um cara inteligente, que se eu estudar de verdade eu vou conseguir dar um futuro melhor pra mim e pros meus filhos, que eu vou me tornar um exemplo pra molecada aqui da quebrada, mas que eu tenho que ralar dez vezes mais que a playboyzada lá da pista do centro, que eu tenho que ficar esperto no Enem, que eu tenho que ficar ligeiro no ProUni – é esse mesmo o nome daquele treco? (Aquiesço com a cabeça.) Mas o negócio é o seguinte, professor – e agora eu vou mandar a letra mesmo, eu pensei pra caramba naquilo que a gente conversou, e eu não quero que o se... opa, que cê fique puto comigo, professor, mas eu vou te dizer, saca só: cê é bem intencionado, professor, cê é sujeito-homem, cê é um cara firmeza, cê sempre tratou a gente com respeito, mas cê não é daqui, professor, é? Cê não veio da quebrada, veio? Qual que é mesmo o nome daquele curso que cê tá fazendo lá na USP?

            – Doutorado, Joca, doutorado.

            – Pois é, professor, pois é: cê já é quase um doutor – e cê é humilde, cê não quer que a gente te chame de senhor, eu já imagino que cê também não vai querer que a gente te chame de doutor, mas cê quer a real, professor?

            – Tô te ouvindo, não tô?

            – Então segura a bronca, professor: a real, professor, é que, aqui neste cu virado do avesso – Joca aponta pra janela e me mostra os predinhos rotos da Cohab, as casas de alvenaria e os barracos de madeira rente ao córrego –, aqui nesta buceta que ninguém quer comer, aqui neste inferno, já não tem lugar pra boa intenção, não, professor. A ação é o que manda, quem comanda dá o papo. Mas isso é só pra esquentar, professor, vê só: cê antes veio com o sermão, agora eu venho com a reza, o pão nosso de cada dia – não, não, pão nosso, não, pão meu, pão dos meus filhos. Não é pão teu, professor: cê tá aí, de boa, fazendo doutorado, e tal. Cê pensa que eu não sei que, quando cê terminar esse doutorado, cê vai vazar aqui da escola, professor?

            Resvalo o queixo com o dedão e o indicador direitos.

            Não consigo dizer nada.

            – Cê pensa que eu não sei? Cê pensa que a gente não sabe? E tem mais, professor, vixe, tem muito mais: cê não gosta que a gente chame você de senhor, cê não vai querer que a gente te chame de doutor – bom, cê num vai tá mais aqui pra gente te chamar de doutor mesmo, né? –, cê é humilde, professor, mas aí é que tá: eu também queria ser humilde como o senhor, professor – agora eu preciso falar senhor, professor, cê vai me desculpar –, eu também queria ter a humildade do doutor, meu pai que a ROTA desovou ali no lixão também ia querer ter a humildade do doutor, minha mãe que deu facada no meu pai – até que enfim um dia ela reagiu depois de tanta porrada! – e que tá com fumaça de pedra até no cérebro trancafiada lá no hospício do Juqueri, professor, minha mãe também ia querer ter a humildade do senhor doutor. Cê vai me desculpar, professor, mas a humildade do doutor é a humildade de quem não dorme com cheiro de córrego cheio de bosta no pulmão, é a humildade de quem não conhece esse nosso Jordão aqui da quebrada que a Sabesp não veio batizar. E nessas aí, professor, nessas de pensar naquilo que cê me falou sobre a biqueira e a vida, professor, eu achei lá no Google da lan house uma frase do caralho, porra, lembrei do nosso papo na hora: quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de luxo!

            – É do Joãozinho 30.

            – Pois é, professor, é dele mesmo, tá vendo?, cê não precisa do Google da lan house, cê já tem o Google no crânio... Mas eu vou te falar, professor, eu vou te dizer: não me falta só dinheiro, não – me falta respeito! Sim, respeito – é isso que me falta. E você não quer ser chamado de senhor e de doutor porque cê não precisa. É, é isso aí, cê não precisa: alguém já mudou de calçada porque cê tava vindo na direção da pessoa? Diz aí, professor, vamos lá: com essa cara de playboy, professor, alguma mina que cê queria já te olhou como se cê fosse um toco de merda? Porra, professor, uma vez, sem maldade, eu chego na mina, de boa, na moral, mando a letra, e tal, pergunto o nome dela, no respeito, na tranquila, e a burguesinha diz que, pra mim, ela não tem nome. Cê já ouviu uma dessa, professor, cê já ouviu?

            Resvalo o queixo com o dedão e o indicador esquerdos.

            Consigo dizer menos que nada.

            – Ah, professor, se eu fosse o senhor ali, se eu fosse o doutor ali... Me diz uma coisa, professor, sem balela: quando é que cê começou a trabalhar? E mais: cê teve que trabalhar enquanto estudava?

            Como é que eu explico pro Joca que, como eu recebo bolsa de doutorado, como eu moro com a minha namorada que também faz doutorado e também recebe bolsa, como a gente não paga aluguel e não tem filhos, eu dou aula mais por militância do que por necessidade?

            (Pedagogia do oprimido ou o oprimido como pedagogia?)

            Joca continua a me ensinar a pedagogia da opressão.

