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O grito

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Nascera no seio da esperança

A despeito de um tempo em que o bem perdia lugar na contradança.

Nascera com os gritos do proibido,

Da lancinante dor dos desvalidos,

A reunir forças na vontade insubmissa

Em busca de um pouco de valor, dignidade e justiça.

Cresceu regada pela indiferença

Como se fosse portadora de pestilenta doença,

Representasse perigo aos demais,

Como se o fato de existir se caracterizasse como uma das provas criminais

Que condenavam sua natureza contestadora,

Potência que faz ecoar sua palavra açoitadora.

 

Chegou a um ponto na prosa

Em que velhacos cegos e mal-intencionados em sua avaliação venenosa

Decidiram descredibilizá-la para trazer paz ao resto

- Que governa o todo fingindo ter caráter honesto –

E garantir que circule somente o que traga retorno lucrativo,

de verdade dos fatos vago e sentido decorativo.

 

Aprisionada em um julgamento sem fim

Faz das negativas que recebe seu trampolim,

Saltando cada vez mais alto e distante

Procurando preservar sua voz retumbante,

Obstinada em derramar-se com altivez

Na tentativa suicida de ressuscitar nos outros a lucidez.

Ela resiste.

Insiste.

Golpeia as trevas com mansidão

E intensidade dela toda em expansão.

Renasce, teimosa, um pouco a cada dia.

Brota do asfalto a flor da rebeldia chamada Poesia.

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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