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LISE ATELIE

Mãos à obra: Lise em seu atelier. (Foto: Arquivo da Família)

 

Quando conheci Lise, tinha eu 26 anos. Apesar da juventude, as peças pregadas pela vida me fizeram perder um pouco a fé na humanidade. Poucas pessoas me surpreenderam positivamente por possuir uma história e um exemplo frente aos demais.

 

Sempre gostei de observar detalhes, feições, olhares, e imaginar o mistério que bailava a minha frente. Na maior parte das vezes ficava na imaginação mesmo. Raramente aconteceu de tomar conhecimento de outros universos além do meu. O encontro com Lise Forell fez parte dessa singularidade.  

Eu e Lise Forell imagem principal

Na intimidade de seu microcosmos - Lise Forell e Eu (Vivi Cabrera). Ano de 2010.

O ano era 2010. Estava na correria de trabalho e faculdade. Os professores exigiam o máximo dos alunos sob a justificativa de que o que viesse a partir dali, seria “fichinha” perto do que já haveríamos enfrentado. À época reclamava. Hoje, agradeço. Uma lógica masoquista que, no entanto, costuma dar certo.

Adorava escrever. Aliás, foi o que me motivou a ingressar no jornalismo. A paixão cresce com o tempo, embora existam algumas decepções nesse sentido.

Voltemos à faculdade.

Precisava fazer um perfil literário em tempo recorde, de dez laudas. O agravante era o de que, por não saber dizer não, constantemente quebrava o galho de amigos que detestavam escrever e acreditavam que para o jornalismo somente carinha bonita e ler bem teleprompter eram o necessário. Fiz dois perfis literários e ambos com pesquisa, entrevista e o caramba. O meu próprio trabalho encontrava-se a zero.

Em desespero e com poucos dias para o prazo de entrega, contatei alguns amigos pedindo dicas de personagens que possivelmente caberiam para o que eu carecia. Tinha que ser uma história daquelas.  

Eduardo, o Kaduw (como o chamo), foi quem me salvou. Nos conhecemos em agosto de 2009, quando começou o curso de comunicação social. Surgiu amizade à primeira vista. Os dois brincalhões, mas com jeito arredio e quase nenhum freio na língua (ambos arianos, cabe ressaltar!) logo reconheceram um no outro alguém em que se poderia confiar. Falam que bicudos não se beijam. Verdade. O que fazemos é piada de tudo.

Pois bem. Kaduw comentou que sua avó possuía uma trajetória espetacular. Marcamos a entrevista e lá fomos a uma casa cercada por um jardim bonito e com uma aura leve. Feitas as apresentações, a ansiedade não permitiu outra coisa que não fosse sacar o bloquinho e a caneta para começar a tomar nota até de sua respiração.

Estava diante de Lise Forell. Ela, uma senhora de 86 anos extremamente simpática, alegre. Eu, a típica jovem arrogante que achava que sabia da vida. Iniciada a entrevista – não sou de rodeios, costumo ir direto ao que quero -, Lise tomou as rédeas da situação com total elegância e transformou o que era para ser chato e invasivo em um papo gostoso, daqueles que atravessam as horas facilmente. Tomamos chá, passeamos por sua casa, falamos de sua vida, da vida em si e de suas ironias, das obras com uma profusão enorme de cores e sensações penduradas nas paredes alvas.  

Encantada. Era como me percebia ali. Poucas vezes topei com alguém tão importante. Quando digo isso, não é no sentido material ou de influência em termos de sociedade. Trata-se da importância de se ter um exemplo daquele em carne e osso, para entender que é possível enfrentar todas as agruras do caminho, contornar e derrubar obstáculos, mantendo consigo uma alegria, leveza e entusiasmo que passam a tornar a existência mais suportável. Cresci embalada por dois tipos de estórias: de heróis homens de origem divina – como a maior parte dos mitos gregos com teor moralizante que meu pai costumava me contar quando nos sentávamos à noite no tapete da sala – e  de princesas frágeis e delicadas que delegavam a outra pessoa a sua salvação e/ou felicidade – contadas por minha mãe na hora de me colocar para dormir. No primeiro caso, não me via representada pelo fato dos heróis pela distância entre nós manifestada pela ascendência divina e por serem do sexo masculino. No segundo, havia uma identificação projetiva pelas princesas serem mulheres. Todavia, a passividade diante de seus destinos incomodava. Continuei com esse incômodo ao longo dos anos e a curiosidade proporcionou novas descobertas: existiam sim heroínas mortais, mas pouco se sabia disso porque todas estavam longe tanto dos livros de estórias e da história. O motivo é que quem contava a maior parte de ambas – história e estórias - é o dominador, o vencedor, o homem, a sociedade patriarcal e machista. A minoria era sufocada.

