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Inquietações IV

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Axí, credo!

A menina aqui paga mais que os outro. Mas óia! Tô pá te falá que o serviço por aqui é dobrado tomém. É roupa suja de monte, tudinho numa bagunça que – Ai, papai! – só pedindo a Deus Nosso Senhô pra dá força pra eu consegui deixa na ordem.

Valei-me, Nosso Senhô!

 

Essa gente de agora é estranha. Não tem família, não sai, trabalha que não tem tempo pra nada, junta pra gastar em bobeira sem precisão enquanto nóiz nem têm às veiz dinheiro pro feijão – que virou artigo de luxo! – e evita ter contato com os outro que nem eu. Imagine você que a patroinha sai cedinho de sábado! Levantar cedo de sábado é absurdo pra quem não trabalha nesse dia! Larga meu pagamento num envelope jogado na mesa da sala. Tive contato com a bichinha só na conversa em que me contratou, pra acertar o valor do dia. Pensa que tem o rei na barriga. Espere pra ver que a vida não perdoa. Olhe que o pau te acha, patroinha. Ah, se acha!

Tu é um nó cego, Severino! Aparece que nem fantasma, credo! Ah, é. Deixei a porta destrancada. Arre! Mas quem é que mandou você vir aqui, hein? Pois se é sua folga, pegue o beco e me erre, faz favor! Tem trabalho pra batalhão aqui. Se vai ficar, não atrapalhe.

Tô é só bafo, que me chamou pra ir no forrozinho lá no Largo da Batata ontem e quando chegou seis da tarde me deixou no balde. Nem pra ligar e dizer se tava vivo! Cê tem é que levar uma pisa pra aprendê, ouviu? Não me vem com papo frescando, não! Só me enrola! Nunca vi!

Espia, Severino! Espia lá o sicrano do teu prédio que sem termo que é! Perde o nariz pra cá pra dentro, registrando tudo com aqueles zóio esbugalhado o que se passa do lado de cá. Patroinha fez um bilhete pra mim perguntando se quando eu tô na lida ele também bisbilhota. Chamei o menino aqui da portaria pra escrever pra ela o que aconticia. Acho que é daqueles tarado doente que deve de estar na pedra, asilado mesmo, e encarna numa pessoa. Falei pra tomar cuidado, senão acaba igual essas mulher tudo assassinada por homem desorientado que passa nos programa de televisão.

Ai, Severino! Vou te contar que tu me enche a paciência aqui, mas pelo menos não vejo o tempo passar Agora que eu terminei de lavar e passar as roupa, de fazer e congelar a comida pra semana, de lavar banheiro e cozinha, arrumei as coisa, vá na padaria comprar uns pãozinho e mortadela que vou fazer café e um cuzcuz pra gente tomar café antes deu ir pra casa, vá!

UFA!

Até que enfim foi e me deu sossego por um tempinho! Fala mais do que mulher.

Nossa Sinhora! Que homi mais enrolado. Pior é que enrola a gente junto. Até que gosto dele, só que não dô o braço a torcer. Não mesmo. Ele que se ajeite que eu mereço é coisa boa.

Fale, coisa! Chegou, é? Sente aqui que já tá pronto. Venha comer.

Eu sabia que você vinha hoje me perturbar e trouxe açaí e farinha d’água pra gente comer. O cuzcuz tá aqui, saco sem fundo! Trouxe meu pão e a mortadela? Ah! Acho bom!

Mas é? A patroa foi te perguntar do fulano na sua portaria, é? E que é que você falô? É. É estranho mesmo esse daí. Fiz faxina essa semana na vizinha dele, a dona Helena. Perguntei e ela falou também que ele não se dá com ninguém, é caladão. Ai, Severino! Será que é desses matador de mulher, é?

Putistanga, Severino! Que forró o quê? Tô despombalecida que fiz milagre aqui. Dá não, homi! Amanhã? Cê só me dá bolo! Sei que era que teve de dobrar na portaria, viu! Te conheço, criatura!

Bora logo que não vejo a hora de ir pra casa. Deixe limpar o que a gente sujou pra poder tomar meu rumo.

O quê? Então vá, homi, vá! Tá safo, viu?! Espero cê me ligar amanhã pra nóiz dançá um pouco.

Como lembrou que não dá? Te vira, tu não é jabuti!

Tá...

Vá, vá! Vá e não me encha!

Não me vem com essa! Peça beijinho pra sua mãe!

Afe, Maria! Que doido! Tenho é que criar vergonha na cara e não dar confiança pra esse homi-piranha. Mas olhe, é difícil pra mulher solteira com mais de cinquenta ano. A gente fecha os olho pra muita coisa pra desfrutar um bocadinho das coisa da vida. O problema é que na maioria das veiz isso faz é tomar na lomba. Tristeza, viu?!

Dizê bem a verdade, acho que o que me traria felicidade era ganhar melhor e ter um serviço que não fosse pesado pra me mantê trabalhando até que não desse mais. Acho que ter um cantinho decente pra morar que fosse só meu, sem a ameaça de aparecer polícia pra colocar todo mundo na rua, sem o medo de chuva, desabamento ou incêndio que me faça perder o que juntei por anos.

Um chinelinho véio pra esse pé cansado não seria mau, não. Só que se não acontecer, tá tudo bem também. Importante é ter saúde pra trabalhar.

Vejo que a gente que é pobre perde a dignidade e inocência cedo. Não temos escolha, não se trata de uma alternativa. Entrar no jogo e se submeter às regras é o que temos nas mãos pra sobreviver nele e a ele. Se cada um como eu abrisse os olho tudo pra o que acontece de verdade, o país ia viver uma revolução dos inferno e os patrões iam respeitar mais nóiz. Porque até agora, só o que se vê é empregado abaixando tanto a cabeça que acaba mostrando o rabo pra eles. Aí não valorizam mesmo.

Mas tem o seguinte: se reclamar muito, vai todo mundo pra rua. A corda estoura do lado dos mais fracos e quem tem família pra sustentar, engole sapo, jacaré e o brejo todo pra pagar as conta. Por dinheiro a gente se escraviza nessa vida.

Esse acúmulo cansa.

Por isso que gosto de espairecer tomando uma cervejinha com as amiga da lida, com os parente, dançar um pouco. Só não gosto de como o Severino me enrola! Ô bicho safado!

Tem jeito, não! Penso que nasci pra ser enrolada pela vida, pelas situações, pelos objetos e pessoas. E quem nasce pra jabuti, nunca vai ser passarinho. Então pra quê ficar sonhando com o topo da árvore se meu lugar é aqui embaixo, né não?!

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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