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Memórias de um pequeno poeta: Mosaico de soslaios a partir da Carta a pai, de Flávio Ricardo Vassoler

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Preâmbulo

 

Pretendemos comentar o texto Carta ao pai (1), do escritor Flávio Ricardo Vassoler (2), de modo a observarmos algumas peculiaridades que chamam a atenção do leitor para a perspicácia de um menino incomum para a sua geração e sua faixa etária. Tais fatores consistem nas explosões de sentidos e sentimentos provocadas naquele que lê as observações feitas pelo pequeno Sherlock corinthiano. Tais observações envolvem as idas com o pai ao estádio para ver o Corinthians jogar; a revelação acerca do pai biológico; as primeiras consciências do que sejam lutas de classes (presenciando cenas facciosas numa mesma fração da classe trabalhadora, embora em setores diferentes – setores, e não categorias, o que aumenta talvez o espanto); a descoberta da puberdade;   a paixão chamada Marcela (a primeira?); a primeira compreensão sobre o porquê de o pai votar no Lula; o entendimento concreto do humano já na universidade; a preocupação com questões étnicas e sociais.

Toda essa coletânea de conhecimentos sobre o mundo desde tenra idade e sua sensível percepção do real levam a Carta ao pai à arte poética e nos convidam à sala do diálogo entre o narrador/memorialista e o pai, para que vivenciemos com o jovem prodígio todas essas emoções e nos deliciemos nesse manjar de confidências – entre elas, algumas intrigas (presentes na vida de todos que se amam) e alegrias somadas de vez em quando a tristezas e revoltas pela situação que o Brasil já viveu (e que no contexto atual de profunda crise política, econômica e social, o vemos repetir).

Carta ao pai, de Vassoler, não é uma biografia, nem um acerto de contas (isto menos ainda), mas uma reunião, um assentar-se à varanda, como, quem sabe, tenha ocorrido em Joaquim Távora, no norte do Paraná, cidade natal do pai Nhanho: o pai em sua poltrona reclinável e Ricardinho à rede, ambos relembrando os velhos tempos, ora dando risadas, ora marejando os olhos; ao fim e ao cabo, pai e filho se irritariam pela situação do golpe parlamentar que o Brasil sofreu há pouco (eis um fragmento de cena que esta leitora acaba de imaginar).

O leitor começa a caminhar pela prosa entre pai e filho e, ao entreouvir diálogo tão prolífico, vai se lembrando de como Augusto Boal transformava a prosa e a adaptava ao teatro. Para aquele que abandonara o laboratório de coisas inanimadas – coisas que, no entanto, apresentavam reações –, trabalhar com o humano e suas fantásticas reações lhe parecia uma ideia extraordinária, e assim viria a surgir o teatro revolucionário de Augusto Boal.

* * * *

A primeira emoção/reminiscência que a Carta ao pai trouxe a esta leitora – experiência que me lembrou de uma situação que vivi com meu pai, aos 9 anos de idade, enquanto vendíamos picolés numa caixa de isopor, no estádio do Parque Sabiá, então recém-inaugurado na Uberlândia dos anos 1980 – foi a chamada do narrador para o cotidiano de famílias urbanas pouco remediadas do fim do século XX, em que os pais tinham um contato mais direto com os filhos, levando-os ao estádio de futebol, ao parque de diversões etc., já que ainda não havia as mediações/separações digitais.

Outro fator curioso na carta é o fato de o narrador, quando pequenino, descobrir, através da mãe, que havia outro pai na vida dele. Parece que a descoberta entrelaçou a curiosidade à decepção que o menino pudesse ter em abrir a folhagem da história de sua vida.

Eis outra impressão que me tomou: a luta de classes dentro da própria classe trabalhadora sendo descortinada em um churrasco, e o mesmo guri de olhos atentos e ouvidos aguçados protagoniza a cena, munido pela antena de sua curiosidade.

O menino prodigioso – chamemo-lo de pequeno Sherlock – observa (e tenta analisar) o que está acontecendo ao seu redor: o pai que vota no Lula, a consciência não só da luta de classes, mas também das cisões étnicas. Mais tarde, já na faculdade, começará sua apreensão sobre o que viria a ser o humano propriamente dito.

Essa investigação do menino corinthiano faz lembrar Augusto Boal, quando o dramaturgo funda o Teatro de Arena e seu laboratório experimental, no qual os atores tomam consciência do que realmente seja atuar. Atuar se diferencia do fingidor, o artista da antiguidade, por exemplo. Aquele que se revestia de máscaras para entreter o público, com o trágico-cômico. Hoje, estaríamos diante do palhaço propriamente dito, e já não poderia haver nenhuma espécie de drama.