O sufoco me inquietava. A inquietação me cutucava para o estudo da história dos esquecidos para conhecer a verdade e compreender as injustiças do mundo. Foi assim que comecei a ouvir falar de Cleópatra (cuja verdadeira história vai muito além do mito de sedução e promiscuidade), Joana D’Arc, Dandara, Rosa Luxemburgo, Olga Benário, Anita Garibaldi, Patrícia Galvão, Maria Quitéria de Jesus, Chiquinha Gonzaga e tantos outros nomes nacionais e mundiais, famosos e anônimos, que seria impossível parar de escrever. Foi quando percebi que, diferente dos contos de fadas com princesas que dependiam da proteção e cuidado alheio, a mulher possuía plena capacidade para edificar seu destino. Daí para tomar ciência do que era feminismo, foi um pulo.

Descobrir Lise foi a reafirmação de que, apesar de não ser deusa ou semideusa, há no mundo real e ainda no atual exemplos maravilhosos pelos quais devemos nos basear.

Em conversa com Angélica Boldrini, noiva de Carlos Eduardo de Oliveira Bevilacqua - o Kaduw do começo do texto -, comentou comigo que “Lise vivia para a arte como o tempo da música Stín stíha stín, de Hana Hegerová”, música predileta que escutava enquanto trabalhava no atelier. “Quando eu e o Kaduw moramos junto com ela percebia a rotina: acordar, tomar café, ouvir música e pintar o dia todo”. Em seus últimos momentos, sentia muita falta de pintar. Já no hospital, das poucas vezes em que esboçava uma reação o fazia quando o neto Leandro colocava Stín stíha stín para que ouvisse. Sorria e suspirava. Geralmente só dormia. Leandro, que nas horas em que Lise estava desperta batia muitos papos com a avó em tcheco, acreditava que os sonhos eram com sua Brno.

A minha heroína viu a morte de frente ao enfrentar na juventude todos os horrores do Holocausto em um campo de concentração; fugiu para o Brasil; estabeleceu lutas para se fazer ouvir, para ser notada enquanto artista plástica e mulher; passou por dois casamentos, teve sete filhos, muitos netos e alguns bisnetos. Dia após dia, travou uma queda de braço com o acaso para conseguir sobreviver. Em toda sua trajetória, jamais perdeu o entusiasmo. Era amante da arte, do Brasil, do carnaval, do povo, era de esquerda: conteúdos indissociáveis de si mesma pela construção que fez de sua trajetória. Faleceu aos 93 anos, na noite do dia 31 de dezembro de 2017, enquanto boa parte do mundo celebrava a vinda de um novo ano, um novo momento. Tenho cá comigo que a data fora escolhida como última homenagem do vencido Acaso à vencedora Lise Forell e, sem saber, todos brindavam, também, pela gratidão por sua marca indelével na memória dos que tiveram a honra de conhecê-la, além de deixar marcas igualmente na história, embora seja uma incógnita para muitos.

Sou grata à experiência que me possibilitou e compartilho com um pouquinho do tanto de aprendizado que tive com ela que passou a ser um modelo de superação, consciência política, empoderamento e plena alegria.

Coloco abaixo o perfil literário que escrevi sobre Lise Forell no ano de 2010. Espero que gostem.

 

 

ULTRAPASSANDO BARREIRAS, CRIANDO CAMINHOS

Diante de obstáculos e adversidades, Lise Forell usa sua arte como forma de manter intacta sua liberdade.