            – Aí, professor, cê não vai me levar a mal, não, mas eu vou te dizer mais: se eu tivesse a vida de boa, se eu pudesse escolher o que fazer deitado numa rede, eu não ia estudar Sociologia, não. Sem maldade, professor, na moral. Eu vi tuas aulas com interesse, até tentei ler os textos – sem dicionário fica difícil, né, professor? –, mas que que a gente faz com isso? É pra dar aula depois, é pra virar professor? Não me leva a mal, professor, mas, cê é pra ganhar essa merreca, o mercadinho ali da esquina me paga quase a mesma merda. Mas aí é que tá, professor, e aí a gente entra na biqueira – apesar de cê nunca ter entrado lá na biqueira de verdade, né? Não, professor, não fica com essa cara, eu não tô achando que cê tem medo, não, mesmo que cê tenha. Pra quem não conhece aquilo ali, é coisa de tremer mesmo. Mas o negócio é o seguinte: eu sempre quis mais, professor, sempre! Relógio bom quem não quer? Tênis bom quem não quer? Bombeta chegada quem não quer? Eu quero – não é pra querer? Na tua aula cê disse que a gente precisa refletir sobre o consumismo e o caralho, que a gente vira escravo da mercadoria, não é assim? É, professor, não é, não... A gente é escravo mesmo sem ter mercadoria. É só olhar pra qualquer um aqui da quebrada, professor. E cê não trouxe pra gente tuas fotos da viagem pra Roma? Cê não mostrou o coliseu pra nós? Ah, então cê não gosta de ir pro shopping, professor, cê não faz rolezinho, mas cê gosta que gosta de outros rolês, né? E cê acha que a gente aqui da quebrada precisa mesmo ver aquelas imagens das paredes de Berlim até hoje rasgadas pelas balas da Segunda Guerra, professor, pra saber o que é um tiroteio? E tem mais: lembra que cê passou pra gente o Tropa de Elite?

            – O 1 ou o 2?

            – O 1. Tem aquela cena do Neto, aquele cara que quer entrar pro Bope, o Neto ali, na frente do espelho, empunhando a arma descarregada pra lá e pra cá e fingindo que tá atirando. Lembra, professor? (Aquiesço com a cabeça.) Então, ali cê veio falar da influência dos filmes de Hollywood no nosso imaginário – que palavra bonita, hein?, cê falou, eu guardei, professor –, que a construção da figura do homem, da figura masculina, passava (foi assim mesmo que cê falou?) pelo porte de armas, pelas brigas, pela fala grossa, pelo lance de pagar de machão, e tal. Todo mundo ficou matutando nisso aí, professor, porque aquilo parecia natural pra galera, era igual puxar oxigênio e maconha pra dentro do peito. Mas aí eu fiquei pensando um negócio naquele dia, e o negócio é o seguinte, professor: quantos mortos cê já viu na vida?

            – Minha vó e meus pais.

            – Alguma morte matada?

            – Não, Joca, só morte morrida.

