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Réquiem e Utopia

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Chicago, 20 de agosto de 2015

“Se a água se incendiar, como é que se pode apagá-la? – dizem os Abecásios. É assim que eles falam da guerra...” (Olga V., 24 anos, topógrafa, uma das interlocutoras da escritora bielorrussa Svetlana Alexievitch em O fim do homem soviético.)

“Eu descrevo a tragédia metafísica da vida das pessoas, vida que foi apanhada entre essas tragédias. Não julgo ninguém. Essa ideia utópica [da URSS] devorou as melhores e as mais bonitas pessoas, que se lançaram na nova vida acreditando que iam fazer a humanidade feliz, que construiriam essa vida corretamente, como devia ser. Ainda encontrei pessoas assim. Embora nunca, já há milhares de anos, se tenha conseguido nada de bom sobre as ruínas, e tenha sido sempre necessário dispor-se a um trabalho lento, demorado”. [Svetlana Alexievitch, O fim do homem soviético (Nota 1).]

I. “O meu tempo acabou antes da minha vida.

Devemos morrer juntamente com o nosso tempo.

Como os meus camaradas...”

Conheçam Vassili Petróvitch N., 87 anos, membro do Partido Comunista da União Soviética desde 1922 e uma das vozes a reverberar O fim do homem soviético.

Imaginemos o camarada Petróvitch sentado em sua velha poltrona de molas. O couro gasto e enrugado do móvel parece se prolongar pelas mãos repletas de nódoas do contemporâneo de Stálin.

O camarada Petróvitch apóia os cotovelos sobre o parapeito da janela e observa a queda malemolente e melancólica da neve em Moscou – é como se o outrora General Inverno, despido de seus galões e condecorações, também estivesse a agonizar. (Se aprumarmos os ouvidos, a sinfonia atonal da tuberculose de Vassili desvelará o réquiem da utopia.)

O camarada Petróvitch estreita os olhinhos azuis a ponto de eles se transformarem em duas frestas sob as sobrancelhas espessas. Súbito, ele dispara:

Não sou um historiador, nem versado em ciências humanas. É verdade que durante algum tempo trabalhei como diretor de um teatro, do nosso teatro municipal. Para onde quer que o Partido me enviasse, era aí que eu servia. Era devotado ao Partido” (Nota 2).

Ao me deparar com a militância eclesiástica do camarada Petróvitch – “Para onde quer que o Partido me enviasse, era aí que eu servia. Era devotado ao Partido” –, acabo me lembrando de um episódio pitoresco (e sintomático) pelo qual passei na Praça Vermelha, no coração de Moscou, junto à entrada do mausoléu de Lênin (Nota 3).

Era um domingo chuvoso de outono. O vento gélido parecia conhecer cada uma das frestas do meu sobretudo. Ainda assim, eu queria reverenciar o líder de Outubro de 1917. Tomei a longa fila ladeada pelas muralhas ocres do Kremlin às 11h37. À minha frente havia um casal da finada República Democrática Alemã. (Nossa conversa entrecortada mesclava o russo, o alemão e as mímicas.) Quando o soldado russo reconheceu os broches com a foice e o martelo junto às lapelas dos sobretudos do senhor e da senhora Liebknecht, os camaradas foram saudados com a devida vênia:

Здравствуйте, товaрищи! (“Zdravstvuitiê, tovarischi!”, “Saudações, camaradas!”)

Quando chega a minha vez, as sobrancelhas do soldado se arqueiam assim que ele vê a minha chapka, o gorro felpudo e circular de inverno. Ele leva a mão esquerda ao cocoruto e, com um gesto solene, ordena que eu retire a chapka antes de entrar no Santo Sepulcro de Lênin.

Faço menção de perguntar ao soldado se, com a mão direita, eu devo fazer o Pelo Sinal da Santa Cruz. Mas como eu levo a versão de bolso de Assim falou Zaratustra em meu sobretudo, não me faço de rogado e o interpelo:

– Ora, camarada, ainda não lhe avisaram que Deus morreu?

Como que a esboçar um sorriso de soslaio, assim falou o soldado:

– Ora, camarada, você foi devidamente avisado de que a ressurreição de Lênin acontece todos os dias, das 11h às 13h. (Após verificar, pela enésima vez, que já estou sem o gorro, o soldado arremata: Enjoy your visit.)

Após um forte acesso de tosse a expelir um catarro rubro-verde contra o lenço, o camarada Petróvitch se recompõe:

“Pouco me lembro da vida, só me lembro do trabalho. O país era uma zona de ocupação, um alto-forno, uma forja! Agora já não se trabalha assim. Eu dormia três horas por dia. Três horas... Estávamos atrasados cinquenta ou cem anos em relação aos países mais desenvolvidos. Um século inteiro. O plano de Stálin era alcançá-los em quinze ou vinte anos. O célebre salto em frente. E nós acreditávamos que íamos alcançá-los! Agora as pessoas não acreditam em nada, mas nesse tempo acreditavam. Acreditavam facilmente. As nossas palavras de ordem: “Ataquemos com os nossos sonhos a desorganização industrial!” “Os bolcheviques devem dominar a técnica!” “Igualemos o capitalismo!” Eu não vivia em casa, vivia na fábrica, na construção. Sim, o telefone podia tocar às duas, às três horas da madrugada. Stálin não dormia, deitava-se tarde, e por conseguinte nós, os quadros dirigentes, não dormíamos. De cima a baixo. Tenho duas condecorações e três enfartes. Fui diretor de uma fábrica de pneus, chefiei um grupo de empresas de construção, daí passei a um grupo de tratamento de carnes. Dirigi o arquivo do Partido. Depois do terceiro enfarte deram-me o teatro” (Nota 4).

