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Diálogo sobre o mal no mundo

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Dois jovens suicidas, uma moça e um rapaz, 22 anos cada um, estavam na cobertura de um alto prédio, debruçados sobre o abismo.

            O jovem, depois de arrumar delicadamente a franja de sua amada, olha para baixo e diz:

            - Meu amor, veja como as coisas são pequenas daqui de cima.

            - É verdade, querido. Mas imagina se pudéssemos sair da órbita do planeta e observar a humanidade de fora.

            - Até dá... pela internet... mas aí não vale. O assombro só vem com a vertigem do real.

            - Sim. A internet oferece imagem ou vídeo, no máximo. Estar aqui em cima é totalmente diferente. É experiência.

            - Concordo.

            Dito isso, os dois se olharam com ternura e se beijaram suavemente.

            A noite era fria, enluarada, porém, devido à poluição da cidade, não se podia vislumbrar as estrelas – coisa já normal nos centros urbanos. Lá embaixo, a vida, o seu fluxo. Carros, pessoas, a economia sempre fervilhando. Letreiros reluzentes. O desejo que nunca dorme. A ânsia de saciedade que alimenta a roda da máquina humana, impulsionando-a a construir, a edificar. Como o arranha-céu no qual estamos, a observar o casal. Voltemos a ele.

            - Tem certeza que quer fazer isso? – perguntou Teodoro.

            - Sim. É pra isso que viemos. Não é?

            - Com certeza.

            - Será que a gente pode recapitular um pouco?

            - Recapitular o quê?

            - Os motivos, ora.

            Teodoro fixou os olhos em Clara. A lua por detrás. Um breve silêncio entre os dois - uma nuvem de hesitação.

            - Clarinha, acho que você não tá muito certa disso.

            - Mas é óbvio que tô – disse a jovem, num tom de indignação.

            - Tá bom, desculpa.

            Novo silêncio.

            - Basta olhar o mundo, a vida – principiou Teodoro. Nascemos, crescemos, trabalhamos até definhar, depois, já velhos e fodidos, enfrentamos uma série de doenças com a esperança de que duraremos um pouco mais. Que dure um pouco mais! Alguns meses, alguns anos... que seja! Um dia ou um milênio, tanto faz. É indiferente.

            Teodoro era estudante de Filosofia. Clara cursava Letras. Os dois se conheceram e em pouco tempo já trocavam afinidades. Ambos eram introspectivos, gostavam do silêncio e da solitude. Mas isso não quer dizer que evitavam os encontros, o convívio. Porém o faziam de forma dosada, como se observassem a si mesmos de fora, como juízes dos próprios atos.

            - A consciência é um câncer que nos come, Clara. Pensa bem. A partir do momento em que digo “eu”, me posiciono diante do mundo, e estando no mundo, percebo o espaço e o tempo; e ao percebê-los, vejo-me finito, mortal, indo em direção ao nada, todos os dias; agora, por exemplo.

            - Mas essa consciência é necessariamente ruim?

            - Ela é o que é, não importa se a chamamos boa ou ruim, a questão é o que ela faz: torna mais amarga a condição de ser.

            - É incrível, Téo, como a gente pronuncia “verdades” todos os dias e não pensa em suas consequências. Por exemplo, a frase “o homem é mortal”; ela é repetida à exaustão por qualquer homem, seja ele materialista ou religioso, contudo parece que nenhum dos dois – salvo raras exceções – se dá conta da gravidade dessa sentença.

            - Usou bem as palavras, Clarinha. “Sentença”... é o que temos sobre nós. Por isso que eu acho que o suicídio é a única ação verdadeiramente livre que temos, no sentido de nos anteciparmos àquilo que é inevitável, pulando as etapas maçantes e sem sentido do trabalho mecânico e inconsciente e as agruras de uma velhice esclerosada e senil. Uma vez que a morte é inevitável e todos estamos sob sua sentença, sejamos, ao menos uma vez, sujeitos e não pacientes.

            Após dizer essas palavras, Teodoro se viu angustiado. Era como se as coisas que dissera estivessem descoladas dele mesmo, de tal modo que a sua própria voz lhe pareceu estranha. O exílio do corpo. O exilado de si mesmo. Clara percebeu a mudança no olhar de Teodoro.