            – Ah, professor, com todo o respeito (e meus pêsames...), isso é que é vida, professor, isso é que é morte, professor – isso é que é sorte! Agora, professor, se cê tivesse que me fazer essa pergunta, cê não ia poder fazer a mesma pergunta, não. Não, não ia – e cê sabe disso. Saber, em teoria, cê sabe. O que cê não sabe – e é por isso que cê falou o que cê falou da cena do Neto – é o que a morte nossa de cada dia (a morte matada) faz com a cabeça do peão da quebrada. Quando nego só vê morte no hospital, professor, (a morte morrida), quando nego só vê morto no velório, aí o choro é livre, aí é pra chorar mesmo, porque aí a coisa não tem volta, aí a separação não tem remédio. Nego chora porque não tem mais o que fazer, nego chora de impotência. Morte morrida é a vida. Agora, professor, e a morte matada? E cadáver que tá ali perto da porta do teu barraco? E presunto que tá na escada do predinho Cingapura, defunto que desovaram perto da gangorra e do gira-gira do teu filho, no esgoto onde a tua mulher vai tentar pegar água pra cozinhar e tomar banho – porque aqui na quebrada a gente precisa separar o joio do trigo, a água da bosta. Com essa presuntada toda, professor, com esse cemitério a céu aberto, a criança se acostuma, a mulher se acostuma, o homem já vai se acostumando, ele já sabe pra onde vai logo menos, professor. Nego não precisa de sete palmos de chão pra saber o que é putrefação – outra palavra bonita, professor, hoje eu tô inspirado! A criançada aprende Biologia com a formigaiada na boca do presunto. E aí cê vem falar que o Neto, o aspirante do Bope, tava lá todo empolgado pra invadir favela de fuzil, que ele ficava se olhando no espelho e via o Rambo e o Schwarzenegger, que ali ele se via e se descobria como homem, e tal. Mas, professor, isso aí é resenha da pista pra lá, isso aí é fábula que vem do outro lado da ponte, isso aí é história que não é pra boi dormir, não, porque aqui em São Paulo não tem boi, isso é história lá pra rapaziada do centro, pra quem toma leite Ninho. Aqui pra nós, professor, a letra é outra. Porque, sim, nego até já viu os filmes do Rambo e do Schwarzenegger, nego quer comer aquelas minas dos filmes do Van Damme, mas, aqui na quebrada, nego não tem que ser respeitado, não, nego tem que impor o respeito, o respeito que nego leva na cintura. (Joca levanta a camiseta e me mostra uma quadrada cromada.) Então, professor, o Neto, todo empolgado com a quadrada naquela cena, me mostrou que ele não conhecia muito do riscado, não. Só fica empolgadão com uma coisa quem nunca lidou muito com essa coisa, professor. Quem tem medo de morto é quem nunca viu muito morto, quem tem medo da morte é quem nunca teve que arriscar a própria vida, e quem fica admiradão com a quadrada é quem nunca sentiu a quadrada como a extensão do próprio corpo. Essa quadrada aqui, professor, esse ferro é minha mão, essa quadrada é minha mãe. Então, professor, aqui o papo é outro: o PM jovem como o Neto que sai do quartel com sangue nos olhos quer ouvir o barulho da bala, quer sentir o cheiro da pólvora, quer ver o recuo do fuzil, quer dar tiro de 12, ele quer brincar de faroeste, quer fazer safári com a gente. Ué, pode vir quente que eu tô fervendo, professor, porque aqui não tem deslumbramento, não, aqui o Rambo tá do nosso lado, o Predador é o dono da boca, o Exterminador do Futuro é o guarda do dono da boca – é pro chefão que a gostosinha quer dar, é o chefão que conquista o respeito de Deus e o mundo. O chefão não precisa de espelho como o Neto do Tropa de Elite, não, professor – quem precisa de espelho é o playboy deslumbrado do quartel, é nego que quer matar negro. O espelho do dono da boca é o olhar de tesão da cocota, é a voz gaguejada do polícia que vem pegar o arrego do tráfico no fim da semana, é o bom dia do pastor. O dono da boca, se viesse lá de onde cê veio, professor, o dono da boca tinha feito algum curso de bacana, faculdade pra ganhar dinheiro mesmo, curso pra impor respeito com o crânio, e não pra exigir respeito na cintura. Mas o dono da boca não teve a tua sorte, professor, e eu também não tive. E aí vem o lance da biqueira, professor, vamos lá. Nem precisa dizer quanto cê ganha, professor – o quê cê ganha num mês, professor, eu tiro num fim de semana lá na biqueira. Aí vem você me falar pra ter paciência e ralar em outro trampo, aí vem o pastor falar que eu tenho que ter fé e perseverança – é palavra bonita que não acaba mais hoje! Ah, professor, dá vontade de chorar, sermão na escola, sermão na igreja, é tudo tão lindo! Mas vamos lá, professor, vamos lá: nego vem aqui pra escola, antes de mais nada, pra tomar café da manhã. E, se tiver almoço – e quando tem almoço –, nego vem pra comer. A primeira coisa é essa, isso aí cê já sabe. Mas o que cê não sabe e nunca vai saber, pra tua sorte, é que, na escola, nego ganha o quintal que nunca vai ter no barraco. O professor quer silêncio na sala de aula – porra, professor, que mané silêncio! A molecada quer mais é correr na quadra e na escola – cê já dormiu com 5 irmãos na mesma ripa de cama, professor? É aquele calor lascado, cê espanta varejeira, cê grita quando passa rato, daí vem pra escola e tem uma quadra e um corredor, que que cê quer fazer? Cê quer mais é correr, cê quer mais é gritar – gritar no barraco não pode, chama a atenção, teu pai, quando ele ainda existe, tem que acordar às 4 da matina pra ir trabalhar na merda da portaria do prédio do bairro de playboy às 8 da madrugada. Isso é uma coisa, professor, e tem mais. Vixe, se tem! Vamos pra igreja, professor? Sim, sim, eu já sei que cê é crítico da igreja, eu já sei que veio mãe crente de saia longa e de cabelo de trança reclamar do senhor aqui – que o senhor não é nosso pastor, que o senhor não pode dar sermão pra molecada –, mas, mesmo assim, cê tem culhão, professor, cê continuou a fazer crítica da Bíblia, e tal. Mas vamos lá, professor, vamos lá: nego não tem família – quando tem, muitas vezes, é pior do que não ter. Cê lembra que o Wescley veio aquela vez sem sobrancelha pra escola, professor? Cê lembra? Pois é, depois fiquei sabendo o que foi – aí nós vamos ver onde é que a igreja entra, vai vendo só. O pai do Wescley, só pra não variar, era mais um nego puxando cadeia. E, pra você, professor, pra rapaziada do leite Ninho, puxar cadeia é pena de morte, é coisa pra deixar nego arrasado, é sentença pra derrubar nego na depressão. Pra nós aqui da quebrada, cadeia é status, professor, pra nós é parte da escola, é parte da formação, é parte da carreira. Quem puxa cadeia mais longa é mais sujeito-homem, tem mais pica grossa. É cara da responsa – mais uma vez, professor, é cara do respeito, é cara que exige respeito. Já começa por aí. E o pai do Wescley era bicho ruim, vai vendo. O cara chegou em casa, a mulher ali esperando ele, o cara já tava mamado na cachaça. Aí o sangue ruim foi lá e mandou ver na mulher dele na frente do Wescley – mandou ver com força, daquele jeito, cê bobear ele comeu o cu da mulher sem nem dá uma catarrada pra preparar o terreno. O Wescley começou a chorar porque a mãe tava chorando, o Wescley se cagava de medo do pai. O pai ainda tava na pegada, o Wescley ali enchendo o saco, o pai sangue ruim foi lá e raspou a sobrancelha do Wescley, eita porra! Caralho! Então taí, professor, taí. Nego é catarrado, nego é cagado, nego é