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Deixa que os mortos enterrem seus mortos?

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I. Auschwitz é para nós o equivalente

a visitar a casa de nossos pais?

Assim falou Rainer Hoess, neto de Rudolf Hoess, o oficial da SS que comandou/administrou o campo de concentração de Auschwitz:

“Auschwitz é para mim o equivalente a visitar a casa dos meus pais” (nota 1).

Consta que, há pouco mais de 15 anos, após um infarto – experiência escatológica que Rainer considera o seu chamado –, o neto de Rudolf Hoess abandonou todas as suas atividades paralelas para se tornar um ativista antinazista em tempo integral.

Hans Jürgen Hoess, filho de Rudolf e pai de Rainer, vivia com a família a 200 metros do forno crematório de Auschwitz I.

Em 1877 – 23 anos antes do nascimento de Rudolf, 60 anos antes do nascimento de Hans Jürgen e 88 anos antes do nascimento de Rainer –, Liev Tolstói abre o romance Ana Karenina com o seguinte aforismo: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (nota 2).

Quando ficamos sabendo que Rainer se refere à indústria de insumos humanos que o avô administrou como o maior cemitério da história; quando ficamos sabendo que o pai de Rainer colhia morangos recobertos por cinzas humanas nos jardins da indústria de extermínio – cinzas expelidas pela chaminé do forno crematório –, é preciso sentenciar que, em meio à montanha de corpos empilhados e pulverizados, as famílias infelizes se parecem entre si; as felizes, por sua vez, são felizes (e culpadas) cada uma à sua maneira.

Assim falou Rainer Hoess:

“Já estive em Auschwitz 28 vezes, e a experiência é sempre a mesma. Quando estou chegando e vejo o primeiro sinal de estrada – Auschwitz –, tenho consciência do que vem a seguir e do que lá aconteceu. E não posso tocar em nada, não quero ter nenhuma ligação pessoal com o meu avô. Se eu estiver em frente a um dos blocos, espero que alguém saia para eu poder entrar, eu mesmo não abro as portas. Porque os crimes estão inscritos em todas as paredes daquele lugar. Auschwitz é para mim o equivalente a visitar a casa dos meus avós, e isso faz com que eu me sinta sempre envergonhado. Tenho vergonha do que o meu avô fez; tenho vergonha de que ele não se tenha questionado sobre se o que fazia era certo ou errado; e tenho vergonha de que ele não tenha mostrado arrependimento perante as vítimas depois da guerra, quando estava na prisão. E tenho vergonha de fazer parte de uma família assim. Sempre que vou a Auschwitz, a primeira coisa que procuro é a forca, onde o meu avô morreu em 1947” (nota 3).

A 200 metros do forno crematório de Auschwitz I, onde ficavam a casa dos avós e o jardim da infância do pai, Rainer Hoess entreouve uma pergunta de Friedrich Nietzsche:

– Não seria verdadeiramente maduro apenas o adulto que consegue recuperar a seriedade da criança ao brincar?

Resposta do cinquentenário Rainer Hoess, neto de Rudolf Hoess e filho de Hans Jürgen Hoess:

– Não, Nietzsche. Definitivamente, não.

Rainer Hoess também nos diz que tem alguns primos, da sua idade, que acreditam, do fundo de seus ensaios sobre a cegueira, que Rudolf Hoess era uma boa pessoa – um bom soldado, um combatente bastante corajoso. (O pior cego não é aquele que não quer ver; o pior cego é aquele que só quer ver.) Rainer, então, se pergunta, pergunta aos primos e nos pergunta: como é que um assassino de massas pode ser um bom soldado?

Como é que, pela manhã, o avô de Rainer vestia o uniforme da SS, colocava a pistola no coldre e beijava a testa da mulher e dos filhos antes de ir para seu escritório em Auschwitz?             Como é que, durante a tarde, o avô de Rainer comandava execuções em massa?

Como é que, durante a noite, após as execuções em massa, o avô de Rainer comia joelho de porco, tomava cerveja de trigo e, antes de transar com a esposa, dava um beijo de boa noite na testa dos filhos?

Ora, Rainer, quem é que, pela manhã, caminha com quatro patas, durante a tarde com duas e a reboque de três, ao anoitecer?

Ecce homo, Rainer, eis o homem – e sua história.

