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El insomnio del American Dream produce monstruos

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Chicago, 20 de agosto de 2015

I. A volta ao mundo em 90 milhas

            Conheçam Ernesto, cubano de Matanzas e carismático proprietário do restaurante anticastrista Cuba Libre, na North Broadway Street.

            – Você não pensou em se estabelecer em Miami antes de vir aqui pra Chicago?

            – Não, não, eu tenho parentes por aqui, então a cidade de Al Capone já estava na minha mira.

            – E você não sente saudade de Cuba?

            Ernesto coça o queixo e alisa a pança – com orgulho.

            – Você sabe como os cubanos radicados aqui nos EUA chamamos Miami?

            – Não, Ernesto... Como?

            – Cuba com comida.

            Ernesto abre um sorriso entre alegre e amargo através do qual consigo ver seu molar de prata.

            Súbito, eu lhe pergunto:

            – E se você ficar doente aqui nos EUA? Saúde pública gratuita não existe por aqui. Como é que fica?

            – Bom, eu pago um convênio pra mim e pro meu filho – minha esposa já não é minha dependente [que Deus a tenha em seu rancor e que Deus me guarde após o divórcio (faz o Pelo Sinal da Santa Cruz com a mão esquerda)].

            – E você tem certeza, Ernesto, de que, na democracia do lobby das empresas de saúde, o convênio te dará cobertura total? E se um dia (bato na madeira) você precisar fazer uma cirurgia caríssima? E se o Ernestito ficar desguarnecido?

            Ernesto coça o queixo e alisa a pança – com apreensão.

            – Você sabe como os cubanos radicados aqui nos EUA chamamos Miami?

            – Ué, não era Cuba com comida? Tem outro apelido?

            – Sim: Cuba com comida – y sin salud.

            Ernesto abre um sorriso amargo através do qual volto a ver seu molar de prata.

            – E agora, Ernesto? Que fazer?

            – Tomar um barco em Miami e cruzar as 90 milhas de volta para Cuba.

            Ernesto me mostra seu velho passaporte cubano – e sentencia:

            ¡La garantia soy yo!

            A conversa vai flanando por uma série de impressões de Ernesto a contrastar EUA e Cuba. Ernesto é anticastrista, mas não gosta dos Estados Unidos. Ernesto, assim, é duplamente nômade.

            – Los hijos de puta de aquí me dizem que eu deveria estar grato por tudo o que a América já me proporcionou. Ora, ora! Acaso eu consegui alguma coisa de graça por aqui? E o meu suor? E sim, sim, eu sei que lá em Cuba não dá – Ernesto diz que o Barba e sua dinastia fodem tudo (ele despenca a mão direita em linha reta a partir do queixo e imita um bode). Mas, ainda assim, que saudade das cubanas... {Mas não da minha esposa [que Deus a tenha em seu rancor e que Deus me guarde após o divórcio (faz o Pelo Sinal da Santa Cruz com a mão esquerda três vezes)].}

            Súbito, Ernesto fica em silêncio – seu olhar se perde através da vitrine do restaurante (ele coça o cocuruto quase calvo e suspira lenta e profundamente).

            Quando retorna de sua volta ao mundo em 90 milhas, Ernesto já está me contando a história de Charlie, um veterano do Vietnã.

            – Charlie fica se esgueirando pelas trincheiras como uma cobra. Súbito, ele dá um pulo, tira o pino da granada e lança a morte contra os vietcongues. É hora de empinar a metralhadora e disparar a esmo, sem cessar: o inimigo é tudo aquilo que se move.

            – Nossa, Ernesto, que loucura! E onde é que o Charlie tá agora? O que foi que aconteceu com ele?

            – O Charlie tá trancafiado em uma cela do hospital psiquiátrico dos veteranos – é lá que o Vietnã continua para ele. A cama virou trincheira – sempre que eu abria a porta para lhe trazer o almoço, Charlie transformava a cama em barricada e, devidamente guarnecido, ele começava a disparar contra mim com a metralhadora de seu braço direito. (E não é que ele sabia imitar as rajadas direitinho?!)

            – Você trabalhou nesse hospital psiquiátrico, Ernesto?

            – Sim, fui ajudante de enfermagem por lá.

            – Triste fim para o Charlie, hein?