O neto do camarada Petróvitch, um yuppie da novíssima geração pós-URSS, bem poderia redarguir:

– Pouco me lembro da vida, só me lembro do trabalho. O país é uma zona de investimentos, uma bolsa de valores, um cassino! Agora só se trabalha assim.

Ora, para além da ironia dos vencedores – Ao vencedor, as batatas – a revolver os escombros da utopia, as memórias do camarada Petróvitch nos trazem o ethos (e, sobretudo, o pathos) de uma época em que a fé no espírito do tempo era tão tangível quanto a foice e o martelo que construíam o socialismo.

Se acusássemos o comunista Vassili Petróvitch N. de pregar a ética protestante e o espírito do socialismo, o camarada Petróvitch bem poderia redarguir:

– Homens de pouca fé! Não trabalhávamos pelo trabalho, não trabalhávamos por trabalhar e para acumular – nós realmente acreditávamos que, para pescar durante o dia e fazer crítica literária à noite, como uma vez sonharam os jovens Marx e Engels, para que os homens e mulheres fossem alçados às suas verdadeiras vocações, era preciso elevar a riqueza social para partilhá-la com igualdade, liberdade e fraternidade. Um alto executivo de uma multinacional, hoje, também já enfartou três vezes antes dos 50 anos, mas aí eu lhes pergunto: pelo que ele adoeceu, pelo que ele luta? Resposta: por si próprio, pela multiplicação dos pães e dos peixes para si mesmo, ou pior, pela escassez dos pães e dos peixes para os demais.

Quando o camarada Petróvitch nos diz que “agora as pessoas não acreditam em nada, mas nesse tempo acreditavam”, me lembro dos artistas que, nos primórdios de Outubro, não assinavam suas poesias, quadros e canções.

– Não somos nós os autores de nossas obras, a Revolução é a parteira da arte, Outubro é o marco do novo mundo!

O otimismo histórico fazia com que os limites dos homens e mulheres fossem continuamente transgredidos e transcendidos pela escatologia da imaginação. É nesse contexto em que o além do homem parece forjar a nova humanidade que o revolucionário Liev Davidovitch Bronstein, também conhecido como Trótski, chega a projetar que, na sociedade comunista efetivamente emancipada, o nível médio dos cidadãos seria equiparável a Aristóteles e a Marx. Zaratustra passaria a caminhar entre os homens.

“Ataquemos com os nossos sonhos a desorganização industrial!”: quando o niilismo cínico de nossa época só faz reduzir os ideais à pecha de ingenuidade, já não conseguimos soerguer sobre os ombros o sentimento do mundo.

“Ataquemos com os nossos sonhos a desorganização industrial!”: o camarada Petróvitch ressuscita o Príncipe Míchkin, protagonista do romance dostoievskiano O Idiota, para recitar que a beleza salvará o mundo.

“Ataquemos com os nossos sonhos a desorganização industrial!”: de cada um, conforme sua capacidade; a cada um, conforme sua necessidade – não é assim, Karl Heinrich Marx?

Vassili Petróvitch N. não é “apenas” testemunha de um tempo histórico outro. Radicalmente outro. Vassili Petróvitch N. é também um pergaminho para as gerações futuras, a pedra fundamental de Utópolis.

Assim falou o Evangelho segundo Tomás Morus:

– Tu és Petróvitch, e sobre esta pedra edificaremos a nossa Utopia.

Svetlana Alexievitch vê uma lágrima espessa transbordar do olho esquerdo de Vassili. Ela escorre trôpega e sinuosa por entre os vincos e sulcos daquele rosto arado pela história. A lágrima, Pandora liquefeita. A lágrima como barricada:

“Chorei quando a União Soviética se desagregou. Fomos imediatamente amaldiçoados, caluniados. O burguês venceu. O piolho. A minhoca.

“A minha pátria é Outubro, Lênin, o socialismo. Eu amava a Revolução! O Partido é para mim a coisa mais querida. Estive setenta anos no Partido. O cartão do Partido é a minha Bíblia. (Declama.) “Pela base destruiremos o mundo de antigamente / E o nosso mundo construiremos. / Quem não era nada será gente”. Queríamos construir o Reino de Deus na Terra. Um sonho belo mas quimérico, o homem ainda não está preparado para isso. É imperfeito. Pois é... Mas sem um ideal de justiça, a Rússia será outra e as pessoas também serão outras. Será um país completamente diferente. Ainda não acabaram com o comunismo. Não contem com isso. E o mundo ainda não o venceu. O homem sonhará sempre com a Cidade do Sol. Ele ainda se vestia de peles, vivia nas cavernas, mas já queria justiça. Lembrem-se das canções e dos filmes soviéticos. Que belo sonho, que fé! Um Mercedes não é um sonho...” (Nota 5)

Não, um Mercedes não é um sonho. Mas é em função dele que o despertador nos iça da cama às 6:00, logo às 6:05, depois às 6:10 e, definitivamente, às 6:15 – a liberdade condicional ceifada a cada insônia de 5 minutos.

Mercedes-Benz; Volkswagen; Audi; BMW; Volvo; Citroën; Peugeot; Renault; Fiat; Toyota; Honda; Suzuki; Mitsubishi; Nissan; Hyundai; Kia; Chrysler; GMC; Chevrolet; Ford: da Utopia à distopia, do camarada ao consumidor, da polifonia das múltiplas ideias à mesmidade das diferentes marcas, a profecia do empreendedor Henry Ford, contemporânea de Outubro de 1917, ainda nos mostra como o arco-íris do capitalismo contém (e retém) todas as cores: Any customer can have a car painted any colour that he wants so long as it is black.

