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De Pablito para Neruda: Canto para os quatro cantos da humanidade

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Em homenagem aos 52 anos de residencia en el cosmos de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, também conhecido como Pablo Neruda.

Chicago, 23 de setembro de 2014

Mário Ruoppolo, O carteiro de Pablo Neruda (1995), filme dirigido por Michael Radford, tem a boca pequenina e os lábios delgados e descorados, como se eles fossem o Pelo Sinal de resignação por sua origem humilde.

Mário vive em uma ilhota italiana cercada pelo Mediterrâneo – e pela Guerra Fria.

No cinema local – única fonte de notícias da ilha –, Mário e seus paesani ficam sabendo que o ministro do Interior da Itália acaba de rechaçar os pedidos de expulsão do poeta comunista Pablo Neruda que lhe haviam sido feitos pelo governo chileno – e pelo espectro da Central Intelligence Agency. Assim, “Pablo Neruda continuará a viver na Itália em uma linda e pequena ilha”. (Mário e seus paesani só fazem sorrir quando o sobrevoo da câmera os retrata na telona.) “Mas”, adverte o narrador com forte sotaque sulista – calabrês ou siciliano? –, “o poeta não poderá abandar a ilha sem expressa autorização da polícia local”.

A bordo de sua bicicleta Rocinante, Mário sobe as encostas ladeadas pelo mare nostrum para entregar cartas e pacotes ao poeta amado pelas mulheres – “e pelo povo”, arremata o patrão/camarada comunista de Mário.

– Ora, ora, será que don Pablo autografaria este livro que acabou de me chegar de Nápoles? Ah, eu logo vou mostrar a todas as mulheres que sou amigo de Neruda!

(Mário eleva os olhos ao longe e já imagina le più belle ragazze se acercando dele como se o carteiro fosse a sentinela a guarnecer o tapete voador que conduz ao harém da poesia de Neruda.)

Logo ficamos sabendo que o mensageiro Mário, ainda que leia coxeando como um cavalicoque, tem lá suas aspirações poéticas.

E eis que, em uma quinta-feira de vento cálido a girar as nuvens em cambalhota, o chileno pergunta ao carteiro que permanece imóvel ao lado do portãozinho enferrujado após a entrega das cartas:

Pablo Neruda: “Mas, Mário, o que é que você tá fazendo aí parado como um poste?”

Mário Ruoppolo: “Na verdade, estou cravado como um arpão”.

Pablo Neruda: “Imóvel como uma torre num tabuleiro de xadrez”.

Mário Ruoppolo: “Mais quieto do que um gato de porcelana”.

Com um sorriso de soslaio que vai se abrindo como a mão estendida para a amizade, Neruda diz a Mário que “você está me cobrindo com o musgo das metáforas”. (Ao que Mário talvez pudesse replicar: agora, Neruda, você está coberto com o musgo das metáforas como uma rocha que, refém de sua paralisia, precisa suportar as investidas do mar.)

Ocorre que Mário não sabe o que são metáforas.

Pablo Neruda: “Hum, como é que eu vou te explicar?... Metáfora, metáfora... Bom... metáfora é quando se fala de uma coisa comparando-a com outra”.

Mário franze o cenho e coça o cavanhaque que lhe falta ao queixo.

Mário Ruoppolo: “Mas, don Pablo, por que a metáfora tem um nome assim tão complicado?”

Neruda tira a boina e desvela a península itálica de seus últimos cabelos cercados pelo mare nostrum da testa e do cocuruto lisos como uma bola de bilhar.

Pablo Neruda: “Mário, o homem não tem compromissos com a simplicidade ou a complexidade das coisas”.

[O homem, não, caro Pablo, mas os homens (e suas classes em litígio), sim.]

Mário Ruoppolo: “Bom, don Pablo, tudo bem, então me diga: por que você disse – Mário semicerra os olhos para recitar Neruda – que ‘o cheiro de uma barbearia me faz soluçar em voz alta’?”

Em meio a seu jardim tingido pela errância roxa das amoras – a amada de Pablo, Matilde, acaba de lhe trazer uma pequena taça de vinho róseo –, Neruda suspira como que a ecoar a brisa suave da tardinha.

