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Niilismo e comunhão

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Chicago, 20 de junho de 2015

– Não, não, não, Caim: você, felizmente, não é um verdadeiro niilista. Felizmente, meu amigo! Afinal, cê ainda não foi embora, cê ainda tá aqui, cê ainda não deu cabo de si mesmo – e cê não vai fazer isso!

– Ora, ora, Abel: quer dizer que, pra você, o niilismo é como uma sombra que deve, necessariamente, acompanhar o niilista até o cadafalso?

– E te parece que não? O niilismo, a meu ver, é uma daquelas doutrinas – o niilismo é uma fé – que não apresentam qualquer plasticidade: para o verdadeiro niilista, todos os caminhos levam a Roma, todos os caminhos levam ao calvário. E, ao dizer isso, não estou me esquecendo das verdadeiras legiões de deprimidos e cabisbaixos, de prostrados e masoquistas, de desiludidos e resignados, de tristonhos e depressivos que sentem, contra o próprio corpo, os sintomas da completa falta de sentido. Não, não, não, Caim: felizmente, eles, assim como você, não são verdadeiros niilistas.

– Ora, ora, Abel, então me diga: o que é que nos faz sentir a passagem do tempo como uma completa idiotia? O que é que nos faz definhar senão o nada a galope? Te parece, então, que somos doentes? Te parece, então, que nos falta coragem para o suicídio?

– Não, não, não, Caim: nem doentes, nem covardes.

– Então, o quê?

– E se eu te dissesse, Caim, que aquilo que cê tá chamando de covardia é, na verdade, um ímpeto? E se a doença puder inocular a própria cura?

– Eu te diria que teu tarja preta não tá suficientemente calibrado, Abel. (Quer que eu te dê o telefone do Dr. Bacamarte? Com ele, não tem erro, é tiro – e queda: catatonia garantida.)

– Caim, Caim: essa tua amargura risonha – o sarcasmo daquele que despenca [16º andar, 13º andar (até aqui vai tudo bem!), 10º andar, 7º andar (até aqui vai tudo bem...), 4º andar, 1º andar (até aqui vai tudo bem?)] – fez com que eu me lembrasse, sintomaticamente, de um aforismo do bom e velho Millôr Fernandes: É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra.

Gargalhada de Caim seguida de um longo trago de cerveja de trigo – Paulaner ou Franziskaner?

– Caim, Caim, a tua amargura etílico-risonha é sintomática: cê notou que, subterraneamente, tanto pro Millôr quanto pra você, se trata de driblar algo que está aí – se trata de buscar algo outro? Do contrário, por que se preocupar com o que “é melhor”? Por que buscar um estado em que se “fica feliz”? Será que, sob o altar do Nada, não se esgueira algo além?

– Ora, ora, Abel: segundo consta, sob o altar do Nada, sob a epiderme da terra e da vida, jazem os mortos. E, segundo consta, os mortos nada querem.

– Pois muito bem, Caim: cê tá morto? Com essa caneca de cerveja em punho e com os olhares generosos daquela morena sentada junto ao balcão, Caim, cê tá morto?

– Talvez minha resposta não te soe original, Abel, mas, por ora, não, eu não tô morto. Talvez, e não mais do que talvez, o acaso cego tenha sido algo generoso ao me fazer não de todo malquisto pelas mulheres; talvez, e não mais do que talvez, o acaso caolho tenha sido algo solidário ao me regalar um cérebro não de todo desfalcado. Mas, Abel, me diga: e depois dos 35? O que vai ser de tudo isso aqui? O que vai ser daquela morena? O que vai ser de mim? O que vai ser desta cerveja? (A ressaca é ou não é um prenúncio da nossa ladeira?)

Sorriso de soslaio de Caim seguido de um longo trago da cerveja de trigo – outra Paulaner após mais uma Franziskaner.