Por Viviane Cabrera

 

holocausto imagem numero 1 na segunda parte do texto

Holocausto – Lise Forell dá cores ao horror que enfrenta nos tempos de juventude.

Cores vivazes, pinceladas firmes, traços fortes. Vida e arte combinam-se, mostrando que a artista plástica Lise Forell é tão intensa quanto suas obras. No auge de sua existência, a matriarca de 86 anos fuma calmamente próxima à mesa de canastra. A fumaça do cigarro confunde-se com a névoa de suas lembranças.

As paredes de sua casa são de um branco reluzente e têm em si os quadros da pintora dando movimento ao ambiente. E em meio a tantas cores e formas, um gato albino de nome Ice salta de um móvel a outro da sala. Das muitas peculiaridades de seu lar, o que mais intriga é a sensação de se estar num mundo à parte. A atmosfera é de bonança após a tempestade.  

E turbulência é algo que Lise conhece bem.

Gênesis

Bravamente uniformizado, o tenente Otto Forell combate ao som de memes entoados por sacerdotes e presencia todo o sangue derramado na Primeira Grande Guerra Mundial, chacina que leva muitos de seus companheiros de armas. São horrores que ficaram gravados em sua memória e que pautam suas reflexões sobre conduta a partir do fato.

Condecorado e bem visto pela sociedade, casa-se com uma moça astuta, porém de poucos atrativos físicos, chamada Grete Fischel. Esta consegue transformar o ex-herói de guerra de forma que desceu uma escada de nulidade, degrau a degrau, deixando nos andares de cima sua personalidade para aos poucos ser dominado por indecisão, submissão e aceitação. Quando, em 1924 na cidade de Brno na atual República Tcheca, nasce Lise, ambos veem na criança a chance de realizar – cada qual a seu modo – seus sonhos e ambições. Para a mãe, a criança deveria ter a beleza que nunca pôde ter para si. Para o pai, a pessoa que se formava seria íntegra, humanista e digna em suas convicções. No lugar das exigências, dedica apenas amor e atenção.

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Brno (Foto Divulgação)

Desde que o mundo assim o é, acomodamo-nos ao formato machista da sociedade em que as mulheres aí estão somente para servir. Cuidar da casa, criar os filhos de forma impecável, atender ao marido virtuosamente, ser boa filha e cidadã. Esse é o modelo convenientemente imposto ainda na fase pueril. Com pressões advindas de diversas esferas de poder sobre o sexo feminino, a mulher abdica de si para anular-se, servindo ao outro de maneira incondicional, sem reservas. Transforma-se então, em um objeto manipulável em primeiro lugar pelos pais, depois pelo marido e por último pelos filhos. Simone Beauvoir afirmava que não podemos chamar a isso de mulher. “Não se nasce mulher. Torna-se”, diz categoricamente a autora. O que mostra que não basta surgir sob o gene sexual xx. A percepção do feminino vai muito além disso. Sob a égide do existencialismo, essa construção se dá através de escolhas que se faz ao longo da trajetória adotada, seja em qual âmbito for.

Por vários fatores fortemente influenciados pelo acaso, Lise escolhe as veredas que o afetuoso pai lhe apresenta. Graças a ele e suas máximas é que constitui suas bases de pensamento, visão de mundo e, mais tarde, adere à ideologia socialista. A mãe decepcionada por sua filha não corresponder às expectativas que possui em relação ao modelo de beleza que idealizava, resolve investir na formação educacional da menina.

Entre aulas de francês, patinação, ballet, tênis, natação, inglês, esqui na neve - e outros exercícios físicos e intelectuais - observa através da janela de sua alma as peculiaridades da existência e dos indivíduos, imprimindo essa ótica a seus primeiros esboços. Nas instituições de ensino as quais passa as professoras sempre repreendem seus pais, pedindo para que não a ajudem nos desenhos. O que elas se furtam a saber é que Lise os faz sozinha.