Pablo Neruda: “Por que o cheiro de uma barbearia me faz soluçar em voz alta? Ora, Mário... Eu não posso lhe dizer isso com palavras diferentes das que usei originalmente. Quando é explicada, a poesia torna-se banal”. [O olhar ao longe de Mário parece imaginar que, quando é explicada, a poesia se esturrica como um cacto que o carteiro nunca viu.] “Melhor que a explicação, Mário, é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar a uma alma suficientemente aberta para entende-la”. [Mário já imagina o abre-te, sésamo da rosa com o beijo do orvalho.]

Mário Ruoppolo: “Então me diga, don Pablo, como é que alguém se torna poeta?”

Neruda aterrissa a mão esquerda no ombro ossudo do amigo.

Pablo Neruda: “Tente caminhar lentamente pela costa até a baía, olhando sempre à tua volta”.

Mário Ruoppolo: “Aí as metáforas virão até mim?”

Pablo Neruda: “Seguramente”.

Mário imagina o pouso da mãe-pássaro a trazer alimento e carinho para os filhotes no ninho.

Num outro dia, sentado entre Matilde e Mário na areia cor de açúcar mascavo da praia, Neruda lança um olhar de captura ao mar como se estivesse munido da rede de pesca do pai de Mário. Matilde escora o rosto no ombro de Pablo como o fiel que se ajoelha diante do altar – eis o prenúncio da poesia. Súbito, Neruda entoa uma ode ao mar – Matilde bebe cada palavra, Mário o escuta como se estivesse velejando.

Pablo Neruda: “E então, Mário, o que achou do meu poema?”

Mário Ruoppolo: “Eu me senti como se estivesse em uma barca que balança ao ritmo das palavras”.

Pablo Neruda: “Ora, ora, Mário, sabe o que você acaba de fazer?”

Mário desenha a interrogação com as sobrancelhas franzidas.

Pablo Neruda: “Você acaba de dar asas a uma metáfora!”

Mário sorri com a mesma emoção do pai que vê a filha caminhar pela primeira vez.

Mário Ruoppolo: “Ah, don Pablo, eu fico muito contente, mas, na verdade, essa minha metáfora não valeu...”

Pablo Neruda: “Ora, Mário, mas por quê?”

Mário Ruoppolo: “Porque eu não tive intenção de criá-la, ela simplesmente surgiu...”

Pablo Neruda: “Mário, a intenção não é importante, porque as imagens nascem espontaneamente”.

Mário imagina a relva verde-amarelada crescendo ao léu.

Certa tarde, Mário vai a uma taverna e vê uma belíssima morena jogando pebolim.

Tataratataraneta de Beatrice, a musa de Dante, Beatrice Russo tem os cabelos revoltos como um ninho. O narizinho parece escorregar até a boca de lábios levemente intumescidos. Seu queixo é gentil – e suave. Beatrice tem olhos grandes, negros e brilhantes como duas jabuticabas maduras.

Faz de conta que Mário joga pebolim com Beatrice – o poeta das cartas só faz contemplar Beatrice com um olhar ambíguo que enreda a ternura ao desejo.

Súbito, Beatrice põe a bolinha de pebolim na boca e como que incita Mário a vir buscá-la.

Quando Mário estende a mão, Beatrice deixa a bolinha bem branca deslizar de sua boca como leite derramado.

Mário guarda a bolinha de Beatrice como a metonímia da parte que não vai se aquietar até que conquiste de todo o amor da musa.

Mário vai à casa de Neruda sem mais e conta e canta ao chileno sua paixão tresloucada por Beatrice.

Mário Ruoppolo: “Por favor, don Pablo, escreva um poema de amor para que eu consiga conquistar Beatrice, eu lhe suplico!”

Neruda se põe contrafeito – “ora, Mário, mas eu sequer conheço a musa da tua inspiração. Assim não dá”.

Mário então lhe mostra a bolinha de pebolim que beijara a boca de Beatrice, mas Neruda insiste em dizer que, sem o aroma de Beatrice, a poesia não consegue romper o hímen da imaginação.