Mas se o homem sonhará sempre com a Cidade do Sol – sonho diurno, sonho de olhos abertos, o sentido de toda e qualquer abnegação; se o homem ainda se vestia de peles e vivia nas cavernas, mas já tinha sede de justiça (eis o eco imemorial do mito da caverna), não é possível que, ao fim do arco-íris, haja apenas potes de ouro.

Aos 87 anos, Vassili Petróvitch N. não se conforma em ser um súdito do Rei Midas. O camarada Petróvitch viveu uma época em que o toque não nos reduzia a ouro – o toque era a mão estendida para a abnegação e a solidariedade.

Vassili Petróvitch N., exilado de Utópolis.

Vassili Petróvitch N., náufrago de Atlântida.

II. “Queríamos construir o Reino de Deus na Terra. Um sonho belo mas quimérico, o homem ainda não está preparado para isso. É imperfeito. Pois é... Mas sem um ideal de justiça, a Rússia será outra e as pessoas também serão outras. Será um país completamente diferente”

O militante eclesiástico Vassili Petróvitch N. nos confessou sua devoção ao Partido. Acompanhemos, a partir de agora, a genealogia de sua moral revolucionária:

“[Foi no tempo da guerra civil, no tempo da grande fome no campo.] Eu tinha quinze anos. Chegaram à nossa aldeia uns soldados do Exército Vermelho. A cavalo, bêbados. Um destacamento de abastecimento. Dormiram até a tarde, e à tarde reuniram todos os membros do Komsomol [a Juventude Comunista]. Ocomandante falou: “O Exército Vermelho passa fome. Lênin passa fome. E os kulaks [proprietários rurais] escondem o trigo e o queimam”. Eu sabia que um irmão da minha mãe, o tio Simeon, tinha levado para a floresta sacos de cereais e os havia enterrado. Eu era do Komsomol. Tinha feito um juramento. À noite fui conversar com o destacamento e levei-os a esse lugar. Eles carregaram uma carroça. O comandante apertou-me a mão: “Cresce depressa, irmão!” De manhã acordei com os gritos da minha mãe: “A casa doSimeon está pegando fogo!” Encontraram o tio Simeon na floresta... Os soldados tinham-no cortado com os sabres. Eu tinha quinze anos. O Exército Vermelho passava fome... Lênin... Fiquei com medo de sair à rua. Ficava em casa e chorava. A minha mãe adivinhou tudo. De noite, me pôs nas mãos um gorro: “Vai embora, meu filho! Que Deus te perdoe, infeliz!” (Ele tapa os olhos com a mão. Mas eu vejo que ele está a chorar.)

“Quero morrer comunista. É o meu último desejo...”

Aos 15 anos, o adolescente Vassili Petróvitch N., ou melhor, o camarada Petróvitch, membro do Komsomol, já “tinha feito um juramento”.

O juramento sentenciava que Die Partei hat immer Recht. (O Partido tem sempre razão: canção do Partido Comunista que ressoava pelos quatro cantos da finada República Democrática Alemã.)

Se o tio Simeon, irmão de minha mãe, se revela um inimigo da Revolução, um inimigo de Lênin, um inimigo do Exército Vermelho, eu, camarada Petróvitch, membro do Komsomol, devo denunciar o judeu Simeon, o kulak Simeon, o contrarrevolucionário Simeon.

Se o fascismo de esquerda sentencia que Die Partei hat immer Recht, o fascismo de direita decreta que Meine Ehre heißt Treue. (Minha honra chama-se lealdade: lema da organização nazista Schutzstafel, a temível SS.)

As paradas político-militares na Praça Vermelha, em Moscou, e na Avenida Unter den Linden, em Berlim, desfilavam blocos de homens/militantes/soldados uniformemente variados. A marcha a passo-de-ganso fazia ribombar o asfalto. A cadência geométrica da marcha subsumia todos e cada um dos partícipes em função de uma única resultante vetorial: à esquerda, Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, o Guia Genial dos Povos, o homem de aço, Stálin; à direita, Adolf Schicklgruber, o Führer Adolf Hitler.

A invocação do nome do Führer perfura o crânio dos partidários como uma broca:

Hiiiiiitler!

A invocação do nome do Guia Genial dos Povos entorpece os tímpanos como dois safanões contra as orelhas com as mãos abertas em palma:

Stáááááálin!

O eu só existe como nó de um rede.

O eu só existe como nós.

Quando os nazistas estendem o braço direito e abrem a mão em palma e em riste para saudar o Führer, Hitler, por sua vez, flexiona o braço direito com um ângulo de 90º e posiciona sua mão aberta em palma também com um ângulo reto em relação ao pulso.

A mão do Führer soergue as mãos de todos os seus partidários.

A mão do Führer é a resultante vetorial, a clava, em função da qual Fritz, Georg e Joseph deixam de ser Fritz, Georg e Joseph e passam a ser nacional-socialistas.

O substantivo Führer provém do verbo führen, que quer dizer “conduzir, levar, guiar; dirigir, liderar, estar à frente” (Nota 6).

O Führer e o Guia Genial dos Povos, gêmeos bivitelinos.