 

Em busca da terra de Canaã

O momento político europeu afeta sua vida familiar. Tendo como causa principal as imposições do Tratado de Versalhes, a Alemanha, assolada economicamente, insurge-se beligerante sob o comando de Adolf Hitler contra o restante da Europa. O estadista aproveita-se da situação e finca a bandeira nazista no coração da massa germânica - trapos ambulantes à espera de uma força que os resgate das circunstâncias em que se encontram. São zumbis que obedecem cegamente àquele que lhes aponte uma luz ao final do túnel, uma figura paternalista que tome para si os problemas que enfrentam e os alivie das dores. É o que o povo alemão necessita nesse momento.  

Hitler, um austríaco de palavras firmes, mostra à sociedade aquilo – ou melhor, aqueles - que considera os reais causadores do mal que assolou o país: judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, latinos, poloneses, eslavos e Testemunhas de Jeová. A Europa é contaminada por esses ideais totalitários e os judeus que se recusam a viver em guetos segregacionistas são obrigados a fugir para outras terras.

Preocupada com o rumo dos acontecimentos, Grete resolve enviar a filha para a casa dos avós maternos na Bélgica. A garota então se sente sufocada pelo excesso de zelo e falta da liberdade que tanto preza. Em 1939, com a iminente invasão das tropas nazistas alemãs, foge com seus pais, avós, tios e prima num conversível para a Espanha. Mas com Franco no poder, famílias judias estavam proibidas de entrar em solo espanhol. Marselha passa a ser seu novo destino.

Após instalar-se em uma pensão, consegue vistos a preços acessíveis para o Brasil. Mas só em 1940 é que embarca com os parentes para esse destino.

Assim que embarcaram, tudo corria como o previsto até que repentinamente o navio Alsina muda o curso e ancora na cidade de Casablanca, ao norte da África. Todos os tripulantes são levados para ônibus que finalmente desligam os motores em meio a uma paisagem desértica com os dizeres na placa do portão “Camp Sidi El Aiashi”. O coração de Lise estremece.

Para extravasar sua revolta, tal qual Anne Frank - guardadas as devidas proporções - retrata em seu diário a degradação do ser humano num campo de concentração. Compõe, então, Sem Happy End. Como em todo lugar acontece, um delator entrega seus desenhos ao comandante. Este, vendo-se incapaz de julgar tal traição manda-lhe para o chefe de polícia de Casablanca e é nesse contexto que Lise encontra sua tábua de salvação. O homem que deveria julgar seu caso interessa-se pela jovem destemida de apenas dezessete anos. Sr. Bourel faz com que Lise e sua família mudem-se para Casablanca. Apesar das intensas tentativas, o chefe de polícia não conseguiu nada mais do que a promessa de um encontro amoroso. Ao passo de quinze dias, Otto consegue novos vistos para o Brasil com a ajuda de organizações para refugiados e embarcam no navio “Cabo de Buena Esperanza”. Em 25 de setembro de 1941, depois de uma viagem marítima de tamanha ansiedade, pisa em solo brasileiro: “Me senti brasileira desde o primeiro momento. Chegamos no carnaval, o clima era maravilhoso. Estávamos no Rio de Janeiro. Os mais velhos criticavam a sujeira, a desorganização e a desigualdade de classes. Mas eu só conseguia prestar atenção no céu”, lembra com brilho nos olhos, “É que na Europa é tão cinza no inverno... E aqui no Brasil, o cenário, o sol e o céu... abrasileirei-me naquele instante”.

Amazônia

Quadro Amazônia, de Lise Forell. Óleo sobre tela 90 X 1,00 (Foto Divulgação).

Por aqui, quem está no poder é Getúlio Vargas. Simpatizante de ideologias de cunho nazifascistas toma uma postura centralizadora e autoritária no período que vai de 1937 a 1945. Tratava-se por Estado Novo o resultado de um plano forjado pelos integralistas, que justificava o golpe como forma de proteger o Brasil da suposta ameaça comunista. Apresentado pelos galinhas-verdes ao presidente Vargas, não mais precisou de pretextos para concretizar aquilo que Getúlio mais queria: o Plano Cohen possibilitou o poder absoluto em suas mãos. De fato, o país passou por alguns avanços, como a Consolidação das Leis Trabalhistas. Mas muito ainda permanecia com a carga do passado. Mesmo alcançando o direito ao voto feminino, a isonomia salarial para homens e mulheres que desempenhavam colocações profissionais de igual posição não apenas era algo inexistente como atualmente no século XXI é uma situação que permanece sem ser solucionada. Diversas são as pesquisas que comprovam esse abismo entre os sexos composto por estatísticas.

