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Dialética do esgoto

I. A tampa do vaso (introito)

Na última parte do livro O Evangelho segundo Talião1, deparamo-nos com a narrativa homônima, a qual, a meu ver, é o clímax teórico – e narrativo - da obra. Nela conhecemos Walter Dortlicht, um intelectual niilista que, à semelhança de Raskólnikov, resolve fazer um experimento moral para pôr à prova o espírito de seu tempo. Torna-se um assassino em série e, depois de perpetrar todos os crimes, entrega-se à tutela da Lei como sendo, ele próprio, sua última vítima. No parlatório, diante de seu advogado de defesa, o Sr. Dr. Hugo Lumina, W. Dortlicht leva-nos, narrativamente, pelo subsolo de nossa decadência compartilhada, ou, como o Flávio diz noutra parte do livro, de nossa sociopatologia cotidiana.

A partir daí, travar-se-á um longo diálogo entre os dois, que servirá de corredor polonês à nossa ausculta da História. Teremos uma constante tensão entre o otimismo histórico de Lumina e o pessimismo materialista de Dortlicht. Hugo defende que a lei de Talião é uma etapa necessária ao aperfeiçoamento moral, de modo que, em relação aos códigos jurídicos anteriores, os quais reproduziam o castigo de forma desproporcional ao crime, o “olho por olho, dente por dente” era já um imenso avanço. Hugo argumenta que, num devir indeterminado, a civilização estará apta para o acolhimento da síntese redentora, mas que, por enquanto, encontra-se aquém desse horizonte. Após ouvir tais elucubrações, Walter o aplaude em tom irônico e passa a tecer sua antítese labiríntica, que chamarei aqui de dialética do esgoto. Buscarei, neste texto, mesclar as posições e/ou diagnósticos da personagem com minhas próprias análises e/ou percepções. Quem leu este Evangelho, saberá distingui-las, quem não, creio que ficará ávido por fazê-lo.

           

II. Descarga abaixo

Puxemos a descarga e observemos o percurso que faz a bosta rumo ao rio Pinheiros e /ou Tietê.

Aqui, Walter desafia o otimismo dialético do Dr. Lumina e começa a pregar-lhe as Boas Novas de Talião: oaparelho punitivo do Estado, que é uma sublimação da lei taliônica, exerce um papel estritamente sanitário, pois permite que o ódio individual seja canalizado pela instituição. Assim, os indesejados dejetos do rancor são diluídos pela máquina burocrática. Descarga da eficiência jurídica, a lâmina letal de Palas Atena, cuja altivez tampa os olhos – e narinas – para não ver – e cheirar – o fétido esgoto que corre debaixo do parlatório.

Mas, caros amigos/leitores, o que seria do cidadão banal e ordeiro se suas fezes não fossem evacuadas? “O assassínio precisa passar pela assepsia da civilização2.”

Todo o aparato jurídico, embora muito bem articulado, acaba se baseando numa ficção moral, uma vez que a ciência redime o homem de sua responsabilidade. “A violência é uma disfunção orgânica3” e/ou psíquica. A psiquiatria e a psicanálise reduzem o homem a objeto respondente, nunca a sujeito deliberador. Onde, pois, está a base sobre a qual aferiremos o dolo? Se o que chamamos razão é tão somente o esgoto psíquico determinado pelo nosso inconsciente, quem poderá segurar o martelo da Justiça?

A despeito de toda falta de sentido, o braço psiquiátrico oferece-nos a redenção por meio de um arsenal de psicotrópicos. A dor precisa ser anestesiada, os nervos não podem estar expostos. A antiga máxima meritocrática “no pain, no gain”, uma vez encurralada pelo absurdo, busca enlouquecidamente a maximização dos prazeres; modifica-se: “there is no gain with pain”.

É preciso acordar, fazer, realizar, dar prosseguimento à “marcha idiota da História4”. Fique feliz, sorria, pense positivo, afinal, “a esperança é um hábito”. Sim, pois todos somos “o cadáver que ainda insiste em marchar5”, soldados zumbificados pelo Rivotril desse capitalismo global, dessa monocultura de mentes.

W. Dorlitcht coteja passado/agora e expõe as vísceras da suposta evolução da humanidade, a qual teria saído de um estágio selvagem e ascendido a um nível civilizado.    

Tribunal e coliseu coexistem, o passado não teve sua síntese, não foi superado, ele se regurgita sobre nós como uma tubulação mal vedada. A sede por sangue do tribunal do júri remonta aos morticínios praticados na arena romana; linhas contíguas que se reencontram todos os dias sob o teto pomposo da Lei.

Será mesmo, Walter, que “a História transforma-se e permanece idêntica a si mesma6”?

