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Arquivo morto

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Ademir trabalhava em uma fábrica de armas, mais precisamente no setor de projéteis. Contudo, nos últimos tempos, a empresa, para aumentar o lucro, decidira modernizar certas partes da linha de produção, o que ocasionou na dispensa de centenas de funcionários, entre os quais Ademir se viu incluso.

Em uma sexta-feira banal, findo o expediente, a moça do RH veio até o setor de Ademir e o abordou:

- Senhor Ademir, será que poderia me acompanhar até o RH, por favor?

Ele baixou os olhos, voz seca, um grito de indignação abafado no peito, a certeza do que estava por vir.

- Sim, Débora. Vamos resolver isso logo.

A asséptica e ereta operária administrativa o acompanhou por 3 corredores e 1 elevador. Chegaram ao temido escritório.

- Pode se sentar, fique à vontade.

- “Ficar à vontade como”? – pensou Ademir.

Uma música suave envolvia o ambiente, oriunda de umas caixinhas de som fixadas em um dos cantos da parede, na qual ainda figuravam um quadro e um painel com os valores da empresa. Não cabe citá-los aqui; são os de sempre.

Dali a cinco minutos Débora apareceu.

- O senhor gostaria de um café? É que estamos procurando a documentação e isso pode levar mais alguns minutos. Tem uma cafeteira logo ali – a moça apontou para uma portinha que trazia a inscrição “copa”.

- Tudo bem.

O café estava frio e amargo. Ademir se conformou. O que poderia querer numa hora dessas? Um café a seu gosto não mudaria o fato de que em alguns instantes estaria no olho da rua.

- Pronto. Aqui estão a sua carteira de trabalho e as guias para o seguro desemprego. O valor da rescisão será calculado ainda. Peço que o senhor volte no dia 6 para acertarmos tudo. Alguma dúvida?

- Só uma: quanto tempo tenho de seguro desemprego mesmo?

- Olha, senhor Ademir, de acordo com as novas leis trabalhistas, aprovadas no ano passado, são 2 meses de seguro.

- 2 meses só?! – exclamou.

- Infelizmente, senhor.

O nosso personagem teve vontade de gritar, mas sabia que isso era vão, uma vez que a moça que ali estava só cumpria ordens. Tentou se acalmar, bebeu mais um gole do café gelado.

- E como o senhor deve saber, mesmo com seu tempo de serviço, de acordo com as novas leis, não há mais o procedimento de homologação.

- Sim, eu sei, Débora.

O sol estava pálido, já quase se escondendo no horizonte trêmulo. O alaranjado do céu prenunciava uma esperança... e Ademir esperava o ônibus. Espinosa dizia que vivemos sempre entre o medo e a esperança, gangorreando nos extremos, que afinal são duas faces da mesma moeda. Queremos controlar o futuro, por isso o sofremos antecipadamente, seja na boa ou na má expectativa.

O ônibus, lotado. Como sempre. Cerca de 1 hora e meia até chegar em casa. Tinha esse ônibus, depois o trem e mais um percurso de 15 minutos a pé. Era um bairro pobre, uma espécie de favela de casas sem reboco. Lá os bueiros estão sempre jorrando água pútrida pelas ruas e as crianças, sempre descalças. Ademir morava mais próximo da avenida, distante do córrego – o que era uma vitória, uma espécie de distinção imobiliária. Chegou já eram quase 8 da noite, porque ele passara antes na venda do Chico para comprar manteiga. Abriu o portãozinho. Na sala, ninguém. A televisão, desligada. “Cadê a Fabíola?” – pensou consigo. Ademir era viúvo e tinha uma filha de 16 anos. Foi procurá-la no quarto. A porta estava trancada. Deu duas batidas leves e disse:

- Cheguei, filha.

- Tá, pai.

- “Deve tá mexendo no computador. Essa menina não sai da frente desse troço” – falou para si mesmo.

            Ademir foi tomar banho pensando na demissão e no que poderia fazer. Já tinha 45 anos de idade e conseguir alguma coisa a essa altura não era fácil. Podia ver com o Zé se ele não descolava uns bicos na construção. Por fim, tranquilizou-se lembrando que ainda havia o seguro – sim, só 2 meses, mas era alguma coisa.

            Jantou café requentado e pão com manteiga.

            Depois, ligou a TV; o noticiário dizia: “Mulher doa rim para chefe e acaba demitida durante recuperação. O fato aconteceu nos Estados Unidos. Chefe e funcionária foram operadas e voltaram a trabalhar na mesma época. Esta declara que teve problemas na recuperação e que precisou faltar porque não estava bem. Acabou sendo demitida”.

            - É só desgraça! – resmungou Ademir, desligando o aparelho.

            Estranhou, porque já eram quase 9 da noite e Fabíola não aparecera para falar com ele. Foi bater na porta do quarto dela de novo.

            - Filha, não vai dar nem boa noite pro pai?

            - Não tô bem, pai. Quero ficar deitada – respondeu a menina, com voz chorosa.

            - Abre a porta, querida. A gente conversa.

            Ademir ouviu o barulho da chave destrancando. Sentou-se na cama, ao lado da filha, que estava de cabeça baixa e os com olhos vermelhos.

            - O que aconteceu, meu anjo?

            - Nada não, pai.

            - Como “nada não”? Você tava chorando, né?

            Fabíola sabia que não adiantava tentar esconder, pois o pai a conhecia tão bem que qualquer alteração de humor era percebida até pelo telefone. Medo, culpa, pavor.

Ademir começava a se angustiar.

