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Retrato do poeta quando pedra

Imagem Divulgação - Babi Mattos Imagem Divulgação - Babi Mattos

Para escrever sobre o Manoel de Barros, tive de ir a um parque – ainda público – aqui perto de casa; tive de ir ao encontro das pedras – e do lodo impregnado nelas -, das folhas retorcidas, esquizofrenicamente amarelas; ao encontro das árvores indiferentes e altivas, das sombras abundantes que abrigam homens cansados; ao encontro do riachinho tímido – e tão raro! -, que está grávido de moscas e de uns poucos peixes boquiabertos... Mas isso porque me sinto inclinado a escrever de forma pedante e acadêmica, o que com certeza é uma blasfêmia contra o musgo e os pássaros. Logo, o que posso oferecer-lhes é tão somente minha percepção sonolenta de um domingo cantado por sabiás e bem-te-vis.

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                Folheando minha edição da “Poesia completa” (Leya, 2010) do menino Maneco, tendo acima e à minha frente ninhos de joão-de-barro – o que não poderia ser mais propício -, deparo-me com o poema “O Muro”, do livro “Face Imóvel” (1942). Nele, Manoel descreve um muro antigo e comido pelo tempo, porém “alto e firme, de uma mudez sombria”. O poeta conta que até existia uma lenda infantil sobre o que poderia se esconder atrás do muro; um amigo insinuara que por detrás tinha “um enorme pomar misterioso”. Mas o poeta-coisa, acostumado à crueza das raízes e ao gosto acre do tamarindo, sustentava a convicção de que por detrás do muro havia mesmo era “um terreno abandonado”. Nada menos platônico!

            Um terreno abandonado é um grito contra a lascívia civilizatória dos nossos tempos! A boca predatória da especulação imobiliária, que devora tudo que vê pela frente e submete as folhas a um rearranjo sistemático e a grama a uma sobriedade doentia, quase que impossibilita a existência de um terreno abandonado. Sim, mas abandonado mesmo – até pelos sem-terra -, uma vez que o terreno em desuso, não estando em uso prático e visível no momento, pode estar nos cálculos de algum latifundiário, que o retém para si somente à espera do melhor negócio. Não, não me refiro a esse tipo de terreno, desabitado e improdutivo, mas possuído pelo espírito torpe de propriedade; refiro-me, sim, ao espaço de terra e vida deixado ao curso de si mesmo, desimpedido de florir – ou de não florir -, completamente fora do campo de interesse das disputas sociais, fora do olhar objético, que o vê tão somente como potencial de lucro.

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                “As coisas tinham para nós uma desutilidade poética”, assim começa a 1ª parte do seu “Livro sobre Nada” (1996), espécie de baú do oco do mundo. Ali figuram imagens belíssimas do lirismo “coisal” de Manoel:

           

            O pai desbrincou de nós:

            Só o obscuro nos cintila.

            Bugrinha boquiabriu-se.

            (...)

            O menino de ontem me plange.

            (...)

            Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.

           

            (...)

            Lagartixas têm odor verde.

            (...)

            Formiga é um ser tão pequeno que não aguenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.

            (...)

            Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...

            (...)

            A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá

            mas não pode medir seus encantos.

            Em tempos marcados pelo cálculo utilitário, pelo predomínio do sintético e artificial – mexericas descascadas e embaladas a vácuo figurando na seção de hortifruti de um hipermercado -, a poesia de Manoel de Barros é altamente subversiva, sobretudo por considerar o nada algo muito importante. Sigamos outros horizontes estilados pelo poeta:

            O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto –

            Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.

            Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais

            Importante do que uma Usina Nuclear.

            As coisas que não têm dimensões são muito importantes.

            Assim, um pássaro tu-you-you é mais importante por seus

            Pronomes do que por seu tamanho de crescer.

           

            É no ínfimo que eu vejo a exuberância.

            Raskólnikov, diante da lógica de Maneco, talvez reconsiderasse o fundamento de seu crime. Mas Raskólnikov somos todos nós. O ínfimo não nos exubera, preferimos a suntuosidade e a rutilância; o silêncio não nos aprofunda, ele nos apavora; corremos para fugir do abandono de estarmos a sós com nós mesmos. Importa mais construirmos longos bulevares do que cuidarmos da vegetação circundante, preferimos engarrafar água – parece mais higiênico, não é? – do que preservamos suas nascentes.

            Na era pós-moderna na qual vivemos, em que uma vida boa é medida pela quantidade de prazer que gozou e pelo mínimo de dor que sofreu, ler Manoel de Barros é reencontrar a dimensão afirmativa do vazio.

            Tem mais presença em mim o que me falta.

            (...)

            Perder o nada é um empobrecimento.

           

            Assim, na esteira de mercadorias que é o nosso cotidiano, sempre repleto de apelos e vocações ao consumo e ao ruído, sorver as palavras de Manoel é fazer comunhão com sapo, é enxergar esplendor na frigideira velha e na camisa desbotada, é dar sentido simbólico a não razão, é fazer imagens com o olfato e ouvir o toque do vento, é encontrar-se com o mais primitivo de nós e do mundo, com o estado de pré-coisa, aquele retrato do homem quando mineral, do poeta quando pedra.

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto, professor dos Ensinos Fundamental e Médio e vocalista em uma banda de rock independente. Atualmente, reside em Osasco, com Bárbara, sua esposa.

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