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A dialética do senhor escravo

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Em uma passagem do ensaio “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, assim falou Walter Benjamin:

“O primeiro narrador grego foi Heródoto. No capítulo XIV do terceiro livro de suas Histórias encontramos um relato muito instrutivo. Seu tema é Psammenit. Quando o rei egípcio Psammenit foi derrotado e reduzido ao cativeiro pelo rei persa Cambises, este resolveu humilhar seu cativo. Deu ordens para que Psammenit fosse posto na rua em que passaria o cortejo triunfal dos persas. Organizou esse cortejo de modo que o prisioneiro pudesse ver sua filha degradada à condição de criada, indo ao poço com um jarro, para buscar água. Enquanto todos os egípcios se lamentavam com esse espetáculo, Psammenit ficou silencioso e imóvel, com os olhos no chão; e, quando logo em seguida viu seu filho, caminhando no cortejo para ser executado, continuou imóvel. Mas, quando viu um dos seus servidores, um velho miserável, na fila dos cativos, golpeou a cabeça com os punhos e mostrou os sinais do mais profundo desespero” (NOTA 1).

Ora, por que Psammenit permaneceu impassível diante da humilhação de seus filhos, mas acabou caindo em desespero diante da prostração de um velho servidor? Ao lado de uma glosa de Montaigne – “[o rei egípcio] já estava tão cheio de tristeza, que uma gota a mais bastaria para derrubar as comportas” –, Benjamin arrola outras possíveis causas:

[i] O destino da família real não afeta o rei, porque é o seu próprio destino; [ii] muitas coisas que não nos afetam na vida nos afetam no palco, e para o rei o criado era apenas um ator; [iii] as grandes dores são contidas e só irrompem quando ocorre uma distensão. O espetáculo do servidor foi essa distensão” (NOTA 2).

Eis a minha própria interpretação: de fato, as grandes dores são contidas e só irrompem quando ocorre uma distensão. O destino da família real não afeta o rei, porque é o seu próprio destino. Mas, quando Psammenit vê a prostração de seu velho servidor – quiçá, o mais antigo e leal de todos os seus servidores –, o rei sente, de uma só vez, que perdeu completamente a majestade. Afinal, um senhor sem seus escravos não representaria o aguilhão da escravidão para aquele que se vê coagido a escravizar?

NOTAS

(1) Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, pp. 203-204.

(2) Idem, p. 204.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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