Lise chega a um Brasil tacanho, munida de sua coragem e empoderada num tempo em que nem se discutia abertamente esse tipo de coisa. Fugir aos paradigmas, correr atrás daquilo que acredita e que faz bem. Essa receita, segundo a artista, é o segredo de sua longevidade e bom humor.

Eva e a Maçã

Grete sofre o martírio de não ver em sua filha as qualidades que queria para si. Contrariando a visão da severa mãe, a criança cresce cheia de atrativos e torna-se uma mulher de fibra, dona de si, independente, de ideais e firmeza de caráter.

Na infância, a pequena coleciona brinquedos, magazines. Na fase adulta passa a colecionar conquistas. A jovem se assemelha a uma força da natureza, arrebatando tudo e todos os que estão pelo caminho. Não há um só que não a note. Quando inicia um papo, em pouco tempo, forma-se uma roda de pessoas a seu redor como que magnetizadas pela melodia que flui pelos seus lábios.

A bordo do Alsina – que acabou por aportar em Casablanca - faz sua primeira, passando por cima do orgulho ostentado pelo rapaz que dizia jamais se casar com uma judia, Lise transforma numa obsessão o fato de fazê-lo seu esposo e é vitoriosa em seu intento. O caótico relacionamento com Herbert Lowe Stukart dura o tempo suficiente para que gere um filho, Gregori.

Abandona o marido, pois não se sente bem em ver o amor que tinha - um dia chamas – em brasas prestes a se apagar. Refugia-se ainda grávida na casa de campo da amiga Nanette. Assim que seu filho nasce, Grete o toma de Lise sob um pretexto que logo cai por terra. Os acontecimentos fazem com que Lise encha sua alma e esvazie num curto período de tempo.

Com os braços e bolsos vazios segue maquinalmente rumo a “Terra Mater”, uma pousada onde já passara férias. Faz trabalhos de decoração e pintura em troca da hospedagem e comida. Todavia, recebe dos Bevilacqua muito mais do que isso. É com Leonardo, filho caçula da família, que a fênix trava novo romance. Longe de conseguirem a aprovação da família de Leonardo, os dois deixam tudo para trás e seguem num velho carro para São Paulo.

O desespero da falta de notícias de Gregori dá lugar a um novo alento: nova gravidez e novo casamento – desta vez com a benção de um Rabino. Com um filho a cada um ou dois anos, a família passa a ser integrada por oito pessoas.

Os anos passam e mais uma dança sentimental das cadeiras ocorre, cuja qual Lise já conhece o ritmo e tem jogo de cintura o suficiente para dar a volta por cima. Prepara suas coisas e deixa o lar. Os filhos, em sua maioria já adultos, resolvem trocar o conforto pela companhia da mãe e seguem com ela para outro endereço. Somente após casar-se e tornar-se pai é que Gregori, que sempre viveu com a avó, a chama de mãe. Coisa que preenche um vazio que tinha até então.

Colecionar afetos, pessoas, vitórias. Essa é sua força motriz. As pedras que aparecem no caminho estão lá justamente para serem removidas. E se depender de Lise, o trator, para isso, estará com o motor sempre em stand by.

A mulher que não esmoreceu

Patrícia Galvão é uma mulher plena do desejo pela vida, convicta de seu posicionamento político e à frente de seu tempo. Emma Bovary é um ser apagado que veste o uniforme de “mulher padrão” que a sociedade lhe entrega. A primeira, apesar de amar e constituir família, sofre graves pressões da sociedade por sua postura vanguardista. A segunda, aceita a pesada carga sobre seus ombros arrependendo-se amargamente, pois as pressões internas passam a lhe sufocar. Qual a ligação entre as duas? No emaranhado de seus destinos, ambas escolhem a chave em que está escrito Cafarnaum. A consolação que encontram – uma no engajamento político e também na realização enquanto mulher e mãe, outra no suicídio como forma de escapar da ideia insuportável de ser mais um objeto decorativo – as salva do tédio de se perceber comum.

