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Deus, um estudo de caso da indústria cultural sobre a pré-história da onipotência, da onisciência e da onipresença

Do pré-histórico telefone com fio ao WhatsApp, a tecnologia vem nos integrando na mesma medida em que nos aparta (e vigia). Antes era possível deixar de atender ao telefone fixo. A privacidade burguesa outrora mais liberal ainda não havia sido mapeada com as notificações (com data e horário) de que o destinatário (não) viu a mensagem. [A tecnologia auxilia a esposa no encalço do marido reincidente na mesma medida em que permite ao chefe (e ao chefe do chefe) o monitoramento full time de seus funcionários.] A onipresença do telefone celular expande os corpos: as mulheres ganham um falo, os homens são acometidos pela difalia. Por sinal – e em tempo: se, a princípio, os aparelhos celulares eram projetados em tamanhos cada vez mais reduzidos, o desdobramento múltiplo de suas funções volta a fazer com que os aparelhos almejem o tamanho do grande falo para maximizar o potencial de ejaculação e captura do mundo pelas telas. 

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Tempo para plantar – e tempo para arrancar o que foi plantado

             As árvores com seus galhos nus, errantes e entrelaçados em busca da luz baça do inverno são uma síntese do que é humano.

             A errância.

             O antagonismo.

             O desencontro.

             A perda.

            A solidão.

            A hesitação.

            A persistência.

            O reencontro.

            A trégua.

            A partilha.

            O êxito.

            A fragilidade. 

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Deus em Atlântida

            As Vitórias-Régias, de Claude Monet, tomam toda uma parede do MoMA.      

            Sublimes.

            As Vitórias-Régias são o entrelace das cores com a bondade.

            Elas são o ímpeto por bondade – o ímpeto por uma sociedade outra – que mesmo o réquiem da utopia ainda não conseguiu extirpar de nós.

            Nesse sentido, Monet está para a pintura, assim como Dostoiévski está para a literatura.

            As Vitórias-Régias são a representação pictórica de O Idiota.

            O Idiota narra o Deus colorido por Monet. 

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A aula de anatomia do Dr. Ivan Dmitritch

Vejo que você gosta de citar o nobre Marco Aurélio como exemplo estóico de abnegação. E quem poderia contradizê-lo, Dr. Andrei? Aliás, quem poderia contradizer um imperador romano? Mas é aí, é precisamente aí, Dr. Andrei, que o caldo começa a entornar. Sim, porque Marco Aurélio, diferentemente de Diógenes de Sínope, não podia estar mais longe de ser um mendigo. Ser estóico e abnegado quando é possível beber absinto e se saciar com um harém em um estalar de dedos, ora, é a coisa mais propícia que pode haver. Aí é fácil decretar que a dor é apenas a sensação da dor. Eu quero ver o imperador pedir ao Cristo que os romanos crucificaram para afirmar que a dor é apenas a sensação da dor, Dr. Andrei, eu quero ver você pedir ao Messias que tente matar a sede ainda uma vez com a esponja embebida em vinagre que o soldado sádico lhe ofereceu no Gólgota.

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As afinidades eletivas

Momentaneamente, o caos é tomado pelo verdadeiro caos.
Momentaneamente, o caos deixa de entorpecer as pessoas. O verdadeiro caos faz com que os sobreviventes se reconheçam, de fato, como sobreviventes.
Momentaneamente, deixa de ser possível sobreviver segundo o 11º Mandamento – o mind your own business se transforma no just do it dos mais de 30 mil voluntários que se apresentam para ajudar nas buscas daqueles que ainda agonizam entre os escombros.
Momentaneamente, o verdadeiro caos resgata a humanidade há muito exilada no subsolo das pessoas.
Momentaneamente, o sentido da vida se torna tangível entre o que resta dos corpos.
Momentaneamente (e ainda uma vez), a compaixão precisa de Guernica para estender as mãos. 

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