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Roda Viva

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Chicago, 03 de setembro de 2015

I. O Evangelho segundo Pandora

         Em algum lugar do Leste Europeu – possivelmente, nas imediações de Новая Атлантида [Novaia Atlantida (Nova Atlântida)] –, um incidente como que liberta Pandora do cárcere de sua caixa.

            Eis que uma Mãe Pata vai guiando seus sete filhotinhos rente ao acostamento de uma estrada. São eles: o Tio Patinhas, o Pato Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho, o Capitão Boing e a Maga Patalógica.

            Ocorre que, no meio do caminho, há uma boca de lobo.

            Huguinho, Zezinho e Luisinho acabam caindo no bueiro.

            A Maga Patológica começa a bater suas asinhas tresloucadamente; o Tio Patinhas e o Pato Donald tentam, em vão, resgatar os irmãos com cordas de capim; o destemido Capitão Boing, por sua vez, se esgueira entre os carros e busca a ajuda de algum bom samaritano.

            Assim suplica a Mãe Pata:

            – Ó, e agora quem poderá nos socorrer?

            – Eeeuuu! – exclama o bombeiro Ivan Chapolínovitch, primo eslavo do Chapolim Colorado.

            Chapolínovitch remove a grade do bueiro, se esgueira boca de lobo adentro e, para a emoção cheia de penas da Mãe Pata e da Maga Patalógica, o bombeiro começa a resgatar, um a um, os trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho. [Comovidos, os motoristas param seus carros e começam a aplaudir o resgate patalógico capitaneado por Chapolínovitch. (Ranzinza, o Tio Patinhas cochicha para o Pato Donalds: “Mas por que ele tá demorando tanto?”; pão-duro, o Tio Patinhas só oferece um ovo de codorna ao herói Ivan Chapolínovitch depois de muita insistência por parte do Capitão Boing.)]

            A Mãe Pata e a Maga Patalógica cobrem Chapolínovitch de bicadinhas pra lá de ternas.

            – Quá-quá, quá-quá!

            Mas a odisseia patalógica ainda não terminou.

            Ivan Chapolínovitch ainda precisa escoltar a Mãe Pata e seus sete patinhos até o lago próximo à estrada – assim, não haverá um novo percalço (ou teria sido uma travessura?) dos caçulinhas Huguinho, Zezinho e Luisinho boca de lobo adentro.

            A Mãe Pata vai à frente – não sem virar o bico pra trás a cada passo – seguida, em fila indiana, por Huguinho, Zezinho e Luisinho, a Maga Patalógica, o Pato Donald, o Tio Patinhas, o Capitão Boing e, na retaguarda, Ivan Chapolínovitch. (Espontaneamente, forma-se um séquito de admiradores que já sentem saudade da Mãe Pata e seus sete patinhos.)

            À beira do lago, palmas, lágrimas e quá-quás se misturam qual um cântico dos cânticos. A Maga Patalógica ensaia um discurso, mas o Tio Patinhas, atrasado para uma reunião, pilha a irmã mais nova para que a pataiada tome logo o curso do lago.

            – Tchau, Mãe Pata, adeus, patinhos, adeus!

            – Quá-quá, quá-quá!

            Ivan Chapolínovitch ainda remove um detrito da asinha esquerda de Huguinho – ou teria sido de Zezinho?; não, não, foi de Luisinho – antes de soltar o patinho pré-mirim no lago com o ninho de suas mãos.

II. Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

Na primeira estrofe de seu soneto Ao braço do mesmo Menino Jesus quando apareceu, o bom e velho poeta baiano Gregório de Matos Guerra nos dá uma aula sobre a dialética. Ei-la:

“O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga que é parte sendo todo”.

            Mas eis que, profana e dialeticamente, a aula sobre a dialética ajoelhada diante do Menino Jesus acaba por se reverter contra si mesma – não à toa, Gregório de Matos Guerra também atendia pela alcunha de Boca do Inferno.

            Sendo assim, eis o que nos diz a primeira estrofe de Ao braço do mesmo Menino Jesus quando desapareceu:

A parte sem o todo não é parte,

O todo sem a parte não é todo,

Mas se o todo o faz parte, sendo todo,

Digamos que também é todo sendo parte.

III. Era uma vez

            No princípio era o verbo?

            Não: no princípio da feitura do livro eram as letras enfileiradas, manualmente, em palavras e frases acopladas a moldes de metal.

            Lado a lado, os moldes de metal darão à luz as páginas do livro.

            O artesão passa tinta sobre as páginas de metal.

            O artesão coloca uma grande folha de papel sobre as páginas de metal e dispõe o feto do livro sob uma prensa.

            O artesão gira a manivela da prensa para que o era uma vez comece a ser narrado sobre o papel.

            Quando o artesão retira o papel de sob a prensa, várias páginas já contam suas estórias – o livro já passa do terceiro mês de gestação.