Lise Forell também teve acesso a essa chave. Casou-se por duas vezes, teve sete filhos e adotou uma criança – por conta da impossibilidade de não mais dar herdeiros ao segundo marido, o que fez com que perdesse valor aos olhos do esposo. Nos dois relacionamentos, não abandona seu brilho característico. Quando sente a impossibilidade da levar adiante o casamento, arruma suas coisas e desabita o ninho. Duas vezes: esse é o número exato para os momentos em que teve de recomeçar do zero.

família forell

Lise e seus sete filhos. (Foto Divulgação)

Coragem, tenacidade, decisão e um singular senso crítico das coisas. Isso definitivamente a ajudou em sua trajetória artística e pessoal. Faz escolhas e sustenta a carga de responsabilidades que advém das mesmas: “Pago qualquer preço por minha liberdade” comenta, “por isso trabalho até hoje e pretendo fazê-lo até onde conseguir. Faço o que eu gosto. Quer incentivo maior?”.

Incentiva também a construção das percepções de mundo de filhos, netos e bisnetos para que estes considerem mais o coletivo do que a individualidade egoísta de seus próprios umbigos. Faz do pensamento socialista e de seu modo de vida um exemplo coerente para as novas gerações.

Compõe suas telas seis horas por dia e leciona em seu atelier. Vive das aulas que dá e da comercialização de suas obras. Contudo, tal é o vínculo de amizade que cria com seus alunos que da maioria não cobra absolutamente nada. “Sou tão desapegada ao dinheiro que até vendo os quadros e esqueço de receber os pagamentos”, comenta rindo da situação.

Dentre as coisas de que a diverte, o jogo de canastra é uma delas. Monta campeonatos com suas amigas - senhoras da aristocracia alemã - e com os netos. Aliás, orgulha-se pela mentalidade dos netos ser compatível a sua, ainda que politicamente deixem um pouco a desejar – segundo sua visão.

Sobre o atual momento político brasileiro, a judia socialista – como a própria se define – é otimista quanto aos rumos do país: “O Brasil tem muito para crescer e penso que chegará lá. Não troco este país por nada! A Europa, desenvolveu-se até o máximo. Não há mais para onde crescer. Tanto que sem ter mais o que inventar, agora estão afeitos à banalidades e tendem a ir à direita no que tange a política. Para Israel, onde mora a Débora – minha filha que é judia ortodoxa -, também não sei se iria. Soubemos de coisas como decapitação de um judeu e depois jogou-se futebol com sua cabeça. Há muito ódio de ambos os lados, judeu e árabe. Por essas e outras é que amo o Brasil. É um lugar pluralista, diverso e ecumênico. Aqui todos convivem em plena harmonia. Ou pelo menos, tentam”.

Com uma lucidez e bom humor invejáveis, vive de retratar nas telas o hipotético que nos leva a sonhar, sem deixar de lado a temática política. Suas obras explicitam bem sua visão de mundo. Nada escapa a seus olhos de lince. Pinta para retratar a desigualdade social, corrupção na política, discriminação de qualquer natureza, crítica a costumes e tradições obsoletas que engessam a sociedade, omissão do ser humano diante de determinados assuntos, religião, sentimentos. Participou de várias exposições e ainda hoje recebe convites para viajar o mundo com sua arte - Lise é especializada em arte naif, primitivista.

Avó de 21 netos, tudo o que quer é criar e instigar o criador que está latente no ser humano. “Educo os meus como oriento meus alunos: quero que despertem seus talentos, mas respeito suas particularidades. Não há como ensinar algo pronto. Cada um é cada um”. Pois a fórmula dá certo. Todos estão formados – ou pelo menos a caminho de – e caminhando para edificar suas existências.

Com ar de missão cumprida, Lise Forell desabafa em meio a tragadas de realidade e baforadas de expectativas: “Posso, sem mágoa nem revolta, mergulhar nas reminiscências e cuidar de muitas lembranças. Tanto as más quanto as boas”. Só pode dizer algo assim quem viveu em plenitude e amou a vida mais do que qualquer outra coisa.

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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