– Pois muito bem, Caim, desçamos a ladeira de Sísifo: você, leitor contumaz de Emil Cioran, certamente vai se lembrar de uma divagação do escritor romeno sobre a decomposição do cigarro, não é mesmo?

– Como não? Cioran acendeu um cigarro e passou a espreitá-lo minuciosamente, como se ele fosse o dedo em riste do nada que, algum dia, nos vai coagir ao silêncio. Então, o romeno começou a inalar a asfixia da fumaça enquanto acompanhava, com sumo prazer, a decomposição paulatina do cigarro em cinzas. Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar. É como se, diante da própria ruína – e uma vez que já não acreditamos na reconciliação da Fênix –, só restasse a Cioran acompanhar (e comandar) a própria decrepitude. Nesse sentido, meu caro Abel, o suicídio se transforma em uma ode. Sim, uma ode – um elogio à vida que um dia pulsou, uma ode ao lapso de vida que nós imaginamos, e não mais do que imaginamos, arrancar ao tempo. Ocorre que, quando Chronos resolve dar as caras – olha aqui, Abel, olha a invasão bárbara e avant la lettre dessa penugem grisalha aqui no meu cavanhaque, rapaz! –, quando o tempo suja de nódoas o dorso de nossas mãos, quando o tempo reumático curva nossos dedos como galhos ressequidos, quando o tempo começa a chicotear nossa pressão arterial, quando o tempo empurra nossas células a mitoses e meioses tão tresloucadas quanto cancerígenas, quando, em suma, nós nos descobrimos feitos de tempo, é preciso apagar as velas – e já não se trata de um feliz aniversário. [Consta que um homem que buscava a plenitude certa vez sentenciou que a passagem do tempo o fazia acumular tanta sabedoria, mas tanta sabedoria, que, quando estivesse morto, ele enfim se tornaria um sábio. (Não à toa, o bom e velho Mark Twain certa vez também sentenciou: Time is the best teacher. Unfortunately, it kills all its students.)]

Sorriso amargo de Abel antecedido por um trago fundo de cachaça mineira – branca ou amarela?

– Ora, ora, Caim, então me diga: como explicar que esse mesmo Cioran tabagista e mórbido tenha escrito um livro tão sublime como Lágrimas e Santos? Um livro que, a bem dizer, parece decantar uma verdadeira nostalgia do absoluto. Como explicar isso, hein? Eu me lembro de que, quando estive na Capela Sistina e quando me deparei com um Van Gogh pela primeira vez, no Museu d’Orsay, as palavras de Cioran me rondavam como verdadeiros espectros. Sim, porque o romeno chegou a dizer que a suma beleza da teodiceia de Michelangelo traduzia o ethos de uma época que transbordava fé e certeza, uma época em que Deus ainda pairava sobre a face do abismo para socorrer, com as lágrimas dos santos, todas e quaisquer ovelhas desgarradas. Que vos parece? Um homem possui cem ovelhas: uma delas se desgarra. Não deixa ele as noventa e nove na montanha para ir buscar aquela que se desgarrou? E, se a encontra, sente mais júbilo do que pelas noventa e nove que não se desgarraram. Assim é a vontade de vosso Pai celeste, que não se perca um só destes pequeninos. Uma época, em suma, que parecia prestes a fazer com que o dedo de Deus voltasse a resvalar o dedo de Adão. Assim na terra como no céu da capela (Caim balbucia: e assim no céu como na terra de Judas...). Ocorre que, 400 anos depois, o desespero de Van Gogh já não vê a luz e a perspectiva de Michelangelo, o holandês já não sente em si o ímpeto para o renascimento. Assim, Cioran descobre, sob o caos van-goghiano de traços convulsos e agônicos, o pathos de uma época que já não consegue acreditar em Deus, a dor lancinante de um tempo que adoeceu o amarelo retilíneo e confiante da Renascença, cujas flores encarnavam verdadeiras emanações vegetais do Sol, e o embalsamou com a icterícia repleta de dúvida dos autorretratos de Van Gogh. Então, meu caro Caim, vamos lá, me diga [Caim estanca o trago de cerveja para (tentar) acompanhar a correnteza de Abel]: será que alguém que sente a nervura do real com tamanha visceralidade a ponto de querer abraçar o mundo e aceitar e cicatrizar todas as suas imperfeições; será que alguém que caminha entre os nossos escombros como se ainda fosse possível selar a paz com o canto gregoriano e a plenitude de um órgão que nos acalentam sob a abóbada intangível de uma catedral gótica; será que um esteta sob cujo desespero parece pulsar o sagrado; será que um artista cujo ateísmo parece rezar para que a beleza salve o mundo; será que um apóstata como Cioran é de fato um niilista, ou será que, sob a apostasia de seu culto ao nada, não pulsa, ardorosamente, uma nostalgia do absoluto?