Quando vemos o sêmen do capitalismo romper com o sistema feudal baseado nas monarquias absolutistas, parece que o livre-mercado e o mérito próprio são as definitivas Boas Novas, até que a Revolução Industrial mostre seu poder antitético: o seu crescimento desordenado e seu sistema produtivo são como uma metástase que se prolonga até os dias de hoje, quando o estoque natural se mostra finito e o trabalho compulsório ganha novas configurações. Paulo Brabo, na sua Bacia das Almas, sentenciou-nos:

“Você compra o seu smart­fone, mas não precisa ficar sabendo que as con­di­ções de trabalho em que ele foi montado numa fábrica chinesa são tão desu­ma­nas que as janelas são gra­de­a­das e os prédios providos de redes de segu­rança, na ten­ta­tiva de conter o avanço dos sui­cí­dios.

Você não precisa tes­te­mu­nhar o drama das famílias desa­lo­ja­das, das comu­ni­da­des e culturas riscadas do mapa, de gente em nada dife­rente de você roubada da sua dig­ni­dade.

Diminuir os custos e maxi­mi­zar os lucros é o mantra do capital. Os bate­do­res do capi­ta­lismo vivem sondando o planeta em busca da mão de obra mais barata dis­po­ní­vel, de modo a explorá-la nas suas longas cadeias7.”

Mas o saneamento nos protege, põe um véu sobre nossos olhos para que não vejamos o caminho que nossa bosta faz de nossa privada de porcelana devidamente perfumada pelo purificador de ar até o rio Pinheiros e/ou Tietê.

A estrutura brutal e injusta sobre a qual nossa sociedade se sustenta lança mão de vários mecanismos purificadores de ar: a cultura, a mídia, as instituições oficiais - e seus muitos apologistas teóricos.

Ligo a televisão, símbolo mor desse saneamento. As Trevas do Iluminismo na face barbeada de François Hollande e sua retaliação à Síria. O mundo (leia-se mundo ocidental) se comove com a violência praticada contra o Ocidente. Natural que assim seja. Natural como a cultura que nos envolve e nos condiciona. Segunda natureza introjetada. Talião sorri ao contemplar o choque de fundamentalismos. O Oriente vê a ditadura neoliberal e a ideologia americana como a besta a ser decepada, os EUA e seus condôminos econômicos, todos debaixo da abóbada cristã, acreditam piamente que são os novos Josués ungidos para extirpar os cananeus.

Ao que pude constatar, o Evangelho narrado por Walter tenta nos mostrar o quão enganosa é essa nossa noção de que vivemos numa rotina ordeira, funcional e produtiva, onde cada peça e cada engrenagem são lubrificadas pelo bom senso e pela razão, ao passo que, se ousarmos auscultar os gemidos daqueles que, embora sejam os agentes construtores da realidade objetivo-material, sofrem sob o jugo dos legisladores da humanidade, dos “homens extraordinários”, no dizer de Raskólnikov.

O contexto social hobbesiano de todos contra todos leva ao desespero a massa de homens e mulheres semianalfabetos e sem quaisquer “qualificações”, e por ser essa massa incrivelmente abundante, os que conseguem um emprego não podem se dar ao luxo de questionar as desumanizantes condições de trabalho. O trabalho dignifica o homem - dizem aqueles que não sofrem o tripalium de ter que limpar banheiros imundos, lavar as janelas dos altos prédios, dirigir os ônibus, guardar as portas dos bancos, levar os cafezinhos aos executivos, costurar as roupas das senhoras ricas e dopadas, fechar os caixas dos supermercados, levantar as mansões dos patrões etc.

Para que a prosperidade material chegue ao Sudeste e mais uma segunda-feira nasça promissora em algum escritório esterilizado da Av. Paulista, a Amazônia tem de ser reduzida a cinzas, o Cento-Oeste tem de virar um imenso campo de futebol para bois e soja; inclusive, para que o referido escritório esteja limpo e perfumado, D. Joslaine tem de gastar cerca de 5 horas no transporte público lotado - e ainda ser grata.

O progresso é tudo o que queremos - dizem os autores da peça social, enquanto os atores desempenham, sem saber bem por que, o trágico e funesto papel de mártires involuntários; são os cristos anônimos carregando as cruzes feitas pelos múltiplos impérios, via crucis diária dos que cheiram a merda e bebem a água contaminada do esgoto que todos expelimos.

Quem teve ouvidos para ouvir e ouviu a pregação de Walter Raskolnikóv Dortlicht, percebeu que a superfície higienizada e racional das convenções sociais e das instituições tem um subsolo inerente: o esgoto da violência, da exploração, da degradação ambiental, da guerra.