A união/subsunção dos partidários de Hitler e Stálin se dá tanto em função dos lemas endogâmicos – Die Partei hat immer Recht e Meine Ehre heißt Treue – quanto em função dos inimigos do Partido, da Nação ou da Internacional.

Em Mein Kampf, Hitler já dissera: “Se não houvesse o judeu, seria necessário inventá-lo”.

Para os fascistas de direita, trata-se do inimigo étnico, trata-se do inimigo político: o judeu, o judeu bolchevique – Simeon.

Para os fascistas de esquerda, trata-se do inimigo de classe, trata-se do inimigo político: o burguês, o judeu burguês – Simeon.

Para que o leitor e a leitora apreendam, com mais concretude, o processo de naufrágio do eu em função do Todo oceânico, permitam-me guiá-los até o filme A Onda (2008), direção de Dennis Gansel.

Em uma escola secundária alemã, o anarco-professor Rainer Wenger, contra a própria vontade, fica incumbido de ministrar aos alunos uma semana de projeto sobre o tema Autocracia.

Neste momento, interessa-nos um experimento realizado por Wenger em sala de aula.

A Onda começa a se encorpar quando os alunos elegem Wenger como o mais novo Führer. A partir de então, só é possível se dirigir ao professor como Herr Wenger, isto é, Senhor Wenger.

Só que, na escola pública alemã, conquista fundamental do Welfare State, as mais variadas classes sociais, etnias e nacionalidades convivem – ou melhor, tentam conviver. Para que A Onda siga uma única e mesma direção, é preciso equalizar as diferenças para que todos se sintam parte de um Todo, para que todos se irmanem. É quando os alunos/membros d’A Onda, por unanimidade, decidem envergar a camisa branca como símbolo inequívoco de pertencimento e distinção.

Após a incorporação dos uniformes vem a saudação estilizada.

Após a saudação uniformizada e estilizada vem a ação.

Antes que eu lhes narre o experimento realizado por Herr Wenger em sala de aula, observemos mais de perto dois alunos daquela classe: o nerd Tim e a ruiva Karo.

Desde o princípio, temos a impressão de que Tim havia sido condenado ao ostracismo. Solitário, ele tenta fazer parte dos mais variados grupos, sempre à custa de ser achincalhado. (É assim que, no começo do filme, Tim oferece maconha para um trio de alunos do qual pretende se aproximar. Quando os colegas perguntam a Tim quanto lhe devem pagar pelos baseados, Tim lhes diz que “não é nada, não, faço isso pela amizade”.)

Logo sabemos que a família de Tim também o exila.

Assim, para um lobo solitário como Tim, para um jovem sequioso por afeto e solidariedade, o que significa pertencer à Onda?

Significa não ter que lidar com a individualidade como sofrimento, significa pertencer pela primeira vez a uma família, a uma irmandade, a uma Gemeinschaft – isto é, a uma comunidade, àquilo que nos comunica, àquilo que nos faz comuns (Nota 7).

Há uma cena emblemática que mostra o rito de passagem de Tim.

Tim “pertence” a uma família de excelente condição financeira. Ainda assim, a mansão bávara, os vários video games e as roupas de marca não lhe dão afeto, atenção e reconhecimento.

Quando Tim é tragado pel’A Onda, o jovem, já devidamente paramentado com sua camisa branca, reúne todas as suas antigas camisas de marca: Ralph Lauren; Armani; Hugo Boss; Calvin Klein; Lacoste; Tommy Hilfiger; Dolce & Gabbana; Prada; Diesel; Colcci; Nike; Adidas. Tim as joga sobre um carrinho de mão e, após embebê-las em álcool, ateia fogo às identidades mercadológicas e contingentes com que o capitalismo nos enreda.

A solidão de Tim não se vê superada com a vacuidade do corpo-outdoor, do indivíduo-propaganda. Tim clama por laços reais, por laços verdadeiramente humanos. Assim, percebamos que há um forte teor de verdade na ânsia de Tim por reconhecimento e pertencimento. Em contextos de fortes crises sociais – contextos que chocam os ovos da serpente –, o canto de Circe da Gemeinschaft fascista tem forte apelo entre o batalhão de solitários em seus mais diversos matizes: desempregados e enjeitados e carentes e ressentidos e humilhados e ofendidos.

A horda fascista estende a mão a Tim – e a Vassili Petróvitch N..

Tim e Vassili já não são Tim e Vassili.

Tim passa a ser uma gota d’A Onda.

Vassili, ou melhor, o camarada Petróvitch, é membro do Komsomol.

E quanto à ruiva Karo?

Karo é a antípoda de Tim.

Karo é inteligente, mas não é nerd.

Karo é bela, Karo é a atriz principal da peça, Karo é a líder.

Karo não queria que A Onda se chamasse A Onda. Karo queria que A Onda, à sua imagem e semelhança, se chamasse Os Transformadores. A democracia de massas, no entanto, fez da vontade de Karo voto vencido.

Se Tim sente prazer – e arrefece sua dor – ao ser engolfado pel’A Onda, Karo jamais abrirá mão de sua individualidade.

A adaptação de Tim à dinâmica endogâmica d’A Onda pressupõe sua inadaptação social.

A inadaptação de Karo à dinâmica endogâmica d’A Onda pressupõe seu protagonismo social.

Vamos agora à sala de aula comandada pelo Führer Rainer Wenger.

Todos estão presentes à aula, à exceção de Karo – a ruiva está atrasada (afinal, todos precisam notar quando ela chega).

Todos trajam camisas brancas.

Ao comando de Herr Wenger, todos se levantam.