Boquiaberto, Caim pousa a caneca sobre a mesa. (A morena continua a espreitá-lo.)

– Ulalá, meu caro Abel, u-la-lá! Se eu não estivesse suficientemente imunizado contra o teu veneno teológico, seria até possível que eu chegasse a ser embalado por todo esse Te Deum – eu dou o braço a torcer, meu amigo, e admito que tentar converter um cético como Cioran não deixa de ser uma aventura e tanto. Entretanto, Abel, tua ousadia em querer converter um apóstata em apóstolo soa como se a lápide de Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo término se dá com o sintomático capítulo Das negativas, pudesse nos trazer alguma esperança para além da seguinte punhalada: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

– Pois muito bem, Caim: que bom que cê mencionou Machado de Assis e sua ironia-só-lâmina. Já que, pra você, o hábito não faz monge e já que o belo rosto daquela morena junto ao balcão – chamemo-la de Julieta – não passa do prenúncio de uma máscara mortuária, só te resta o exílio sob a máscara da ironia, Caim, como se, de alguma forma, tua pirofilia te pudesse salvar do nosso incêndio ao fim e ao cabo. (Ora, ora: quer dizer, então, que a ironia também poderia ser tida como uma vontade de redenção? Ora, ora...) Mas, Caim, já que tamos descendo a ladeira de Sísifo, levemos às últimas consequências o niilismo de Cioran Cubas. Vambora?

– Ao longo da tua peregrinação pelos círculos mais subterrâneos de Dante, meu caro Quixote, serei teu fiel escudeiro. Andiamo!