desprezado – mais uma vez, ninguém respeita o peão. Daí vem o pastor, professor, você critica, você tá no teu direito, mas ouve isso aí, professor, ouve, cê tem dois ouvidos, então ouve, aí vem o pastor, professor, e fala pro cara: Jesus te ama. Cê ouviu isso, professor? O pastor vem e fala pro analfabeto catarrado: Jesus te ama! O cara vê a foto de Jesus, Jesus todo bonitão, o Messias não parece o piolhento da favela – cê já viu o JC com a cara calminha, calminha ali na cruz? Pulso rasgado de prego, canela rasgada de prego, e o JC calminho, calminho. Deve ter tomado Maracugina, só pode. Pois é, o JC tá lá. E o JC é filho de carpinteiro, ou seja, o JC é filho de um mulambo que podia morar aqui na favela, mas nego respeita o JC, o mundo inteiro respeita o JC. Ah, se respeita! E vem o pastor perto de você, ele vem dizer pra você que Jesus te ama – será mesmo que o JC ama esse toco de merda? Porra, Jesus é branquelão, professor, tem aquela cara de paz e de santo, e ele ama um catarrado como eu? Porra, que que o JC tem de errado? Bom, deve ter algo de certo no JC, porque eu tô sofrendo pra caramba, né?, e ele se preocupa comigo. O JC é firmeza, ele é o pai que eu não tive, é o irmão que eu tanto queria. Então, professor, o pastor vai lá, é só na lábia. E o que que acontece lá na igreja? Vamos lá pro galpãozinho dos crentes. Lá o cara fica gritando no microfone que Jesus te ama, o pastor grita que grita, o pessoal já tá acostumado com desmando de chefe filho da puta, então por que que nego vai estranhar o pastor, né? E aí, professor, lá na igrejinha, lá no galpãozinho, o pastor fala que o milagre opera, mas, aí sim, aí como cê explicou, professor, acaba se formando uma rede de ajuda. O dono do mercadinho dá uma chance pro cara que saiu do tráfico, o que cara que metia assalto quer mudar, então o pastor vai pra lista de contato dele e dá um emprego de leão de chacará pro cara na própria igreja – o dízimo tá crescendo, professor, de grão em grão o galo garnizé, o galo da rinha, enche o papo, então nego tem que proteger a arca de Noé. Nego não tem família, nego acaba encontrando uma família. Nego não tem carinho, nego até encontra carinho. Nego consegue namorada, nego consegue casar, aleluia, professor, aleluia! De um lado cê tem o restaurante da escola (a escola como restaurante) pra forrar o estômago, o professor como carcereiro pra já ir preparando a molecada pro confinamento futuro e a polícia pro batizado, do outro lado cê tem a igrejinha. Cê vai pra onde, professor? Olha aí os dois lados da moeda, professor. E que lado cê prefere? Ué, o gado vai pra onde vai a boiada. Isso aí é pra maioria, professor. Quando eu não aceitei isso aí – porque eu quero mais, professor, eu quero mais! –, o pastor falou que Satanás tava me tentando. Daí eu respondi na lata, ah é?, o demo tá me tentando? Pobrezinho do diabo, pastor, pede pra ele ir falar com o meu pai lá no inferno, o capeta vai ter uma aula de diabrura com aquele filho da puta que me pariu! E tem mais: quem prospera é porque Deus quis, pastor? Então eu vou prosperar, mas eu vou no meu caminho, ninguém vai me dizer o que eu tenho que fazer, eu não sou fraco, eu não sou boi de presépio – como cê mesmo diz, professor, a gente até pode ser boi de piranha dessa sociedade, mas boi de presépio eu não sou. E aí, pastor, eu preciso mesmo ficar agradecido por aquele empreguinho de merda no açougue que cê conseguiu pra mim? Porra, muito obrigado, o senhor é ponta firme mesmo! Mas o senhor come acém, pastor? O senhor come músculo, pastor? Por que é que no churrasco da igreja tem sempre picanha, pastor? Por que é que só no churrasco da igreja tem picanha, pastor? O irmão da igreja é mais irmão do que eu que sou ovelha desgarrada, pastor? (Ué, mas e a parábola do retorno do filho pródigo, pastor?) Será que cê só sabe se relacionar comigo, pastor, se for pra fazer pregação e pra me levar pro teu rebanho? Cê não sabe falar comigo sem fazer sermão, pastor? Cê não quer ouvir o que eu tenho pra dizer, pastor? Será que cê não devia fechar a Bíblia pra ouvir mais o sofrimento do mundo real pra além do Livro de Jó, pastor? Cê não pode ser meu amigo se eu não for fiel da tua igreja, pastor? Pois é, professor – cê percebe que, aqui na quebrada, de pregador e de promessa tá cheio: é pastor que não acaba mais, e, cê vai me desculpar, professor, porque professor também tem muito de pastor... De pregador e de promessa a quebrada tá cheia, o que falta mesmo é milagre. Nem a Graça de Deus vem de graça, professor – a Graça, no máximo, vem a fiado. E aí eu te pergunto, professor: que que acaba fazendo um camarada como eu que vê o que a boiada daqui não vê? Na tua pregação, professor, a cartilha já tá prontinha: um cara como eu vai estudar, um cara como eu vai lutar, um cara como eu cara vai querer coisas diferentes, um cara como eu vai pro movimento social, um cara como eu vai pra política. Pois é, professor, é tudo lindo e maravilhoso. Como é que é mesmo o hino comunista? “De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da terra!” Porra, professor, cê já viu o camarada morto de fome ficar de pé? Cê tá de brincadeira, né? E a gente estudou o MST, né, professor? Eu fui procurar a capivara do João Pedro Stedile no Google da lan house. O cara é economista, foi estudar lá no México – nem sei se lá é bom, mas o México já é na gringa, professor, deve ser melhor que esse cu daqui. A gente estudou o MTST, né? E eu fui procurar a capivara do Guilherme Boulos. Pô, professor, o cara estudou lá na tua faculdade, cê tá com moral, professor! Mas e aí? Eles são os líderes, é o mesmo caso do doutor que não quer ser chamado de doutor, mas é sempre o doutor que é o frente. Cadê a rapaziada da quebrada pra tomar as rédeas da própria vida? E, professor, veja só, não tó dizendo que esses caras não são do caralho, não, o líder do movimento social até aceita viver na merda, ele muda de bairro, vai viver a realidade do camarada que não tem terra e casa pra morar. Tudo bem, de boa. Tem louco pra tudo. Cê até falou pra nós que o Che Guevara, lá em Cuba, largou o trono no governo revolucionário pra ir passar o pão que o Fidel amassou no Congo e na Bolívia, né? O Che tinha uma esposa toda bonitona, a Aleida, ele tinha respeito, professor, mas o cara foi e largou tudo por um ideal. Eu até respeito isso aí, professor, e eu refleti muito no que você falou. Vixe, se refleti! Cê falou até do Gandhi, lembra? Puta cara, revolução pacífica com muita resistência e consciência. Porra, aí é do caralho, porque às vezes – muitas vezes, professor, eu vou te dizer –, às vezes a gente vê sangue nos olhos desses caras que querem mudança radical, é cara da revolução querendo passar bala em quem tá por cima da carne seca, mas como é que a gente vai mudar essa porra toda se a gente fizer o mesmo que a PM já tá fazendo com a gente, se a gente acabar passando fogo na grã-finagem? Será mesmo que a gente vai criar um novo mundo em cima de cadáver? Ah, professor, eu não vejo novo mundo nenhum aqui no cemitério a céu aberto da quebrada. Depois que a gente tomar o poder assim, a gente depois vai começar a matar entre a gente mesmo pra ver quem fica com o barco e a cobertura, pra ver quem chupa o mel e a rapadura, é isso aí. E, professor, daquela merdaiada toda que o pastor fica vomitando, professor, daquele blábláblá