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A Vida É Um Freak Show

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No teatro alucinado dos horrores

Pairam no ar melancolia e antigos temores

Que há muito reinaram com soberania

E que hoje retornam nos sufocando em agonia.

 

 

O ontem com bizarras atrações

Traz o desfiguramento do ser humano e suas frações.

Traz o selvático que deveríamos ter superado.

Traz espanto, revolve a campa do inviolado.

 

Desafiando o equilíbrio da sensatez, um lunático assume o picadeiro.

Tem atenção para si e pretende-se mensageiro

De algo maior que nem ele sabe ao certo,

Mas crê produzir flores em um completo deserto.

 

E a curiosidade pestilenta do gado que o segue

Estabelece que cada vez mais o covarde se veja entregue

Ao que convenientemente julga ser predestinação divina

Para assumir o papel de protagonista ao abrir da cortina.

 

Eis que ofuscando do palhaço o brilho

Surge o domador como seu maior adversário e empecilho

A amansar feras famintas com o chicote,

Sendo ele o cumprimento de igual sina, de desgraçada sorte.

 

O chicote como companheiro de uma vida inteira

É o único a suporta o convívio e rotina costumeira.

A mão executora do inferno

Não consegue dissociar-se de seu demônio interno.

 

O estalar do chicote dá-lhe o prazer

Que fora dali não consegue obter.

Provocar a dor do outro é essencial combustível

Para um espetáculo insólito e irremissível.

 

A platéia de mortos-vivos

Aplaude absurdos em brados convulsivos.

Toma parte no enredo abjeto

Fomentando disparates convencida de que é o correto.

Vibra a platéia

Apenas ao ter por ideia

Deleitar-se com sangue alheio a jorrar,

Respingando em suas alvas vestes a mancha ilógica que os fará se orgulhar.

 

Entra o mágico se aproximando com receio,

Pois sem assistente precisará ele mesmo serrar-se ao meio

Na busca masoquista de ter aceitação

Por todos, por alguém, por ninguém, pela nação.

 

Esquarteja-se maquinando a maneira mais suscinta,

Em meio à tétrica atração de nexo quase extinta,

Para se refazer como colcha de retalhos

A colar os cacos e juntar em definitivo os frangalhos.

 

 Outro número se anuncia

Ao entardecer do dia.

Olha-se no espelho um adulto imberbe

E no reflexo revela-se um menino de barba negra que de longe se percebe.

 

A macabra violação das regras do inimaginável

Deflagra um pouco mais as fronteiras do inexplicável.

Abaixo daquela lona

O que de vil se esconde vem à tona.

 

Que essa aura tome conta até mesmo do lugar mais distante,

Que neutralize as agruras do que na existência é causticante

Consumindo e libertando o indivíduo audaz

Ainda que com mistérios guardados em baús enferrujados que não se abrem mais.

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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