No início de 2017, Rainer, irromperam várias rebeliões envolvendo facções criminosas rivais em presídios espalhados por diferentes estados do Brasil. Centenas e centenas de seres humanos, cujas vidas deveriam ser tuteladas e salvaguardadas pelo Estado, foram dizimados como moscas.

Em face do morticínio, um governador de estado – isto é, um representante da inocente população civil – teria sentenciado, pelas redes sociais, que, entre os mortos, não havia nenhum santo.

Em face do morticínio, um deputado federal/ex-oficial da Polícia Militar – alguém que já declarou ter matado ao redor de 40 pessoas (e/ou elementos, para usarmos o jargão policial de caça); alguém que, ademais, é um representante da inocente população civil – teria lançado mão do número de mortos nos diferentes presídios para fazer um apelo encarecido, pelas redes sociais, às facções criminosas encalacradas nos presídios do Rio de Janeiro:

– Vamos lá, Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos, eu sei que vocês podem vencer essa partida, vamos lá! O placar do jogo, até agora, é o seguinte: 81 elementos desovados em Aparecida do Norte x 72 elementos desovados em Nova Jerusalém. Vamos lá, Amigos dos Amigos, Terceiro Comando e Comando Vermelho, eu sei que vocês têm culhão, vamos vencer esse jogo, vamos superar esse placar, vambora, cambada, larga o aço, bandidagem, senta o dedo!

Consta que, pouco depois das chacinas nos presídios, vídeos amadores foram postados nas redes sociais com imagens dos presos ensanguentados, decapitados, estripados, estuprados, eviscerados – o sumo sadismo do governador de estado e do deputado federal acima referidos se recusa a escrever etc.; é preciso continuar a empilhar a crueldade como os pedaços de corpos removidos dos presídios com carrinhos de mão que pouco tempo antes das rebeliões haviam transportado cimento, lama e adubo.

Consta, ademais, que os vídeos amadores dos morticínios foram compilados e transformados em um filme – camelôs das mais diversas cidades teriam revelado que o filme Faces da Morte seria, de longe, o mais procurado pela inocente população civil.

Diante de nossa sociopatologia da vida cotidiana, Rainer Hoess bem poderia citar Bertolt Brecht, para quem a cadela do fascismo está sempre no cio. (Sim, Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio, e ela saliva com ainda mais sofreguidão e desejo quanto mais encarniçado é o processo de castração cotidiana.)

Há aproximadamente 10 anos, Rainer Hoess deu início a um difícil processo de aproximação em relação aos sobreviventes de Auschwitz. Ele escreveu cartas, e algumas pessoas lhe responderam. Rainer se aproximou das vítimas de seu avô porque “queria dizer-lhes o quanto lamento pelo que aconteceu. Eu tenho esse DNA em mim – na verdade, todos temos um pouco de Rudolf Hoess ou de Adolf Hitler. A questão é controlá-lo. É como controlar o nosso demônio. Todos herdamos um pequeno assassino de massas. É preciso, então, não o deixar sair de nós” (nota 4).

Se não concordarmos com o neto do comandante de Auschwitz sobre o fato de todos e cada um de nós sermos pequenos assassinos de massas em potencial, Rainer redarguirá:

“Você nunca esteve zangado a ponto de querer matar alguém? Se você me disser a verdade, terá que dizer que sim. A questão é se você o fará ou não. Mas, se tiver pessoas que o instruam, por meio do medo, a fazê-lo... O medo é uma arma poderosa. Assim como o ódio. Hoje isso é visível nas redes sociais e na sua capacidade de espalhar o medo e o ódio pelo mundo em microssegundos. E os discursos de ódio não são ouvidos apenas por pessoas estúpidas” (nota 5).

Há não muito tempo, Rainer Hoess esteve na Hungria, a convite da comunidade judaica, para um encontro de sobreviventes de Auschwitz.

A maioria dos sobreviventes ficou petrificada diante do neto de Rudolf Hoess.

Eis que um senhor de olhos pequenos e rosto flácido repleto de venículas verdes e azuis se aproxima de Rainer com o receio de um coelho entocado.

Com o número 111.181 tatuado em seu antebraço, o senhor Sándor Kertész cumprimenta Rainer apenas com a ponta trêmula dos dedos e lhe diz:

“Sabe por que estou tão assustado? Eu era um rapaz de 14 anos, recém-chegado a Auschwitz vindo de Buchenwald – e eu estava com muita fome. Vários dias se passaram, mas eu só havia comido alguns pedaços de pão. Alguém me deu uma tigela de sopa, que estava muito quente, e eu tentava beber aos poucos. O teu avô caminhava junto à fila e me viu. Ele veio diretamente até mim, me dois tapas na cara e gritou: ‘Não coma diante de mim!’ Eu sinto esses tapas até hoje” (nota 6).

