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Bagunça

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Entre pilhas de roupas e papéis,

Mistérios insolúveis ou inadiáveis

Observo a vida passar

Pelos dedos, pelo ralo,

Pela janela aberta para a rua que antes era de paralelepípedos,

Mas que hoje exibe orgulhosa seu manto de asfalto.

 

Pela janela tenho contato com a vida real.

No entanto, aqui dentro...

Aqui dentro permanecem as pilhas aos milhões.

Milhões de pilhas que imobilizam e adiam

Tudo aquilo que sou ou fui

A despeito do que me aconteceu,

A despeito de tudo o que me transformou nisso.

 

Sou como casa vazia

Cheia de portas e janelas abertas

Em preparativos para uma celebração que nunca chega.

Espero e a espera retarda possíveis decisões.

Enquanto isso, sobram pensamentos impublicáveis

Ao contemplar as transdimensionalidades do meu ser fechando-se num único casulo.

 

Ideias rodopiam tão graciosas quanto bailarinas do Bolshoi

E eu só consigo imaginar que a vida é algo inédito e insuspeito

Que brota sem pedir licença.

Brota isolada, fugindo à regra na curva do que é pré-estabelecido,

Jogando luz nas sombras para neutralizar

O saco de pedras de angústia que ulcera o couro de quem as carrega.

 

Ecos de mim mesma.

Eu, eu, eu.

Quanto mais alto grito a reclamar dos problemas que me oprimem,

Mais compreendo que esse tipo de forja traz cicatrizes permanentes

Ao peito que aceita sem pestanejar

Quaisquer mecanismos em que seja viável de se agarrar para não afundar.

 

O vento parece ter piedade e se compadecer de mim.

Preocupado, sopra o outono que se instalou

Fazendo com que as folhas da minha memória

Se desprendam de tudo que as sustentam

Para quase inexistir no inverno

E ressignificarem-se na primavera.

 

As palavras as quais me serviam em um número de malabares

Viram borrões privados de sentido

Quando as rabisco no espelho do banheiro

Na hora em que este está quente para o banho.

O vapor do chuveiro, implacavelmente,

Deixa-me gotejar para dentro desta escuridão.

 

Não posso fechar mais os olhos.

Não posso mais calar as palavras que querem ser gritadas.

Não posso aceitar a falta de rimas

Nem a insuficiência poética da prosa.

Porque de intensidade fui feita

E é ela que faço como alicerce dos castelos de areia e moinhos de vento que inventei.

 

Ainda respiro.

Inspiro o escasso criativo que me resta

Para expirar expurgando o que já não me cabe mais.

Troco as roupas, as peles, os papéis

Formando pilhas deles aos milhões

Deixando-os como prova de que, um dia, existi.

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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