gritado que não termina nunca, tem uma história que sempre me deixou cabreiro. Não sei se cê vai conhecer essa história, professor, porque cê é o primeiro cara que eu conheço que fala pra caramba mas que nunca cita a Bíblia – é que aqui na quebrada quem fala que fala é religioso, ajoelhou e articulou tem que rezar. Mas, então, lá na Bíblia tem aquela história de Moisés conduzindo a judaiada pelo deserto. Nego tinha saído da escravidão no Egito, eu ficava imaginando aqueles blocos das pirâmides, o professor de História falou disso aí pra gente, ele leu até um poema do caralho de um alemão, acho que o cara era alemão, não lembro o nome dele, um poema em que o cara ficava fazendo a gente questionar as pirâmides, que aquilo não era só bonito, não, que a gente tinha que saber quem tinha construído as pirâmides e em quais circunstâncias, e tal, ali eu gostei, mas aí o Moisés tava lá no deserto com a judaiada que tava acostumada a tomar chibata no lombo. E parece que eles passaram 40 anos naquela merda toda, as tribos começaram a ficar sem paciência – porque nego quer vida boa não é pra amanhã, não, professor, é pra hoje. E se cê vier me dizer que isso aí tá errado, que nego que só pensa no hoje tá errado, eu vou te falar pra levar tua mina, que, desculpa te dizer, professor, com todo o respeito, porque tua mina deve ser boa, né, professor?, eu vou te falar pro cê levar tua mina prum jantar à luz de gambiarra lá na laje, professor, porque aí, cê ela te lançar um eu te amo ali, vixe, cê já pode casar com ela porque essa é pra ser a mãe dos teus filhos, mas, professor, o Moisés é foda, e eu fiquei pensando: por que que esse cara não chega nunca nessa porra de terra prometida? Deve ter alguma coisa nesses 40 anos de peregrinação, tem alguma coisa escondida aí – o professor de Literatura, professor, quando ele aparecia pra dar aula, né?, o professor de Literatura sempre falava pra gente que quem vê cara, na verdade, vê coração, mas aí a gente tem que decifrar o que vê, como se sempre tivesse alguma poeira embaixo do tapete, como se o não sempre tivesse um sim de butuca – bom, cê xaveca uma mina e sabe que é assim, o não é sim, então vai que vai. Mas aí eu fiquei queimando a mente, professor, eu ali fazendo a contabilidade da biqueira – porra, aquilo ali é fácil pra mim, é de boa, faço a contabilidade rapidinho, o difícil é ganhar o que eu ganho lá na biqueira em qualquer outro lugar –, eu ali na biqueira, na responsa, meu corpo ali, mas minha cabeça tava no deserto do Moisés, aquele Che Guevara das antigas, o cara era filho adotado pelos reis do Egito, tava bonito na foto, daí o cara vai e descobre que, na verdade, é judeu, é filho do povo escravo, professor, daí o cara vai e desiste do trono e das mordomias – isso aí, vou te ser sincero, professor, isso aí já é algo que eu não consigo entender, não, mas, como eu já te disse, professor, tem louco pra tudo. O fato é que esse Moisés tava levando a judaiada pra essa tal de terra prometida, mas o fim do arco-íris nunca chegava. Até que, com razão – e, se eu tivesse lá, eu ia querer liderar uma revolta daquelas também, ah, se ia! –, nego começou a falar grosso com Moisés, nego começou a fazer panelinha, a coisa tava perigando de se dispersar toda. Daí, se você leu a Bíblia, professor – cê acredita em Deus, professor? (faço cara de Esfinge pro Joca) –, cê sabe que tem a história dos dez mandamentos, que tem o bezerro de ouro, mas, pra mim, tudo isso é secundário. O que eu pensei, professor – e até ia escrever isso um dia, professor, se isso desse algum dinheiro fora da biqueira, se isso desse pra pôr comida na barriga dos meus filhos, e cê ainda tem que ir lá no barraco conhecer eles, professor, minha mina vai fazer um rango pra nós lá, leva tua mina também, vai ser da hora, professor –, o que eu pensei foi o seguinte, vamos lá: o Moisés barbudão era líder – ou seja, professor, ele até abandonou o trono, mas quem é rei nunca perde a majestade, porque ele ainda dava as cartas pro povão, né? Mas o Che Guevara das antigas tava mesmo passando o pão que o diabo amassou, o cara tava comendo grilo e gafanhoto no deserto, o cara ficava naquele mundaréu de areia e sofrimento. Todo mundo pensa no objetivo final, professor, na terra prometida, e é lá que a rapaziada pensa em montar aquela rede da boa vida – é aquela história de esperar o mundo acabar em barranco pro nego se encostar. Mas aí me veio na mente uma parada doida, sei lá, eu até engasguei na fumaceira do baseado, professor – porra, professor, cê nunca me falou merda por causa do baseado, será que cê bola um banza também? Porra, professor, é só me dizer, te descolo um na responsa, precinho bom que só vendo, cê nem precisa pagar agora. (Faço cara de Esfinge novamente.) Mas, bom, professor, voltando lá, me veio uma parada na mente que me pareceu firmeza, coisa até nova, vê aí, professor, vê aí cê eu tô viajando nas ideias: e se a trajetória do Moisés fosse uma metáfora – é metáfora isso aí, professor?, vê lá –, e se a trajetória dele fosse um lance de sugerir que esses 40 anos de peregrinação pelo deserto são mais do que 40 anos, que eles são 400 anos, 4000 anos, que a gente não tem que pensar apenas na terra prometida, não, que a gente não pode chegar até a terra prometida do jeito que a gente tá agora, na merda que a gente tá agora, que a gente tem que mudar as coisas, sim, mas que a gente tem que mudar o nosso coração também – tem lá aquela passagem do JC, passagem bonita pra caramba, professor, uma passagem do filho do carpinteiro que sempre me tocou, até então eu não sabia por quê, agora eu sei, acho que sim, Jesus diz que o tesouro verdadeiro tá dentro do coração do homem, e, bom, dentro do coração não tem pote de ouro, então o fim do arco-íris, se é o coração, não é um pote de ouro, a terra prometida não é só coxa de frango e carrão, professor, é coisa diferente, é um mundo que dói até de imaginar, mas aí me veio aquele lance do Gandhi que cê falou, professor, aquele lance da paz e da transformação. Não, não dá pra resistir pacificamente quando chega moto da ROCAM roncando na quebrada, professor, não tem perdão com a ROTA, mas o Moisés ficou apitando aquilo ali na minha orelha, porque o profeta queria um homem novo, um ser humano novo, então ele queria que a gente fosse se mudando enquanto olhava praquele vazio do deserto – é como se o cara fosse derramando e esvaziando a merda da escravidão que tinha dentro de si, é como se a gente fosse um jarro cheio de lama e merda, daí a gente tinha que jogar essa podreira no deserto, o deserto que é vaziozão, e daí a gente ia desenhando uma nova humanidade, vamos dizer assim, naquele lugar que muda a cada momento – porra, eu fiquei imaginando, professor, um dia cê tá numa duna firmeza no deserto, no outro a duna já não tá mais lá, ela não existe mais. O escravo não consegue entender isso aí, professor, porque ele olha pro tornozelo todos os dias e vê aquela porra daquela corrente enferrujada. Mas o Moisés, se aquilo ali tiver uma metáfora, o Moisés trouxe essa parada de uma peregrinação que anda pelo deserto do que tá fora da gente pra trocar o nosso próprio interior, a nossa própria mente – pô, professor, eu sei que cê não gosta muito desse lance do divino, mas é uma parada pra tocar e pra trocar a nossa própria alma. Cê tá me entendendo, professor?