Naquela noite – noite de lua cheia –, Mário se debruça sobre o parapeito da janela e fica girando a bolinha de pebolim rumo ao céu como se ela fosse uma emanação da lua.

Um desejo de prata.

Mário sai de casa e fica rondando a taverna onde Beatrice trabalha.

Emissário da lua, Mário começa a bater as asas de um verso singelo: “Beatrice, teu sorriso espalha-se como uma borboleta”.

E eis que, logo menos, Neruda dá um presente a Mário: um belo caderno de rascunho para que o aspirante a poeta trace a cartografia das metáforas. O caderno tem uma capa de couro com musas nuas tocando flautas ao entardecer.

Matilde, então, pede a Pablo que conte a Mário como o chileno descobrira a residência na terra de sua poesia. Neruda enlaça os dedos de Matilde para falar de sua comunhão.

Pablo Neruda: “Quando eu era senador da República, fui visitar os pampas, uma região onde chove a cada meio século e onde a vida é inimaginavelmente difícil. Eu queria conhecer as pessoas que haviam votado em mim. Um dia, em Lota, um homem saiu de uma mina de carvão e suor. O rosto dele estava contorcido pelo sofrimento. Os olhos estavam vermelhos por causa da poeira. Ele estendeu a mão calejada e disse: ‘Aonde você for, fale sobre esse tormento. Fale do teu irmão que vive lá embaixo, no inferno’. Achei, então, que devia escrever algo sobre a luta dos homens. Escrever a poesia dos oprimidos. Foi assim que nasceu o Canto Geral”.

Chega a hora de Mário e Pablo irem à taverna para que o discípulo apresente Beatrice ao poeta.

Mas, antes de se dirigirem à Utópolis de Beatrice, Mário Ruoppolo, com o livro de rascunho das musas junto ao peito, faz um pedido:

– Don Pablo, quando eu me casar com Beatrice, quero que você seja meu padrinho de matrimônio!

Neruda dá um abraço em seu mais novo afilhado e, num passe de mágica de um corte de câmera, poeta e pupilo já estão na taverna de Beatrice – para a surpresa de olhos esbugalhados de todos os convivas da ilhota.

Beatrice lhes serve duas taças de um vinho vermelho de curiosidade. Quando a ragazza está para sair de perto da mesa, Neruda lhe resvala a mão para que a musa do carteiro veja que o poeta do povo (e das mulheres) acaba de dedicar o caderno de rascunho das musas Ao Mário, meu íntimo amigo e camarada. Pablo Neruda.

Beatrice fica admirada e, num passe de mágica de um corte de câmera, ela caminha descalça pelas pedrinhas multicoloridas salpicadas de areia da praia. Mário a encontra junto ao mar e começa a lhe recitar o pólen de seus versos de amor.

Num corte de câmera de um passe de mágica, Beatrice está sentada na cama de seu quarto. A luz está apagada, mas, pela janela aberta, a lua envolve seu corpo com um manto de luz. (A lua, metamorfose de prata da bolinha de pebolim, que inspirara Mário para compor seus versos.)

A carola dona Rosa, tia de Beatrice, invade o quarto enquanto a sobrinha sonha envolta pelo luar.

Dona Rosa: “Ora, ora, mas o que foi que esse Mário te disse, hein? Vamos, me conta!”

Beatrice Russo [aos suspiros]: “Metáforas...”

Dona Rosa: “Como? O quê? E o que lá é isso, menina?!”

Beatrice Russo: “Mário disse que meu sorriso se espalha pelo meu rosto como borboletas. ‘O teu sorriso, Beatrice, é como uma rosa, uma lança descoberta, é o bater das águas. O teu sorriso, minha Beatrice, é uma onda prateada repentina’”.

O que dona Rosa, carola-mor da ilhota, quer saber é o que o carteiro fez com sua sobrinha. “Sim, Beatrice, sim, minha sobrinha, porque o carteiro, além de uma boca para recitar, tem duas mãos para apalpar...”