Na junção entre experiência e ressignificação, vida e arte, entra o corpo, que é a alma, o sopro divino que propicia o amálgama de todos esses elementos. Cada movimento do corpo é parte essencial da arte-vida-poética. Para Boal, em seu livro Teatro do oprimido e Outras poéticas políticas, “a arte imita a natureza, na verdade, quer dizer: ‘a arte recria o princípio criador das coisas criadas’” (1991, pp. 19-20).

Essa passagem de Boal nos remete ao mito da criação (בראשית) breshyt: a preposição “ב”, aglutinada à palavra, indica “em princípio” ou “em um princípio”. Uma vez que, no hebraico, não há artigos indefinidos, precisamos pensar nesse “princípio criador das coisas criadas”, ou seja, pode ter havido um outro mundo civilizado antes daquele que conhecemos, mundo quiçá ceifado por um colapso na terra devido a fatores naturais. Tal noção fortaleceria o mito da criação, exposto na Torá, ou Pentateuco.

* * * *

O menino que acompanha o pai para ver o Corinthians (e o Neto) observa não somente a movimentação dos jogadores, mas o tamanho do estádio, a distância para o gramado, o campo e o próprio pai. Imagino o brilho no olhar do menino por estar diante de seu maior ídolo (mesmo explorando o pobre velho com os sorvetes e amendoins que o pai Nhanho lhe vai comprando). O movimento dos corpos são pura arte na observação do menino, embora ele ainda não tivesse alcançado ali aquela observação total do artista: os olhos que veem em todas as direções.

A descoberta da identidade do pai biológico desperta a curiosidade do narrador em saber se os outros irmãos também são filhos do mesmo pai que ele; quando o menino descobre a verdade, ele até que age com naturalidade. No teatro de laboratório de Boal, o narrador da Carta ao pai contracenaria consigo mesmo e com os outros naturalmente, sem um drama forçado. Se o menino chorasse, berrasse e quisesse de toda forma o outro pai, também seria arte, seria natural dele, mas, para Boal, essa naturalidade do menino seria objeto de exemplo para os atores no teatro de Arena. Teatro invisível, que fazia parte do conjunto de práticas teatrais e laboratoriais. É como se houvesse um pressuposto filosófico: o teatro e a literatura como ferramentas de alfabetização política e de conhecimento do mundo.

Outras situações no campo dessa pequena observação são justamente as que se referem à luta de classes dentro de uma mesma fração de classe; o estranhamento por parte do menino em não haver rede de esgoto na casa do pedreiro Israel; o fato de a casa do pedreiro ser de tábuas, e o pai não (poder) fornecer tijolos para a construção da casa de Israel; o fato de o menino não poder mais jogar bola com os meninos da favela em que vivia o Israel, mesmo depois do esforço de haver conquistado a confiança deles. Nas palavras da Carta ao pai:

“E gozado, pai: o Israel era pedreiro, mexia com tijolo o dia inteiro, mas morava numa casa de tábua. Ele fazia encanamento, mas eu vi a Neide, a mulher do Israel, indo jogar um balde bem fedido no córrego. Pai, por que que cê não dá uns tijolos pro Israel? Vamos ajeitar a casa dele como ele tá ajeitando a nossa, pai, vamos.

(...)

“Cê dava risada e me dizia pra ir jogar bola lá no campinho de terra. A rapaziada de lá me olhava estranho, pai, todo mundo sem camisa e descalço ali no campinho. E eles começaram a me respeitar quando viram que eu sabia jogar bola”.

(...)

“(Mal sabia eu que, com aquela situação, aos 9 anos de idade, eu tava começando a aprender que tem história, pai, que não é da palavra dita, não – tem história que se embrenha na terra que nem minhoca, pai, a minhoca que cê usava pra ir pescar. Se a gente não desentoca a história lá do buraco do invisível, se a gente não lê olhar de rabo de olho, suspiro de despeito, boca torta atravessada, a gente não percebe que o corpo de tudo aquilo que é dito parece ter uma alma que fica fervilhando, em silêncio, com as palavras quase deslizando pelo escorregador da língua.)”

Nesta última citação, nota-se que o menino prodígio tem suas primeiras percepções políticas dentro do “proletariado de esquerda e de direita”. A posteriori, o menino já crescido faz uma analogia entre essa percepção envolvendo o pensamento poético com o “buraco do invisível” e a “alma fervilhando em silêncio” e situações informais do cotidiano da “palavra que pode ser dita” e da que não pode ser pronunciada dentro da própria história.