            – Continua, professor Joca, continua: cê tá me dando uma bela duma aula!

            – Pô, professor, brigadão mesmo, aí cê falou algo que me deixou até contente, não vou te esconder isso não, brigadão mesmo! Tô orgulhoso pra caralho! Mas a coisa não é só essa, não. Não é só pro povão peregrinar, não, professor. É pro povão, na peregrinação, não querer ocupar o lugar do Moisés. A gente tem que destruir o trono, professor, e não apenas quem ocupa o trono. Se cê destrói só o rei, logo vem outro rei. E é pro Moisés, professor, com aquela barbona que esconde o rosto bem nutrido, é praquele profeta não querer ser mais profeta, é pra ele mesmo, como líder, como quem dá a letra e manda, não querer mais dar a letra e mandar. Ele também, como Moisés, como líder, como profeta, tem que renascer no deserto – pra dizer a verdade, professor, parece que ele é a figura central pra renascer no deserto.

            – Caramba, Joca, puta que o pariu! E cê chegou a contar essa tua leitura do Velho Testamento pro pastor?

            – Até contei, professor, mas ele não quis me dar o microfone pra eu falar pro pessoal no culto, não, professor – e eu entendi o olhar dele na hora, aquele olhar de rancor, aquele olhar de quem se sente afrontado. Lá na biqueira, professor, quando o chefe te olha assim, é que ele sabe que cê é ambicioso, ele tá é te mandando ir pra outro lugar, vai abrir a tua própria biqueira, vai abrir a tua própria igreja, lá você vai falar o que quiser – e, com sorte, o dízimo de 10% vira 30%; afinal, professor, não só de pão velho vive o homem, e se tem Pai, Filho e Espírito Santo, vamos dar 10% pra cada um, né?

            A gargalhada que eu não consigo segurar vem seguida de uma pergunta:

            – Mas, Joca, esse teu Che Moisés não te diz nada, não? Se é pra alcançar a terra prometida de alma lavada, de alma nova, no que é que a biqueira te ajuda, hein?

            – Ah, mas aí é que tá, professor, eu sabia que você não ia deixar tua vocação de pastor ateu de lado, uma hora ia chegar a tua pregação – mas, já que eu tô dando a aula hoje, deixa eu arrematar a parada, deixa eu dar o tiro na testa. Aí é que tá, professor: esse meu Che Moisés, se for uma metáfora, não passa de uma personagem. E é por isso que eu não penso em virar escritor, professor, como você me sugeriu: palavreado não enche barriga, professor, teoria não chama a prática. O Che Moisés é um alvo – e pra acertar na testa dele? E pra chegar até ele? Nego precisa abrir mão de muita coisa. Sim, eu sei, o Che deixou os filhos pra trás, deixou aquela esposa filé, o Moisés abriu mão da corte e do harém – porra, eu fico imaginando que, naquele deserto cheio de cobra e lagartixa e escorpião, o Moisés ficava sentindo o cheiro do perfume da Cleópatra – ah, eu sei, professor, eu sei, a Cleópatra é muito mais nova do que o Moisés, mas todos os trutas que já puxaram cadeira me disseram que, lá na cela, se você não consegue visita íntima, puta que o pariu!, cê fica pensando na última bimbada, cê não pode bater punheta, nego te mata se você pensar em fazer isso aí, então o Moisés, naquela fúria do deserto, com aquela memória de cheiro de harém, o Moisés já ia ressuscitando a Cleópatra mesmo que ela ainda não tivesse nascido, saca? Mas, professor, tem uma coisa que eu aprendi aqui nessa escola com os professores firmezas como o senhor – e não me leva a mal de te chamar de senhor agora, não, é assim que eu queria que me chamassem se eu merecesse, eu não te chamo de senhor pra me sentir diminuído, não, professor, fica de boa. Te chamo de senhor porque, se eu tô podendo te chamar de senhor, é porque eu sei reconhecer o que é bacana e tem valor, professor, então, vamos dizer, eu também tô fazendo parte disso aí, né? Tô ou não tô?

            Abro um sorriso de orelha a orelha.