Ao comando de Herr Wenger, todos começam a simular, em seus respectivos lugares, a marcha a passo-de-ganso.

– Um, dois! – exclama o Führer.

– Três, quatro! – secundam os liderados.

– Cinco, seis! – exclama o Führer.

– Sete, oito! – secundam os liderados.

A câmera do diretor Dennis Gansel percorre os rostos dos alunos – ou melhor, das gotas d’A Onda –, uma mudança repetina começa a se consubstanciar, o ar fica espesso, a cadência da marcha coletiva começa a gerar energia cinética, energia de coesão, os eus subsumidos se reconhecem pelo chão que ribomba, pela lousa que treme, o Führer vocifera que “assim nós vamos derrubar o piso, assim nós vamos derrubar uma ponte, assim nossa Onda vai virar um tsunâmi!”

Caro leitor, cara leitora, imaginem que, neste momento de êxtase coletivo, neste clímax de subliminação libidinal compartilhada, a porta da sala se abra e A Onda branca se depare com um corpo estranho – o bacilo da ruiva Karo a vestir uma camisa vermelha.

Vocês conseguem imaginar o anticlímax da “invasão” de Karo como um coito interrompido?

Vocês se dão conta de que, a todo custo e contra todos os obstáculos, A Onda não quererá se dissipar?

(“Se não houvesse o judeu, seria necessário inventá-lo”.)

A Onda, nesse sentido, ejaculará sua energia – energia intumescida pela subsunção de todos e cada um de seus membros em função da regência fálica do Führer – contra o invasor/inimigo, de modo que ou o corpo estranho será fagocitado, ou então ele será aniquilado.

Como só pode haver um Führer, Karo precisa se resignar como Tim. Do contrário, Karo precisará liderar uma nova Onda.

Voltemos agora à juventude trágica de Vassili Petróvitch N..

“Eu tinha feito um juramento”: Die Partei hat immer Recht, já que Meine Ehre heißt Treue.

O tio Simeon, ou melhor, o judeu Simeon, o kulak Simeon, o contrarrevolucionário Simeon é delatado aos soldados do Exército Vermelho pelo sobrinho Vassili Petróvitch N., ou melhor, pelo camarada Petróvitch, 15 anos, membro do Komsomol.

Como reconhecimento dos soldados do Exército Vermelho pela delação, ou melhor, pelo feito supraindividual, pela colocação da vontade do Todo acima de quaisquer escrúpulos egoicos/burgueses, o comandante aperta a mão do jovem bolchevique e lhe diz:

– Cresce depressa, irmão!

Cresça depressa, camarada Petróvitch, nosso socialismo precisa de bolcheviques implacáveis como você, nossa Onda precisa de sua energia, de sua abnegação – de sua subsunção. (O irmão como mais um náufrago da Grande Família.)

A escritora Svetlana Alexievitch nos diz que o camarada Petróvitch tapa os olhos com a mão e chora diante da lembrança de sua mãe – ela logo descobrira a delação do filho contra o tio, a delação do filho contra o irmão.

À noite, com a imagem do irmão retalhado na floresta pelos sabres do Exército Vermelho, a mãe dá um gorro ao filho e sentencia:

– Vai embora, meu filho! Que Deus te perdoe, infeliz!

Vassili Petróvitch N. chora. Ele chora copiosamente sob as mãos – a culpa e a vergonha não lhe deixam urrar sem um escudo.

Vassili Petróvitch N., potencial personagem de Fiódor Dostoiévski, sente, em cada uma das fímbrias de seu corpo trêmulo, que Deus e o diabo estão em luta, e o campo de batalha é o coração do homem.

A mãe de Vassili é irmã do tio Simeon.

A mãe de Judas é irmã do judeu assassinado.

Para oferecer a outra face ao filho e para fazer justiça ao irmão Simeon, a mãe de Vassili roga “que Deus te perdoe, infeliz!”

Para a personagem dostoievskiana Vassili Petróvitch N., então, há um motivo sumamente trágico para que o Partido seja a ressurreição de Deus: doar-se ao Todo, isto é, alienar a própria consciência, significa não ter que lidar com a liberdade de sentir culpa, significa não ter que lidar com a humanidade da própria falta. “Fiz aquilo porque era preciso, era preciso dar o exemplo, porque o egoísmo burguês do judeu Simeon – meu tio, meu Deus, meu tio! – precisava ser extirpado pela raiz. Não é assim que reza a minha Bíblia, o cartão do meu Partido? ‘Pela base destruiremos o mundo de antigamente / E o nosso mundo construiremos’. Para que a história soerga a Utopia, quantos Simeons ainda não assentarão as pedras fundamentais?”

Não nos deve surpreender, então, que, entre a torrente de lágrimas de Vassili, o camarada Petróvitch desponte vitorioso – Ao vencedor, as batatas – com o mantra que sempre o guiou – mantra sob o qual ele sempre se escondeu: Die Partei hat immer Recht, Meine Ehre heißt Treue. Por isso, “quero morrer comunista, é o meu último desejo”.

Eis o arremate da estória (e da história) de Vassili Petróvitch N. que Svetlana Alexievitch nos narra:

“Nos anos noventa, publiquei apenas uma parte desta confissão. O meu herói deu o seu relato para alguém ler, aconselhou-se e convenceram-no de que a publicação integral “lança uma sombra sobre o Partido”. E isso era o que ele mais receava. Depois da sua morte, encontraram o testamento: o seu grande apartamento de três quartos no centro de Moscou deixava-o não aos netos, mas “para as necessidades do querido Partido Comunista, a quem devo tudo”. Sobre isso escreveram até no jornal da cidade. Semelhante procedimento já era incompreensível. Todos se riram do velho louco. Ninguém mandou colocar qualquer memorial na sua sepultura.