            - Que foi?

            - Nada, só uma sensação estranha.

Clara debruça-se no guarda-corpo. Fica contando mentalmente as janelas acesas do prédio adiante. Pigarreia seco duas ou três vezes, baixa o olhar e percebe a que altura está. Sente uma leve vertigem, então decide virar o rosto para o outro lado. Observa a expressão de Teodoro: a testa franzida, um olhar distante e ao mesmo tempo atento, a boca um pouco roxa por causa do frio. Ensaia uma carícia para tirá-lo daquela tensão.

- Que foi?

- É só carinho...

- Ah...

De repente, o coração de Clara acelera. Ela sente o ar faltar, uma tontura, um aperto no peito, um desconforto na boca do estômago, as mãos suam. Conforme experimenta essas sensações, Clara se afasta mais do gradil e procura algo em que segurar. No meio da cobertura, há a haste do para-raios; ela a abraça com força, como se disso dependesse sua vida.

- O que você tem, Clara? – pergunta Teodoro, atônito.

- Não sei, tô com muito medo.

- Mas assim, do nada?

- É. Tô com medo de cair.

Teodoro não sabe o que fazer. Fora ali para dar cabo da própria vida e agora estava diante de uma vida que queria se sustentar. Não tinha palavras de conforto. Porém, ao ver a expressão aterrorizada de Clara, seus olhos lacrimejantes, seu comportamento visivelmente alterado, esboça uma palavra de ânimo:

- Vai passar, Clarinha. Vai ficar tudo bem.

Ao que ela responde, num tom meio irritado:

- Como vai ficar bem? Se eu melhoro aqui, nós vamos nos matar depois. Do que adianta melhorar então?

O raciocínio era preciso. Teodoro ficou sem o que dizer. Um milhão de coisas passava por sua cabeça. Toda sua reflexão filosófica sobre o suicídio lhe escapava naquele instante; estava confuso, contrariado. Como lidar, sobriamente, com aquela antítese? Enquanto ele refletia sobre essas coisas, Clara o interpelou:

- Tô com medo, Téo. Me ajuda a descer, por favor.

Ela estava tendo uma crise de pânico. Todo o seu corpo clamava por um chão, um solo firme onde pisar. Os pensamentos lhe vinham em alvoroço, todos eles relacionados à ideia de uma morte súbita, de um infarto ou algo do tipo. Nunca sentira aquilo antes. Talvez a proximidade com o ato que estava pensando em realizar contribuíra para tal, não sabia ao certo. Mas sabia uma coisa, a única que podia conceber naquele momento: não queria morrer, não queria, de forma alguma, se desligar desta existência, por mais que ela lhe parecesse contraditória e cheia de sofrimento.

Teodoro, depois de falhar com as palavras de conforto, resolvera acariciar-lhe as costas. Pedia a Clara que tentasse respirar fundo, com calma. Esta chorava, tremia, tinha vertigens profundas. Com os olhos fechados – para melhorar a sensação de tontura – dizia, gaguejando um pouco por causa da ansiedade extrema:

- Não quero morrer, Téo! Não quero morrer! Me ajuda!

- Tá bom, Clara. Você não vai. Fica calma.

- Por favor, não vamos mais fazer isso! É estupidez!

- Fica calma, querida. Você está passando mal, não vamos falar nisso.

- Mas “isso” é a questão mais importante.

Teodoro concordava nesse ponto; de fato, a questão mais urgente para ele era se a vida valia a pena ser vivida. Abaixou os olhos um pouco, engoliu a saliva, seca e ácida, de um estômago revolto em nervosismo e tensão. Decidiu desistir de seu experimento existencial, pelo menos naquele instante. Abraçou Clara e a levou para o pronto-socorro.

Aqui, distanciamo-nos do casal e visualizamos o prédio, envolto numa noite enluarada e fria. Aquelas duas pessoas, jovens no sentido biológico, mas já cansados da existência, somem no fluxo das gentes, irmanam-se no anonimato urbano e adiam, pelo mesmo por aquela noite, o primordial diálogo sobre o mal no mundo.

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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