Beatrice Russo: “Ele sequer me tocou, tia. Mário disse que está feliz ao lado de uma jovem pura. Era como estar à orla do oceano branco. Mário me disse que gosta quando eu fico em silêncio: ‘é como se estivesses ausente’”.

Dona Rosa: “Vá, vá, vá! Quando um homem começa a te tocar com palavras, já não está longe de te tocar com as mãos. Ora, Beatrice, me ouça: quando se trata de cama, não existe diferença entre um poeta, um padre ou até mesmo um comunista”. [Dona Rosa faz um Pelo Sinal atrás do outro para (tentar) espantar o desejo que vem a galope.]

Mas eis que, numa tarde alaranjada pelo sol, dona Rosa, matreira como ela só, se aproxima sorrateiramente de Beatrice e lhe surrupia um papel que a Sofia Loren calabresa escondera junto ao peito esquerdo. (Mal sabe a tia que a sobrinha devorou e memorizou a ode de Mário como a pintura rupestre da gruta de seu imaginário.)

“Nua, és tão simples como uma de tuas mãos,

lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,

tens linhas de lua, caminhos de maçã,

nua, és delicada como o trigo nu.

Nua, és azul como a noite em Cuba,

tens trepadeiras e estrelas no cabelo,

nua, és enorme e amarela

como o verão em uma igreja de ouro”.

Como dona Rosa não sabe ler, ela suplica ao padre que lhe leia o papel que sequestrara do seio de Beatrice.

– É uma poesia, dona Rosa... E ela começa com “Nua...”

Dona Rosa [encavalando um Pelo Sinal atrás do outro]: “Madonna mia!”

Na casa de Neruda, Pablo pede a Mário que lhe revele um adjetivo para que ele consiga descrever a rede dos pescadores. (Mário cruza os lábios com o indicador e fecha os olhos para entrever o adjetivo que a rede de pescador de seu pai consegue enlaçar.) Súbito, o carteiro poeta, à revelia do ímpeto de Iemanjá, diz a Neruda que as redes dos pescadores são “tristes”.

E eis que dona Rosa chega bufando à casa de Neruda.

Dona Rosa: “Faz um mês que um tal de Mário Ruoppolo tem frequentado a minha taverna. E ele acabou seduzindo a minha sobrinha”.

Pablo Neruda: “Mas o que foi que Mário disse à sua sobrinha?”

Dona Rosa: “Metáforas...”

Pablo Neruda: “E então?”

Dona Rosa: “Ora, ora, don Pablo, esse Mário deixou a minha Beatrice tão quente quanto um forno com suas metáforas. E tem cabimento? Um homem cujo único capital são os fungos entre os dedos dos pés! Ah, don Pablo, mas se os pés dele estão cheio de germes, a boca está cheia de feitiços! Esse tal de Mário começou, inocentemente, dizendo que o sorriso dela era como uma borboleta. Mas, agora, ele já ousa dizer que os seios de Beatrice são duas chamas”.

A carola dona Rosa está achando, com deduções deveras pagãs, que a imaginação do poeta Ruoppolo já ejaculou a ação do carteiro Mário. (E eis que dona Rosa mostra a Neruda a prosa do crime que Beatrice acalentava em seu seio.)

Dona Rosa: “Pois saiba, don Pablo, que seu discípulo – outrora carteiro, agora poeta – se transformou num mestre. Mas, ainda assim, Mário Ruoppolo nunca mais verá a minha Beatrice Russo!” (Dona Rosa, com a fúria de seu Deus diluviano, ameaça dar um tiro de escopeta no carteiro das letras caso ele volte a esgueirar poemas pelo corpo moreno de Beatrice.)

Quando Dona Rosa vai embora, Mário se desentoca de seu esconderijo.

Pablo Neruda: “Você está pálido com um saco de farinha”.

Mário Ruoppolo: “Posso estar branco por fora, mas estou vermelho por dentro”.

Pablo Neruda: “Ora, Mário, você não vai se safar da fúria da velha carola com adjetivos”.

Mário Ruoppolo: “Ah, mas se ela me ferir, irá para a cadeia!”