II. Deixa que os mortos enterrem seus mortos?

Entrei em contato com o núcleo das duas histórias que aparecem a seguir a partir do diário escrito por Adam Czerniakow entre 1939 e 1942 (nota 7). Presidente do Conselho do Gueto Judaico em meio à Varsóvia ocupada pelos nazistas, Adam Czerniakow acabou enfiando uma bala na cabeça – mais precisamente, na têmpora esquerda – diante da impossibilidade de evitar a deportação de milhares e milhares de crianças para Auschwitz.

II. i. Testamento

O que é o gueto?

O gueto é a delimitação do gueto, o gueto é a gangrena de suas fronteiras, o gueto são as frestas contrabandistas de seus muros, o gueto é o périplo dos ratos e baratas, o gueto é a chupeta em troca de um naco de pão, o gueto é a metástase das pulgas e do tifo, o gueto é o darwinismo mais encarniçado do cão esquálido que rosna e arreganha as gengivas cheias de caninos para dizer à orfandade das criancinhas famintas que o corvo morto sobre a neve lhe pertence, o gueto são os dentes podres e o escorbuto, o toque de recolher do gueto revela por quem os sinos dobram, o gueto é a indiferença da legião de cadáveres azulados pelas ruas, o gueto é a impossibilidade de lápides e sepulcros, o gueto é o saco plástico por sobre o cadáver (com sorte, haverá uma plaqueta de identificação afixada ao dedão), o gueto é a pele sarnenta, o gueto é a inanição das costelas à mostra, o gueto é um dar de ombros para a morte – o gueto, ainda assim, são as mãos que se juntam em súplica: “Meu Pai, tenha piedade de mim – e me leve embora logo... Mas seja feita a Sua vontade, meu Deus, e não a minha”. Assim no céu como na terra – eis o gueto.

Em um fim de tarde – o toque de recolher já se aproximava perigosamente –, o senhor Karel Kaminski, cujos parentes haviam sido ceifados, um após o outro (um empilhado sobre o outro), pela fome e pelo cólera, vai até o arremedo de escritório do Conselho Judaico para conversar com o presidente Adam Czerniakow.

– Pois não, senhor Kaminski, o que o senhor deseja?

O velho saca do bolso daquilo que um dia fora uma calça um chumaço de notas tão valiosas quanto imundas e o deposita, com a mão trêmula e esquelética, sobre a mesa de Czerniakow.

Adam o fita com perplexidade:

– Mas o que é isso, senhor Kaminski? Pra que esse dinheiro?

Sentindo-se fraco, o senhor Kaminski precisa fazer força para conseguir falar – ele observa Czerniakow com um olhar alheio, como se já não estivesse entre nós.

– Senhor Czerniakow (engole em seco): fiquei sabendo que acabou de falecer o senhor Itzhak Ferencz, inquilino do apartamento JID11, bloco 37, quadra 81 (arfa). Há algum tempo – há, aproximadamente, 3 mortes da minha família (eu agora só sei contar o tempo assim) –, venho dormindo ao relento, junto às lixeiras (arfa ainda mais e olha para baixo). O fato, senhor Czerniakow, é que eu estou me sentindo mais fraco a cada dia... (olha para lugar nenhum). Eu consegui manter esse dinheirinho aqui comigo, é tudo o que me resta... (Sempre que olho para essas notas, sinto que, em algum momento, eu já pude alguma coisa nesta vida.) Mas, bom... (gagueja). Eu vim até aqui, senhor Czerniakow, para lhe pedir que me alugue o apartamento do senhor Itzhak Ferencz... (junta as mãos abertas em palma). Se possível, ainda hoje... (suplica). Esse dinheiro paga exatamente o valor do aluguel que estão pedindo.

– Mas, senhor Kaminski, eu não o entendo... Se o senhor está fraco, o senhor precisa comer, o senhor precisa ir até a lojinha de víveres. Só assim o senhor vai conseguir sobreviver – veja como o senhor está magro e pálido. Por que é que o senhor quer alugar o apartamento do senhor Itzhak Ferencz? Lá não há comida, lá não há nada, o senhor não vai conseguir resistir ali. Pegue esse dinheiro, senhor Kaminski, e compre pão preto e chá – se o senhor se apressar, talvez seja possível até mesmo encontrar uns cubinhos de açúcar e, com muita sorte, um pouquinho de manteiga não de todo rançosa. Vamos, senhor Kaminski, eu o acompanho.

