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Nota crepuscular

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O que faz de você quem você é? Existe, em você, algo que lhe distinga dos outros? Isso que você chama de “eu” é apenas resultado de coerções sociais ou uma expressão fiel da sua essência? Existe uma essência? Por exemplo, o seu nome; você não o escolheu, assim como não opinou sobre quem seriam seus pais, o ano do seu nascimento, a classe social a que pertence e a região em que mora. E todas essas coisas, que são contingentes – isto é, poderiam não ser ou ser de outra forma -, moldam aquilo que você chama de si, o que você concebe como sendo a “sua” identidade.

Mas você pode se levantar, dedo em risque, e defender a seguinte posição: “Eu sei, tudo o que você falou de fato me condiciona e me predispõe para diversas coisas, mas não acho que sou só aquilo que me acontece, sou também o que penso ser e o que faço por livre e espontânea vontade”.

Pronto. Aí temos outra questão. O que você entende por “livre e espontânea vontade”? Como pode a sua vontade ser livre se você é um ser condicionado? Nem preciso lhe perguntar, mas se perguntasse, veria que os seus “sonhos”, “desejos”, “aspirações”, chame-os como quiser, são reflexo daquilo que lhe cerca, das forças que agem sobre você e lhe fazem buscar isto ou fugir daquilo, desejar tais coisas e repudiar tantas outras.

Com o advento da psicanálise e, mais recentemente, com as revelações da neurociência, o conceito de eu como substância estável e distintiva do ser vem ruindo consideravelmente.

Naquela primeira, o eu é apenas o que você discerne conscientemente e confessa diante da sociedade. “Sou homem, pai de família, engenheiro civil.” “Sou mãe de 3 filhos, casada há 20 anos, cristã e dona de casa.” “Sou homossexual, enfermeiro, 28 anos.” E assim por diante. Porém, o que não é percebido e dito pelo eu consciente é o que realmente importa, o que deveras o impulsiona a agir como age e a pensar como pensa. A essa influência obscura e recôndita, a psicanálise chama inconsciente – ou id.

Já para o segundo seguimento, a noção de eu – ou consciência – é tão somente uma produção das sinapses químico-físicas do cérebro. Como afirmou, certa feita, o neurocientista Barry Beyerstein, “assim como os rins produzem urina, o cérebro produz a consciência”.

A essa altura, o que nos resta para argumentar em favor do eu? Com qual ferramenta científica reivindicaremos a condição singularíssima de cada pessoa? Baseados em que poderemos inferir o abismo que separa você de mim e nós de tudo quanto existe? Aquela cadeira e eu temos algum tipo de diferenciação ontológica ou apenas uma diferença aparente, baseada no fato de que os átomos que me constituem se mostram, no plano da minha percepção, como algo distinto daquilo que se convencionou chamar “cadeira”?

Nesse ponto, se formos corajosos e levarmos as premissas anteriores às últimas consequências, concluiremos que os códigos jurídicos, por exemplo, são pura ilusão. Como pode haver uma instância que pondera e condena uma determinada conduta se esta conduta mesma foi praticada por um sujeito sem eu, sem uma identidade apreensível? O código penal, portanto, baseia-se numa miragem moral: a de que existe um indivíduo e que este poderia não ter agido como agiu, supondo, dessa maneira, que haja algum indivíduo ali. Assim, se não há indivíduo, não pode haver atribuição de dolo.

Fico imaginando se assumíssemos, de fato, o corolário de tudo quanto foi dito até aqui. Com que autoridade lamentamos a morte de crianças em Aleppo? De que forma recriminamos um homem por assassinar brutalmente sua esposa? Fundados em que resquício ético celebramos a paz como meta universal? Se países com grande poder bélico e econômico invadem outros, de terceiro mundo, em busca de recursos naturais, o que há de mal nisso? Na verdade, “bem” e “mal” não são juízos de valor? O princípio de prazer não conhece moralidade, ele se expressa como um fluxo de energias que desejam se afirmar, e o outro, seja ele um vizinho ou um país inteiro, é visto somente como obstáculo ao coito pretendido. O quadro de misérias sucessivas que vemos ao redor do globo é apenas resultado dessas forças inconscientes que buscam a concretização. Entre um exército de tanques de guerra desolando uma terra já desolada e um câncer que corrói as vísceras de um ditador, não há diferença alguma; ambos estão agindo como só poderiam agir.

Em Verdade e Mentira no Sentido Extramoral (1873), Nietzsche já descrevia a natureza ínfima e caricata da experiência humana, esta espécie virulenta e microscópica que tenta se eternizar por meio de conceitos como “justiça”, “moral”, “alma”, “vida eterna”, “beleza” etc., meros anestésicos contra a cruciante verdade de que não passamos de pó cósmico perdidos num universo indiferente. Assim sentencia o iconoclasta alemão, já no primeiro parágrafo:

No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer .

Prosseguindo no raciocínio de Nietzsche, ele diz que essa necessidade de representar o mundo, metaforizá-lo, é uma espécie de defesa que o ser humano usa contra a sua real fragilidade diante da natureza. Não é novidade para ninguém que o homem é um dos animais mais frágeis e indefesos do planeta, não fosse sua ferramenta mais poderosa – a inteligência. Pois é, e é esta mesma inteligência, louvada como se fosse um atributo divino, que desenvolve percepções do mundo e as cristaliza, a fim de contemplá-las nos momentos de desespero e angústia. A noção do eu como ser único e insubstituível, portanto, é apenas um impulso de defesa contra a finitude e o caos da existência, onde bactérias, leões, vírus, forças naturais e seres humanos buscam um lugar ao sol.

Segue mais um trecho:

O intelecto, enquanto meio de conservação do indivíduo, desenvolve o essencial de suas forças na dissimulação, pois esta é o meio de conservação dos indivíduos mais fracos e menos robustos, na medida em que lhe é impossível enfrentar uma luta pela existência munidos de chifres ou das poderosas mandíbulas dos animais carnívoros.

Esse é o quadro amoral que se nos apresenta, uma vez que o princípio de identidade é esvaziado – assim como todo e qualquer sentido a priori. Aquilo que é, ainda que por um lapso de segundo, o é por direito adquirido, conquistado, e todo devir é um outro devir que se desenrola, até a consumação dos séculos. Amém.

Logo, diante da morte certa – que se alarga no horizonte próximo - e dos apelos constantes do nosso instinto febril, cabe-nos apenas o ringue de luta e o mote filosófico de Quincas Borba: “Ao vencedor, as batatas”.

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*A obra em questão está disponível no link a seguir: http://imediata.org/asav/nietzsche_verdade_mentira.pdf

Acesso: 06.01.17

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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