            – Charlie ainda tem sorte: a masmorra da memória o salvou de tomar um chute nos fundilhos e de ser condenado a pedir esmolas. (Eis a insônia do American Dream.) Olha lá – através da vitrine, Ernesto me aponta um mendigo abduzido por três pombas que lutam pelas migalhas do pão velho que ele lhes vai dando. Aquele ali é o sargento O’Connell – ele esteve no Iraque. [Ou teria sido no Afeganistão? (Não, não: pensando melhor, acho que ele esteve na Coreia.)]

II. Ad majorem DEA gloriam

            Terça-feira à noite: o bar/restaurante latino La Ñ, na North Elston Avenue, se transforma em um enclave dançante – e bem brasileiro.

            Enquanto a belíssima cantora interpreta Vinícius de Moraes com os olhos semicerrados, Marcos e eu vamos escaneando a pista à procura de beldades.

            – Ali, Ricardo, olha lá, olha aquelas duas latinas ali no sofá – que gatinhas! Vambora falar com elas, velho, vamos lá!

            [Marcos gosta de agitar, mas, como bom fogo de palha, quando ele diz vambora falar com elas, eu já sei quem precisarei tomar a dianteira. (Dou mais um trago no mojito antes de chegar chegando.)]

            – ¡Hola, guapas! ¿Qué tal?

            Logo ficamos sabendo que Juanita e Alejandra, de férias em Chicago, são costa-riquenhas.

            O pé de valsa Marcos, reencarnação de Carlinhos de Jesus, chama Juanita para dançar um samba.

            Alejandra e este escritor, devidamente aconchegados no sofá, começamos a trocar um – dois, três, quatro – dedinho(s) de prosa.

            ¡No te creo, Alejandra! ¿En serio? ¿De verdad trabajas para la DEA?

            Segundo o site da Drug Enforcement Agency, a DEA é nada mais que “a lead agency for domestic enforcement of federal drug laws, and for coordinating and pursuing U.S. drug investigations abroad”.

            Aos 29 anos, a prodígia Alejandra, half Costa Rican, half American (“vivo aquí en los Estados Unidos hace 23 años”), já é chefa de uma seção de inteligência da DEA na cidade em que trabalha. (Seguramente, o leitor e a leitora querem saber onde Alejandra – que não se chama Alejandra – trabalha. Classified information, mis amigos, I’m sorry.)

            Alejandra me diz que foi recrutada para trabalhar na DEA pelo orientador de seu trabalho de conclusão do curso de Ciência Política, em uma das universidades de maior prestígio dos EUA.

– Eu não sabia que, à época, ele era um agente da DEA, mas era estranho ver que, a cada duas ou três semanas, meu orientador se ausentava sin dejar rastro y, de la nada, estava de volta. Hoje, ele é agente da CIA.

Quando lhe pergunto se ela quer ser recrutada para trabalhar na Central Intelligence Agency, os olhinhos negros de Alejandra chegam a brilhar.

{Ah, se eu dissesse a ela, de pronto, o que eu penso sobre a DEA e a CIA: bye-bye, estórias; bye-bye, xaveco. [Ora, assim como João Sem-Braço, faço as vezes do narrador não-intruso (porém bastante xereta).]}

            Alejandra também me diz que, depois de trabalhar já há alguns anos em investigações contra os mais sádicos e sofisticados narcotraficantes da América Latina – a região/alvo de sua especialidade; depois de receber incontáveis ameaças de morte por carta, telefone, telepatia, mensagens de texto, pombo-correio, WhatsApp, psicografia etc. do etc., eu tenho muita dificuldade de confiar nas pessoas. Por ejemplo, Ricardo: ¿y si tú eres un espía?

            Esboço um sorriso e, antes de lhe mostrar minha carteira de motorista brasileira (vencida), digo para Alejandra que, nas estórias que escrevo, já dialoguei com uma série de sádicos, assassinos, assassinos sádicos, sociopatas, genocidas e outros espécimes de bons samaritanos. Pero de verdad te lo digo, guapa, ¡yo no sería capaz de hacer mal ni a una mosca!

Alejandra esboça um me engana que eu gosto com um sorriso amarelo sob o batom bem vermelho.

Enquanto isso, o pé de valsa Marcos, matreiro como ele só, já logra dar unos cuantos besitos en Juanita.

            ¡Salud! – Alejandra e eu brindamos com mais um par de mojitos.

Se eu fosse un espía de los narcos, Alejandra não deveria beber comigo. (Pero sin perder la ternura del deseo jamás, hay que endurecerse.)

Pois, Alejandra, por me embrenhar pelo universo de Dostoiévski e Nietzsche há algum tempo e por já ter ouvido e narrado muitas histórias e estórias, eu lhe diria que já caminhei por algumas vielas fétidas e obscuras de nós mesmos.