            O artesão começa a dobrar as folhas e, com um estilete contemporâneo de Gutemberg, ele vai cortando e sobrepondo as páginas em bloquinhos delgados.

            É hora de pegar um martelinho para golpear as páginas, de modo que os bloquinhos não fiquem volumosos – ora, de nada adianta, as narrativas não vão se aquietar, elas são a natureza de tudo aquilo que é arredio.

            É hora de alinhavar, com a destreza e o carinho do ourives, a lombada dos bloquinhos sobrepostos – o corpo do livro começa a ganhar, umbilicalmente, começo, meio e fim.

            O quase-livro é novamente levado à prensa – desta vez, trata-se de aparar as arestas das páginas com uma lâmina que só não corta mais do que as sucessivas revisões do escritor. (Já dissera o bom e velho Jorge Luis Borges: “Eu só publico meus livros para conseguir parar de mexer nas minhas estórias”.)

            Já na sala de parto, é hora de passar cola no couro da capa – a pele do livro adere primeiro à lombada para só depois revestir a capa e a contracapa.

            Os dedões do artesão alisam a pele recém-percolada – o olhar atento do leitor medieval que deposita o livro sobre o peito consegue entrever os vestígios dos afagos do artesão.

            Fiat lux: o artesão abre o livro e se aproxima das páginas para sentir o cheiro das personagens e auscultar o sussurro das entrelinhas.

IV. Eureka!

Pai e filho estão à beira-mar, em silêncio.

            Já dissera o bom e velho Jorge Luis Borges que todo aquele que olha o mar o vê pela primeira vez, sempre.

            Pai e filho parecem hipnotizados pelo paradoxo do mar: rico em sua imensidão para muito além do horizonte, pobre pela mesmidade nauseante de suas marolas. (Quer dizer que o paradoxo do mar consegue emergir e naufragar a luta de classes?)

            Ao longe, pai e filho ouvem o canto das gaivotas e a sirene do navio que vai ficando cada vez mais remota, como o aceno de despedida da amada a bordo.

            Súbito, Ricardinho rompe o silêncio tácito da poesia:

            – Papai, papai!

            – Fala, meu filho, que que foi?

            – Papai, eu acho que tão me enganando lá na escola...

            O pai franze a testa.

            – Ué, Ricardinho, como assim? Por quê?

            – Ah, papai, a gente fica estudando o círculo, mas eu nunca vi um círculo de verdade na natureza, eu nunca vi um círculo redondinho. E o triângulo, papai? – nunca vi nem ouvi, eu só ouço falar!

            (Alguém vá lá entender as veredas dos pensamentos alados pela imaginação!)

            Súbito, o pai aponta para o céu – pássaros migratórios negros como a noite acabam de cruzar a fronteira de uma nuvem.

O voo em V dos pássaros dá asas ao triângulo.

Ricardinho arregala os olhos – a surpresa e a alegria desenham em sua boca um círculo redondinho, redondinho.

V. Ela suspira: Narciso, eu te amo!

Narciso lhe responde: Eu também.

A língua alemã entende profundamente o pathos da paixão ao introduzir (e inocular) o verbo leiden (sofrer) no ventre de Leidenschaft, a paixão que o casal ardente não quer deixar arrefecer.

Nesse sentido, assim falou o bom e velho aforista francês François de La Rochefoucauld, emissário da paixão: “A ausência [ou a distância] diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras”.

Munidos dos mais belos candelabros e de muita lenha para queimar, os latino-americanos, passionais (e matreiros) como eles só, reeditamos o cupido de La Rochefoucauld: “Amor de lejos, felices los cuatro”.

VI. O Evangelho segundo Talião

Na minissérie Narcos (Netflix), o Coronel Horacio Carrillo, militar colombiano sempre no encalço de ninguém mais que Pablo Emilio Escobar Gaviria, acaba capturando Gustavo Gaviria, braço direito (e primo) do chefão do Cartel de Medellín.

Don Gustavo se vê rodeado pelos soldados de Carrillo – milicos cujas famílias haviam sido pra lá de mutiladas por conta dos fuzilamentos e bombas que Pablo Escobar irradiara Colômbia adentro e afora.

Carrillo ordena que Gustavo lhes diga onde Escobar está escondido, no que o primo do chefão dá uma cusparada viscosa no coturno do coronel.

– Isso nunca, jamais! Quem você pensa que eu sou, hein? Eu sou bandido, carajo, não sou cagueta, hijo de puta, e o Pablo é meu irmão!

Carrillo dá um tremendo tapa na cara de Gustavo e, com a mão esquerda a agarrar a juba do primo-irmão de Escobar, o coronel incita os soldados de punhos cerrados ao redor do narcotraficante.

– Me diga, Gustavo: você já sentiu a ira de uma vingança justa?

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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