“Agora decidi publicar o relato na íntegra. Tudo isto pertence agora mais a um tempo do que a uma só pessoa” (Nota 8).

Devo discordar de Svetlana Alexievitch: o fato de o camarada Petróvitch ter deixado seu grande apartamento de três quartos no centro de Moscou não para os netos, mas “para as necessidades do querido Partido Comunista, a quem devo tudo”, já não nos é incompreensível. (Os netos, sobrinhos-bisnetos de Simeon.)

Em meio ao esconde-esconde do conhece-te a ti mesmo que se confunde com a vida de Vassili, a oblação do camarada Petróvitch ao Partido procura amordaçar – ou pior, estrangular, emudecer, asfixiar, silenciar – a dor daquele que foge de seu próprio eu, da delação contra o tio e do perdão de sua mãe. À infelicidade de Vassili – “Que Deus te perdoe, infeliz!” – corresponde a abnegação (vale dizer, a negação do ego) por parte do camarada Petróvitch.

Devo, no entanto e por consequência, concordar com Svetlana Alexievitch quando ela diz que “tudo isso pertence agora mais a um tempo que a uma só pessoa”.

Vassili Petróvitch N., exilado de Utópolis (e de si mesmo).

Vassili Petróvitch N., náufrago de Atlântida.

III. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”

“Atingimos o comunismo com as valas comuns”

Ouçamos o que a mãe da estudante Ksênia Zolotova, de 22 anos, tem a nos dizer:

“Estudei pelos livros soviéticos, ensinavam-nos coisas totalmente diferentes. Só para comparação: nesses livros escrevia-se sobre os primeiros terroristas russos que eles eram heróis. Mártires. Sofia Peróvskaia, Kibaltchik. Morreram pelo povo, por uma causa sagrada. Lançaram a bomba contra o czar. Esses jovens eram, em muitos casos, de origem nobre, de boas famílias. Por que é que nos surpreendemos que existam hoje pessoas assim? (Silêncio.) Nas aulas de História, quando nos ensinavam a Grande Guerra Patriótica [(1941-1945), maneira pela qual os russos chamam seu próprio envolvimento na Segunda Guerra Mundial], o nosso professor falava da proeza da guerrilheira bielorrussa Elena Mazanik, que matou o Kube, administrador nazista na Bielorrússia, fixando uma bomba na cama onde ele dormia com a mulher grávida. E no quarto vizinho, do outro lado da parede, estavam os filhos pequenos. Stálin condecorou-a pessoalmente com a Estrela de Heroína. Até o fim da sua vida ela percorria as escolas e nas “aulas de coragem” recordava a sua proeza. Nem o professor… ninguém... ninguém nos dizia que do outro lado da parede dormiam crianças pequenas... Nem que Mazanik era a ama dessas crianças... (Silêncio.) Depois da guerra, as pessoas de consciência tinham vergonha de recordar aquilo que fora necessário fazer durante a guerra. O meu pai sofria com isso” (Nota 9).

Um requentado mantra histórico-político sentencia que não se faz uma omelete sem quebrar ovos.

Stálin só fazia recitá-lo – e executá-lo.

Ademais, o Guia Genial dos Povos também dizia que o único lugar em que se podem encontrar concórdia e paz absolutas é no cemitério.

Atualmente, a despeito de alguns monarquistas après la lettre – prováveis bastardos das famílias reais –, somos todos republicanos, não?

E se a má consciência da história nos sussurrar que a guilhotina é a parteira da moderna res publica?

Atualmente, a despeito de muitos racistas recalcados – eis o retorno do reprimido sempre latente –, somos todos contrários ao preconceito étnico, não?

E se a má consciência da história nos sussurrar que a guerra e o navio negreiro são os parteiros do contato pluriétnico, da miscigenação e, consequentemente, da noção de alteridade?

Sofia Peróvskaia e Kibaltchik explodiram o czar.

Alguém se lembra da miséria e da inanição dos servos russos, contra cujas costas abauladas o chicote e o cetro do czar desenhavam as fronteiras de seu império?

O leitor e a leitora bem podem inferir que, segundo tal cadeia de raciocínio, os fins doutrinam os meios.

Ora, voltemos às palavras da mãe da estudante Ksênia Zolotova.

Na União Soviética, a guerrilheira bielorrussa Elena Mazanik era tida como uma heroína. “Até o fim da sua vida ela percorria as escolas e nas ‘aulas de coragem’ recordava a sua proeza”.

Caso o leitor e a leitora já tenham esquecido – ou pior, recalcado – a proeza da camarada Mazanik, eis que este escritor faz as vezes da má consciência da história.

Elena Mazanik era ama, ou melhor, ama-de-leite dos filhos de Kube, administrador nazista da Bielorrússia.

– Invasor nazista da Bielorrússia! – vocifera a má consciência da história.

A boa consciência da história faz questão de pular os escombros do pleonasmo para nos dizer que a ama-de-leite amamenta, com o leite da vida, os bebês que estão sob o seu cuidado e carinho.

O leitor e a leitora diligentes jamais confiariam seus bebês a uma ama-de-leite qualquer. Assim, é totalmente factível que Elena Mazanik tenha conquistado a confiança do senhor e, sobretudo, da senhora Kube.

A senhora Kube, vale frisar, estava grávida de seu terceiro filho.

