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Poesia com a mão cheia de terra a dar nó em gota de orvalho

Imagem Divulgação - Manoel de Barros: o poeta pantaneiro - Folha Press Imagem Divulgação - Manoel de Barros: o poeta pantaneiro - Folha Press

Chicago, 04 de julho de 2015

Para aqueles que ainda não desfolharam a poesia de Manoel Wenceslau Leite de Barros, mais conhecido como o cuiabano Manoel de Barros (1916-2014), lembro um causo envolvendo Carlos Drummond de Andrade.

Consta que, lá pelos idos de não sei quando, Drummond teria sido aclamado como o maior poeta do Brasil.

Por detrás dos óculos e do bigode ausente, o itabirano recusa a honraria.

Ora, no meio do caminho, José, tinha mais do que uma pedra – no meio do caminho tinha a sabedoria mineral e o retrato do artista quando coisa esculpidos por Manoel de Barros.

E agora, José?

Drummond recusa o epíteto de maior poeta brasileiro em favor do homem de barros do Pantanal.

Assim, nesta madrugada, com a chuva tamborilando pelo vidro da janela e a reboque de um conhaque, Manoel de Barros me esgueira pela folhagem de seu Livro sobre nada (Rio de Janeiro: Record, 1996). Ao invés de um prefácio, me deparo com um Pretexto:

“O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma amiga em 1852. (...) Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e que se sustenta só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo etc. etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo o que use o abandono por dentro e por fora”.

Em Só 10% é mentira (2008), documentário de Pedro Cezar sobre a obra do poeta da aura pantaneira das coisas, Manoel de Barros sentencia, com sua voz anasalada – voz que tropeça no parafuso de veludo –, que tem uma confissão a nos fazer:

– 90% do que eu escrevo é invenção. Só 10% é mentira.

Fazer brinquedos com as palavras, fazer coisas desúteis, mergulhar no nada mesmo. Ora, Manoel, diga-nos de uma vez – e sem rodeios: que diabos você quer?!

– Eu queria fazer a biografia do orvalho.

Com o suor nu da madrugada – suor que vaga errante pelo corpo de Laura (suor, portanto, que acerta enquanto erra) –, o abridor de amanhecer exala o orvalho da epiderme da terra.

Poesia com a mão cheia de terra a dar nó em gota de orvalho.

Consta que, em sua visita ao Pantanal – e entre uma talagada e outra de cachaça de umbuapu enquanto ouvia Manoel de Barros –, Friedrich Nietzsche teria decantado o seguinte aforismo:

– Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar.

Súbito, o marrom-esverdeado de um bicho pousa no ombro de Manoel e lhe sussurra que o bigodão desgrenhado de Nietzsche mais parece um ninho. (O poeta suspira: “Bem que eu já tava desconfiado...”)

Súbito novamente – e depois de um trago que lhe esquenta o peito e eriça a nuca –, Manoel decreta com os olhos fixos no ninho castanho de Nietzsche:

– Besouros não trepam no abstrato, Frederico. E, se as árvores me começam, é porque a criança erra na gramática, mas acerta na poesia.

As crianças fazem covas para os passarinhos e oferecem o estalido das folhas secas à deusa Coruja. (Excepcionalmente, estilingues não são permitidos no ritual.)

Se a deusa Coruja captura o amarelo com seus olhos de mau agouro, o poeta infante Manuelzinho redime o arco-íris ao proclamar que “a borboleta é uma cor que avoa”.

Mas, Manuel, nós não te entendemos – ou melhor (ou pior), nós ainda não te capturamos. Diga-nos de uma vez – e sem rodeios: que crisálida liberta tua borboleta? – de onde vem a poesia que te pariu?

Eis o que nos revela Manuel de Barros, que acabara de participar da colação de grau do arquiteto João de Barro – e que há pouco indicara o amigo canoro e alado para o papel principal de Os pássaros, filme que o diretor Alfredo Hitchcock, velho compadre de Mané, estava pensando em rodar nas cercanias do Pantanal, logo após a vazante:

“Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna”.

Não, não é possível!

Manoel só pode estar louco!

Que adulto, em sã consciência, ainda desejaria ser o gerente da maravilhosa fábrica de chocolates?

E que história é essa de o poeta ser um adulto infante?

Ora, precisamos reverter esse parto – voltemos à pia batismal, interpelemos o padre Antônio Vieira, clérigo (e poeta) da predileção de Manoel de Barros.

Encontramos o padre Vieira na sacristia, a bíblia em mãos.

– Padre, padre, pelo amor de Deus, ajude-nos!

O padre Vieira arregala os olhos e entreabre os lábios.

– Padre Vieira, nós queremos salvar Manoel de Barros de si mesmo, nós queremos saber que mal o aflige – nós queremos capturar quem ele é. Ajude-nos, padre, pelo amor de Deus!

(O padre Vieira logo descobre que a intenção sub-reptícia da lagartixa é esturricar a poesia.)

Súbito, com o terceiro capítulo do Eclesiastes diante de si (e com o sorriso terno do amigo Manoel de Barros a avoar na memória), o padre Antônio Vieira começa a trovejar:

– Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para o barro?

O silêncio cabisbaixo nos domina.

O padre Vieira prossegue:

– Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do barro, Manuel, e para o barro voltam.

Silêncio de olhos arregalados.

Munido do pathos de tudo aquilo que é humano, o padre Antônio Vieira arremata – Manuel de Barros diria que seu compadre Vieira arrevive:

O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser.

Não à toa, as borboletas pathos, paixão e patologia alçam voo a partir da mesma crisálida etimológica.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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