            – Bom, eu tô e não tô, né, professor? Porque você vai dar tuas palestras e cursos lá na internet, professor, cê publicas teus livros, e tal, enquanto eu vou mesmo é ficar por aqui nessa quebrada. Mas aí a tua cara já me diz: luta pra caramba, Joca, abre a cabeça, critica essa sociedade, daí você sai daqui e volta pra dar exemplo pra molecada. Isso aí eu sei, professor, mas eu não tenho vocação pra mártir, não. Essa vontade eu não tenho, professor – essa vaidade não é minha. É uma vaidade bem louca, professor, porque nego fica comovido em receber o respeito com o corpo cheio de ferida, nego fica querendo se elevar depois que tomou bicuda da polícia e do poder, nego quer ser idolatrado depois da morte, com a boca cheia de formiga. Que doideira da porra! Mas, tudo bem, isso é nobre, eu sei – mas a gente não mente pra si mesmo, professor, a gente sabe onde o calo aperta, a gente sabe até onde quer ir. E eu quero a vida boa aqui e agora, professor, eu não quero depois, não. E eu tô falando por mim, professor – não vai depois dizer que eu tô falando que os outros aqui da quebrada fazem a mesma coisa, não. Eu falo por mim, tô te contando a minha história pra te dar uma resposta praquela resenha tua daquele dia contra a biqueira, me dizendo pra eu não voltar mais pra lá. Vamos lá, professor, vamos falar a real: hoje cê tá aqui na nossa escola, amanhã cê tá de boa, eu já vejo que cê quer algo melhor, algo que te dê mais respeito, algo fora dessa viela. E, professor, isso eu aprendi com você: se você que toma leite Ninho tem direito a ter direito, eu que sou da quebrada também tenho. Mas, professor, pra você e pra tua turma, vixe!, tá cheio de atalho, agora pra mim aqui na quebrada só tem viela e beco. Cê vem aqui, professor, cê dá aula pra gente – eu sei, eu sei, cê dá aula de coração, cê acredita no que cê fala pra gente, eu sei que cê faz isso de verdade, mas, professor, na real, isso não transforma o atalho em viela, não, nosso beco continua a não ter saída –, cê ganha experiência, professor, cê ouve história, cê ganha sabedoria, cê já falou que teus pais foram sofridos, que eles trabalharam na roça – vai lá saber, professor, se, bem no fundo, sei lá, se cê não sente alguma culpa aí por ter tido tanta chance na vida, sei lá! –, mas depois, professor, depois de pagar esse pedágio, cê pega a estradona em linha reta e vai pregar tuas ideias em sala de ar condicionado, com tapetão persa, com poltrona acolchoada, e tal. E, professor, quer saber? Não fica chateado, professor, já te pedi isso e te peço de novo, mas eu vou te mandar o papo reto: você deve isso pra gente – sim, é isso que você ouviu, você deve isso pra gente, sim, porque se alguém aqui tivesse no seu lugar, professor, nego não ia querer beber Velho Barreiro, não. Escuta o Joãozinho 30, professor, e vai tomar uiscão e vodka com energético! E, professor, aí é que tá: se você pode, eu também posso. Lá na biqueira eu tiro a merreca que cê tira dando aula num fim de semana. E aí, professor, é como se eu salvasse a minha tia que morreu naquela porra de fila de corredor do Hospital das Clínicas sem receber atendimento. Morreu ali, professor, nos meus braços, aquela mulher foi a única pessoa que se preocupou comigo, foi ela que me adotou quando a minha mãe caiu no mundo do craque, professor, ela fez o que pôde, mas diarista trabalha que é o cão, professor, a cândida foi acabando com ela – cê nunca sentiu cheiro de cândida, professor, eu tenho certeza, nego estudado só sabe o que é a cândida quando senta a bunda na privada que tá limpinha e fresquinha, aí nego sabe – se nego chegasse a pensar nisso – que a privada tá digna dele, mas, pra isso acontecer, minha tia tem que tá lá. E esse trabalho de faxina, professor, esse trabalho de diarista não é só pra limpar sujeira, não. Não é só pra limpar cueca com freiada de merda e chão com rastro de porra, não. Vê só, professor: quando cê dá tuas aulas, cê vai e lota a lousa de referência, cê fala de autor atrás de autor – é uma velharada que não acaba mais, professor, cê só fala de nego morto, tua lousa parece um cemitério, professor, tua lousa cheia de presunto parece a quebrada depois da ROTA e da ROCAM –, mas, bom, cê vai e lota a lousa de nomes e ideias, então a gente sabe que aquilo ali é o resultado da tua aula, é o resultado do teu trabalho. O teu trabalho como professor aparece pra gente, a gente vê o teu trabalho. Mas a diarista, professor, a boa diarista, aquela que, mesmo assim, só pega trampo de vez em quando, a boa diarista é aquela que chega no apê da pessoa e não vê o patrão, o patrão deixa a chave na portaria do prédio, a diarista chega e faz o serviço direitinho, mas o serviço dela, como ela, tem que ser invisível, não pode deixar rastro. Cê entendeu, professor? Cê não quer ver o traço da passada de pano dela no chão, cê não quer ver risco de lustra-móveis na tua mesa ou borrada de Lisoform no espelho. Essa rapaziada, professor, tem que ser invisível pra vocês – da mesma forma que, pra cheirar uma carreira na bandeja de prata e bolar um belo dum baseado, professor, não pode ter nenhuma podreira da biqueira, não pode ter rastro e traço de sangue e merda. E cadê o respeito pelo trabalhador, professor? É assim que a gente diz obrigado pra faxineira, professor? É só com o envelope da merreca do dinheiro que a gente deixa pra ela em cima da mesa da cozinha? Então, professor, pra mim não dá. Se eu já tivesse a minha cromada ali no HC, professor, minha tia não tinha morrido naquela fila, não. Quando nego que é responsável sabe que vai morrer junto, professor, quando o cu dele também tá na reta, nego aprende, na marra, que o outro existe, que o outro tá do lado dele. Olha lá o deserto do Che Moisés de novo, professor: no deserto, com aquele vazio, nego só consegue ver o próprio corpo, nego só consegue ver a própria sombra – e aí ele tem que olhar pra quem tá do lado dele, nego quer conversar com o vizinho. Ele conversa e esquece (e tenta esquecer) toda aquela situação de tragédia. Ele fica desesperado em pensar que o outro pode morrer antes dele. Ele inveja o outro que pode morrer antes, cê já viu um negócio desse, professor? Então, o respeito eu faço aqui na minha cintura, e cê já sabe agora que não adianta chegar aqui com pio de coruja, não, professor, mau agouro sempre foi coisa minha, é coisa da quebrada, morte não me assusta, não.