– Pois muito bem, caro Caim: te digo, sem mais, que me parece impossível prescindir in toto das nossas ilusões – supondo, é claro, que elas sejam “apenas” ilusões. Ora, por que esperar pelo abismo da velhice, meu amigo, se a vida já não faz sentido aqui e agora? Quaisquer reconciliações com a vida, Caim, ainda que efêmeras e contingentes, já demonstram a busca por um sentido – e aí está a cauda da ilusão. Então, Caim, pare agora mesmo de flertar com a Julieta, meu caro, e imagine que, de alguma forma – e não me pergunte como –, cê acaba de ficar sabendo que, amanhã de manhã, nu ao lado de Julieta, cê vai ser acometido por um aneurisma cerebral e terá morte instantânea. Ins-tan-tâ-nea! Segundo o teu acaso cego, Caim, a morte não tem data marcada pra acontecer – mas é justamente o esqueleto da contingência que eu quero chacoalhar agora, meu caro: cê sabe que cê vai morrer e cê sabe a que horas a guilhotina vai despencar – suponhamos que teu cadáver já esteja frio e enrijecido às 10 em ponto, daqui a, precisamente, 11 horas e 37 minutos. [Caim larga a caneca com a mão esquerda e como que contém a mão direita para não dar três batidelas na madeira da mesa.] Sendo assim, meu caro, me diga: que gosto passaria a ter essa tua cerveja? Uma eventual paixão por Julieta continuaria ardente? Cê não poderá se despedir dos teus pais, cê não poderá se despedir dos teus irmãos – deixa que os mortos enterrem seus mortos –, cê nunca mais vai vê-los, cê nunca mais vai acordar, cê nunca mais vai existir! Então, Caim, vamos, me diga: quando cê olha pra cara do caos, meu amigo, é possível discernir algum rosto além da face da Medusa? [Abel arregala os olhos, e Caim como que evita encará-lo.] E agora, Caim, me diga: que fazer? Vamos, meu amigo, me diga: que fazer? Nada, não é mesmo? Ora, Caim, ecce homo et ecce nihil – eis o homem e eis o nada. E agora, meu caro, me diga: a morte não ceifa a vida de uma vez por todas? Se é assim, Caim, chafurdemos no legado de nossa miséria – sim, Caim, porque, à diferença de Brás Cubas, teus pais te fizeram nascer, teus pais não te abortaram, teus pais te acolheram e te criaram, cê chegou a imaginar que a felicidade fosse possível – cê chegou até a resvalá-la, Caim, cê sentiu a felicidade frágil, quebradiça e amarela de Van Gogh como uma folha de outono, cê chegou até a mesmo a vivenciar a felicidade tímida e pálida como a luz de inverno. Mas aí, Caim, a notícia do aneurisma te mostra, de uma só vez, tua cara refletida na lâmina da espada de Dâmocles, de modo que já não é mais possível postergar, de modo que já não é mais possível procrastinar: a morte já não é apenas o arrepio da morte, Caim, a morte já não é apenas aquele calafrio sorrateiro que escala cada vertebra da nossa coluna e nos faz encolher os ombros e a nuca para enxotá-lo. O há de ser já não existe mais, Caim, o era uma vez já naufragou: aqui e agora, Caim, cê vai morrer, cê vai acabar. Se assim fosse, Caim – e assim será pra você, pra mim e pra tua Julieta –, o que você faria? Em que e em quem cê pensaria? O que cê pediria? Vamos, Caim, me diga: o que você faria?

Caim fica pálido.

Caim fica em silêncio.

(Do balcão do bar, Julieta olha para Abel como que a sondar se tá tudo bem com Caim.)

Súbito, Caim tenta esboçar uma frase – não sem antes surrupiar a pinga de Abel e tomá-la numa só talagada.

– Eu acho que... eu acho que, numa situação dessas... situação de vários condenados... (Caim tenta espantar um calafrio que o transpassa) eu acho que, nesse caso, num caso assim... eu descobriria o que quer dizer amém – que assim seja... que haja algo para além de tudo isso aqui, que a morte seja uma passagem, que não haja término, que a saudade seja um ímpeto para o reencontro. (Caim fica olhando fixamente para o fundo da caneca de cerveja.) Será... será que é por isso que, quando os moribundos têm a chance de se despedir dos entes queridos, eles começam a pedir perdão?

– Talvez, Caim, talvez.

Caim volta a olhar fixamente para o fundo da caneca.

Súbito, Caim encara Abel:

– Mas o fato de querermos o absoluto – bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados – não significa que o absoluto exista, Abel. Eu posso até achar que o absoluto faz sentido – aliás, eu posso até mesmo achar que o absoluto faz todo o sentido em face dos desesperançados e humilhados e ofendidos –, mas Pandora não pode ser a mãe de Deus simplesmente pelo fato de ser justo e bom que ela o seja. Não, Abel: o real não é justo e racional, e a justiça e a razão não são reais.

– Não, Caim, ainda não...

– E se fosse possível entender tudo isso, Abel, Michelangelo teria que resgatar Van Gogh do suicídio sem fazê-lo ajoelhar-se diante de ícones silenciosos e sem doutriná-lo a acender velas e incensos.

O garçom traz um presente de Julieta para Caim: uma Franziskaner (ou seria uma Paulaner?) com colarinho.

Em silêncio, Abel olha fixamente para o fundo de seu copinho de cachaça.