            – Ora, Ricardo, mas eu duvido que a violência de los narcos não te espantaria?

[Aproveito a deixa para perguntar se Alejandra considera a série Narcos (Netflix) fidedigna; ela acena que sim com a cabeça enquanto dá um longo trago em seu Bloody Mary.]

            – Bem, Alejandra, eu não diria que não ficaria espantado com a violência de los narcos. Mas, uma vez violada a fronteira do Não matarás, me parece que o tigre enjaulado na masmorra do homem consegue mastigar, digerir e cagar as correntes que antes o aguilhoavam, não?

Alejandra fica olhando fixamente para o fundo do copo vazio de Bloody Mary.

            Instigada por minha curiosidade a lhe afagar a nuca e o pescocinho entre os cabelos longos e bem pretos – e por umas Tequilitas providenciais que eu pedira (Juanita fica pilhando Alejandra para que ela chupe o sal e o limão pré-Tequila em minha mão) –, Alê começa a me dizer que os narcos colombianos não se arriscam mais.

– Ora, como assim?

– Bom, por causa das muitas extradições de narcos que acabaram apodrecendo nas cadeias aqui dos Estados Unidos, os filhotes de Pablo Escobar passaram a vender sua droga para intermediários. (Alejandra arregala bem os olhos enquanto fala.) Agora, os panamenhos e, sobretudo, os mexicanos são os que se arriscam pela fronteira repleta de patrulheiros e drones.

– Mas, Alê, é óbvio que, se a droga continua entrando na América, guapa, deve haver conivência por parte dos policiais daqui.

Alejandra torce o nariz.

– Não, não, não, o buraco é bem mais embaixo, rubio. É verdade que, hoje, a gente tem muito, mas muito mais tecnologia pra investigar los narcos e pra identificar quaisquer drogas. Só que os bandidos, com dinheiro e criatividade inesgotáveis, diluem cocaína no que quer que seja. É muito difícil – para não dizer impossível – identificar cocaína diluída em líquidos. Coca-Cola, cerveja, vinho, champanhe: eis o trabalho de mestre dos químicos chilenos – e é por isso que sai muito mais barato para a DEA colocar esses alquimistas atrás das grades.

– Ah, então essa é a política de vocês agora?

Alejandra dá um tapinha em sua boquita linguaruda.

– Mas, Alê, posso te fazer uma pergunta capciosa?

Ela acena que sim com a cabecinha enquanto busca uma bala de menta na bolsa.

– Como é que você se sente com esse lance de, em nome da guerra ao terror e às drogas, nós já não termos mais privacidade alguma? O Victor, um amigo mexicano que trabalha aqui em Chicago com Tecnologia da Informação, Alê, tava me dizendo outro dia que qualquer conversa – esta nossa conversa, por exemplo – já poderia ser rastreada, violada, analisada e tipificada por um superprograma de combinação de dados via satélite chamado Prisma. [Hoje, Júlio Verne seria prontamente demitido (e processado) ao falar da volta ao mundo em inesgotáveis (e superfaturados) 80 dias.] Quaisquer compras com o cartão de crédito, quaisquer livros, revistas e apostilas emprestados junto a bibliotecas de quaisquer instituições, quaisquer músicas baixadas, quaisquer movimentações virtuais, tudo, absolutamente tudo é tabulado e entrelaçado. (Já dizia um velho provérbio alemão: presos juntos, juntos enforcados.) Pra você ter uma ideia, Alê, uma amiga minha me contou uma vez que a empresa do ex-namorado dela, que também lidava com TI, tava desenvolvendo um software pra que uma igreja lá de São Paulo fornecesse cartões magnéticos a seus fiéis. Por meio da colocação de catracas nas entradas e saídas dos templos, os clérigos/administradores ficariam sabendo quando todos e cada um dos fiéis vão às igrejas, quanto tempo eles lá permanecem – e, é claro, quanto é arrecado por meio de todas e cada uma das doações. (Assim, programas de marketing personalizados para o aprofundamento/otimização da fé poderiam ser desenvolvidos.) E tem mais, Alê: o Victor também me disse que, com o Windows 10, qualquer textículo inofensivo de Word que contiver (supostas) alusões terroristas poderá acionar os algoritmos de busca e apreensão para que os arquivos sejam remetidos, just in time and on demand, aos órgãos de inteligência do Estado. Sendo assim, Alê, eu te pergunto: e agora? Onde está a nossa privacidade burguesa?