É possível que a senhora Kube tenha contado o nome de seu novo filho para a babá Elena Mazanik antes mesmo que o senhor Kube o soubesse.

A senhora Kube e Elena Mazanik, assim, bem podem ter se tornado confidentes.

Se Elena Mazanik fixou uma bomba junto à ou sob a cama onde o senhor e a senhora Kube dormiam, a ama-de-leite tinha livre acesso a todas as dependências da casa.

Agora, vamos aos louros e à coroa de espinhos da vitória.

A ofensiva nazista sobre a União Soviética ficou conhecida como Operação Barbarossa, em alusão a Frederico Barba-Ruiva, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190) que conseguiu impor sua autoridade sobre o papado e assegurou a influência alemã sobre a Europa Ocidental, fato que lhe trouxe a aura de precursor da unidade (e do espraiamento) do povo alemão. (O aríete de Barba-Ruiva contra os slaves eslavos.)

O leitor e a leitora que já se debruçaram sobre os relatos das atrocidades cometidas pela Operação Barbarossa conhecem e sentem os motivos pelos quais a partisan Elena Mazanik passou a pregar o Evangelho segundo Talião.

Creio que o leitor e a leitora, nesse sentido, consentirão que Kube, como administrador nazista da Bielorrússia, é responsável direto e/ou co-responsável por todas as barbaridades cometidas sob seu jugo, não é mesmo?

Assim, ainda que o leitor e a leitora, pacíficos cidadãos de bem de nosso período democrático – a má consciência da história, devidamente calejada, nos aconselha a chamar a nossa época de período entreguerras –, ainda que o leitor e a leitora não queiram sujar as mãos de sangue, creio que vocês aceitariam, não sem muita relutância, que a camarada Mazanik explodisse o nazista Kube, não é mesmo?

Agora, que dizer sobre o assassinato da mulher grávida de Kube?

Que dizer sobre o assassinato dos filhos de Kube que dormiam no quarto ao lado, pequeninos que haviam sido amamentados por Elena Mazanik?

Quer dizer que a mão estendida para a confiança e a amizade, camarada Elena, é a mesma mão que empunha a granada?

Quer dizer que os alunos soviéticos – alunos com a mesma idade e inocência dos filhos de Kube –, nas “aulas de coragem”, aprendiam a ser (e a fazer) como a camarada Mazanik?

Que Stálin tenha condecorado Elena Mazanik com a Estrela de Heroína, ora, trata-se de uma concessão do vício à verdade – e da verdade ao vício.

Mas e quanto aos inocentes?

A guerra deve tratá-los como cúmplices?

A guerra deve tratá-los como moedas de troca?

A guerra deve tratá-los como meras baixas?

A guerra deve tratá-los como collateral damage?

A pedra fundamental de Utópolis deverá ser assentada pelos filhos de Kube e pelo feto parido pela explosão?

A tripulação do submarino nuclear de Elena Mazanik será responsável por içar Atlântida de seu naufrágio?

Assim falou a mãe da estudante Ksênia Zolotova: “Depois da guerra, as pessoas de consciência tinham vergonha de recordar aquilo que fora necessário fazer durante a guerra. O meu pai sofria com isso”.

Mas eis que, a reboque da má consciência da história, a partisan Elena Mazanik, trêmula e indignada, toma a palavra:

– Ora, ora, “depois da guerra, as pessoas de consciência…” Não me venham com balelas! Pois muito bem: onde estavam as formidáveis pessoas de consciência durante a guerra? Vamos, me digam, onde elas estavam? Será que elas estavam ovacionando o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães quando Hitler ascendeu ao Reichstag, democraticamente, em 1933? Será que elas estavam delatando seus vizinhos para a polícia política à esquerda e à direita para se apoderar dos bens alheios? Ah, mas eu sei onde elas estavam – ah, se eu sei! Elas estavam nas paradas militares, elas ovacionavam os tanques e as ogivas, elas mandavam seus filhos e maridos para o front com flores e beijos, elas mandavam suas esposas para as fábricas de mísseis. Em verdade, em verdade lhes digo: as pessoas de consciência são as primeiras a transformar a venda sobre os olhos da Justiça em mordaça – sim, sim, sim, porque elas precisam de nós, elas precisam dos justiceiros, elas não querem sujar as mãos, ora!, o serviço sujo cabe ao açougueiro, ele que se encarregue de suportar o choro e o ranger de dentes, não é mesmo? Pois eu tenho uma novidade para vocês, meus caros, uma velha novidade que a história ainda não conseguiu abortar: eu, Elena Mazanik, sou como vocês. Sim, sim, sim, vocês me ouviram bem: eu sou como vocês! Ah, mas eu já ouço os fariseus a me acusar: “Você matou, você matou inocentes, nós jamais fizemos algo assim”. Sim, é claro, os burgueses e a boa vida nunca fazem nada, vocês nunca são responsáveis por nada, esquadrões de extermínio e mendigos mortos são tão espontâneos quanto a fotossíntese ao amanhecer. É claro, é claro! Mas saibam: as pessoas de consciência do pós-guerra, todos os cidadãos altivos e educados que limpam a boca e a bunda com seda, todos vocês precisam de nós, os justiceiros, os carrascos, os verdugos. E saibam: apenas o acaso cego nos distingue – sim, a mera sorte. Eu vivi uma época – ou pior, eu sobrevivi a uma época – que havia revogado o Não matarás. Vocês sabem o que é isso? Vocês lá sabem o que é isso?! Então saibam: quando a vida rasteja entre os escombros, quando o campanário das igrejas vira cidadela de snipers, quando já não sabemos por que e por quem os sinos dobram, vocês descobrem que, em meio à guerra, não é possível dizer não vou matar. Não, não é possível… No máximo, uma pessoa de consciência, durante a guerra, consegue dizer espero não matar. E depois, depois da guerra, parece que um abismo cinde o teu passado – quem tenta içar pontes sobre a terceira margem da memória (ou pior, do esquecimento) o faz por sua própria conta e risco. Mas, bom, como é que vocês, degustadores de canapés e de foie gras, vão lá saber de tudo isso? Ou se vive ou não se vive – e eu só fiz sobreviver. Vocês ainda sabem rezar? Ah, é claro, vocês não precisam rezar – que mal lhes vai abater além de uma gripe ou mais uma gonorreia desavisada? Pois, na guerra, eu reaprendi a rezar. Vocês já assistiram ao filme O Sétimo Selo? Vocês se lembram da cena inicial? A câmera de Ingmar Bergman encara o céu silencioso – e vazio. Onde está Deus? Por que Ele não fala conosco? Ora, essas não são perguntas de tempos de paz. Quem assiste aO Sétimo Selo deitado sobre o sofá não sabe o que é entoar uma prece para que a paz do canto gregoriano cale a epilepsia atonal das ogivas. Não, eu não estou me justificando – ora, quem são vocês para pensar isso?! Vocês não têm o direito de ter sobrevivido – não é justo que vocês não tivessem nascido! Mas eu, Elena Mazanik, partisan bielorrussa e heroína da União Soviética, pude me conhecer profundamente. Eu desci aos meus próprios círculos infernais, eu tive a coragem de, eriçada e ferida, sobreviver ao meu próprio eco. Hoje, eu sei o que devo evitar. Não foi o espanhol Ortega y Gasset quem me ensinou que eu sou eu e minhas circunstâncias, não. E o que é que vocês sentem quando se deparam com uma obra como Guerra e Paz? Aposto que vocês acham muito belo o título antitético, não? Pois eu o acho corporalmente bélico – ele me traz a vizinhança das sirenes e da bateria antiaérea, ele me traz o claro-e-escuro do bunker, ele me traz os farrapos da bandeira branca, ele me traz a sobrevida e o fedor subterrâneos, a amizade dos ratos, a onipresença das baratas, a sífilis após a trégua, a putrefação dos cadáveres, as valas comuns, os olhos esbugalhados de todas as vidas ceifadas pela morte abrupta. Chega! Chega! Eu quero a paz, sim, eu sempre a quis. E é por isso que só entendem os romanos – sábios romanos! – aqueles que sofremos com as invasões bárbaras. Se queres paz, prepara-te para a guerra. Mas, tudo bem, vocês querem um culpado, vocês me querem culpada! Ecce domina, eis-me nua diante de vocês: Elena Mazanik, partisan bielorrussa, heroína da União Soviética. Um bode expiatório a menos, um bode expiatório a mais – quem se importa? Eu sou culpada, vocês não o são. Eis tudo – não é mesmo? Ora, ora, cuidado: eu sou culpada, vocês ainda não o são. Lembrem-se: Cristo não salva a adúltera do apedrejamento apenas pelas faltas pretéritas daqueles que apontavam dedos em riste contra a suposta pecadora. Cristo já entrevia as faltas futuras. E, sim, por vezes eu me envergonho de mim mesma. Sim, eu me envergonho. Mas não, não, eu não me envergonho pelo que eu fiz – vocês um dia saberão se teriam feito algo pior… Não, eu me envergonho por ter sobrevivido. Por que eu sobrevivi ao meu pai? Por que eu sobrevivi à minha mãe? Por que eu sobrevivi aos meus irmãos? Sim, Cristo, deixa que os mortos enterrem seus mortos. Na guerra, não há túmulos. Atingimos o comunismo com as valas comuns. O sol é o réquiem da manhã que ainda não nos redimiu com a morte. Até hoje, só se viu o reino da igualdade no cemitério – e não me refiro aos túmulos e às lápides, já que eles continuam a ostentar a luta de classes. Me refiro à igualdade a sete palmos da epiderme da vida. A igualdade putrefata. Mas chega, chega! Eu já vou terminar. Eu agora vou ao cemitério. Se eu vou visitar alguém? Sim, eu vou. Vou visitar um justiceiro. Vou visitar outro injustiçado. Ninguém mandou colocar qualquer memorial na sua sepultura. Eu vou lá para narrar sua lápide. A quem eu me refiro? Ora, a quem mais senão ao camarada Vassili Petróvitch N.?

NOTAS

(1) Porto: Porto Editora, 2015, p. 231 (primeira epígrafe), p. 460 (segunda epígrafe). O título da primeira seção deste ensaio, por sua vez, é uma frase de Vassili Petróvitch N. que consta da página 163.

(2) O fim do homem soviético, p. 165.

(3) Vivi em Moscou entre os anos de 2008 e 2009 para dar sequência aos estudos de língua russa que me levariam à leitura dos originais de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, o autor que eu então estudava em minha pesquisa de mestrado.

(4) O fim do homem soviético, p. 165.

(5) O fim do homem soviético, p. 165.

(6) In: Alfred Josef Keller, Michaelis: Dicionário Escolar de Alemão. São Paulo: Melhoramentos, 2002, p. 117.

(7) Michaelis: Dicionário Escolar de Alemão, p. 125.

(8) O fim do homem soviético, p. 181.

(9) O fim do homem soviético, pp. 345-346.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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