Súbito, Abel encara Caim:

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria – eis a lei e os profetas, certo?

– Quem dera essa lápide não fosse assim tão certa, Abel – quem dera essa certeza não fosse assim tão lapidar.

– Pois muito bem, Caim: olha praquela lixeira ali – tá vendo?

– Tô.

– Você e a tua futura Julieta ainda não tiveram filhos, meu caro, mas imagine que uma mãe desnaturada jogasse um bebê de 7 meses (se tanto) ali naquela lixeira, Caim, entre ratos e cascas de banana, baratas e camisinhas. Então, Caim, me diga: o que é que um niilista contumaz deveria fazer diante desse verdadeiro horror? O que é que cê imagina que Cioran Cubas faria, hein?

Caim não consegue olhar para Abel.

Caim não consegue flertar com Julieta.

Caim parece hipnotizado pelo lixo.

Súbito, Caim dispara:

– Se eu dissesse que Cioran Cubas salvaria o bebê, Abel – se eu dissesse que ele chegaria até mesmo a adotá-lo –, você me diria que, ao sentir compaixão pelo sofrimento daquele pobrezinho indefeso e ao salvá-lo da morte certa, Cioran Cubas teria renegado o capítulo Das negativas.

– Não, não, não, Caim, eu não diria “apenas” isso, não, meu caro. Eu diria que, se quisesse ser coerente com o próprio niilismo, Cioran Cubas deveria exercer uma compaixão algo distinta daquela que você imaginou, Caim. Veja só: se o bebê for filho de uma pobre coitada que mal consegue se alimentar e que se lamenta a cada dia por ter nascido, o grande ato de solidariedade de nosso niilista Cioran Cubas será as-sas-si-nar o bebê para dar fim, de uma vez por todas, às privações e aos sofrimentos atrozes que o esperam.

– Meu Deus do céu, Abel, quem não te conhece que te compre – ou melhor, quem ouve tua pregação que não te dê o dízimo... Para alguém que cultua o sagrado, Abel, haja profanação, hein?

– Deus e o diabo estão em luta, Caim, e o campo de batalha é o coração do homem. Mas me deixe continuar, meu caro, e não fique aterrorizado com a escatologia do teu próprio niilismo: ouçamos a oração que Nihil nos ensinou. Assim, Caim, aquele que vivencia, em cada fímbria do próprio corpo, a completa falta de sentido já não fica cuspindo diatribes a torto e a direito e já não fica escarnecendo dos demais e da vida. Para aquele que petrificou a decisão inabalável rumo ao suicídio após olhar para a cara da Medusa, asfixiar aquele bebezinho escarrado na lixeira pela própria mãe é um grande ato de caridade. Sim, porque esse bebê ainda tem sorte: insciente sobre o vale de lágrimas deste mundo, o bebê será assassinado sem saber por quê, ele sequer descobrirá que somos feitos de egoísmo e ingratidão, de inveja e cobiça, de discórdia e traição – ecce homo, Caim: não é assim que o evangelho segundo Cioran Cubas define a natureza humana? Nesse sentido, meu caro, é preciso poupar o bebezinho do nosso sofrimento inútil – ou pior, é preciso redimi-lo do nosso sofrimento absurdo. Vamos, Caim, não fique aí de olhos esbugalhados, meu caro, e imagine que essa tua caneca é um punhal – o evangelho segundo Cioran Cubas não costuma pregar que o último cristão morreu na cruz? Pois bem: um verdadeiro niilista só vivifica sua doutrina ao se imolar para se oferecer em holocausto diante do altar de Nihil. Esqueça a tua Julieta, Caim, esqueça a tua família, esqueça as amizades, esqueça até mesmo o baseado que tá aí no teu bolso – de acordo com o evangelho segundo Cioran Cubas, meu caro, todas essas coisas não passam de tergiversações estúpidas e contingentes diante da completa falta de sentido, já que todos e cada de nós somos feitos de pó, e não de pólen. E, Caim, como já tá ficando tarde – agora só faltam 9 horas e 37 minutos pro teu aneurisma –, eu vou me encaminhando pro fim deste nosso papo [tua Julieta já tá impaciente ali no balcão, as amigas dela (uma mais filé que a outra) já tão querendo apresentá-la prum outro espertalhão ali perto]. Mas eu não vou embora sem antes te perguntar o seguinte, meu caro niilista de botequim: cê já ouviu falar de um tal de Philipp Mainländer?