O que se alcança de arte nesse trecho é a percepção de um guri de 9 anos de idade que descortina o mundo e olha para além do que estava à sua volta, sugerindo ao leitor que não se tratava de uma criança comum. Essa percepção de que existe momento de falar e de ouvir indica sua sensibilidade de observador – um observador que sabe que a arte requer, em primeira instância, o campo da observação.

* * * *

[Carta ao pai]: “É por causa de lambe-bota que nem você que a gente não consegue arrancar salário melhor da diretoria! Bando de fura-greve duma ova, cês acham que cês são mais que a gente só porque cês trabalham no bem-bom lá da Chácara Flora, só porque cês limpam a bunda com seda naqueles casarões lá da diretoria? Braço curto é você, cabra!”

 

O narrador prodígio desperta para o que poderiam ser os “ETs” comentados com o pai. Suas impressões vão além do que o pai supostamente pudesse considerar uma simples curiosidade. Sua sensibilidade o levaria mais tarde a também querer votar no Lula e a defender a classe trabalhadora. Sua observação alcançaria o direito de lutar e apoiar a esquerda politizada, pois compreendera quão complexa era a situação pós-governo militar, com Fernando Henrique Cardoso e a direita civil tomando as rédeas do país.

O narrador compreendera que o baiano não é preguiçoso, mas, sim, mais uma mão de obra barata a construir o país, seja na produção industrial, seja na construção civil. Questiona o pai, num diálogo amigável (mas tenso), sobre o que teria acontecido se a tia Lena não houvesse feito um bom casamento e compartilhado com a família os empregos na Volks – o tio Alberto, marido da tia Lena, era o chefe dos vigilantes na empresa e pôde encaixar a família da esposa em vários cargos. Mesmo depois de haver uma demissão do pai Nhanho em 99, com a crise do governo FHC, o narrador tenta fazer o velho pai se colocar no lugar do negro ou nordestino. Esse questionamento, movido por um idealismo forte e convicto, nos coloca na cena do diálogo. O pai demitido, o pai cioso de que sempre fizera um bom trabalho. O filho, por sua vez, conscientizado politicamente, com a visão de que a esquerda era a saída para o negro, o nordestino e o país como um todo.

O menino já crescido não se conforma com as lutas (facciosas) dentro de um mesmo andar da pirâmide de exclusão social. Quer e fala mesmo com o pai de suas ideias e ideais, sente orgulho pelo velho que sempre o apoiou e compartilha com o pai os seus pensamentos. O diálogo não é um monólogo, como muitos podem pensar ser, mas um tête-à-tête, uma troca de ideias com o pai, cuja voz e contraposições estão sempre pressupostas.

O pequeno grande homem ainda é um observador atento a tudo. Não deixaria de ser aquele menino que num relance percebia tudo à sua volta. Augusto Boal o levaria ao seu laboratório e mostraria aos seus alunos que o ator é aquele que observa e vivencia o cotidiano. Boal o mostraria ao Guarnieri e ao Vianinha, que se encantariam pelo jovem da poética nossa de cada dia.

* * * *

[Carta ao pai]: “(Eu não sei se cê abriu mão do apetite, pai, mas cê nunca mais apareceu lá em casa com aqueles lanches)”.

 

Essa cena passa pela cabeça do leitor, como se ele a estivesse vendo e tocando. Não que o leitor necessariamente tenha tido um elemento desencadeador para que a cena acontecesse. Mas assédios em trabalhos acontecem com frequência e não havia uma lei que proibisse isso nos anos 80, por exemplo. Era até comum, em festas de final de ano nas empresas, as esposas não serem convidadas, exatamente pelos recorrentes assédios entre os empregados, que ocorriam, muitas vezes, fora dos seus estabelecimentos de trabalho. Não eram demitidos por justa causa nem processados por isso.

Na situação em questão, a cena fora desencadeada pela esposa dando uma bronca daquelas que deixou seu Nhanho esperto. Lendo o texto, não tem como o leitor não gargalhar diante da situação. Parece que assentamos à mesa do jantar da família e ouvimos um sussurro de “sim, senhora”.

Fatores como esses são bem peculiares das famílias brasileiras urbanas e não propriamente remediadas. Os filhos “zoando” os pais, porque um deles dormiu no sofá da sala, ou porque pararam de receber agradinhos no trabalho. Desta forma, a cena é vivenciada pelo leitor participante que se diverte com a situação sumamente cômica.