Apesar da fraqueza, o senhor Kaminski, com dignidade e decisão, levanta a mão direita em palma e contém a aproximação de Adam Czerniakow.

Assim falou Karel Kaminski:

– Senhor Czerniakow, minha decisão é irrevogável: eu vou morrer – eu quero morrer (morde o lábio inferior). Comer agora, comer pela manhã, tudo isso só vai protelar o que eu já sinto que, com a exaustão do meu corpo, logo vai acontecer (encolhe os ombros). Só que eu não vou morrer na rua, senhor Czerniakow, eu não vou morrer ao relento, eu não quero ratos e ratazanas roendo o meu rosto, eu não quero baratas dentro da minha boca (faz uma careta). Eu não mereço que meu túmulo seja um saco de lixo (junta as mãos abertas em palma). Já que eu não posso ser enterrado, quero que meu cadáver tenha um teto para chamar de seu. É o meu último desejo, senhor Czerniakow – esse é o meu testamento.

II. ii. Omnia vincit amor

Roman e Agnesz se amam muito.

Como tende a acontecer com os sentimentos verdadeiramente enraizados e impetuosos, o amor de Agnesz e Roman se intensificou ainda mais com as dificuldades aterradoras impostas aos cativos do gueto de Varsóvia.

Certa tarde, a despeito dos bombardeios contra a capital nazi-polonesa, Roman e Agnesz namoram em um arremedo de praça. Ao redor do banco em que o casal está sentado, há muitos cadáveres e escombros – enquanto Agnesz e Roman se beijam, um corvo e uma ratazana disputam um naco de pão.

Em tempos de paz, as juras de amor esperam que o casal seja eterno.

Em tempos de escombros, as juras de amor rezam para que a morte una o casal em um mesmo túmulo.

Juntos, Roman e Agnesz jamais se amedrontam com o assovio das ogivas cadentes – o amor lhes traz um entrelaçamento tão forte e tão rente, que Agnesz é capaz de jurar que consegue sentir a pulsação de Roman em seu próprio peito, e Roman sente seu cocuruto e sua nuca completamente abandonados sem os cafunés de Agnesz.

Agnesz jamais pôde esquecer que uma bomba estraçalhou a praça em que o casal estava namorando no momento em que Roman lhe dava o abraço mais terno e apaixonado que ela já sentira. (Por que será que toda felicidade que chega ao cume de sua montanha tem sempre uma aura de despedida?)

Ruídos ensurdecedores.

Calor – muito calor.

Gritos e uivos.

Labaredas.

Choro e ranger de dentes.

Escombros.

Fumaça – asfixia.

Estilhaços – muitos estilhaços.

Quando Agnesz desperta, ela sequer pensa em estancar a ferida em sua testa ou em retirar as farpas de seu pescoço – Roman, meu Deus, Roman, meu amor!

Roman, desfalecido, jaz de bruços.

Quando Agnesz o toma para si e o vira, um grito de desespero (mais um) irrompe no gueto: os estilhaços haviam rasgado o ventre de Roman, e suas tripas amareladas escorrem para fora de seu corpo como raízes arrancadas da terra.     

Até hoje, Agnesz acredita que foi o amor que não a fez perder completamente os sentidos.

Como Roman não desperta com os beijos e sussurros de Agnesz, ela toma as tripas de seu amor em suas mãos e as restitui, com esmero e urgência, ao ventre de Roman. Em seguida, Agnesz rasga a saia daquele que um dia fora seu vestido mais querido (presente de Roman) e improvisa um cinturão ao redor do ventre de seu amor. Então, a plenos pulmões, Agnesz começa a gritar:

– So-cor-ro!, so-cor-ro!, alguém me ajude, pelo amor de Deus, alguém me ajude, eu preciso levar o meu Roman pro hospital, so-cor-ro!, so-cor-ro!, por tudo o que é mais sagrado, nós precisamos de ajuda, meu Pai eterno, por favor!

Até hoje, Agnesz não sabe dizer quem foram as pessoas que acorreram aos seus gritos e que, em meios às bombas, conseguiram levar Roman, milagrosamente, a um arremedo de hospital.