E nesse cenário de absurda coerção e domínio, onde o mal é banalizado até a náusea e Talião a cartilha catequética, coisas como a culpa e a melancolia crônica devem ser combatidas vigorosamente pelo algoz psiquiátrico desse turbocapitalismo, que ousa nos dizer que “tudo vai muito bem, obrigado”, e que qualquer indisposição em propagar a autofagia social precisa - e deve ser - enquadrada como patológica.

          Outra passagem fulcral da argumentação de Walter nos diz: "O saneamento básico realiza uma função social fundamental, mas eminentemente perigosa: a esterilização pelo véu do esquecimento8”.

            Para a ínfima parcela de pessoas a quem foi dada o privilégio do estudo, da contemplação artística e do pensamento abstrato, o esquecimento torna-se uma escolha, o caminho menos tortuoso, na verdade. Saber-se parte integrante de uma lógica aristotélica do mundo, que dispõe cada ser em seu devido lugar - o locus do inexorável - deve ser bem cômodo, afinal, nunca haveria nada de novo debaixo do sol. Agora, uma vez que se compreende a vida como o território da contingência, uma agonia se instala - a consciência de que as coisas poderiam não ser como são. Daí podem nascer duas posturas: indiferença ou culpa. A indiferença pode ser voluntária ou induzida; voluntária quando de um cinismo premeditado; induzida quando refém da lobotomia psiquiátrica.

           Por outro lado, a culpa - a culpa de serum sobrevivente em meio a tantas vítimas fatais desse estado de coisas – não seria consequência do abrir-se da tampa, da onipresença do cheiro do ralo desse esgoto histórico a que chamamos vida, civilização, realidade?

III. Esgoto a céu aberto

           Se a História não tem um devir redentor, ou mesmo um sentido presente, o que serviria de motivo para queJoão, Maria e José acordassem na segunda-feira e reproduzissem a metástase do cotidiano? Walter responde: a ofensa, o ressentimento, a vingança. “Nada mais conquistaremos para além de Talião9” – declara o sóbrio assassino.

          De acordo com o nosso profeta do caos, os vínculos históricos são ligados pelo ódio dos caolhos que querem deixar caolhos os seus ofensores e dos sem dente que aspiram desdentar os seus inimigos. Se Gandhi dissesse a Walter que Talião não poderia ser a regra geral, do contrário todos terminaríamos cegos e banguelos, este lhe riria na cara e sentenciaria:

- Nem tampouco existiríamos; é porque dói que somos.

           Todavia, todo esse esgoto produzido pelo metabolismo taliônico ainda não foi submetido a um processo de saneamento que não vaze, ora ou outra, dejetos sobre a inocente e ordeira população. “Os resquícios e resíduos tratados voltarão a fazer parte dos trâmites da sociedade civil, mas há momentos - e épocas e eras - em que a mais substancial adição de cloro aos dejetos não impede que os cidadãos busquem o cheiro putrefato de suas sombras10 (...)”.

            Seis da tarde, segunda-feira, hora do rush, estamos na Marginal Tietê. As fileiras intermináveis de carros e o asfalto incandescente... ao lado, bem próximo e à vista de todos, o rio corre tóxico e purulento. O rio leva em seu não curso os pecados de nós todos. Amém. Não temos nem a desculpa do saneamento, pois nada está vedado aqui, pelo contrário, a exposição é ultrapornográfica. Os nossos dejetos boiando ao sol. Cada esgoto individual convergindo para o Todo harmônico da nossa cegueira compartilhada.

            Encouraçados e apressados por chegarmos logo ao tripalium, nós buzinamos e nos encolerizamos com o engarrafamento. Enquanto isso, inalamos o cheiro podre do esgoto a céu aberto, o pântano “cujo cheiro putrefato se insinua pelas frestas mal vedadas do cotidiano11”.

É nesse e em outros momentos que a lama não pode ser ocultada (lembremos o ocorrido em Mariana). Não obstante toda a eficiência da hipocrisia social em dourar a pílula do nosso envenenamento, sujidades vencem as frestas, cadáveres vêm à tona, pequenos atos de selvageria nos lembram que o alvo cano de nossas casas segue até o rio mais próximo, onde as minhas e as suas fezes serão expostas à inclemência do sol e à sua mais clara luz.

 

1. VASSOLER, Flávio Ricardo, O Evangelho segundo Talião. São Paulo: nVersos, 2013.

2. Ibid., p. 241.

3. Ibid., p. 243.

4. Ibid., p. 282.

5. Ibid., p. 263.

6. Ibid., p. 249.

7. O Comprimento das Cadeias. Disponível em: http://www.baciadasalmas.com/o-comprimento-das-cadeias/. Data de acesso: 31.01.2016.

8. VASSOLER, Flávio Ricardo, op. cit., p. 263.

9. Ibid., p. 275.

10. Ibid., p. 263.

11. Ibid., p. 260.

 

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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