Pablo Neruda: “Acredite-me: em duas horas dona Rosa estará livre. Ela dirá que agiu em legítima defesa. Ela dirá que você ameaçou a virgindade da donzela Beatrice com uma arma branca: uma metáfora cintilante como uma adaga, incisiva como um canino, lacerante como um cântico. A poesia terá deixado a marca da sua sedutora saliva nos mamilos da virgem. Saiba, Mário, que, por muito menos, o poeta François Villon foi enforcado em uma árvore, e o sangue jorrou de seu pescoço como rosas”.

Mário Ruoppolo: “Meu caro poeta e camarada, foi você que me colocou nessa enrascada! Agora, me tire dela! Você me deu livros para ler, você me ensinou a usar minha língua para além de lamber selos. A culpa por eu estar apaixonado é sua!”

Pablo Neruda: “Não, senhor, eu não tenho nada a ver com isso. Eu te dei meus livros, é verdade, mas eu não te autorizei a roubar os meus poemas. Por que é que você deu para a Beatrice o poema que eu escrevi para Matilde?”

E eis que o discípulo, para além da crisálida do pupilo, passa a lecionar ao mestre:

Mário Ruoppolo: “A poesia não pertence a quem a escreve mais do que àqueles que dela precisam”.

O camarada Pablo Neruda abre um amplo sorriso de igualdade e fraternidade.

Pablo Neruda: “Pois eu gostei muito desse teu aforismo altamente democrático, Mário. Meus parabéns! Mas, agora, vá para casa e durma um pouco. Você está com olheiras tão grandes e profundas como um prato de sopa”.

Quem disse que a paixão insone o deixa dormir?

Às furtadelas, Mário ronda a taverna para (tentar) entrever Beatrice.

A tia a vigia como a guardiã da lei e dos profetas.

Inconsolável, Mário não consegue ir para casa. Ele vai à agência postal em que trabalha e só faz manusear a bolinha de pebolim como se estivesse serpenteando a nudez de Beatrice.

Súbito, Beatrice consegue se desvencilhar da quarentena da tia carola e irrompe na madrugada insone de Mário. Ela logo desliza a bolinha dos seios à boca – chega o momento de os lábios delgados do carteiro serem alimentados pela fome de sua musa.

Num corte de mágica e num passe de câmera, o poeta Mário Ruoppolo e a musa Beatrice Russo querem se casar, mas o padre não quer aceitar o comunista Pablo Neruda como padrinho do matrimônio.

Padre: “Em verdade, em verdade lhes digo: se Neruda não acredita em Deus, por que Deus deveria acreditar em Neruda?”

Mário Ruoppolo: “Ora, Deus nunca disse que um comunista não poderia ser padrinho de casamento...”

Súbito, o cristão novo Pablo Neruda (não sem uma piscadela de soslaio para Mário e Beatrice) se ajoelha diante da imagem de Santo Antônio para que o padre proclame: “Deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher; e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Marcos, 10, 7-9).

E eis que, junto às encostas mediterrâneas povoadas de florezinhas amarelas que mais parecem a emanação vegetal do sol, Mário Ruoppolo e Beatrice Russo se casam, tendo Pablo Neruda como padrinho e testemunha.

Em meio ao júbilo de brindes e augúrios de eterna felicidade da festa de casamento, chega uma carta latino-americana para o poeta exilado. Matilde pressente o espectro dos Andes. “Pablo, será que nós já podemos voltar pra casa?!”

Pablo Neruda: “Sim, meu amor. Eles só precisam de uma semana para preparar os documentos”.

Súbito, Neruda golpeia suavemente sua taça de vinho com uma colher e limpa a garganta – todos os olhares se voltam para o amigo ilustre de Mário Ruoppolo.

Pablo Neruda: “Caro irmão de letras e camarada Mário, permita-me cantar à beleza da tua Beatrice”. (Mário aquiesce com um beijo estalado em Beatrice.)

“Com o coração casto

com olhos puros

celebro a tua beleza

guardando a união de sangue

para que se sobressalte o teu perfil

para que te deites na minha ode

como na terra de um bosque

ou numa onda,

num aroma terrestre

ou numa música marinha”.