            - Fala logo, menina. Tô ficando preocupado.

            - Ah, pai... sabe... – não terminou a frase e começou a chorar. Deitou a cabeça no colo de Ademir e, entre soluços, pedia que a perdoasse.

            - Me perdoa, pai! Por favor!

            - Perdoar o quê? – questionava Ademir, muito assustado com o desespero da filha.

            Só depois de alguns minutos que Fabíola conseguiu segredar-lhe o caso. Estava grávida. Como era de se esperar, Ademir ficou irado. E a notícia se agravou quando Fabíola confessou que não sabia quem era o pai da criança.

            - O quê? Como assim, Fabíola? – Ademir gritou.

            A adolescente chorava copiosamente, quase não conseguia falar. As mãos tremiam e suavam frio.

            - É que teve um baile... sabe o pancadão lá da rua 6?

            - Puta que pariu! Puta merda!

            - Calma, pai. Calma.

            - Calma o caralho! Quem foi o filho da puta que fez isso?

            Fabíola escondia o rosto com as mãos e soluçava. Ademir estava fora de si, ardendo de ódio. Queria matar a filha de pancada, queria dar um tiro no pirralho maldito que estragara a vida de sua princesinha! Do seu bebê! O fluxo de memórias afluía em sua mente. A esposa, morta há 3 anos, fechada naquele caixão mudo. O velório sem sentido, o cheiro de flor misturado com formol, a dor rasgando o peito, aquele pigarro na garganta, aquele desespero tácito, aquela vontade de morrer junto. De súbito, a mente volta-se a um passado mais remoto. Fabíola, com 2 anos de idade, brinca com os cabelos da mãe num domingo à tarde. O cheiro do café que a mulher fazia. A voz rouca que ela tinha pela manhã. Fabíola morria de rir com as cócegas, o macarrão com salsicha que eles comiam... Que merda! O que essa menina foi fazer?

            Ademir respirou fundo; achegou-se à filha – ele tinha se levantado e andava de um lado para o outro, ansioso ao extremo. Tentava se acalmar - na medida no possível, é claro.

            - Me diz quem é o rapaz, filha. Vai ficar tudo bem. Mas preciso saber quem foi.

            - Eu já disse, pai. Não sei.

            - Que porra, Fabíola! E eu sou idiota, né?! Agora você vai me dizer que é a Virgem Maria?

            A adolescente secou o nariz com a fronha do travesseiro e, olhando fixamente para a parede, disse num tom de indiferença, numa calma glacial, o que acabou por trazer ainda mais tragicidade ao fato:

            - Naquele dia, pai, eu fiquei com mais de um cara. Como eu vou te falar quem é o pai? Pode ser qualquer um deles.

            Ademir não podia acreditar no que acabara de ouvir. Entrou num processo de negação.

            - Você não deve tá grávida, não. Vamos comprar um teste de gravidez pra você.

            - Eu já fiz... 3. Tudo positivo.

            - Ah, caralho! Não pode ser.

            A cada exclamação e impropério do pai, Fabíola sentia um calafrio; estava em choque. Já não tinha mais forças para chorar. Tudo lhe parecia fosco, meio irreal. Um sentimento de despersonalização a dominava, teve sono.

            - Olha pra mim, menina! O que deu em você? Tá muda aí no canto... de repente ficou muda aí...

            Fabíola ignorou o pai, enrolou-se nas cobertas, cobriu a cabeça e não disse mais nada. E, por incrível que pareça, Ademir não protestou; não sabia o que fazer. Estava petrificado. Grávida! 16 anos! Na porra de um baile funk!... e ela não sabia qual dos caras era o pai! Qual deles! Eles! Ademir sentia uma vontade enorme de tirar o cinto e surrar Fabíola! Surrá-la até cansar de bater. Mas sabia que não adiantava nada. O fato estava consumado, a merda estava feita.

            Naquela noite, Ademir não pôde dormir. Foi para o sofá, ligou a televisão – mas só para ouvir algum barulho diferente dos seus próprios pensamentos – e permaneceu sentado ali 2, 3, 4 horas, extático. Já estava quase pegando no sono quando escutou barulho de tiros. (Havia uma unidade de polícia pacificadora em seu bairro e os tiroteios eram coisa rotineira, de modo que isso nem lhe causou tanto espanto). Acomodou-se novamente no sofá.

            Todavia, aproximadamente às 3 da manhã, numa resolução súbita, Ademir decidiu se levantar para dar uma olhada nos papéis do seguro desemprego. Estava tão atordoado que se esquecera de fazê-lo. “Preciso ocupar minha mente” – pensava. “Preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa. Minha filha só tem eu agora, vou ter que ajudar ela. Deus vai me ajudar”.

            Nesse momento, no preciso momento em que Ademir se levantava para procurar os papéis, no instante em que sua alma encontrava algum alento, alguma força remota no fundo de seu ser dilacerado, uma nova série de tiros irrompe lá fora. E, no confronto entre a UPP e os traficantes, uma das balas atravessa a janela da casa de Ademir e o atinge na nuca. Fim da espera. Fim da esperança. E também do medo. O corpo inerte cai no chão da sala, despersonalizado, inumado, sem anseios e sem vida.

            No dia seguinte, a mídia cobriu o caso. A versão disseminada foi que o tiro que matou Ademir dos Santos Filho partiu da arma dos criminosos.

Na Touros, empresa na qual Ademir trabalhava, Débora o transferia para o arquivo morto ao mesmo tempo em que o setor financeiro, numa reunião animada, estimava fechar aquele ano com um lucro exorbitante.

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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