            – Mas e o Joãozinho e a Carlinha, Joca, e teus filhos?

            – É, professor, eles não têm culpa de nada – se eu soubesse que minha ex-mina não ia ficar grávida se eu ficasse comendo só o cu dela, era só por lá que ia ser, mas eu não sabia – te juro, professor, eu não sabia! Mas meus filhos não têm culpa, eu faço tudo por eles – e foi com a grana da biqueira que eu dei um extrinha lá na creche pra conseguir pegar a vaga, professor, é com a grana da biqueira que tem sempre remédio e tem até Sucrilhos pro Joãozinho e pra Carlinha. Pô, professor, o Joãozinho ganhou aquela Jabulani da Copa, o bichinho peteca a bola que é uma beleza, a Carlinha queria uma Barbie – mas puta que o pariu, professor, eu tentei fazer o que cê falou, eu não mostrava propaganda pra eles, não deixava ver TV, mas a Carlinha veio com a vontade da Barbie. E cê dá presente pra um, professor, tem que dar presente pra outra. Criança tem um senso de justiça que adulto perde depois – e aí, professor, me explica isso aí, hein? Mas quando o Joãozinho precisou fazer cirurgia da garganta – ele vivia tomando remédio, professor, não parava quieto, qualquer friagem era dor de garganta –, vixe, pra marcar uma consulta era coisa de outro mundo, 6 meses pra consulta, bota outros 6 pra fazer exame pré-operatório, bota outros 6 pra marcar a cirurgia, bota outros 6 pra rezar pra fazer a cirurgia. Ah, mas daí eu dei uma chegada lá no gabinete do burocrata do hospital, professor, com uma caixinha da biqueira. Caixinha lotada de verdinha. Quem quer rir, professor, tem que fazer rir. E deixa também o burocrata ver a cromada na tua cinta. O professor de inglês ensinou pra gente um provérbio lá da gringa – como é que era?, “Money talks”, alguma coisa assim, sei lá se é assim. Mas eu lembro bem o que aquilo queria dizer – aliás, eu sou obrigado a lembrar disso todo dia: o dinheiro fala, o dinheiro faz falar. E foi assim que o Joãozinho fez a operação – e, bom, se o médico não operou por bem depois de receber um pôr fora, na certa ele operou por mal quando ficou sabendo que ia ter que me passar um relatório depois, que o doutor ia ter que dar uma entrevista pra quadrada cromada. E é assim, professor, assim é. Pra mim não vai dar, eu não vou sair dessa quebrada, tá foda. Quem sabe pros meus filhos, né? Mas, professor, cê sabe disso, ou já deveria saber, mas eu acho que cê já sabe: a lógica da biqueira também é a lógica da tua carreira. Qualquer atalho ali do teu bairro de bacana asfaltado, professor, é parente (mesmo que distante) das vielas de terra aqui desse cu do avesso. Mas, professor, eu vou te dizer: tô me formando hoje – que bela merda, professor, me desculpa, o chefe da biqueira não vai me dar aumento nenhum com esse diplominha de Ensino Médio, a aritmética dele é contar trouxinha e papelote, é pôr aquilo ali na balancinha, a química nossa lá é saber misturar pó de azulejo, pó royal e bicarbonato com farinha da boa, pro bagulho render mais, claro. Mas uma coisa eu quero te dizer, professor: não sei até quando eu vou te ver por aqui, de passagem, mas e se um dia cê voltar pra cá de outra forma, hein? E se um dia cê voltar pra pedir voto, professor, pra rezar pra nós – como é que é mesmo? – sobre a tal da “consciência de classe”? Tá tudo nos conformes, professor, é isso aí mesmo, dá o mando e comanda quem tem o que falar, dá a letra e conjuga o verbo quem sobe no caixote e sabe fazer discurso. Mas e aí, professor? Vai dá pra confiar? O Che Moisés tava mandando no deserto, professor, mas ele também tava se fodendo no deserto. E quando a gente vota em nego como você, professor? Maomé até vem pro deserto, mas será que o deserto vai conseguir chegar até a tenda de Maomé?

            Silêncio.

            Silêncio entreolhado.

            Silêncio diante da janela que dá pra favela.

            – Não vai dizer nada, professor?

            Silêncio diante da janela que dá pra favela.

            Silêncio entreolhado.

            Silêncio.

            – Não vai dizer nada mesmo, professor? Não vai me desejar boa sorte? Não vai me dizer que, apesar de você, amanhã há de ser outro dia? Não vai me dizer que quem sabe faz a hora, não espera acontecer? (Bom, cê sabe muito bem que eu, já novo, sou macaco velho nisso aí, né, professor?) Vamos, professor, não precisa ficar quieto, não, tô até assustado, não me faz ficar arrependido: cê não vai me dizer nada, não, professor? Ué, cê não me fez pensar, cê não me lançou a real aquele dia – e agora, professor, que que eu faço? E agora, professor, que que cê vai fazer? E agora, professor, que que cê vai dizer? Mas que que é, hein? Por que que cê tá com essa cara de deserto, professor? Cê tá peregrinando aí nas ideias? E agora, professor? Cê tá tentando imaginar onde é que tão teus 40 anos de solidão? (Cê tá tentando imaginar pra onde é que eles vão?) Professor, e agora?

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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