– Não, Abel, quem é esse cara?

– Um discípulo de Arthur Schopenhauer – discípulo que suplanta o mestre, filho parricida: um verdadeiro niilista.

– Ah é? E por quê?

– Leitor contumaz de O mundo como vontade e representação, Mainländer chegou à conclusão-cadafalso de que nenhuma ascese estético-filosófica – ou, por outra, nenhum Nirvana ateu – poderia reconciliar a negação da vontade de viver com a continuação de uma vida que, em si e por si mesma, não tem sentido algum. Querer pairar incólume sobre o caos cego e cruel do mundo – querer ser um Buda ateu, tal como Mainländer talvez compreendesse a postura de Schopenhauer – era, ao fim e ao cabo, fazer uma ode à vida que tanta repulsa (supostamente) causava ao mestre do niilismo. E veja só, Caim, veja a que extremos Mainländer levou o niilismo: o discípulo de Schopenhauer passou a militar nas fileiras do movimento operário contemporâneo a Marx e Engels, porque, segundo ele, era preciso livrar os trabalhadores do jugo da espoliação e da necessidade para que, com o estômago devidamente forrado, o proletariado também pudesse chegar à conclusão-cadafalso de que a vida é uma completa idiotia. (Ora, Caim, me diga se a ironia de Cioran Cubas não vira pó diante da morbidez cínica de um Mainländer?) E mais: Mainländer nascera fruto de um estupro; caçula entre seis filhos, Mainländer assistira ao suicídio de nada menos que três de seus irmãos. Assim, no dia da publicação de A filosofia da redenção, primeira e única obra de Mainländer, o discípulo de Schopenhauer, parricida como todo o verdadeiro niilista deve ser – 11º Mandamento: Enxovalha teu pai e tua mãe, para que se abreviem os teus dias na terra a que o Senhor Nihil te condena –, no dia em que A filosofia da redenção é escarrada na mesma manjedoura do bebezinho indefeso, manjedoura que o evangelho segundo Cioran Cubas chama de mundo, Philipp Mainländer, aos 34 anos, enfia uma bala na cabeça – mais precisamente, na têmpora direita. (Abel arregala os olhos e apruma a voz para sentenciar: E eis que tosquenejará e dormirá o violador de Israel, e o sol já não o molestará de dia nem a lua de noite.)

Pálido e com a boca entreaberta, Caim deixa a caneca de cerveja cair no chão.

A caneca se espatifa, e Caim, como que hipnotizado, vai acompanhando a trajetória sinuosa da cerveja que, da calçada onde está a mesa do bar, avança até o meio-fio e vai sendo engolida pela boca de lobo.

Confusa e impaciente junto ao balcão do bar, Julieta fica batendo o indicador direito contra o relógio no pulso esquerdo – e aí, Caim, cê vem ou não vem falar comigo?

Prestes a deixar o amigo no bar para voltar para casa – todo homem deve ter um lugar para onde possa voltar: casado com a assistente social Vida, Abel é pai das gêmeas recém-nascidas Sofia e Esperança –, Abel, já de pé, pousa a mão direita no ombro esquerdo de Caim e se despede:

– Meu amigo, eu entrevi uma enorme piedade nos teus olhos e no teu rosto trêmulo enquanto eu te contava a estória do bebezinho na lata do lixo. Então, Caim, me diga, meu amigo: como é que a gente transforma compaixão em comunhão? Já pensou se você conseguir viver isso com a tua Julieta?

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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