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Deus, serotonina e consciência

A neurociência nos diz que não existe livre-arbítrio; logo, aquilo que chamamos de consciência é tão somente refugo do cérebro e de suas sinapses químico-físicas.

Fica evidente uma coisa: não estamos no controle de nada.

Se não podemos atribuir vontade individual ao homem, uma vez que a pulsão deste não nasce de uma consciência superior (metafísica) mas de uma resposta fisiológica ao meio, como poderemos traçar distinções ético-morais? Por exemplo, o que foi Auschwitz? Levando o pensamento à náusea, concluímos que o extermínio em massa de milhões de pessoas não significou nada além que o extermínio em massa de milhões de pessoas.

A matéria vivendo o seu transcurso placidamente, indiferente às dores e aos clamores de judeus incinerados, bebês violentados e deficientes eficientemente extintos, alheia aos gritos das mães de negros adolescentes assassinados, homossexuais espancados, prostitutas cuspidas e pobres pisados.

O que dizer diante de tal coisa? Tanto faz.

A vida continuará o seu fluxo inexorável. As calamidades desconhecem méritos, as metástases cancerígenas não contabilizam créditos e a morte põe termo a qualquer pretensão de transcendência.

O corpo inerte e sem luz volta à terra silenciosa e fria, útero do desafeto.

A consciência como afeto do corpo. Amar é tão nobre quanto peidar.

As ocorrências intestinais assemelham-se ao carinho que a mãe tem pelo filho.

Deus e a serotonina. Deus é a serotonina? Deusserotonina, louvado sejas nas alturas do meu bem-estar!

 

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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