A carta eivada pela informalidade é capaz de provocar no leitor várias sensações: emoção ao ler que o pai leva o filho para ver uma partida de futebol no estádio e, desta forma, o ensina a amar seu time (Corinthians), embora esta leitora prefira o Flamengo.

A cena da revelação do pai biológico: o leitor está ali observando e se comovendo, esperando a reação do menino junto com a família, mas o menino faz o leitor chorar e sorrir simultaneamente, pela curiosidade que quer saber quem mais era filho ou não, ou mesmo considerar se o verdadeiro pai, aquele em cuja presença estava sempre vendo o Neto jogar, de fato amava o filho. Como afirma Boal:

“É fundamental que exista uma relação de empatia que consiste em permitir ao espectador que o personagem o conduza através de suas experiências – o espectador sente como se estivesse atuando ele mesmo, goza os prazeres e sofre as dores dos personagens, ao extremo de pensar seus pensamentos” (1991, p. 54).

 

Na Carta ao pai, o leitor entra na cena dos peões e daqueles que pensam não ser peões. O leitor fica revoltado e quer abrir o crânio de todo mundo a marteladas, para que entendam que é preferível a união à facção.

De repente somos tragados pela cena divertida: o filho “zoando” o pai porque ele deixou de levar os sanduíches para casa; a libido do menino aflorando ao saber que o pai faria ronda na casa do patrão, enquanto o filho playboy do diretor estava envolto de gatas e coelhinhas da revista Playboy, em uma festa havaiana. Ora, o geniozinho estava crescendo e já sabia que a coisa era boa – ou como diz o bom e velho mineiro, que o “trem é bão!”

* * * *

[Carta ao pai]: “Eu não podia ir lá pra Marcela e dizer logo de uma vez que eu amava ela. Cê tem que circundar o terreno, Ricardinho, cê tem que ver se ela tá no dia certo, se é o momento certo, cê tem que ver se ela joga o cabelo pro lado ou se mexe na tiara enquanto fala com você."

Essa cena provoca na leitora o desejo de ser a Marcela em alguma instância. Qual leitora não gostaria de estar ao lado de um observador da vida, amante da arte e da poética? Essa provocação leva a leitora à cena do primeiro encontro entre o jovem e Marcela, caso o narrador tivesse deixado a timidez em casa e tomado uma atitude um tanto ousada.

A leitora observadora traçaria na memória o quadro perfeito desse primeiro encontro, o transformaria em arte-vivência-poética para que o jovem prodígio nunca se esquecesse de que a junção dos corpos em uma primeira vez é a poesia ouvida na memória (caso o menino estivesse pronto para esse entregar-se à paixão).

* * * *

[Carta ao pai]: “Daí a Ciça e eu ficamos sozinhos. O beijo dela era molhado, pai, ela ficava mordiscando minha boca, dava um tesão danado, só que a Ciça era dose: ela me atiçava que só, raspava a unha de leve na costela, soprava safadeza na minha orelha, apalpava o pau por fora da bermuda, pai, mas não me deixava avançar. Quando eu ia tentar dar uma penteada ali por baixo, quando eu já tava com a mão bem na bundona carnuda dela, a Ciça puxava a rédea e me deixava babando de vontade”.

Essa parte do texto provoca uma sucessão de gargalhadas, pela cena projetada na cabeça do leitor, que está ali entrevendo de alguma forma o real que se mostra e que não é simplesmente latente. A provocação da Ciça, com seu jeito faceiro, tem muito da mineira, que provoca a libido, mas fica somente nas preliminares. O primeiro encontro tem que ser assim, o segundo também; já foi comum, principalmente nos anos 80 e 90, alguém dizer: cuidado com as mineiras, porque elas não são fáceis. Provocam, te dão água na boca, muito tesão e depois saem fora, mas há um pouco de mito nisso, depois elas os seguram de um jeito que é difícil soltar. Talvez a leitora se identifique com a Carta ao pai e com o que diz Viviane Matesco (1):

“O corpo efervescente e aberto ao mundo consegue cavar buracos no decoro e na hegemonia da cultura oficial de diversas maneiras. Uma delas, associada aos artistas do Fluxus, efetivava-se através dos trabalhos centrados nos atos do cotidiano, imitando e desnaturalizando a vida por meio de ações repetitivas” (2009, p. 7).

* * * *

[Carta ao pai]: “E eu tinha sede de descobrir, tinha sede de questionar, a livraiada me deu asas, então cê queria que eu te falasse amém pro que cê dizia, pai, mas não tinha amém, não, e, quando a gente brigava, eu jogava na tua cara que cê não tinha estudado, te lançava um boçal! na cara, e cê dizia que eu era ingrato e que eu devia muito ao teu trabalho também, que eu tava ali vivendo embaixo do teu teto, daí eu dizia que a casa não era só tua, não, pai, tem suor da minha mãe e da minha vó Nena aqui”.