Pablo Neruda: “É um prazer ter podido contribuir um pouco para a tua felicidade, Mário! (Levanta a taça de vinho como a partilha do pão.) Um brinde ao meu querido amigo Mário Ruoppolo, um brinde à belíssima Beatrice Russo, um brinde aos noivos, viva!”

Comoção de taças e augúrios.

– Viva, viva!

Súbito, Pablo volta a arremeter a colher contra a taça de vinho.

Neruda e Matilde têm os olhos marejados: alegria e saudade, comunhão e adeus se entrelaçam como o navio nômade que se despede do porto.

Pablo Neruda: “A nossa ordem de prisão foi revogada. Assim, Matilde e eu agora podemos retornar ao país que tanto amamos: o Chile”.

Na despedida, Pablo tenta consolar Mário dizendo que “as coisas mudam muito no Chile. Hoje me deixam voltar. Amanhã algo inusitado acontece, e precisarei escapar de novo”.

Neruda já não está na Itália às vésperas da eleição encarniçada que, no início da década de 1950, contrapõe democratas-cristãos e comunistas. (Tanto os EUA quanto a URSS querem calçar a bota italiana.)

Eis, então, que o Dr. Di Cosimo, candidato da democracia cristã, visita a taverna de dona Rosa – taverna repleta de clientes (e potenciais eleitores) – e lhe promete que 20 pedreiros vão morar na ilha por (supostamente) 2 anos. “Dona Rosa, veja só: haverá 20 bocas para almoçar e jantar por aqui todos os dias!” (Mal sabe ela que, passada a eleição, os pedreiros serão raspados do tacho.) “Então, dona Rosa, conto com a senhora para que as bocas da taverna sejam minha boca de urna, va bene?

Desempregado após o retorno de Neruda ao Chile, o ex-carteiro Mário Ruoppolo é arregimentado por dona Rosa para trabalhar como cozinheiro para o batalhão de novos fregueses. (Não demora para que o discípulo de Neruda transforme a cozinha na paleta de sua poesia: Mário logo vê “sóis vermelhos entre os tomates, alcachofras vestidas como guerreiras, cabeças de alho preciosas como marfim”.)

O tempo passa, mas a saudade que Mário e Beatrice sentem dei padrini Pablo e Matilde não cicatriza. (O tempo lambe a ferida da saudade com a cura dúbia do mertiolate: arde enquanto cura, cura e ainda pulsa, pulsa e não se deixa curar.)

Chega o dia da eleição, e os democratas-cristãos, com o beneplácito da Central Intelligence Agency, derrotam os comunistas.

Dr. Di Cosimo: “Lamento informá-la, dona Rosa, mas o trabalho dos pedreiros não vai poder continuar. Não vai haver mais almoços e jantas fartos aqui na taverna. De qualquer modo, dona Rosa, muito obrigado pela hospitalidade e pelo apoio – e me desculpe por qualquer coisa...”

Dona Rosa, Beatrice e Mário, cabisbaixos e impotentes, remoem a ingratidão em silêncio.

Certa noite de sábado, enquanto Mário se barbeia, Beatrice se aproxima e lhe sussurra:

– Eu estou grávida, Mário – grávida!

Mário levanta o vestido de Beatrice e começa a beijar sua barriga com sofreguidão até encaixar o olho direito no umbigo da esposa.

Entre risos e cócegas, Beatrice lhe pergunta:

– Mas, Mário, que que cê tá fazendo aí?

– Teu umbiguinho agora é o olho mágico do futuro. Eu já tô vendo nosso Pablito todo peralta. E nós vamos pro Chile, Beatrice, onde ele vai crescer respirando a poesia.

O tempo passa, Pablito vai estufando a barriga de Beatrice, mas nada de Neruda visitar seu amigo e camarada Mário Ruoppolo.

Mas Mário, com o tapete voador de sua poesia, decide singrar o mundo para transformar sua ilhota mediterrânea em um enclave dos Andes, em um bairro de Valparaíso. A poesia de Mário o torna vizinho de Neruda.

Com o gravador que o poeta chileno havia deixado em sua antiga casa no exílio, Mário começa a caçar as borboletas esparsas de sua ilha.