Agnesz sente a dor de Roman – é como se ela mesma pudesse parir as tripas de seu amor.

Quando, horas depois – as horas mais longas e sombrias da vida de Agnesz –, um enfermeiro voluntário lhe diz que Roman não conseguiu resistir a uma infecção generalizada, sinto muito, Agnesz despenca como uma folha seca.

Quando, horas depois, Agnesz desperta com os próprios gritos de Roman, meu amor!, cadê você, Roman?!, o mesmo enfermeiro voluntário que lhe dera a notícia da morte de Roman e que a deitara em um canto não tão sujo do corredor diz para Agnesz que você precisa ir embora, os bombardeios não cessaram, você vai morrer se ficar aqui, vá embora!

– Não, não, eu quero o meu Roman, onde é que ele está? Eu quero vê-lo de novo, onde é que ele está?

O enfermeiro segura os ombros de Agnesz com firmeza:

– Ele está morto – morto! Não há mais o que fazer, vá embora!

– Não... Não!

Agnesz se desvencilha do enfermeiro e sai correndo pelo arremedo de hospital.

Ela enfia a cabeça pela porta de cada saleta – amputações sem anestesia, charcos e mais charcos de sangue repisado, mas onde está o meu Roman?!

Atrás do arremedo de hospital, Agnesz esbugalha os olhos de pavor e náusea ao descobrir uma vala comum onde os enfermeiros voluntários vão desovando os cadáveres com carrinhos de mãos – ainda há corpos que acenam com um último fio de vida (a guerra não lhes trará nem mesmo a redenção do tiro de misericórdia).

Meu Roman está aí, meu Deus...

Preciso resgatá-lo!

Agnesz entra na vala comum – os enfermeiros voluntários sequer tentam demovê-la (afinal, logo, logo será a vez dela) – e vai (re)virando os mortos, um a um, em busca de seu amor. (Agnesz ainda se preocupa em fechar os olhos dos cadáveres.)

Roman, meu bem, aí está você!

Agnesz beija a testa fria de Roman e lhe fecha a boca entreaberta.

Com muita dificuldade, Agnesz consegue arrastar Roman para fora da vala. (É como se o amor de Agnesz pudesse libertar Sísifo de seu cativeiro.)

[Embrutecidos pela desova contínua dos cadáveres, os enfermeiros voluntários mal conseguem acreditar em si mesmos quando veem Agnesz retirar o corpo de Roman da vala comum. (Será que já estamos todos mortos?)]

Com muita dificuldade, Agnesz caminha com Roman pelas ruelas do gueto. [Pelas frestas de suas janelas, os cativos acompanham o cortejo fúnebre sem forças para duvidar de seus próprios olhos. (Será que já estamos todos mortos?)]

Agnesz retorna ao arremedo de praça onde ela e Roman estavam namorando.

Agnesz deita Roman no que restou do banco onde eles estavam namorando.

Com suas pequenas mãos, Agnesz começa a cavar um buraco na terra. [Pelas frestas de suas janelas, os cativos acompanham o enterro sem forças para duvidar de seus próprios olhos. (Quem dera fôssemos amados como Roman; quem dera fôssemos Roman.)]

Com muito cuidado, Agnesz deita Roman na terra.

Com muito esmero, Agnesz cobre Roman com a terra.

Após entoar as orações fúnebres, Agnesz se deita sobre Roman, beija sua boca de terra – e adormece.

NOTAS

Nota 1: “Auschwitz é para mim o equivalente a casa dos meus pais”: entrevista concedida por Rainer Hoess, em agosto de 2016, à jornalista portuguesa Luciana Leiderfarb, com publicação pelo diário Expresso. Link para a entrevista: http://expresso.sapo.pt/internacional/2016-08-20-Auschwitz-e-para-mim-o-equivalente-a-visitar-a-casa-dos-meus-avos-1. Consulta feita no dia 26 de janeiro de 2017.

Nota 2: Liev Tolstói, Anna Karenina. Tradução de João Gaspar Simões. São Paulo: Editora Abril, 1971, p. 13.

Nota 3: Conferir a nota 1.

Nota 4: Idem.

Nota 5: Ibidem.

Nota 6: Ibidem.

Nota 7: The Warsaw Diary of Adam Czerniakow. Edited by Raul Hilberg, Stanislaw Staron, and Josef Kermisz. Chicago: Elephant Paperbacks, 1999.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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