Os primeiros conflitos começam a surgir na fase adulta, ou chegando a ela, coisa recorrente em uma família. A carta aponta para uma rivalidade trazida pelo narrador, que (se) questiona se em “todo dueto não há um duelo”. Isso é muito comum em bandas de rock, que não são formadas por duetos, mas, se ocorre a saída do vocalista, a coisa tende a desmoronar. Mas, entre pai e filho, o narrador educado pelo pai que o assumiu e o amou, a coisa não caminha simplesmente por aí. O pai Olavo (pai biológico) pode até sentir orgulho, mas, para o pai Nhanho, o orgulho é dobrado. Este filho fez com que o pai Nhanho se orgulhasse muito da criação que ele lhe dera.

Embora a amizade com o Dani, filho do primeiro casamento do pai Nhanho, tenha aproximado ainda mais pai e filho, Ricardinho amava o irmão como se ele fosse seu irmão de sangue, como amava o próprio pai Nhanho. São dois polos que no final acabam se ligando, com uma mesma intensidade. Se não houvesse conflitos nesta família, não estaríamos no campo do real. O real nos faz aparições, assim como o vazio. O vazio não desponta para continuar sem nada (não estamos falando do movimento de vanguarda dadaísta); o vazio desponta para ser preenchido pela coisa, que também faz aparições; e não se trata de qualquer coisa, mas daquela que se mostra no seu tempo e espaço próprios.

* * * *

[Carta ao pai]: “A vó, com toda aquela vida sofrida, ainda viveu 72 anos, pai. E quem é que poderia dizer que você, o sósia do gigante Adamastor, ia morrer aos 55?”

(...)

“Na última noite em que eu dormi lá na poltrona do teu quarto – dia 25 de julho de 2002, último dia em que eu te vi com vida por aqui, pai –, cê dizia que semana que vem a gente ia pegar aquele bagrão que escapou daquela vez, hein? (Eu te olhei fundo, mordi a boca trêmula pra estancar o choro e pedi procê tentar dormir”.

Este fragmento de diálogo, um dos últimos da carta, traz uma comoção para além da doença e da morte do pai Nhanho. Trata-se da oportunidade de o filho do coração ouvir uma última revelação do pai: o fato de Nhanho ter pedido a outra mulher que abortasse um filho dele.

Somente a um amigo que amamos e em quem confiamos, mesmo em um leito de morte, temos a coragem de compartilhar as coisas mais duras que fizemos em vida – coisas que sempre guardamos a sete chaves.

Mesmo naquele momento de dor, o velho Nhanho sonhou em voltar para Joaquim Távora com seus dois filhos para apanhar de volta o peixão teimoso. O humor, mesmo na dor, não se afastou do pai, e as recordações boas e ruins ficam guardadas na memória do nosso menino prodígio, que não hesitou em dividir o pão delas conosco.

Carta ao pai, assim, diz-nos muito sobre o conceito humanístico; a carta discorre não apenas sobre a relação de pai e filho, arte e poética, corpo-objeto, mas sobre a junção de tudo isso para a formação de uma sociedade mais justa e de fato humana. Uma sociedade a caminhar de forma consciente e tolerante em todas as direções.

Notas:

(1) Link para a Carta ao pai, de Flávio Ricardo Vassoler, publicada no Portal Heráclito:

http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/diretamente-dos-estados-unidos/582/carta-ao-pai.html.

(2) Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

(3) Viviane Matesco, doutora em Artes Visuais pela UFRJ e mestre em História da Arte pela PUC-Rio. Foi professora e coordenadora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e atualmente é professora adjunta do Departamento de Arte da UFF. Desenvolve pesquisa em torno da relação Corpo e Arte, questão de exposições como “Corpo na Arte Brasileira” (Itaú Cultural/São Paulo).

Referências bibliográficas

VASSOLER, Flávio Ricardo. Carta ao pai. Link para o texto publicado n Portal Heráclito:

http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/diretamente-dos-estados-unidos/582/carta-ao-pai.html

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

MATESCO, Viviane. Corpo, Imagem e Representação. Rio de janeiro: Zahar, 2009.

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Helena Souza

É formada em Letras (Português e Hebraico) pelo Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), (Departamento de Línguas Orientais e Eslavas) e licenciada pela Faculdade de Educação da (UFRJ). Atualmente pesquisa o erótico feminino na obra da poeta israelense Yona Wallach.

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