Mário Ruoppolo: “Quando você e Matilde partiram, Pablo, eu pensei que vocês haviam levado todas as coisas belas daqui. Mas logo me dei conta de que elas permaneceram – e ainda pulsam”.

Armado com seu gravador, eis as libélulas e vagalumes que Mário envia para Neruda:

(i) Ondas pequenas (Mário posiciona o gravador rente ao vaivém das marolinhas da praia);

(ii) Ondas grandes [Mário (tenta) posicionar o gravador rente ao tacape do mar a golpear as rochas);

(iii) Vento nos penhascos;

(iv) Vento entre os arbustos;

(v) Redes tristes do pai de Mário (a bordo da barca de seu velho pai a lançar as redes vermelhas mar adentro);

(vi) Sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores (súbito, o padre anticomunista irrompe contra a gravação aos berros, e Mário é obrigado a dizer: “Sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores com a intrusão do padre);

(vii) Céu estrelado sobre a ilha (sinestesia para il mio amico Pablo);

(viii) Pum-pum, pum-pum, pum-pum do coração de Pablito na caverna intrauterina de Beatrice.

5 anos mais tarde – o lapso dos antigos (e ossificados) planos quinquenais soviéticos –, os padrinhos Pablo e Matilde voltam à ilha mediterrânea para visitar Mário e Beatrice.

(5 anos mais tarde: tarde demais.)

Quando Neruda entra na casa de Mário, o poeta logo vê seu antigo gravador ao lado do caderno de rascunhos em cuja capa de couro musas nuas tocam flautas ao entardecer.

Beatrice acabou não lhe enviando as borboletas, libélulas e vagalumes capturados por Mário para sempre poder ouvir a poesia do marido morto.

Beatrice Russo: “Pablito sequer chegou a conhecer o pai. Ele nasceu poucos dias depois que Mário morreu”.

Em meio a um comício do Partido Comunista Italiano cercado pela polícia (e pelo espectro da Central Intelligence Agency), o camarada Mário Ruoppolo é convocado ao palanque “para que o poeta della nostra isola recite seu Canto para Pablo Neruda, nosso grande camarada chileno. Vamos, camarada Mário, venha até aqui!”

O clamor irrompe, palmas e mais palmas – é quando a polícia, entrevendo uma brecha, começa a distribuir bordoadas e cacetadas a torto e à direita. Homens e mulheres são pisoteados, gritos e urros, só resta o salve-se quem puder.

Mário Ruoppolo não consegue escapar.

Mário não consegue entoar o Canto para Pablo Neruda – como é possível que o poeta Mário Ruoppolo tenha sido ceifado, com sua poesia em mãos, justamente a caminho de Pasárgada? (A ironia de Machado de Assis sentencia que a história não se repete apenas como tragédia ou farsa, não. A história, cacofonia da crueldade, simplesmente se repete.)

– Não! – Neruda esmurra a parede com os olhos alagados de dor.

Para redimir Mário Ruoppolo, é preciso que as ideias não morram. (As ideias não podem se esturricar como o cacto que Mário nunca viu – o cacto que não pôde beber o orvalho da poesia.)

Será mesmo que a história, cacofonia da crueldade, simplesmente se repete?

Assim falou Mário Ruoppolo: “A poesia não pertence a quem a escreve mais do que àqueles que dela precisam”.

Pablo se ajoelha e fica pouco mais alto que Pablito.

O poeta pousa as mãos nos ombros de seu xará fraldinha.

Pablo entrega a Pablito o caderno de rascunhos com a capa de couro repleta de musas.

Sob a dedicatória primeira – Ao Mário, meu íntimo amigo e camarada. Pablo Neruda –, Pablo escreve uma nova dedicatória como uma súplica a ser realizada tão logo Pablito consiga aspergir o pólen da criação:

Ao meu xará Pablito, filho do meu íntimo amigo e camarada Mário Ruoppolo, com a expectativa de que, em breve – quiçá amanhã –, você e sua geração possam reescrever o Canto para Pablo Neruda como um novo Canto Geral, o Canto para os quatros cantos da humanidade.

Do padrinho Pablo Neruda

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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