Arremato meu mojito e limpo a garganta antes de peregrinar pela história.

– Alê, você estudou Ciência Política: a privacidade, isto é, a noção de proteção à individualidade em relação às estruturas de poder, foi uma bandeira fundamental da burguesia revolucionária contra os monarcas. Consta que o bom e velho Diderot, com seus escritos ferinos a fustigar o dorso de paquiderme do Estado Absolutista, foi levado às masmorras do rei em plena madrugada, sem quaisquer intimações ou justificativas. Ora, não é por outra razão que o Código Penal de cunho liberal-democrático determina que diligências policiais ostensivas sejam feitas durante o dia – os juristas das Luzes partiram do pressuposto de que o suspeito ou investigado tem o direito natural de proteger sua liberdade em face dos tentáculos do Estado, direito esmagado quando das diligências noturnas. A exceção legal prevista diz respeito ao flagrante delito, único caso em que ações ostensivas podem ocorrer durante a noite – e sem mandado judicial. Sendo assim, Alejandra, é sintomático acompanhar o processo da metamorfose contrarrevolucionária da atual burguesia. (Bom, o duce Benito Mussolini já havia dito: “Após a revolução, resta o problema dos revolucionários”.) Onde está a privacidade liberal, Alejandra? Porque eu não entendo, Alê: aqui na América nós não estamos in a free country? Não era a União Soviética – the Evil Empire, de acordo com o campeão do (neo)liberalismo Ronald Reagan – o verdadeiro protótipo do Estado policial e totalitário? Ora, há algo de podre no reino da Dinamarca, ¿no te parece, guapa?

            Alejandra abre um sorriso de soslaio, dá um tapinha na minha bochecha e vai deslizando as unhas vermelhas, suavemente, da minha barba por fazer até o começo da pelaria do peito. Súbito, ela me puxa pela gola da camisa e, me deixando todo eriçado com seu hálito quente e doce, a prodígia da DEA sentencia:

            – Ay, corazón mío, ¡déjate de tonterías! Eu ganho mais de 100 mil dólares por ano na minha posição – eu já tô bem, eu sei, mas ainda dá pra subir muito... (A CIA que me aguarde!) Então, corazón, pára e pensa: você acha mesmo que a gente tem interesse em acabar com a guerra en contra de los narcos? Você acha mesmo que a DEA quer ver o orçamento milionário de que ela dispõe minguar? Ay, cariño, ¿qué te parece? Se não há uma guerra a ser travada, então vamos inventar uma – sem o complexo industrial-militar, a América não gira, ¡muchacho! As FARCs já não são mais tão revolucionárias assim? Ay, corazón mío, já não se fazem mais guerrilheiros como antigamente! Tsc-tsc-tsc-tsc-tsc... Pois a DEA e a CIA, duas cabeças da mesma Hidra, vão provar, por A mais B, que há resquícios de neocomunismo no fundamentalismo islâmico, rá-rá-rá-rá-rá! Haverá choro e ranger de dentes! Ora, rubio, ¿has leído a Maquiavel, verdad? Entonces, cariño, dímelo no más: que paixão inspira mais obediência ao príncipe? (Ela resvala o rosto em minha barba e me sussurra ao pé do ouvido.) Seria o amor?

            Giro a cabeça e lhe respondo com os olhos fechados:

            – Cê sabe que não é o amor, guapa… É o medo.

            – E uma pessoa com medo não é capaz de fazer tudo?

            – E mais um pouco...

            – Entonces, corazón, escúchame: quando você vir uma mosca – uma varejeira qualquer –, comece a suspeitar – será que não é um drone? Os patrulheiros da fronteira com o México – agentes tão ou mais sanguinários do que os marines – acabam de ganhar o último atributo de Deus que lhes faltava: a onipresença. Sabe aqueles coiotes a esmo no deserto? Aqueles gatos e cachorros do mato? Pois é, é isso mesmo: são todos drones! Com sensores de calor, eles indicam as posições dos imigrantes ilegais para as patrulhas – e bang! E mais: nossos drones vira-latas já estão no coração do México – haja carrocinha pra eles! (Eu já nem sei dizer se, em Tijuana, ainda há algum cachorro que não tenha o pedigree da DEA.) A gente sabe o que los narcos comem no café da manhã, quem são os seus lacaios e informantes, com quantas e quais putas estão circulando e festejando – eu só não entendi ainda por que aqueles putos milionários insistem em usar colônias baratas...

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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