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Reflexões Sobre o Decesso

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Se fosse possível traduzir a vida em palavras, arriscaria dizer que a obviedade do efêmero é sentença que recai sobre a cabeça de quem - ou o quê – está pelo mundo. Acrescentando-se a esta pétrea certeza, existem outros fatores que não só a torna estúpida como também cansativa: a involuntária ginástica do acordar e adormecer, do cair e levantar, nascer e morrer. São mecanismos que não se ensaiam, não podem ser simulados. Acontecem e ponto final.

 

A presença acostuma mal as pessoas. Talvez se a inconstância fosse mais manifesta, não sentiríamos tanta falta dos que partem. Talvez as lembranças da convivência não seriam tão dolorosas se tentássemos não ver o verdadeiro valor de tudo. Morrer não soaria como um abandono, uma traição. No entanto, que existência miserável teríamos frente a essa estéril aplicação pragmática de tomar distância!

Tenho cá umas questões com a Morte. Entendo que as coisas precisam se renovar, mudar, prosseguir e que alguém precisa fazer o “trabalho sujo” - digamos assim. Contudo, ninguém ensinou o que fazer com o que fica. O que fazer das lacunas? O que fazer dos sentimentos diminuem o coração tal a dor ou com as memórias que entram em um ritmo circular ininterrupto?

O tempo, ao contrário do que dizem, não cura. Ameniza, porém. Sem a hipocrisia de dizer que não traz esquecimento! Traz sim, mas para tudo o que não cabia na nossa estrada, a atravessou à força, sendo com igual intensidade removido. Ao que valeu a pena, aos que nos amaram e amamos e fizeram a derradeira viagem, esquecer não entra na lista de possibilidades. Aliás, esse hábito de fazer lista é que deveria morrer.

Quanto a amenizar, o que ocorre é a transformação da inconformidade com o fato em si numa saudade acrescida a um quê de resignação. É como se uma voz repetisse para nós o famoso clichè de que “Foi melhor assim” e um calorzinho bom invadisse dentro da gente, rememorando pessoas, situações, animais de estimação e coisas que não voltam mais.

Enquanto não descubro se me enquadro na categoria dos que vão causar o dito calorzinho ou dos que são esquecidos sem maiores problemas, sigo a cativar pessoas, cultivar afetos e pavimentar histórias – a minha, a dos que amo e me cercam – serão prioridade até o expirar. O restante é encargo da morte.

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Vivi Cabrera

É formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM, cursa licenciatura de Geografia e Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior na Faculdade Campos Salles. É autora do livro Flores do Asfalto – histórias de duas favelas paulistanas, pela Editora Futurama e arrisca crônicas, contos e poesias de vez em quando.

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